Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Myriam Fraga

Myriam Fraga

Março

...e estes marços doendo
como pedras nos rins,
charadas que não invento
e nem sei de memória
se há memória
além de um domingo de março
azul, perfeito.
Todas as areias rolaram sobre
de todas as possíveis clepsidras
só o olho-farol, olho brilhante
antigo, a me guiar nas trevas
do regresso. não haverá,
não haverá, porto, viajante,
nenhuma ítaca te espera,
nenhuma Colchida, nem mesmo os arrecifes
no cais de tua infância.
Apenas a morte suave de olhos triste
tão rápida e indolor, tão limpa guilhotina.

... e estas tardes de março
viageias. Sei o peso da ausência. Sei a dor
das lembranças tatuadas
na carne, coladas e desfolhadas
como pele queimada que se arranca.
nenhuma presença é mais real
que a falta. Corpo de solidão
deslizando entre móveis, marfins,
folhas soltas de um livro,
marca da prata, desenhos no tapete,
cavalos, leão de pedra, lembranças
que se acendem em faróis iluminando
o outro lado do abismo,
o precipício, o vazio, onde tudo acaba.



1 105
Alice Ruiz

Alice Ruiz

Hai-kais

apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume

vento seco
entre os bambus
barulho d água

tanta poesia no gesto
nenhum poema
o diria

o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer

circuluar
sonho impar
acordo par

desacerto
entre nós
só etceteras

1 745
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CAVE BAR

para a Susana


Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.

A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.

Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.

Subterrânea foi a nossa despedida.
1 129
Gilka Machado

Gilka Machado

Odor dos manacás

De onde vem esta voz, este fundo lamento
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?

Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.

Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...

Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.



1 629
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Fernando Pessoa

Não é disso que estou falando
nem do silêncio presente nesta sala
em que os pensamentos entram
igual moscas e pousam onde querem.
Não é disso
nem de tarde que mastiga devagar
o que resta da hora
e o vento procura, procura
lá fora não se sabe a quem.
Falo do teu sonho
ancorado nas alturas
e desta porta aberta
a esperar ninguém

912
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Fado Noturno

Cala-te porque não sabes
dos comboios que passaram
nos carris do mar sem naves
onde os sonhos se mataram.

Cala-te porque insone
nas noites adormecidas
tecelã teci teu nome
de estrelas destecidas.

Sobre o mar morto contemplo
minha vida em agonia
minha saudade é um templo
onde rezo cada dia.

934
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Página de Diário

Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.

1 005
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada de Pedro Nava

(O anjo e o túmulo)

I

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.

Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?...

Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
"- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão..."

Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
V ou ficar louco de medo

Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ!


II

A moça dizia à lua
Minha carne é cor-de-rosa
Não é verde como a tua
Eu sou jovem e formosa.
Minhas maminhas - a moça
À lua mostrava as suas -
Têm a brancura da louça
Não são negras como as tuas.
E ela falava: Meu ventre
É puro - e o deitava à lua
A lua que o sangra dentro
Quem haverá que a possua?
Meu sexo - a moça jogada
Entreabria-se nua -
É o sangue da madrugada

Na triste noite sem lua.
Minha pele é viva e quente
Lança o teu raio mais frio
Sobre o meu corpo inocente...
Sente o teu como é vazio.


III

A sombra decapitada
Caiu fria sobre o mar...
Quem foi a voz que chamou?
Quem foi a voz que chamou?

- Foi o cadáver do anjo
Que morto não se enterrou.

Nas vagas boiavam virgens
Desfiguradas de horror...
O homem pálido gritava:
Quem foi a voz que chamou?

- Foi o extático Adriático
Chorando o seu paramor.

De repente, no céu ermo
A lua se consumou...
O mar deu túmulo à lua.
Quem foi a voz que chamou?

- Foi a cabeça cortada
Na praia do Arpoador.

O mar rugia tão forte
Que o homem se debruçou
Numa vertigem de morte:
Quem foi a voz que chamou?

- Foi a eterna alma penada
Daquele que não amou.

No abismo escuro das fragas
Descia o disco brilhante
Sumindo por entre as águas...
Oh lua em busca do amante!
E o sopro da ventania
Vinha e desaparecia.

Negro cárcere da morte
Branco cárcere da dor
Luz e sombra da alvorada...
A voz amada chamou!

E um grande túmulo veio
Se desvendando no mar
Boiava ao sabor das ondas
Que o não queriam tragar.

Tinha uma laje e uma lápide
Com o nome de uma mulher
Mas de quem era esse nome
Nunca o pudesse dizer.
1 164
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Oxford, carnaval de 1939
1 547
José Paulo Paes

José Paulo Paes

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!
2 927
Angela Santos

Angela Santos

Brumas

Via-te
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas

Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam

Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes

E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.

Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.

1 007
Angela Santos

Angela Santos

Além-Mar

Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..

Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..

Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele

Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim

Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.

744
Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

Cantigas

Meu Deus, como é amarga esta paz,
paz de veias somadas, mas rompidas,
e em que o sangue se junta para chorar como outrora
se juntaram nossos corpos de marido e mulher.

Dai-nos, para consolo e esquecimento,
não alegrias quentes, exaltantes,
mas as ternuras do ressuscitar:
telhados velhos em cidades pobres,
cemitérios com poetas enterrados,
cadeiras de balanço em frente ao mar.

Livrai do incontido choro as nossas noites.
Meu Deus, livrai do incontido choro as nossas noites.
Dai-nos antes miúdas mãos, pés pequeninos
pisando flores no capim molhado,
nomes maternos na saudade densa,
cantigas, algumas cantigas.

Dai-nos cantigas descendo o rio
como canoas descendo o rio.

Cantigas de dor mansa, simples, humilde.
Tão mansa que não quer dizer nada.
Tão simples que não sabe dizer nada.
Tão humilde que nada ousa pedir a Deus.


Poema integrante da série A Visita do Anjo.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
1 259
Mirella Márcia

Mirella Márcia

Quinto Soneto

O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?

Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há

De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha

Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.

888
Maria de Lourdes Farias

Maria de Lourdes Farias

Te encontrei

Te encontrei por mero acaso
cantando uma melodia:
um segredo em cada ocaso,
um ocaso em cada dia...

Somos dois mundos distintos
numa mesma direção.
O que tu sentes eu sinto
me tens na palma da mão !

Estrada, estrada, não fales
que aqui passei...a ninguém...
vou pra bem longe...além mares...
só voltarei com meu bem!

Se tudo fosse perfeito
por certo eu não te teria,
pois arde dentro em teu peito
anseios doutra Maria...

1 000
Maria de Lourdes Farias

Maria de Lourdes Farias

Trovinhas

Te encontrei por mero acaso
cantando uma melodia:
um segredo em cada ocaso,
um ocaso em cada dia...

Somos dois mundos distintos
numa mesma direção.
O que tu sentes eu sinto
me tens na palma da mão !

Estrada, estrada, não fales
que aqui passei...a ninguém...
vou pra bem longe...além mares...
só voltarei com meu bem!

Se tudo fosse perfeito
por certo eu não te teria,
pois arde dentro em teu peito
anseios doutra Maria...

1 202
Angela Santos

Angela Santos

Adivinhação

Sei
que esse dia virá
dia em que aconteça tudo
riso, beijo, afago, amor, prazer...
e saudade, se houver ..só do futuro

sei que o dia virá
e em silencio eu vou olhar
o que era sonho dormindo
e era sonho ao acordar.....

o dia já vem
eu sei...
e um sussurro de mulher
vai-me dizer porque a quis
porque a trouxe em mim guardada
esse tempo de espera
sem medida.

1 051
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

V ontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
V ontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."
1 468
Angela Santos

Angela Santos

Viva Voz

Da
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...

a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?

1 155
M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Rosas Vermelhas

Gemem as pombas cor de linho uma saudade infinda, dentro da noite.

No céu distante e curvo, choram as estrelas o pranto da
madrugada, e a lua, cor de neve, canta em surdina no leque das palmeiras...

— Por que partiste?

Vem, doce amiga, vem coroar-te de rosas, rosas vermelhas, purpurinas,
rosas cor de carne de coração

Vem, que minha tenda enflora-te a vida com rosas de Shiraz,
trazidas, só para ti, de longe, muito longe...

Vês?

Dormem na distância, sob a luz verde dos astros, os rebanhos de EI Rei...

Esta é a hora em que os pastores descobrem as morenas perfumadas...

- Vem!

Sentiremos, febris, na púrpura dos lábios, a maciez das rosas
e o perfume da noite...
Empunha tua taça de ametista e ouro
e desfolha as pétalas de tua flor,
docemente,
num êxtase sublime...

Virgem morena de Ofir,
há perfumes e licores
e um leito de rosas
para te u corpo de tâmara dourada...
Vem abrir a Fonte do Sonho
de águas cristalinas
ao beduino que morre de amor,
sozinho,
nos caminhos apagados do deserto,
onde só medram cardos e espinhos.

1 681
Angela Santos

Angela Santos

Dança da

Lua

No
meio da noite de uma lua prenhe,
me embalarás, cobrirás com teu corpo
e nele deixarás o sabor do teu abraço
que eu quis e esperei.

Numa noite de luar, ainda que não seja cheia
sob a clara luz das estrelas
eu dançarei para ti e beijarei tua boca
com toque de pedra rara,
incendiando o teu ser
e a noite de lua e prata.

Vi-te, não sei como e quando
e gravei em mim os contornos
que um dia me foram dados
ao jeito de revelação

Guardei-te para sempre em mim
na forma de cheiro e sabores,
tesouro que procurei nas alamedas da vida,
na escuridão dos meus dias
noutras almas que cruzei

só quero saber agora
porque ficamos à espera
de nos olharmos e ter e desvendar o mistério
do que seja o espaço e o tempo
nessa outra dimensão
em que por inteiro estejas
tu… e eu.

1 080
M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Salmo da Meia Noite

Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.

As tristezas se foram, dispersadas.

A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.

Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.

Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!

Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.

Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.

Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,

Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...

Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.

Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!

Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.

Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.

A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...

2 497
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Mensagem À Poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente

Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
1 161
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

II Os versos, que cantei importunado

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
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