Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Manuel Bandeira
Visita Noturna
Bateram à minha porta,
Fui abrir, não vi ninguém.
Seria a alma da morta?
Não vi ninguém, mas alguém
Entrou no quarto deserto
E o quarto logo mudou.
Deitei-me na cama, e perto
Da cama alguém se sentou.
Seria a sombra da morta?
Que morta? A inocência? A infância?
O que concebido, abortou,
Ou o que foi e hoje é só distância?
Pois bendita a que voltou!
Três vezes bendita a morta,
Quem quer que ela seja, a morta
Que bateu à minha porta.
Rio, dezembro de 1947
Fui abrir, não vi ninguém.
Seria a alma da morta?
Não vi ninguém, mas alguém
Entrou no quarto deserto
E o quarto logo mudou.
Deitei-me na cama, e perto
Da cama alguém se sentou.
Seria a sombra da morta?
Que morta? A inocência? A infância?
O que concebido, abortou,
Ou o que foi e hoje é só distância?
Pois bendita a que voltou!
Três vezes bendita a morta,
Quem quer que ela seja, a morta
Que bateu à minha porta.
Rio, dezembro de 1947
1 753
Manuel Bandeira
José Cláudio
Da outra vida,
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
906
Lourenço
Ir-Vos Queredes, Amigo
- Ir-vos queredes, amigo,
mais viinde-vos mui cedo.
- Ai mia senhor, hei gram medo
de tardar, bem vo-lo digo:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, rogo-vos aqui
que mui cedo vos venhades.
- Senhor, por que me rogades?
Ca sei bem que será assi:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, vossa prol será,
pois vos ides, de nom tardar.
- Senhor, que prol mi há de jurar?
Ca sei bem quanto mi averrá:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
E, senhor, sempre cuidarei
que tardo muito; e que farei?
- Meu amigo, eu vo-lo direi:
se assi for, gracir-vo-lo-ei.
mais viinde-vos mui cedo.
- Ai mia senhor, hei gram medo
de tardar, bem vo-lo digo:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, rogo-vos aqui
que mui cedo vos venhades.
- Senhor, por que me rogades?
Ca sei bem que será assi:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
- Amigo, vossa prol será,
pois vos ides, de nom tardar.
- Senhor, que prol mi há de jurar?
Ca sei bem quanto mi averrá:
ca nunca tam cedo verrei
que eu nom cuide que muito tardei.
E, senhor, sempre cuidarei
que tardo muito; e que farei?
- Meu amigo, eu vo-lo direi:
se assi for, gracir-vo-lo-ei.
668
Lourenço
Amiga, Quero-M'ora Cousecer
Amiga, quero-m'ora cousecer
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
628
Lourenço
Já 'Gora Meu Amigo Filharia
Já 'gora meu amigo filharia
de mi o que el tiinha por pouco:
de falar migo; ca tant'era louco
contra mi que ainda mais queria;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
Tam muito mi dizem que é coitado
por mi, des quando nom falou comigo,
que nom dorme [já], nem há sem consigo,
nem sabe de si parte nem mandado;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
Ca est el home que mais demandava
e nom ar quis que comigo falasse,
e ora jura que já se quitasse
de gram sandic'em que m'ante falava;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
E jura bem que nunca mi dissesse
de lh'eu fazer rem que mal m'estevesse.
Em tal que comigo falar podesse,
já nom há preito que mi nom fezesse.
de mi o que el tiinha por pouco:
de falar migo; ca tant'era louco
contra mi que ainda mais queria;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
Tam muito mi dizem que é coitado
por mi, des quando nom falou comigo,
que nom dorme [já], nem há sem consigo,
nem sabe de si parte nem mandado;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
Ca est el home que mais demandava
e nom ar quis que comigo falasse,
e ora jura que já se quitasse
de gram sandic'em que m'ante falava;
e já filharia, se m'eu quisesse,
de falar mig', e nunca lh'al fezesse.
E jura bem que nunca mi dissesse
de lh'eu fazer rem que mal m'estevesse.
Em tal que comigo falar podesse,
já nom há preito que mi nom fezesse.
443
Raquel Nobre Guerra
Uma vez ofereceste-me bananas
Uma vez ofereceste-me bananas
flores para ti, vinha escrito.
Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.
Explico.
O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.
O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.
Dou conta dos perecíveis.
De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.
Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.
O mundo, seja como for, cabe nisto.
E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.
Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
flores para ti, vinha escrito.
Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.
Explico.
O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.
O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.
Dou conta dos perecíveis.
De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.
Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.
O mundo, seja como for, cabe nisto.
E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.
Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
986
Fernando Pessoa
Vaga, no azul amplo solta,
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma,
E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.
Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
20/03/1931
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma,
E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.
Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
20/03/1931
4 408
Raquel Nobre Guerra
Objectos restantes
Objectos restantes do nosso último encontro:
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.
Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.
Mas que farei eu deste lado do muro?
Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.
Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.
Que direi eu deste lado da história?
Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.
Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.
Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.
Assim.
Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.
Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.
Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.
Mas que farei eu deste lado do muro?
Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.
Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.
Que direi eu deste lado da história?
Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.
Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.
Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.
Assim.
Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.
Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
360
Martim Codax
Mandad'hei Comigo
Mandad'hei comigo
ca vem meu amigo,
e irei, madr', a Vigo.
Comig'hei mandado
ca vem meu amado,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem meu amigo
e vem san'e vivo,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem meu amado
e vem viv'e sano,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem san'e vivo
e d'el-rei amigo,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem vivo e sano
e d'el-rei privado,
e irei, madr', a Vigo.
ca vem meu amigo,
e irei, madr', a Vigo.
Comig'hei mandado
ca vem meu amado,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem meu amigo
e vem san'e vivo,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem meu amado
e vem viv'e sano,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem san'e vivo
e d'el-rei amigo,
e irei, madr', a Vigo.
Ca vem vivo e sano
e d'el-rei privado,
e irei, madr', a Vigo.
1 428
Martim Codax
Ai Deus, Se Sab'ora Meu Amigo
Ai Deus, se sab'ora meu amigo
com'eu senheira estou em Vigo!
E vou namorada...
Ai Deus, se sab'ora meu amado
com'eu em Vigo senheira manho!
E vou namorada...
Com'eu senheira estou em Vigo
e nulhas gardas nom hei comigo!
E vou namorada...
Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom trago!
E vou namorada...
E nulhas gardas nom hei comigo,
ergas meus olhos que choram migo!
E vou namorada...
E nulhas gardas migo nom trago,
ergas meus olhos que choram ambos!
E vou namorada...
com'eu senheira estou em Vigo!
E vou namorada...
Ai Deus, se sab'ora meu amado
com'eu em Vigo senheira manho!
E vou namorada...
Com'eu senheira estou em Vigo
e nulhas gardas nom hei comigo!
E vou namorada...
Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom trago!
E vou namorada...
E nulhas gardas nom hei comigo,
ergas meus olhos que choram migo!
E vou namorada...
E nulhas gardas migo nom trago,
ergas meus olhos que choram ambos!
E vou namorada...
1 047
Martha Medeiros
way out
way out
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
997
Fernando Pessoa
XVIII - Saudoso já deste Verão que vejo.
Saudoso já deste Verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.
(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.
(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
2 593
Martha Medeiros
a gente é meio on the road
a gente é meio on the road
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito
1 004
Daniel Jonas
Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.
E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.
E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.
1 036
1
Martha Medeiros
nós que nós amávamos tanto
nós que nós amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
1 190
António Ramos Rosa
Presente
Neste círculo de pedras simplifica-se a ausência.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
1 183
Charles Bukowski
Comunhão
cavalos correndo
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
1 083
António Ramos Rosa
Mediadora Iminente I
A que não vem não virá?
De súbito acesa. Como?
Sem nimbos e sem volume
num rumor enamorado.
Que silêncio de murmúrios,
que tremor de dedos finos!
Zona delgada no céu
de irredutível distância.
Ardente pausa submersa
translúcida. Amante
mas tão longínqua, dentro
da sua azul espessura.
Ó profunda, ó fugitiva,
em seu olvido parada,
em sua evidência oculta!
Como resplandece na sombra?
De súbito acesa. Como?
Sem nimbos e sem volume
num rumor enamorado.
Que silêncio de murmúrios,
que tremor de dedos finos!
Zona delgada no céu
de irredutível distância.
Ardente pausa submersa
translúcida. Amante
mas tão longínqua, dentro
da sua azul espessura.
Ó profunda, ó fugitiva,
em seu olvido parada,
em sua evidência oculta!
Como resplandece na sombra?
992
Manuel António Pina
Interiores
Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
1 123
Ruy Belo
Humphrey Bogart
Era a cara que tinha e foi-se embora
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 360
António Ramos Rosa
Mediadora Vazia
Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.
Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.
Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.
Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.
Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.
Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?
Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.
Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.
Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.
Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.
Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.
Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.
Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?
Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.
Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
1 055
Martha Medeiros
não faz diferença
não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
1 246
Fernando Pessoa
Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,
Aqui, dizeis, na cava a que me abeiro,
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, na alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!
06/07/1927
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, na alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!
06/07/1927
2 193
Charles Bukowski
Imaginação E Realidade
há muitas mulheres solteiras no mundo
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”
e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.
mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”
e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.
mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
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