Poemas neste tema

Sabedoria

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Márcia

Se tomares como Norma
Reto caminho na vida,
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!),
Márcia bela.
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Konstantínos Kaváfis

Konstantínos Kaváfis

Ítaca

Quando , de volta , viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tenhas nada nas mãos [2]

Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último

Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio

Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.

Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...

Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?

Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
O fim da tua estrada?

Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 194
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Bodas de Ouro

Bondade é coisa que na vida
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Meu Amigão

para um garoto de 21 anos em Nova Orleans eu não valia grande
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”

“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.

eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...

eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.

todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.

quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.

eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.

ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.

ele era um
sábio.

aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
1 098
Renato Russo

Renato Russo

Há Tempos

Parece cocaína mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito
Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa

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Renato Russo

Renato Russo

Lâge Dor

Aprendi a esperar mas não tenho mais certeza
Agora que estou bem, tão pouca coisa me interessa
Contra minha própria vontade sou teimoso, sincero
E insisto em ter vontade própria

Se a sorte foi um dia alheia ao meu sustento
Não houve harmonia entre ação e pensamento

Qual é o teu nome, qual é o teu signo ?
Teu corpo é gostoso, teu rosto é bonito
Qual é o teu arcano, tua pedra preciosa -
Acho tocante acreditares nisso

Já tentei muitas coisas, de heroína a Jesus
Tudo que já fiz foi por vaidade
Jesus foi traído com um beijo
Davi teve um grande amigo
E não sei mais se é só questão de sorte

Eu vi uma serpente entrando no jardim
Vai ver que é de verdade desta vez
Meu tornozelo coça, por causa de mosquito
Estou com os cabelos molhados, me sinto limpo

Não existe beleza na miséria
E não tem volta por aqui
Vamos tentar outro caminho
Estamos em perigo, só que ainda não entendo
É que tudo faz sentido

E não sei mais se é só questão de sorte
Não sei mais não sei mais não sei mais

Oh, oh
Lá vem os jovens gigantes de mármore
Trazendo anzóis na palma da mão
Não é belo todo e qualquer mistério ?
O maior segredo é não haver mistério algum

Come share my life (Instrumental)

1 006
Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Iv

Nesta laranja encontro aquele repouso frio
e intenso que conheço
como um dom impossuído.
Do ouro terá a luz interior, terá
a graça desconhecida daquilo que mal pousa
na mesa, no mundo.
— Passar nocturno da água que o sangue
mudamente imita. Ilha cercada
de todos os lados
por uma inumerável, inominável
sede humana.
Esta laranja lembra-me uma alta solidão
que nem pode ser nossa, de tão pura. Lembra-me
ainda
uma urna fechada como gelo,
onde o ardor da criação guardado devagar se inspirasse
numa fonte oculta. Onde
os veios amarelos, batidos ao longo do silêncio
pelas pequenas espadas dos raios,
se movessem,
quem sabe até que inapercebido, louco,
tão vivo coração de poema. Laranja
com facas e garfos em volta, ainda recebendo
gota a gota a sua árvore — laranjeira de espírito
desconhecido, irmão
de chuva, irmão de uma noite vagarosamente
purificada. Laranja
encontrada entre dois momentos inimigos, ao meio
como um grito
que bate em cheio entre os ossos e as veias
fulminadas. Doada à poesia que esperava,
entre a rigorosa visão e a experiência
desmedida da carne.
Se a mão se atreve pela confluída laranja,
sobe ao ombro o puro sentimento
de ligação ao mundo. São as manhãs impossíveis
da terra, o subjacente e livre fogo
da noite, as águas a urdir
o peixe que vai nadando até se consumar em lento
lírio.
Cerraria sobre esta laranja que aparta a inocência
da treva
daquilo que o espírito calou como luz indivisa —
sobre ela cerraria a boca,
como se a sepultara num silêncio plantado
de muitas presenças fortes
como sal.
— Talvez todo o enigma materno me fosse dado
de inspiração
através da língua, por confusos órgãos, a todo um corpo
tenso e apto aos segredos e às
delicadas subtilezas da terra.
Talvez esta laranja me dotasse de uma atenção
vertiginosa,
e tudo fosse entrando como sabedoria pelo corpo evocativo,
e cada gesto fosse depois
a íntima unidade deste Poema com as coisas.
apaixonadamente.
Laranja
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Renato Russo

Renato Russo

Plantas embaixo do aquário

Aceite o desafio e provoque um desempate:
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo -
Faça do bom-senso a nova ordem;
Não deixe a guerra começar.

Pense só um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:
Não deixe a guerra começar.

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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Epílogos

Vou enlouquecer, sussurrou ele para o mestre que o olhava do outro lado da mesa.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.


Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.


Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.

Ou ainda:

Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:


É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.


A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.


É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.


Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.


Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.


Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.


Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.


A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.


Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.


As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.


Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
1 536
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv A

A alimentação simples da fruta,
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Sopra na cana até que dê flor.
Tão na boca, na língua, na saliva e na garganta,
tão interior ao próprio sopro que nasça
da exaltação do corpo.
Dá-lhe um nó como um umbigo.
Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio
perigoso
— flor com umbigo.
Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.
1 043
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

As coisas são como são

As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desolação da alma.

Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredo dos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
587
António Ribeiro Chiado

António Ribeiro Chiado

Homem que consente

Homem que consente que sua mulher mande mais em casa que ele - Parvoíce!
Mal vai a casa em que a roca manda na espada.

Homem não fidalgo que consente que sua mulher aprenda a ler - Parvoíce!
Ou é cornudo ou anda para o ser.

Quem um dia só conversa com outro, lhe descobre seus segredos - Parvoíce!
A quem dizes tua puridade, dás-lhe tua liberdade.

Quem gasta mais do que tem de renda - Parvoíce!
Quem não tem, e muito despende, na praça se vende.

Quem bebe àgua sem primeiro a ver - Parvoíce!
Quem acena a dama de longe - Parvoíce!
Quem de longe acena, de perto se condena.
701
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Gente propensa a ver a luz

Gente propensa a ver a luz por um funil
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido

mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
578
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Louvor de Mestre Aires

Ó Aires dos ares bons,
Aires da mata
da linguagem
e do machado que não mata,
mas desbasta e aparelha
a fina palavra diamantina,
palavra certa,
que uma abraçada a outra vai formando
festa floral, floresta
de bem escrever
(ou bem pensar),
Aires faiscador
das últimas pedras musicais do Tijuco,
Aires dicionário
sem empáfia, sem ares, maneiro
mineiro ladino
que soubeste ver no Tiradentes
o único herói possível
— herói humano —
e na fala do povo,
no mistério dos ritos,
no arco-íris das serras
captaste
o ar, a alma de Minas,
ó Aires
da verde mata
do machado de prata portuguesa
legítima
onde se oculta um brilhante
com todos os fogos tranquilos
da sabedoria,
mestre Aires, recebe meus saudares.
1 150
Herberto Helder

Herberto Helder

84

se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! acerto
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo —
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
984
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lembrete

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
3 306
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Velhice

Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmulo
E todas as ideias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a ideia do testamento bem escrito.
Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.

Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.

O eterno velho que nada é, nada vale, nada vive
O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.
1 200
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lição

Tarde, a vida me ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta.
1 356
Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

Pois Que Te Preças D'haver Sem Comprido

Pois que te preças d'haver sem comprido
em trobar bem e em bõa razom,
nom faz mester a ti, Fernam Chancom,
d'ir entençar come torp'e avorrido
nem te loares come quem s'engana
e de palavras torpes e d'oufana
e de posfaço seer espargido.

Ca sempre contam por ensibidade
ao pastor preçar-se de gram sem
nem gram saber; por end'a ti convém,
enquanto és [a]tam pastor d'idade,
pois em tam alta razom [tam muit'] ousas,
que punhes sempre, antr'as outras cousas,
seeres partido de torpidade.

Nom entendas que fazes i cordura
d'ires assi come torpe entençar,
atrevendo-te que sabes trobar,
- ante metes i teu feito em ventura;
por en nom queiras seer enganado
em tal razom, mas sei sempr'acordado
de seeres parado de loucura.

E pois em al és mans'e mesurado
nom entences: sequer serás loado
no que tu és partido de bravura.
440
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 9

Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
554
Ernani Sátyro

Ernani Sátyro

O Canto do Retardatário

Pouco importa que o canto seja tardio.
Se não tinha amadurecido, inda não era canto.
A idade do poeta se mede pelo amadurecimento do canto.
Cantar não é desejar a glória,
É simplesmente cantar.
A gente nasce para viver,
O canto rompe para vibrar.
O resto é com quem ouve,
O poeta não tem nada com isso.
Já houve um santo que falou às aves.
Mas eu sou ave, canto para as árvores.
— Árvores, ouvi-me!

1 078
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

SETE PEÇAS ACADÊMICAS VI

Por mais que se fale ou pense
ou escreva, eis o veredicto:
sobre o que não há de ser dito
deve-se guardar silêncio.

Ser, não-ser, devir, dasein,
ser-pra-morte, ser-no-mundo:
Valei-me, são Wittgenstein,
neste brejo escuro e fundo
sede minha ponte pênsil,
escutai o meu não-grito:
pois quando não há o que ser dito
deve-se guardar silêncio.
747
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pompeia — Casa de Menandro

A serenidade de um verso latino
Claro e medido
Povoa o tempo de clepsidra — ou o escorrido
Tempo de areia fina

Paira — apesar da morte e da ruína —
Uma ciência tão atenta do vivido
Que a alegria do penúltimo momento
Ergue na jovem luz a sua taça

E toco na sombra uma frescura de vinha
1 127