Relações Tóxicas
Gláucia Lemos
Poema do Desenlace
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
Charles Bukowski
Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
Charles Bukowski
Enfeitiçado em Nova York
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
Charles Bukowski
Não Cagney, Eu
e vi alguns dos velhos filmes de Cagney.
muito da interação de Cagney com mulheres
tem lugar na cozinha.
elas dizem alguma coisa de que ele não
gosta. ele bate nelas com um pano de pratos
ou enfia uma toranja no rosto
delas. elas choram e caem
em seus braços.
eu, sou sempre atacado por
mulheres.
especialmente quando estou desanimado ou
cansado. elas me empurram para fora das portas de entrada
na chuva, nas poças d'água atrás
de mim. elas derramam cerveja em minha cabeça
chegam com facas e suportes de livros
elas atacam
rosnando como o leopardo
elas rasgam meus casacos e camisas
em pedaços.
elas me atacam no momento em que
distraidamente estou conversando com um
amigo ou enquanto estou
dormindo. às vezes elas também batem a cabeça
contra a parede.
vou embora, eu digo.
ah, você sempre quer terminar,
não é?
bem, por Cristo, você age como se não
gostasse disso.
bem, então vá, vá embora!
eu vou. não Cagney, eu. eu vou cair fora
pensando, ó merda, Deus, é tão bom estar
sozinho novamente.
você conseguiu, Jimmy.
o que uma mulher quer é uma
reação.
o que um homem quer é uma
mulher.
você é melhor.
Amália Bautista
Ondas
Sei que me estou a afogar, mas ao menos
consigo manter de fora a cabeça.
De modo que, por favor,
não venhas tu fazer ondas.
Filipa Leal
A recusa do amor
Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.
Rogério Viana
Haikais
Ela engoliu-me todo
com sua faminta boca.
Ninfomaníaca.
Sua demoníaca mania
me levou do céu ao inferno.
É devassa essa mulher
que seu sonhos expõem
quando abre a vidraça?
Amália Bautista
Enigma
No primeiro dia que saí contigo
disseste que o teu trabalho que era estranho.
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos
de cada vez que me tocavas com a mão.
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus.
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa:
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada.
Mas agora sei. Já conheço o teu ofício:
Atirador de facas. A mais certeira
atiraste-ma ao coração.
Fernando Pessoa
Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.
Zuca Sardan
Veludosa Cantilena
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
Adélia Prado
À Mesa
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.
André Aquino
Em Construção
pela rua distraída
Não sabe que lá fora está perdida
Que não importa para onde vá
Já não existe mais saída.
Mora com um homem sabido
Que pensa que sabe tudo
Mas também está perdido
Quando ela pergunta, ele fica mudo.
Eles têm um filho de madeira
Para combinar com a mobília da sala
Ele chora porque quer mamadeira
Mas nem todo dia é sexta-feira
Eles têm uma filha de pano
Que corre pela casa o dia inteiro
Mas ela nunca fez parte de nenhum plano
Deveria ter escorrido junto com a água pelo ralo
E depois pelo cano
O amor deles é feito de papel
Ela parece ser inocente
Uma mulher como outra qualquer
Sem passado, sem futuro, vivendo no presente
Distante anos-luz da realidade.
Todos estão sempre cansados
Ele gosta de garotas mais novas
Como todos homens casados
Não se importa em ser ridículo
Querem apenas se sentir longe
Da sua morte e das suas covas.
As páginas continuam a ser viradas
Vidas perdidas e corações partidos
A história não tem fim
Está sempre em construção
Charles Bukowski
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
Charles Bukowski
Nº 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.
De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
Affonso Romano de Sant'Anna
Amor E Ódio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
Charles Bukowski
Um Homem
Bateram à porta do trailer. Lentamente ele se levantou e foi atender. Era Constance. Trazia consigo uma garrafa de uísque em uma sacola.
– George, deixei aquele cretino, não dava mais para aguentar aquele filho da puta.
– Sente-se.
George abriu a garrafa, pegou dois copos, encheu cada um com um terço de uísque e dois terços de água. Sentou-se na cama com Constance. Ela pegou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Estava bêbada, e suas mãos tremiam.
– Levei o dinheiro dele também. Peguei a porra do dinheiro e fugi enquanto ele estava no trabalho. Você não sabe como sofri nas mãos daquele filho da puta.
– Deixe-me fumar um pouco – disse George.
Ela alcançou o cigarro para ele e, como inclinou o corpo ao se aproximar, George enlaçou-a com um braço, puxou-a e deu-lhe um beijo.
– Seu filho da puta – ela disse. – Senti a sua falta.
– Senti falta dessas suas pernas gostosas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas.
– Ainda gosta delas?
– Fico de pau duro só de olhar.
– Eu nunca teria dado certo com um sujeito que estudou em universidade – disse Connie. – São muito moles, são como biscoitinho molhado no leite. E ele mantinha a casa limpa. George, era como ter uma empregada. Ele fazia tudo. O lugar era impecável. Dava para comer um cozido de carne feito na privada. Ele era antisséptico, é isso o que ele era.
– Beba mais. Vai se sentir melhor.
– E ele não conseguia fazer amor.
– Quer dizer que ele não conseguia ter uma ereção?
– Oh não. Ele conseguia ter uma ereção. Tinha o tempo todo. Mas não sabia fazer uma mulher feliz, sabe. Não sabia o que fazer. Com todo aquele dinheiro, todo aquele estudo, ele era um inútil.
– Eu queria ter estudado em uma universidade.
– Você não precisa. Você já tem tudo de que precisa, George.
– Sou apenas um peão. Com empreguinhos de merda.
– Eu disse que você tem tudo o que precisa, George. Você sabe como fazer uma mulher feliz.
– É?
– Sim. E sabe do que mais? A mãe dele vinha nos visitar! A mãe! Duas ou três vezes por semana. E ficava sentada lá me olhando, fingindo que gostava de mim, mas passava o tempo todo me tratando como se eu fosse uma puta, como se eu fosse uma grande puta, uma puta malvada que estava roubando o filhinho dela! O precioso Walter! Que confusão!
– Beba, Connie.
George tinha terminado. Esperou que Connie esvaziasse seu copo, então pegou ambos e os encheu novamente.
– Ele dizia que me amava. E eu dizia: “Olha a minha buceta, Walter!”. E ele não olhava pra minha buceta. Ele dizia: “Não quero olhar pra essa coisa”. Essa coisa! Assim ele a chamava! Você não tem medo da minha buceta, não é mesmo, George?
– Ela nunca me mordeu.
– Mas você já mordeu ela, já mordiscou, não é, George?
– Acho que sim.
– E lambeu e chupou?
– Suponho que sim.
– Você sabe muito bem, George, o que fez.
– Quanto dinheiro você pegou?
– Seiscentos dólares.
– Não gosto de pessoas que roubam dos outros, Connie.
– É por isso que você não passa de um lavador de pratos. Você é honesto. Mas ele era tão idiota, George. E ele tinha dinheiro, e eu mereci a grana... ele e a mãe dele e o amor dele, seu amor maternal, suas pias pequenas e limpas e privadas e sacos de lixo e carros novos e as pastilhas contra mau hálito e as loções pós-barba e as pequenas ereções e a preciosa fazeção de amor. Tudo para ele, você entende, tudo para ele! Você sabe o que uma mulher quer, George...
– Obrigado pelo uísque, Connie. Me dá outro cigarro.
George encheu os copos mais uma vez.
– Senti falta das suas pernas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas. Gosto do jeito que você usa esses saltos altos. Me deixa louco. Essas mulheres modernas não sabem o que estão perdendo. O salto alto modela a panturrilha, a coxa, a bunda; põe ritmo na caminhada. Realmente me excita!
– Você fala como um poeta, George. Às vezes você fala assim. Você é um tremendo lavador de pratos.
– Sabe o que eu realmente gostaria de fazer?
– O quê?
– Gostaria de chicotear suas pernas com o meu cinto, as pernas, a bunda, as coxas. Gostaria de fazer você tremer e chorar e então, quando estivesse tremendo e chorando, eu ia te arrebentar com amor puro.
– Não quero isso, George. Você nunca falou assim antes. Sempre foi correto comigo.
– Levanta um pouco o vestido.
– O quê?
– Levanta um pouco o vestido, quero ver mais as suas pernas.
– Gosta delas, não é, George?
– Deixa a luz bater nelas!
Constance levantou o vestido.
– Jesus Cristo nosso Senhor – disse George.
– Gosta das minhas pernas?
– Amo suas pernas!
Então George se espichou através da cama e deu uma bofetada na cara de Constance. O cigarro caiu de sua boca.
– Por que você fez isso?
– Você trepou com o Walter! Trepou com o Walter!
– E daí?
– Levanta mais esse vestido!
– Não!
– Faz o que eu estou mandando!
George deu outro tapa ainda mais forte. Constance levantou a saia um pouco mais.
– Um pouco abaixo da calcinha! – gritou George. – Não quero ver a calcinha!
– Cristo, George, o que você tem?
– Você trepou com Walter!
– George, eu juro, você está louco. Quero ir embora. Deixe-me sair daqui, George!
– Não se mexa ou mato você!
– Você me mataria?
– Juro que sim!
George levantou e se serviu de outro copo cheio de uísque puro, bebeu e sentou-se ao lado de Constance. Ele pegou seu cigarro e o segurou contra o pulso dela. Ela gritou. Segurou o cigarro ali, firmemente, então o afastou.
– Sou um homem, gata, dá pra entender isso?
– Sei que você é homem, George.
– Aqui, olha para os meus músculos!
George levantou-se e flexionou os dois braços.
– Lindo, né, gata? Olha para esses músculos! Sente isso! Sente isso!
Constance apalpou e sentiu um de seus braços e depois o outro.
– Sim, você tem um corpo lindo, George.
– Sou um homem. Sou um lavador de pratos, mas sou um homem, um homem de verdade.
– Eu sei, George.
– Não sou como aquele merdinha que você deixou.
– Eu sei disso.
– E também sei cantar. Você precisa ouvir a minha voz.
Constance ficou ali sentada. George começou a cantar. Cantou “Old Man River”. Depois “Nobody Knows the Trouble I’ve Seen”. Cantou “Saint Louis Blues” e “God Bless America”, parando várias vezes e rindo. Então se sentou ao lado de Constance e disse:
– Connie, você tem pernas lindas.
Pediu outro cigarro. Fumou, bebeu mais dois copos, então colocou sua cabeça no colo dela, em cima das coxas, contra as meias, e disse:
– Connie, acho que não sou bom, acho que sou louco, sinto muito por ter batido em você, me desculpe por tê-la queimado com aquele cigarro.
Constance permaneceu sentada. Passou seus dedos pelos cabelos de George, afagando-o e reconfortando-o. Logo ele estava dormindo. Ela esperou um pouco mais. Então levantou sua cabeça e a recostou em um travesseiro, levantou suas pernas e as endireitou na cama. Ela levantou-se, caminhou até a garrafa de uísque, serviu uma boa dose em seu copo, acrescentou um toque de água e bebeu tudo de uma vez. Caminhou até a porta do trailer, abriu-a, saiu e a fechou às suas costas. Caminhou pelo jardim, abriu o portão da cerca, caminhou pela viela sob o luar da uma da madrugada. O céu estava limpo e sem nuvens. O mesmo céu cheio de estrelas estava lá. Chegou ao bulevar e caminhou para leste, chegou até a entrada do Blue Mirror. Entrou, olhou ao redor e lá estava Walter sentado na ponta do balcão do bar, sozinho e bêbado. Caminhou até ele e sentou-se ao seu lado.
– Sentiu a minha falta, amor? – ela perguntou. Walter ergueu os olhos e a reconheceu. Não respondeu. Ele olhou para o balconista, e o balconista olhou para eles. Todos se conheciam.
– Ao sul de lugar nenhum
Elisa Grec
A dor é inevitável
Você não me deseja?
Então se dobre a meus caprichos
Ou não terá nada, nada
Que venha de mim
Tem livre escolha
Prefere viver, sua fétida existência
Sendo sempre a mesma pessoa
Vivendo para o trabalho
Ou quer prazer de vez em quando
Venha, renda-se a meus caprichos
Depois da dor
Sempre um orgasmo inesquecível
Um prazer insuportável
E depois, de volta à dor inevitável!
Charles Bukowski
Você Não Consegue Escrever Uma História de Amor
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas calçarei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
– Ao sul de lugar nenhum
Carlos Drummond de Andrade
De Arredio Motel Em Colcha de Damasco
viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
A morte, entre nós dois, tinha parte no coito.
O brinco era violento, misto de gozo e asco,
e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto.
Charles Bukowski
Fissura
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
Charles Bukowski
A Química Das Coisas
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
Charles Bukowski
Pobre Al
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.