Poemas
Relações Tóxicas
Poemas neste tema
Martha Medeiros
eu perguntava quantas foram
eu perguntava quantas foram
e você falava sobre o tempo
eu indagava quantas vezes
e você acendia outro cigarro
eu suplicava quantas mais
e você não respondia
pedia pra mudar de assunto
pra que pudesse mentir sobre outra coisa
e você falava sobre o tempo
eu indagava quantas vezes
e você acendia outro cigarro
eu suplicava quantas mais
e você não respondia
pedia pra mudar de assunto
pra que pudesse mentir sobre outra coisa
1 213
Martha Medeiros
digamos que você não seja assim
digamos que você não seja assim
tão seguro e inteligente como diz
vai ver me trai toda semana
leva pra cama minha melhor amiga
faz intriga a meu respeito
fala mal dos meus defeitos
garanto que não usa a gravata que dei
pode ser que você não goste
dos beijos que diz gostar
faz tudo só por fazer e me testar
vai ver não tem nem emprego
pede dinheiro emprestado
bate com o carro no meio-fio
você não tem nenhum caráter
passou por mim e fingiu que não viu
vai ver você morre de medo
de se olhar no espelho de dia
seu saldo está no vermelho
seu cão morto de fome
e você com raiva da vida
digamos que você não seja solteiro
e eu entrei numa fria
tão seguro e inteligente como diz
vai ver me trai toda semana
leva pra cama minha melhor amiga
faz intriga a meu respeito
fala mal dos meus defeitos
garanto que não usa a gravata que dei
pode ser que você não goste
dos beijos que diz gostar
faz tudo só por fazer e me testar
vai ver não tem nem emprego
pede dinheiro emprestado
bate com o carro no meio-fio
você não tem nenhum caráter
passou por mim e fingiu que não viu
vai ver você morre de medo
de se olhar no espelho de dia
seu saldo está no vermelho
seu cão morto de fome
e você com raiva da vida
digamos que você não seja solteiro
e eu entrei numa fria
1 002
Martha Medeiros
milionário
milionário
tem o controle acionário
da minha companhia
tem o controle acionário
da minha companhia
1 173
Martha Medeiros
começou com uma troca de olhares
começou com uma troca de olhares
uns ares de sedução
se quiseres, se puderes
uns plurais de romantismo
não me beijes, me namores
não fujas, não partas
já não podes me deixar
uns apelos singulares
eu te amo, tu me amas
uns acordes provençais
se não podes, não me iludas
uns traquejos familiares
tu és minha, de quem mais
uns que tais, uns nem venhas
uns não posso nunca mais
uns poderes andaluzes
não me traias, oh meu deus
uns adeuses prematuros
uns que outros absurdos
uns sinais de fim de linha
atitudes passionais
tragédias seculares
suicídios, ameaças
promessas indevidas
e tudo terminou
com uma troca de facadas
noticiaram dois jornais
uns ares de sedução
se quiseres, se puderes
uns plurais de romantismo
não me beijes, me namores
não fujas, não partas
já não podes me deixar
uns apelos singulares
eu te amo, tu me amas
uns acordes provençais
se não podes, não me iludas
uns traquejos familiares
tu és minha, de quem mais
uns que tais, uns nem venhas
uns não posso nunca mais
uns poderes andaluzes
não me traias, oh meu deus
uns adeuses prematuros
uns que outros absurdos
uns sinais de fim de linha
atitudes passionais
tragédias seculares
suicídios, ameaças
promessas indevidas
e tudo terminou
com uma troca de facadas
noticiaram dois jornais
535
Martha Medeiros
não quero saber quantas namoradas
não quero saber quantas namoradas
que eu não descobri
silêncios e desvios que não percebi
nem quero saber
sobre aquele fim de semana que não te vi
do teu pouco caso com o meu sofrimento
de nenhum movimento a meu favor
de nenhum amor que eu me lembre
não quero saber
quantas mentiras pra me acalmar
quantos mares a navegar sem mim
que fim deram aqueles retratos
se aquele abraço era mesmo assim
não quero saber
quantos meses você me deixou
a delirar e quantos presentes me deu
sem escolher e quantos beijos foram dados
por dar
não quero saber dos requintes
de crueldade nem do momento
fatal
o que não se sabe
não faz mal
que eu não descobri
silêncios e desvios que não percebi
nem quero saber
sobre aquele fim de semana que não te vi
do teu pouco caso com o meu sofrimento
de nenhum movimento a meu favor
de nenhum amor que eu me lembre
não quero saber
quantas mentiras pra me acalmar
quantos mares a navegar sem mim
que fim deram aqueles retratos
se aquele abraço era mesmo assim
não quero saber
quantos meses você me deixou
a delirar e quantos presentes me deu
sem escolher e quantos beijos foram dados
por dar
não quero saber dos requintes
de crueldade nem do momento
fatal
o que não se sabe
não faz mal
1 094
Vasko Popa
- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
642
Marina Tsvetaeva
Ensaio de ciúme
Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
.
.
.
Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
.
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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1 556
Marina Tsvetaeva
Tentativa de ciúme
Como vai você com a outra?
Fácil, não é? — Um golpe de remo! —
E de pronto a linha da costa
Se foi e você já nem se lembra
De mim, ilha flutuante
(No céu, por certo, não no mar)!
Almas! Almas! — antes amar
Como irmãs, não como amantes!
Como vai você com a mulher
Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer
Um trono (você foi o assassino),
Como vai, meu bem? Tudo a gosto?
E o dia-a-dia — sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?
"Mil sobressaltos, incertezas —
Basta! Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja —
O eleito pelo meu afeto?
A comida é melhor, mais familiar?
Diga a verdade. Como vai
Você com a imitação vulgar —
Você, que subiu ao Sinai?
Como é viver com uma estranha?
Você a ama? Não disfarce.
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?
E a saúde, vai bem? Que tal
A vida — uma canção? A ferida
Da consciência imortal
Como a suporta, meu querido?
Como vai você com o adereço
De feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó do gesso
Depois do mármor de Carrara?
(Deus talhado em barro, termina
Em pedaços!) Como é o convívio
Com a milionésima da fila
Pra quem já conheceu Lilit?
As novidades de feira
Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto
Sentido? Vamos, tudo cor
De rosa? Ou não? Aí, nesse oco
Sem fundo, amor, como vai? Pior
Ou igual a mim com outro?
(tradução de Augusto de Campos)
2 427
Fernando Pessoa
Tocam sinos a rebate
Tocam sinos a rebate
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.
1 439
Pero da Ponte
Dom Bernaldo, Pois Tragedes
Dom Bernaldo, pois tragedes
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
726
Charles Bukowski
Um Cachorro
veja só você, meias e calções, latas de cerveja
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
1 155
Charles Bukowski
Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!
você
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
638
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
612
José Saramago
Opção
Antes arder ao vento como archote
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser a dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser a dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.
1 318
Charles Bukowski
Amor
Sally me abandonava de um jeito
desleixado. ela era boa com os
bilhetes,
escrevia com uma letra grande
e indignada, ela era
boa nisso.
e ela levava sempre a maioria de suas
roupas,
mas eu abria uma garrafa
me sentava e olhava em volta –
e havia um chinelo rosa
embaixo da cama.
eu terminava o drinque
e me enfiava embaixo da cama
para pegar aquele chinelo rosa e
jogá-lo no lixo
e ao lado do chinelo rosa
eu encontrava uma calcinha
manchada de cocô.
e havia grampos de cabelo por todos os cantos:
no cinzeiro, na cômoda, no
banheiro. e suas revistas apareciam
por todos os cantos com suas capas exóticas:
“Homem Estupra Moça, Depois Joga o Corpo de um
Penhasco de 120 Metros.”
“Menino de 9 Anos Estupra 4 Mulheres em Banheiro de
Parada de Ônibus da Greyhound e Coloca Fogo em
Recipientes de Descarte.”
Sally me abandonava de um jeito desleixado.
na gaveta de cima, perto do Kleenex,
eu encontrava todos os bilhetes que eu lhe escrevera,
ordenadamente presos com 3 ou 4 tiras
elásticas.
e ela era desleixada com
as fotos:
eu encontrava uma com nós dois
agachados no capô do nosso
Plymouth 58 –
Sally mostrando bastante das pernas
e arreganhando um sorriso como mulher de bandido em Kansas City
saída dos
anos vinte,
e eu
mostrando as solas dos meus sapatos
com buracos circulares
acenando.
e havia fotos de cachorros,
todos eles nossos,
e fotos de crianças,
a maioria
dela.
a cada uma hora e vinte minutos
o telefone tocava
e era
Sally
e uma canção de jukebox,
certa canção que eu
detestava, e ela ficava falando
e eu escutava vozes
masculinas:
“Sally, Sally, esqueça essa porra de telefone,
volte, venha ficar aqui comigo,
bebê!”
“veja bem”, ela dizia, “existem outros homens no
mundo além de você.”
“essa é só a sua opinião”, eu respondia.
“eu poderia ter amado você pra sempre, Bandini”, ela dizia.
“vai se foder”, eu dizia e
desligava.
Bandini é estrume, óbvio,
mas era também o nome que eu me dera
em homenagem a um personagem um tanto sentimental e um tanto infantil
de um romance escrito por certo
italiano nos anos 1930.
eu servia outro drinque
e enquanto procurava uma tesoura no banheiro
para aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
encontrava um sutiã numa das gavetas
e o segurava no alto junto à luz.
o sutiã tinha bom aspecto pelo lado de fora
mas por dentro – havia uma mancha de
suor e sujeira, e a mancha era escurecida,
moldada ali
como se nenhuma lavagem jamais
pudesse
eliminá-la.
eu bebia minha bebida
então começava a aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
decidindo que eu era um homem bastante bonito.
mas eu ia levantar pesos
iniciar uma dieta
e me bronzear,
de qualquer maneira.
então o telefone tocava de novo
e eu levantava o fone
desligava
levantava o fone de novo
e o deixava
pendurado
pelo fio.
eu aparava meus pelos dos ouvidos, meu nariz, minhas
sobrancelhas,
bebia por mais uma ou duas horas,
então ia
dormir.
eu era despertado por um som que eu nunca chegara
a escutar antes –
dava uma sensação e soava como um alerta de
ataque atômico.
eu me levantava e procurava pelo som.
era o telefone
ainda fora do gancho
mas o som que vinha dele
lembrava muito mil vespas
morrendo queimadas. eu
pegava o
fone.
“senhor, aqui é o recepcionista. seu telefone está
fora do gancho.”
“certo, sinto muito. vou
desligar.”
“não desligue, senhor. sua esposa está no
elevador.”
“minha esposa?”
“ela afirma ser a sra. Budinski...”
“certo, é
possível...”
“o senhor poderia tirá-la do
elevador? ela não entende os
comandos... a linguagem dela é abusiva para conosco
mas ela afirma que o senhor
vai ajudá-la... e, senhor...”
“sim?”
“não quisemos chamar a
polícia...”
“bom...”
“ela está deitada no piso do
elevador, senhor, e, e... ela...
se urinou
toda...”
“o.k.”, eu dizia e
desligava.
eu saía de calção
drinque na mão
charuto na boca
e apertava o botão
do elevador.
lá vinha ele subindo:
um, dois, três, quatro...
as portas se abriam
e eis ali
Sally... e pequenos, delicados
gotejamentos e ondulantes filetes líquidos
derivando pelo piso do
elevador, e algumas poças
maculadas.
eu terminava o drinque
pegava-a e a carregava
para fora do
elevador.
eu a levava até o apartamento
jogava-a na cama
e tirava suas
calcinhas, saia e meias molhadas.
então eu colocava um drinque na mesinha
perto dela
me sentava no sofá
e eu mesmo tomava
mais um.
de repente ela se sentava ereta e
olhava em volta do
quarto.
“Bandini?”, ela perguntava.
“aqui”, eu
acenava com a mão.
“ah, graças a deus...”
então ela via o drinque e
o engolia de uma só
vez. eu me levantava,
servia outro, colocava cigarros, cinzeiro e
fósforos
ao lado.
então ela se erguia de novo:
“quem tirou as minhas
calcinhas?”
“eu.”
“eu quem?”
“Bandini...”
“Bandini? você não pode
me comer...”
“você se
mijou...”
“quem?”
“você...”
ela se sentava totalmente
ereta:
“Bandini, você dança como uma
bicha, você dança como uma
mulher!”
“vou quebrar o seu maldito
nariz!”
“você quebrou o meu braço, Bandini, não me venha
quebrar o meu nariz...”
então ela colocava a cabeça de volta no
travesseiro: “eu te amo, Bandini, amo
mesmo...”
então ela começava a roncar. eu bebia por mais
uma hora ou duas então
me deitava na cama com
ela. não me dava vontade de tocá-la
no começo. ela precisava de um banho
ao menos. eu botava uma perna em cima de uma dela;
não parecia tão
ruim. eu testava botar a
outra.
eu começava a me lembrar de todos os dias bons e as
noites boas...
deslizava um braço por baixo de seu pescoço,
então passava o outro em volta de sua
barriga e encostava meu pênis bêbado
suavemente em sua
virilha.
seu cabelo caía de volta
e subia por dentro das minhas narinas.
eu a sentia inalando pesadamente, depois
expirando. nós dormíamos desse jeito
pela maior parte da noite e até a
tarde seguinte. então eu me levantava e
ia até o banheiro e vomitava
e então era
a vez dela.
desleixado. ela era boa com os
bilhetes,
escrevia com uma letra grande
e indignada, ela era
boa nisso.
e ela levava sempre a maioria de suas
roupas,
mas eu abria uma garrafa
me sentava e olhava em volta –
e havia um chinelo rosa
embaixo da cama.
eu terminava o drinque
e me enfiava embaixo da cama
para pegar aquele chinelo rosa e
jogá-lo no lixo
e ao lado do chinelo rosa
eu encontrava uma calcinha
manchada de cocô.
e havia grampos de cabelo por todos os cantos:
no cinzeiro, na cômoda, no
banheiro. e suas revistas apareciam
por todos os cantos com suas capas exóticas:
“Homem Estupra Moça, Depois Joga o Corpo de um
Penhasco de 120 Metros.”
“Menino de 9 Anos Estupra 4 Mulheres em Banheiro de
Parada de Ônibus da Greyhound e Coloca Fogo em
Recipientes de Descarte.”
Sally me abandonava de um jeito desleixado.
na gaveta de cima, perto do Kleenex,
eu encontrava todos os bilhetes que eu lhe escrevera,
ordenadamente presos com 3 ou 4 tiras
elásticas.
e ela era desleixada com
as fotos:
eu encontrava uma com nós dois
agachados no capô do nosso
Plymouth 58 –
Sally mostrando bastante das pernas
e arreganhando um sorriso como mulher de bandido em Kansas City
saída dos
anos vinte,
e eu
mostrando as solas dos meus sapatos
com buracos circulares
acenando.
e havia fotos de cachorros,
todos eles nossos,
e fotos de crianças,
a maioria
dela.
a cada uma hora e vinte minutos
o telefone tocava
e era
Sally
e uma canção de jukebox,
certa canção que eu
detestava, e ela ficava falando
e eu escutava vozes
masculinas:
“Sally, Sally, esqueça essa porra de telefone,
volte, venha ficar aqui comigo,
bebê!”
“veja bem”, ela dizia, “existem outros homens no
mundo além de você.”
“essa é só a sua opinião”, eu respondia.
“eu poderia ter amado você pra sempre, Bandini”, ela dizia.
“vai se foder”, eu dizia e
desligava.
Bandini é estrume, óbvio,
mas era também o nome que eu me dera
em homenagem a um personagem um tanto sentimental e um tanto infantil
de um romance escrito por certo
italiano nos anos 1930.
eu servia outro drinque
e enquanto procurava uma tesoura no banheiro
para aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
encontrava um sutiã numa das gavetas
e o segurava no alto junto à luz.
o sutiã tinha bom aspecto pelo lado de fora
mas por dentro – havia uma mancha de
suor e sujeira, e a mancha era escurecida,
moldada ali
como se nenhuma lavagem jamais
pudesse
eliminá-la.
eu bebia minha bebida
então começava a aparar o cabelo em volta das minhas orelhas
decidindo que eu era um homem bastante bonito.
mas eu ia levantar pesos
iniciar uma dieta
e me bronzear,
de qualquer maneira.
então o telefone tocava de novo
e eu levantava o fone
desligava
levantava o fone de novo
e o deixava
pendurado
pelo fio.
eu aparava meus pelos dos ouvidos, meu nariz, minhas
sobrancelhas,
bebia por mais uma ou duas horas,
então ia
dormir.
eu era despertado por um som que eu nunca chegara
a escutar antes –
dava uma sensação e soava como um alerta de
ataque atômico.
eu me levantava e procurava pelo som.
era o telefone
ainda fora do gancho
mas o som que vinha dele
lembrava muito mil vespas
morrendo queimadas. eu
pegava o
fone.
“senhor, aqui é o recepcionista. seu telefone está
fora do gancho.”
“certo, sinto muito. vou
desligar.”
“não desligue, senhor. sua esposa está no
elevador.”
“minha esposa?”
“ela afirma ser a sra. Budinski...”
“certo, é
possível...”
“o senhor poderia tirá-la do
elevador? ela não entende os
comandos... a linguagem dela é abusiva para conosco
mas ela afirma que o senhor
vai ajudá-la... e, senhor...”
“sim?”
“não quisemos chamar a
polícia...”
“bom...”
“ela está deitada no piso do
elevador, senhor, e, e... ela...
se urinou
toda...”
“o.k.”, eu dizia e
desligava.
eu saía de calção
drinque na mão
charuto na boca
e apertava o botão
do elevador.
lá vinha ele subindo:
um, dois, três, quatro...
as portas se abriam
e eis ali
Sally... e pequenos, delicados
gotejamentos e ondulantes filetes líquidos
derivando pelo piso do
elevador, e algumas poças
maculadas.
eu terminava o drinque
pegava-a e a carregava
para fora do
elevador.
eu a levava até o apartamento
jogava-a na cama
e tirava suas
calcinhas, saia e meias molhadas.
então eu colocava um drinque na mesinha
perto dela
me sentava no sofá
e eu mesmo tomava
mais um.
de repente ela se sentava ereta e
olhava em volta do
quarto.
“Bandini?”, ela perguntava.
“aqui”, eu
acenava com a mão.
“ah, graças a deus...”
então ela via o drinque e
o engolia de uma só
vez. eu me levantava,
servia outro, colocava cigarros, cinzeiro e
fósforos
ao lado.
então ela se erguia de novo:
“quem tirou as minhas
calcinhas?”
“eu.”
“eu quem?”
“Bandini...”
“Bandini? você não pode
me comer...”
“você se
mijou...”
“quem?”
“você...”
ela se sentava totalmente
ereta:
“Bandini, você dança como uma
bicha, você dança como uma
mulher!”
“vou quebrar o seu maldito
nariz!”
“você quebrou o meu braço, Bandini, não me venha
quebrar o meu nariz...”
então ela colocava a cabeça de volta no
travesseiro: “eu te amo, Bandini, amo
mesmo...”
então ela começava a roncar. eu bebia por mais
uma hora ou duas então
me deitava na cama com
ela. não me dava vontade de tocá-la
no começo. ela precisava de um banho
ao menos. eu botava uma perna em cima de uma dela;
não parecia tão
ruim. eu testava botar a
outra.
eu começava a me lembrar de todos os dias bons e as
noites boas...
deslizava um braço por baixo de seu pescoço,
então passava o outro em volta de sua
barriga e encostava meu pênis bêbado
suavemente em sua
virilha.
seu cabelo caía de volta
e subia por dentro das minhas narinas.
eu a sentia inalando pesadamente, depois
expirando. nós dormíamos desse jeito
pela maior parte da noite e até a
tarde seguinte. então eu me levantava e
ia até o banheiro e vomitava
e então era
a vez dela.
1 346
Charles Bukowski
Lua Azul, Ó Luuuuuaaazuuuullll, Te Adoro Tanto!
gosto de você, querida, eu te amo,
a única razão por que trepei com L. é porque você trepou
com Z. e aí eu trepei com R. e você trepou com N.
e porque você trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em você constantemente, sinto você
aqui na minha barriga como um bebê, amor é como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
você trepou com C. e então antes que eu pudesse me mexer de novo
você trepou com W., então aí eu tive que trepar com D. Mas
quero que você saiba que eu te amo, penso em você
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo você.
uau au uau au au
uau au uau au au
a única razão por que trepei com L. é porque você trepou
com Z. e aí eu trepei com R. e você trepou com N.
e porque você trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em você constantemente, sinto você
aqui na minha barriga como um bebê, amor é como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
você trepou com C. e então antes que eu pudesse me mexer de novo
você trepou com W., então aí eu tive que trepar com D. Mas
quero que você saiba que eu te amo, penso em você
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo você.
uau au uau au au
uau au uau au au
929
Kenneth Koch
Uma conversa com Patrícia
Patrícia não quer
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.
É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor
Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito
Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.
Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei
Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia
Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço
Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.
Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas
Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível
Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado
Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores
Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.
Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas
Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade
Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.
Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.
Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo
Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você
Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia
É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi
Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido
Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!
(tradução de Marília Garcia)
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.
É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor
Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito
Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.
Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei
Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia
Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço
Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.
Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas
Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível
Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado
Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores
Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.
Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas
Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade
Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.
Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.
Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo
Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você
Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia
É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi
Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido
Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!
(tradução de Marília Garcia)
928
Eunice Arruda
Outra Dúvida
Não sei se é
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
956
Leila Mícollis
Feitos um para o Outro
"Ele fala de cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
798
Leila Mícollis
Pena de Morte
Eram bastantes bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
980
Fernando Pessoa
Roçou-me
Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 400
Felipe Larson
GAROTA DE PROMESSA
Não me faça promessas
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
620
Charles Bukowski
Ele Até Parecia Um Cara Legal
ele empacotou tudo de modo ordenado e em diferentes partes
mandando as pernas para uma tia em St. Louis
a cabeça para um chefe de escoteiros no Brooklyn
a barriga para um açougueiro vesgo em Des Moines,
os órgãos sexuais femininos foram enviados para um jovem padre em Los Angeles;
os braços foram dados para o cachorro
e ele manteve as mãos para usá-las como quebra-nozes, e todos os
restos e partes sortidas
como peitos e bunda ele os aferventou num ensopado
que estranhamente
era mais saboroso do que ela jamais fora.
ele gastou o dinheiro que ela levava na carteira
comprou um bom vinho francês, feijões, meio quilo de erva
e dois periquitos; comprou as obras completas de
Keats, uma bandana vermelha de um metro e meio, uma tesoura com
cabo de marfim, e uma caixa de doces para sua
senhoria.
então ele bebeu e comeu e dormiu por três dias e três noites
e quando os policiais chegaram
ele parecia bastante amistoso e sereno
e ao longo de todo o caminho até a delegacia
falou sobre o tempo, a cor das montanhas,
coisas dessa ordem, de nenhum modo parecia esse tipo de
assassino.
aquilo foi muito estranho.
mandando as pernas para uma tia em St. Louis
a cabeça para um chefe de escoteiros no Brooklyn
a barriga para um açougueiro vesgo em Des Moines,
os órgãos sexuais femininos foram enviados para um jovem padre em Los Angeles;
os braços foram dados para o cachorro
e ele manteve as mãos para usá-las como quebra-nozes, e todos os
restos e partes sortidas
como peitos e bunda ele os aferventou num ensopado
que estranhamente
era mais saboroso do que ela jamais fora.
ele gastou o dinheiro que ela levava na carteira
comprou um bom vinho francês, feijões, meio quilo de erva
e dois periquitos; comprou as obras completas de
Keats, uma bandana vermelha de um metro e meio, uma tesoura com
cabo de marfim, e uma caixa de doces para sua
senhoria.
então ele bebeu e comeu e dormiu por três dias e três noites
e quando os policiais chegaram
ele parecia bastante amistoso e sereno
e ao longo de todo o caminho até a delegacia
falou sobre o tempo, a cor das montanhas,
coisas dessa ordem, de nenhum modo parecia esse tipo de
assassino.
aquilo foi muito estranho.
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Marina Colasanti
JANTAR FAMILIAR
Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
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