Poemas neste tema

Raiva e Indignação

Matilde Campilho

Matilde Campilho

Panteão Nacional

Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
1 034
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Juïão, Quero Contigo Fazer

- Juïão, quero contigo fazer,
se tu quiseres, ũa entençom:
e querrei-te, na primeira razom,
ũa punhada mui grande poer
eno rostro, e chamar-te rapaz
mui mao; e creo que assi faz
boa entençom quen'a quer fazer.

- Meem Rodriguiz, mui sem meu prazer
a farei vosc', assi Deus me perdom:
ca vos haverei de chamar cochom,
pois que eu a punhada receber;
des i trobar-vos-ei mui mal assaz,
e atal entençom, se a vós praz,
a farei vosco mui sem meu prazer.

- Juïão, pois [con]tigo começar
fui, direi-t'ora o que te farei:
ũa punhada grande te darei,
des i querrei-te muitos couces dar
na garganta, por te ferir peor,
que nunca vilão haja sabor
doutra tençom comego começar.

- Meem Rodriguiz, querrei-m'emparar,
se Deus me valha, como vos direi:
coteife nojoso vos chamarei,
pois que eu a punhada recadar;
des i direi, pois sô os couces for:
"Le[i]xade-m'ora, por Nostro Senhor",
ca assi se sol meu padr'a emparar.

- Juïão, pois que t'eu [ora] filhar
pelos cabelos e que t'arrastrar,
ah que dez couces te presentarei!

- Meem Rodriguiz, se m'eu trosquiar,
ou se me fano, ou se m'encostar,
ai, trobador, já vos nom tornarei!
704
Mário Faustino

Mário Faustino

Sextina: Altaforte

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.


I

Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"

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Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.

In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).

NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 924
Colombina

Colombina

Maldição

Maldito sejas tu que eu encontrei na vida,
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.

Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.

Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...

Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.

Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...

Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.


Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 919
Martha Medeiros

Martha Medeiros

para encontrar as origens do meu rosto

para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
1 142
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sente minha raiva canibal

sente minha raiva canibal
te mordo te sinto te como
e como me fazes mal
868
Martha Medeiros

Martha Medeiros

me visto de vermelho

me visto de vermelho
a raiva tem essa cor


uma lança na mão
uma mancha no lençol


São Jorge
um dragão
um sonho solto


estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal
1 102
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sou capaz dos gestos mais nobres

sou capaz dos gestos mais nobres
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer loira, pálida e profunda
nada me detém, sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu
pudesse ser tão boa, uma santa, uma alma
do outro mundo


mas se acordo atordoada, sou capaz de
armar um circo
solto fogo pelas ventas, não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta, sou herege, estúpida,
ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta
bem no fundo do buraco, a cara cheia de
olheiras
argh! que eu sou de lascar quando eu quero


haja paciência ou sabedoria
ou pouco caso ou em ego imenso
ou isso tudo
para enfrentar o céu e o inferno a cada
vinte minutos
1 168
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Certa Vez Houve Uma Mulher Que Enfiou a Cabeça Dentro do Forno

o terror se torna por fim quase
suportável
mas nunca completamente

o terror se arrasta como um gato
rasteja como um gato
por minha mente

posso ouvir a risada das massas

elas são fortes
elas sobreviverão

como a barata

nunca tire seus olhos da barata

você não voltará a vê-la outra vez.

as massas estão em todo lugar
sabem como fazer as coisas:
elas têm raivas sadias e mortais
por coisas sadias e
mortais.

gostaria de estar dirigindo um Buick 1952 azul
ou um Buick 1942 azul-marinho
ou um Buick 1932 azul
sobre um desfiladeiro do inferno e em direção ao
mar.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Roubada

sigo pensando que ela estará lá fora
agora
esperando por mim
azul
o para-choque frontal amassado
a cruz de Malta pendurada
no retrovisor.
o tapete de borracha
embolado debaixo dos pedais.
8 km/l
o bom e velho TRV 491
a fiel amante de um homem,
o modo como eu lhe engatava a segunda
ao dobrar uma esquina
o modo como ela podia furar um sinal
quando ninguém estava por perto.
o modo como conquistávamos enormes
e pequenos espaços
chuva
sol
neblina
hostilidade
o impacto das coisas.

saí das lutas no Olympic na última
terça-feira à noite
e minha caranga tinha sumido
com outro amante
para outro lugar.

as lutas tinham sido boas.
chamei um táxi numa estação
e me sentei numa cafeteria para comer
uma rosquinha com geleia acompanhada de café e
esperei,
e eu sabia que se encontrasse
o homem que a havia roubado
eu o mataria.

o táxi chegou. acenei para o
motorista, paguei pela rosquinha e pelo
café, saí noite afora,
entrei no carro, e lhe disse, “Hollywood com
a Western”, e naquela noite
em específico aquilo foi tudo.
967
Martha Medeiros

Martha Medeiros

digamos que você não seja assim

digamos que você não seja assim
tão seguro e inteligente como diz


vai ver me trai toda semana
leva pra cama minha melhor amiga
faz intriga a meu respeito
fala mal dos meus defeitos
garanto que não usa a gravata que dei


pode ser que você não goste
dos beijos que diz gostar
faz tudo só por fazer e me testar


vai ver não tem nem emprego
pede dinheiro emprestado
bate com o carro no meio-fio
você não tem nenhum caráter
passou por mim e fingiu que não viu


vai ver você morre de medo
de se olhar no espelho de dia
seu saldo está no vermelho
seu cão morto de fome


e você com raiva da vida
digamos que você não seja solteiro
e eu entrei numa fria
1 002
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Castanho-Claro

um olhar castanho-claro

esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.

darei um jeito
nele.

você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema

já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?

não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.

algum dia um filho da puta louco
irá matá-la

e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido

há muito
tempo.
1 227
João Baveca

João Baveca

Amig', Entendo Que Nom Houvestes

Amig', entendo que nom houvestes
poder d'alhur viver, e veestes
a mia mesura, e nom vos val rem,
ca tamanho pesar mi fezestes
       que jurei de vos nunca fazer bem.

Quisera-m'eu nom haver jurado,
tanto vos vejo viir coitado
a mia mesura, mas que prol vos tem?
Ca, u vos fostes sem meu mandado,
       jurei que nunca vos fezesse bem.

Por sempre serdes de mi partido,
nom vos há prol de seer viido
a mia mesura, e gram mal m'é en,
ca jurei, tanto que fostes ido,
       que nunca jamais vos fezesse bem.
487
João Baveca

João Baveca

Um Escudeiro Vi Hoj'arrufado

Um escudeiro vi hoj'arrufado
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado

de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.

E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.

E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.

E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.
452
João Baveca

João Baveca

Pero D'ambroa, Sodes Maiordomo

Pero d'Ambroa, sodes maiordomo
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.

E de nosso ................
[...]

E ..........................
[...]

E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
556
João Baveca

João Baveca

Par Deus, Amigos, Gram Torto Tomei

Par Deus, amigos, gram torto tomei
e de logar onde m'eu nom cuidei:
estand'ali ant'a porta d'el-rei
preguntando por novas da fronteira,
por ũa velha que eu deostei,
       deostou-m'ora Maria Balteira.

Veed'ora se me devo queixar
deste preito, ca nom pode provar
que me lhe oísse nulh'homem chamar
senom seu nome, per nulha maneira;
e pola velha que foi deostar,
       deostou-m'ora Maria Balteira.

Muito vos deve de sobérvia tal
pesar, amigos, e direi-vos al:
sei mui bem que [se] lh'est[o] a bem sal,
todos iremos per ũa carreira;
ca, porque dixe d'ũa velha mal,
       deostou-m'ora Maria Balteira.
555
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No conflito escuro e besta

No conflito escuro e besta
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:

Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.

E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.

Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
950
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARCHA FÚNEBRE

Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.

O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.

Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.

Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 752
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Sanhud'an[Da]Des, Amigo

Sanhud'an[da]des, amigo,
porque nom faço meu dano
vosc', e per fé, sem engano,
ora vos jur'e vos digo:
       ca nunca já esse [preito]
       mig', amigo, será feito.

De pram nom som [eu] tam louca
que já esse preito faça,
mais dou-vos esta baraça,
guardad'a cint'e a touca,
       ca nunca já esse preito
       mig', amigo, será feito.

Ai dom Joam de Guilhade!,
sempre vos eu fui amiga,
e queredes que vos diga?
Em outro preito falade:
       ca nunca já esse preito
       mig', amigo, será feito.
633
Martha Medeiros

Martha Medeiros

que você tenha tido um derrame

que você tenha tido um derrame
uma anorexia nervosa, uma falta súbita
de memória
que tenha tido suores noturnos
taquicardia, febre, envenenamento
que tenha tido trombose, hemorragia,
pneumonia dupla
que tenha tido tudo isso ao mesmo tempo
um glaucoma, uma tuberculose
uma perfuração no abdômem
sou muito boazinha mas não aceito
qualquer desculpa
975
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Não Mata...

a queixa é muitas vezes o resultado de uma insuficiente
capacidade
de viver dentro
das óbvias restrições desta
maldita gaiola.
a queixa é uma deficiência comum
mais prevalente do que as
hemorroidas
e quando as escritoras atiram seus sapatos pontudos
em mim
choramingando que
seus poemas jamais serão
promulgados
tudo que posso lhes dizer
é
me mostrem mais perna
me mostrem mais bunda –
isso é tudo que vocês têm (ou eu tenho)
enquanto
dura

e por causa dessa comum e óbvia verdade
elas berram na minha cara:
SEXISTA PORCO FILHO DA PUTA!

como se isso fosse mudar o modo como as árvores frutíferas
deixam cair suas frutas
ou o oceano traz à praia o pó e
os esporos mortos do Império
Greciano

mas não sinto mágoa nenhuma por ser chamado de algo
que
não sou;
na verdade, é arrebatador, de certo modo, como uma boa
massagem nas costas
numa noite congelante
atrás do teleférico de esqui em
Aspen.
650
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Fausto

O dedo em riste
aponta o horizonte
e o ódio persiste
no rosto bifronte.

Morde e remorde
a própria língua,
mal ouve o acorde
esvaído à míngua.

A sanha incontida
arde e devora,
em dura lida,
o peito que chora.

O próprio sangue
escorre, incapaz
de aplacar, exangue,
a sede voraz.

O acorde a cantar.
O corpo é uma chama
e espalha no ar
o ódio que ama.

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)

928
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Amor É Uma Folha de Papel Rasgada Em Pedaços

toda a cerveja estava envenenada e o cap. soçobrou
e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nós arfávamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bêbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato não parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.
603
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta

e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
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