Poemas neste tema

Propósito e Sentido da Vida

Gonçalo Soares da Franca

Gonçalo Soares da Franca

Epitáfio

A que vês, ó caminhante,
(em desenganos da vida)
fixa Estrela hoje luzida,
Luminar ontem errante,
a golpes dois num instante
deve a mudança, em que gira;
ao ponto da morte expira,
mas tanto sem sobressalto,
que acertou alvo tão alto,
porque pôs tão Alta a mira.

673
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Clareira de Sol

Mas agora não foi o inimigo que espreita montado em sua vassoura amarela,
coberto como um porco-espinho com as puas do ódio;
agora entre irmãos nasceram racimos tortuosos
e desenvolveram os vinhos amargos, misturando mentira e vileza,
até preparar a suspeita, a dúvida, as acusações:
uma gelatina asfixiante de transpiração literária.

Não posso voltar a cabeça e olhar a manada perdida.

Passei entre os vivos fazendo meu ofício, e regresso à chuva
com alguns cravos e o pão que elaboram minhas mãos.

Eu busquei a bondade no bom e no mau busquei a bondade
e busquei a bondade na pedra que leva ao suplício
e encontrei a bondade na cova em que vive o falcão
e busquei a bondade na lua coberta de farinha campestre
e encontrei a bondade onde estive: esse foi meu dever na terra.
1 049
Ona Gaia

Ona Gaia

Três Milhões de Anos

Três milhões de anos
não bastam
para perpetuar a espécie
Cem mil anos bastam
uma vida
Mas o infinito
é nossa meta
seja ômega
seja alfa
Tudo ou nada terá sido
a cada mundo esquecido.

911
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXVIII

Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?

Não pode também matar-te
um beijo da primavera?

Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?

E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 033
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXII

Que significa persistir
no beco da morte?

No deserto do sal
como se pode florescer?

No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?

Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 004
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LX

E que importância tenho eu
no tribunal do olvido?

Qual é a representação
do resultado vindouro?

É a semente cereal
com sua multidão amarela?

Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
1 058
Olegario Schmitt

Olegario Schmitt

Rotina

São seis horas da manhã
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.

1 014
Oliveira Roma

Oliveira Roma

Ciência Humana

Sentindo quanto ardor um visionário sente,
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.

Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.

Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.

E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!

787
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto III:

Onomatopéia e Cibernética; Orbitas do Homem:
Sua Aurora e Seu Ocaso

no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.

madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras

e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.

902
Ona Gaia

Ona Gaia

O barco

O barco
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.

Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!

712
Pablo Neruda

Pablo Neruda

VIII

O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?

Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?

Quantas perguntas tem um gato?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
588 1
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXI

A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?

Por que me movo sem querer,
por que não posso estar imóvel?

Por que vou rodando sem rodas,
voando sem asas nem plumas,

e que me deu de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?
1 025
José Paulo Moreira da Fonseca

José Paulo Moreira da Fonseca

Buscar a Rosa

Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.

950
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Travelling

Jejum de coca
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.

897
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Tu o Fizeste

Houve muitos homens,
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
1 047
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Século Seguinte

eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos

882
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Deserto

nenhuma
sombra
que justifique
o sol

787
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Em Riste

de que um obelisco
acusa o céu?

ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão

898
Raimundo Fontenele

Raimundo Fontenele

Poética

curvos e curvas
sopram mais que males
no cordão dos ares
da verdade nua
nua e crua como
a palidez do sono
quando a natureza
dos pés à cabeça
nos pergunta: como?
palha gralha linda
calvo favo aceso
lâmpada do nada
sobre o pó desfeito
de um chão fugido
por bicar um pássaro
maçã tarde e calma
Ah! eu adormeço...
longe e longo tomo
um farol sumido
nos confins da noite
grito, coração, que grito?
fala para a ala
dúbio alvorecer
fala parasia
antes de morrer
do capim dourado
morivigerando
no verdor da lua
salta o sol de quando
tudo era na erva
o fluxo de existir
vida-taça, gota
do ser no devir.

959
Sebastião Corrêa

Sebastião Corrêa

Homem

Quantos milhões de séculos viveste?
A Atlântida esqueceste, e, hoje, andas triste,
Comungando a ilusão que não pediste,
Na sentença da dor que mereceste!

Como aquele filósofo ateniense,
Interrogas as tímidas estrelas...
Para quê? — ninguém sabe compreendê-las.
Vence a luz a distância; e o homem, que vence?

Que me dirás das lâmpadas divinas?
— meu vendedor de lágrimas, das ruínas
Do teu sonho forjaste um pensamento!

E andas pálido e triste, procurando
O que há milênios vem te acompanhando:
A vida — abençoado sofrimento!

813
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Nada me demove

nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov

1 604
Lúcio Cardoso

Lúcio Cardoso

o existir contínuo e líquido

“Que é o pra sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”

(de Crônica da Casa Assassinada)

1 103
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes

I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
III
Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.
IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
VI
Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.
Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.
VII
Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.
Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.
Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.
Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.
VIII
Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.
IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
1 309
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
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