Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Fernando Pessoa
VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...
[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
825
Fernando Pessoa
III - O mar jaz; gemem em segredo os ventos [1]
O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
982
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
988
Francisco Mallmann
VI
não serei bonita
há tantas coisas por fazer
há tantas coisas por fazer
886
Herberto Helder
Iii H
Marfim desde o segredo rompendo pela boca,
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
1 001
Carlos Drummond de Andrade
A Abgar Renault
A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
1 427
Herberto Helder
17
aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para
cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarr
que é por onde se faz com que a luz se fac
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto posso pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus
setenta e sete vezes êrro
de sôbre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim pedofilia, crime gravíssimo
mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defêsa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se
houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para
cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarr
que é por onde se faz com que a luz se fac
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto posso pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus
setenta e sete vezes êrro
de sôbre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim pedofilia, crime gravíssimo
mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defêsa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se
houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso
707
Herberto Helder
Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera
pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
1 003
Fernanda Benevides
Das Escadarias do Templo
Um dia fincarei,
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
921
António Ramos Rosa
Foi No Horror Que Acordei
Foi no horror que acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
1 167
Fernando Pessoa
ASPIRATION
Joyless seeing me to be
Mother Nature asked of me:
«What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
Tell me what thy wish is.»
- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»
In the silence absolute
Of my soul I hear it say:
´'Love can make me but to weep,
Glory maketh me but pine.
Give the world with my keep,
And still nothing will be mine.'»
- «But what feelest thou in thee?»
- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.
´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.
«Something more near to me in space
Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
Closer to me than my mind,
Nearer to me than to-day.»
Mother Nature asked of me:
«What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
Tell me what thy wish is.»
- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»
In the silence absolute
Of my soul I hear it say:
´'Love can make me but to weep,
Glory maketh me but pine.
Give the world with my keep,
And still nothing will be mine.'»
- «But what feelest thou in thee?»
- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.
´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.
«Something more near to me in space
Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
Closer to me than my mind,
Nearer to me than to-day.»
1 406
António Ramos Rosa
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
739
Elíude Viana
Definição de Infinito:
O que dois pontos humanos
podem ser no universo dos Desejos?
Podem ser estrelas...
Podem ser bichos...
Podem ser areia...
Ou podem ser nada
- o que pode ser tudo.
podem ser no universo dos Desejos?
Podem ser estrelas...
Podem ser bichos...
Podem ser areia...
Ou podem ser nada
- o que pode ser tudo.
837
António Ramos Rosa
Um Caminho de Palavras
Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.
*
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
*
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
*
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
*
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o
*
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
*
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
*
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
*
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o
1 177
Carlos Drummond de Andrade
A Casa de Helena
Russa translúcida de sorriso tímido
(assim a contemplo na retrovisão da lembrança),
Helena 1929 enfrenta os poderes burocráticos.
Suavemente,
instaura em Minas o seu sonho-reflexão.
Moças normalistas rodeiam Helena.
Traz um sinal novo para gente nova.
Ensina
a ver diferente a criança,
a descobrir na criança
uma luz recoberta por cinzas e costumes,
e nas mais carentes e solitárias revela
o princípio de vida ansioso de sol.
Helena é talvez uma fada eslava
que estudou psicologia
para não fazer encantamentos; só para viajar
o território da infância e ir mapeando
suas ilhas, cavernas, florestas labirínticas,
de onde, na escuridão, desfere o pássaro
— surpresa —
melodia jamais ouvida antes.
Helena reúne
os que não se conformam com a vida estagnada
e os mandamentos da educação de mármore.
Leva com eles para o campo
uma ideia-sentimento
que faz liga com as árvores
as águas
os ventos
os animais
o espaço ilimitado de esperança.
Fazenda do Rosário: a fazendeira
alma de Minas se renova
em graça e amor, sem juros,
amor ciente de seus fins
de liberdade e criação.
E essa pastora magra, quase um sopro,
uma folha talvez (ou uma centelha
que não se apaga nunca?) vai pensando
outras formas de abrir, no chão pedrento,
o caminho de paz para o futuro.
Helena sonha o mundo de amanhã,
recuado sempre, mas factível
e em mínimas sementes concentrado:
estes garotos pensativos,
esse outro ali, inquieto, a modelar
engenharias espaciais com mão canhota,
aquele mais além, que se revolta
procurando a si mesmo, e não se encontra
no quadro bitolado dos contentes.
Viajantes sem pouso
no albergue corriqueiro,
Helena os chama e diz: Vou ajudá-los.
Não presidente, não ministro,
aos 80 anos dirige um mundo-em-ser.
A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
Casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco de Helena
fica estampado na consciência.
E quando Helena 1974 se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
(assim a contemplo na retrovisão da lembrança),
Helena 1929 enfrenta os poderes burocráticos.
Suavemente,
instaura em Minas o seu sonho-reflexão.
Moças normalistas rodeiam Helena.
Traz um sinal novo para gente nova.
Ensina
a ver diferente a criança,
a descobrir na criança
uma luz recoberta por cinzas e costumes,
e nas mais carentes e solitárias revela
o princípio de vida ansioso de sol.
Helena é talvez uma fada eslava
que estudou psicologia
para não fazer encantamentos; só para viajar
o território da infância e ir mapeando
suas ilhas, cavernas, florestas labirínticas,
de onde, na escuridão, desfere o pássaro
— surpresa —
melodia jamais ouvida antes.
Helena reúne
os que não se conformam com a vida estagnada
e os mandamentos da educação de mármore.
Leva com eles para o campo
uma ideia-sentimento
que faz liga com as árvores
as águas
os ventos
os animais
o espaço ilimitado de esperança.
Fazenda do Rosário: a fazendeira
alma de Minas se renova
em graça e amor, sem juros,
amor ciente de seus fins
de liberdade e criação.
E essa pastora magra, quase um sopro,
uma folha talvez (ou uma centelha
que não se apaga nunca?) vai pensando
outras formas de abrir, no chão pedrento,
o caminho de paz para o futuro.
Helena sonha o mundo de amanhã,
recuado sempre, mas factível
e em mínimas sementes concentrado:
estes garotos pensativos,
esse outro ali, inquieto, a modelar
engenharias espaciais com mão canhota,
aquele mais além, que se revolta
procurando a si mesmo, e não se encontra
no quadro bitolado dos contentes.
Viajantes sem pouso
no albergue corriqueiro,
Helena os chama e diz: Vou ajudá-los.
Não presidente, não ministro,
aos 80 anos dirige um mundo-em-ser.
A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
Casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco de Helena
fica estampado na consciência.
E quando Helena 1974 se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
2 333
José Saramago
Compensação
Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
1 118
Adélia Prado
O Poder da Oração
Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
‘brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
o comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
‘Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
‘brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
o comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
‘Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.
1 315
Herberto Helder
81
que não há nenhuma tecnologia paradisíaca,
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
541
Adélia Prado
A Boca
Se olho atentamente a erva no pedregulho
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou A SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo Reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou A SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo Reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.
1 048
António Ramos Rosa
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 106
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
615
Adélia Prado
Discurso
Não tinha um adjetivo para o dia e desejei ficar triste.
Fui moer lembranças,
remoê-las com a areia pobre mas grossa
de minha desmesurada moela.
Em mim, tanto faz meu coração ou estômago,
já que nem pra rezar eu sei partir-me.
Como quem junta espigas pro moinho,
juntei uns cheiros de alho, de álcool, de sabonete,
um cheiro-malva de talco, uns gritos,
fezes que se pisou ao redor da casa
com cheiro não tanto repudiável
— podia-se limpá-las, mas não eram execráveis —,
a incúria colateral de vários pâncreas,
o Trypanosoma cruzi, várias cruzes no sangue, no exame,
nas covas, nas torres, no cordãozinho de ouro,
na forma de levantar os braços e dizer:
“Ó Pai, duro é este discurso, quem poderá entendê-lo?”
Se abrisse um sol sobre este dia incômodo,
eu rapava com enxada os excrementos,
punha fogo no lixo
e demarcava mais fácil os contornos da vida:
aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor,
onde um homem projeta o seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?
É às vezes fazendo a barba
ou insistindo no vinco de sua calça branca
que ele quer saber.
É às vezes aparando as unhas,
em nem sempre escolhidas horas,
que ele tem a resposta.
Um adjetivo para o dia, explica.
Fui moer lembranças,
remoê-las com a areia pobre mas grossa
de minha desmesurada moela.
Em mim, tanto faz meu coração ou estômago,
já que nem pra rezar eu sei partir-me.
Como quem junta espigas pro moinho,
juntei uns cheiros de alho, de álcool, de sabonete,
um cheiro-malva de talco, uns gritos,
fezes que se pisou ao redor da casa
com cheiro não tanto repudiável
— podia-se limpá-las, mas não eram execráveis —,
a incúria colateral de vários pâncreas,
o Trypanosoma cruzi, várias cruzes no sangue, no exame,
nas covas, nas torres, no cordãozinho de ouro,
na forma de levantar os braços e dizer:
“Ó Pai, duro é este discurso, quem poderá entendê-lo?”
Se abrisse um sol sobre este dia incômodo,
eu rapava com enxada os excrementos,
punha fogo no lixo
e demarcava mais fácil os contornos da vida:
aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor,
onde um homem projeta o seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?
É às vezes fazendo a barba
ou insistindo no vinco de sua calça branca
que ele quer saber.
É às vezes aparando as unhas,
em nem sempre escolhidas horas,
que ele tem a resposta.
Um adjetivo para o dia, explica.
1 212
Carlos Drummond de Andrade
Balanço
A pobreza do eu
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
2 322
Carlos Drummond de Andrade
Lembrete
Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
3 307