Poemas neste tema
Política e Poder
Carlos Drummond de Andrade
A Bolsa, o Bolso
“À Bolsa!” é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
1 349
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 572
Fernando Pessoa
Clarim! Os mortos!
Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
1 381
Fernando Pessoa
AFONSO COSTA
O Afonso é miguelista,
Meu amigo integralista…
Não arrepanhe os cabelos!...
Miguelista, porque é ele
Partidário do Miguel —
Do Miguel de Vasconcellos.
Em francos estrangeiros
Quanto é trinta dinheiros?
Quis a Finança (a Internacional)
Entregar-lhe o entregar-lhe Portugal.
Formou em Coimbra a ciência e a maneira.
Oh, Judas, Coimbra é perto da Figueira!
Meu amigo integralista…
Não arrepanhe os cabelos!...
Miguelista, porque é ele
Partidário do Miguel —
Do Miguel de Vasconcellos.
Em francos estrangeiros
Quanto é trinta dinheiros?
Quis a Finança (a Internacional)
Entregar-lhe o entregar-lhe Portugal.
Formou em Coimbra a ciência e a maneira.
Oh, Judas, Coimbra é perto da Figueira!
944
Fernando Pessoa
O fado cantado à guitarra
O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
1 116
Carlos Drummond de Andrade
Esparsos de 1976
Rios de Petrópolis
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
848
Carlos Drummond de Andrade
Textos Mínimos
Cariocas:
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
647
Carlos Drummond de Andrade
Carnaval Chegando
A vitória
A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.
Turista
— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?
Tantos anos depois
O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.
Confidência
— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.
Previsão
Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.
Lacuna carioca
Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.
Pronunciamento
— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.
09/02/1974
A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.
Turista
— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?
Tantos anos depois
O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.
Confidência
— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.
Previsão
Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.
Lacuna carioca
Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.
Pronunciamento
— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.
09/02/1974
1 216
Carlos Drummond de Andrade
Conversa de Amigos
— Meu capitão, alvíssaras! O AI-5
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
713
Carlos Drummond de Andrade
Foi-Se a Copa?
Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus, chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.
24/06/1978
Adeus, chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.
24/06/1978
1 575
Fernando Pessoa
THE SPEECH
Before a poor, ignorant crowd
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
1 058
Fernando Pessoa
GOD'S EPITAPH
Here lies a tyrant whom some called a devil,
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
887
Charles Bukowski
Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados
se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
685
Pedro Amigo de Sevilha
Ai, Pedr'amigo, Vós Que Vos Teedes
- Ai, Pedr'Amigo, vós que vos teedes
por trobador, agora o verei
eno que vos ora preguntarei
e no recado que mi tornaredes:
nós que havemos mui bom rei por senhor,
e no-lo alhur fazem emperador,
dizede-mi ora quant'i entendedes.
- Joam Vaásquiz, pois me cometedes,
direi-vos eu quant'i entend'e sei:
pois nós havemos aquel melhor rei
que no mund'há, porque nom entendedes
que o seu prez e o seu valor
todo noss'é, pois emperador for?
O demo lev'o que vós i perdedes!
- Ai, Pedr'Amigo, eu nom perderia
em quant'el-rei podesse mais haver
em bõa terra e em gram poder,
ca quant'el mais houvesse, mais valria;
mais perde o rein'e vós perdedes i,
os que sem el ficaredes aqui,
pois que se el for d'Espanha sa via.
- Joam Vaásquiz, eu bem cuidaria
que o reino nom há por que perder
por el-rei nosso senhor mais valer,
ca rei do mund'é, se se vai sa via!
Valrá el mais, e nós [já] per el i;
de mais quis Deus que tem seu filh'aqui,
que se s'el for, aqui nos leixaria!
- Ai, Pedr'Amigo, pois vos já venci
desta tençom que vosco cometi,
nunca ar migo filhedes perfia.
- Joam Vaásquiz, sei que nom é 'ssi
desta tençom, ca errastes vós i
e dix'eu bem quanto dizer devia.
por trobador, agora o verei
eno que vos ora preguntarei
e no recado que mi tornaredes:
nós que havemos mui bom rei por senhor,
e no-lo alhur fazem emperador,
dizede-mi ora quant'i entendedes.
- Joam Vaásquiz, pois me cometedes,
direi-vos eu quant'i entend'e sei:
pois nós havemos aquel melhor rei
que no mund'há, porque nom entendedes
que o seu prez e o seu valor
todo noss'é, pois emperador for?
O demo lev'o que vós i perdedes!
- Ai, Pedr'Amigo, eu nom perderia
em quant'el-rei podesse mais haver
em bõa terra e em gram poder,
ca quant'el mais houvesse, mais valria;
mais perde o rein'e vós perdedes i,
os que sem el ficaredes aqui,
pois que se el for d'Espanha sa via.
- Joam Vaásquiz, eu bem cuidaria
que o reino nom há por que perder
por el-rei nosso senhor mais valer,
ca rei do mund'é, se se vai sa via!
Valrá el mais, e nós [já] per el i;
de mais quis Deus que tem seu filh'aqui,
que se s'el for, aqui nos leixaria!
- Ai, Pedr'Amigo, pois vos já venci
desta tençom que vosco cometi,
nunca ar migo filhedes perfia.
- Joam Vaásquiz, sei que nom é 'ssi
desta tençom, ca errastes vós i
e dix'eu bem quanto dizer devia.
664
Pedro Amigo de Sevilha
Pedr'amigo, Quero de Vós Saber
- Pedr'Amigo, quero de vós saber
ũa cousa que vos ora direi;
e venho-vos preguntar, porque sei
que saberedes recado dizer:
de Balteira, que vej'aqui andar,
e vejo-lhi muitos escomungar,
dizede: quem lhi deu end'o poder?
- Vaasco Pérez, quant'eu aprender
púdi desto, bem vo-lo contarei:
este poder ante tempo d'el-rei
Dom Fernando já lhi virom haver;
mais nom havia poder de soltar;
mais foi pois um patriarca buscar,
fi'd'Escalhola, que lhi fez fazer.
- Pedr'Amigo, sei-m'eu esto mui bem:
que Balteira nunca home soltou;
e vi-lh'eu muitos que escomungou,
que lhe peitarom grand'algo por en,
que os soltass', e direi-vos eu al:
fi'd'Escalhola nom há poder tal
per que solt', ergo seus presos que tem.
- Vaasco Pérez, bem de Meca vem
este poder; e poilo outorgou
o patriarca, des i mal levou
sobre si quanto se fez em Jaen
e em Eixarês, u se fez muito mal;
e por en met'em escomunhom qual
xi quer meter e qual quer saca en.
- Pedr'Amigo, esto vos nom creo eu:
que o poder que Deus em Roma deu,
que o Balteira tal de Meca tem.
- Vaasco Pérez, há x'em Meca seu
poder, e o que Deus em Roma deu
diz Balteira que todo nom é rem.
ũa cousa que vos ora direi;
e venho-vos preguntar, porque sei
que saberedes recado dizer:
de Balteira, que vej'aqui andar,
e vejo-lhi muitos escomungar,
dizede: quem lhi deu end'o poder?
- Vaasco Pérez, quant'eu aprender
púdi desto, bem vo-lo contarei:
este poder ante tempo d'el-rei
Dom Fernando já lhi virom haver;
mais nom havia poder de soltar;
mais foi pois um patriarca buscar,
fi'd'Escalhola, que lhi fez fazer.
- Pedr'Amigo, sei-m'eu esto mui bem:
que Balteira nunca home soltou;
e vi-lh'eu muitos que escomungou,
que lhe peitarom grand'algo por en,
que os soltass', e direi-vos eu al:
fi'd'Escalhola nom há poder tal
per que solt', ergo seus presos que tem.
- Vaasco Pérez, bem de Meca vem
este poder; e poilo outorgou
o patriarca, des i mal levou
sobre si quanto se fez em Jaen
e em Eixarês, u se fez muito mal;
e por en met'em escomunhom qual
xi quer meter e qual quer saca en.
- Pedr'Amigo, esto vos nom creo eu:
que o poder que Deus em Roma deu,
que o Balteira tal de Meca tem.
- Vaasco Pérez, há x'em Meca seu
poder, e o que Deus em Roma deu
diz Balteira que todo nom é rem.
729
Luís Gama
Serei Conde, Marquês e Deputado
Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
1 580
Luís Gama
O Barão da Borracheira
Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!
Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!
Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!
1 352
Fernando Pessoa
«Thy will be done» (with a capital T)
«Thy will be done» (with a capital T)
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
1 357
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
719
Afonso Mendes de Besteiros
Já Lhi Nunca Pediram
Já lhi nunca pediram
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
892
João Gulart de Souza Gomos
latindoamérica
cães vadios, perros locos
uivando para os neons
(suas luas esfiambradas)
latindoamérica atrás do trem
da história,
marcas de solas nos rabos
e de fraquezas no peito.
há lobos em peles de cordeiro
tosquiados
mal-amados e perdidos
torturados uns, outros ridículos
incinerados
vinte anos perdidos por
banguelas sorridentes
(este é um país que vai...)
Goulart Gomes, Salvador, BA
uivando para os neons
(suas luas esfiambradas)
latindoamérica atrás do trem
da história,
marcas de solas nos rabos
e de fraquezas no peito.
há lobos em peles de cordeiro
tosquiados
mal-amados e perdidos
torturados uns, outros ridículos
incinerados
vinte anos perdidos por
banguelas sorridentes
(este é um país que vai...)
Goulart Gomes, Salvador, BA
843
Fernando Pessoa
EPIGRAMS- VI
Pius, of pious anger full,
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
1 214
Afonso X
Se Me Graça Fezesse Este Papa de Roma!
Se me graça fezesse este Papa de Roma!
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
692
Afonso X
Dom Rodrigo, Moordomo, Que Bem Pôs a 'L-Rei a Mesa
Dom Rodrigo, moordomo, que bem pôs a 'l-rei a mesa
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
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