Poemas neste tema
Política e Poder
Mário-Henrique Leiria
LIÇÃO DE ANATOMIA
Todos ouviram a palavra que foi dita.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
770
Renato Russo
1965 (Duas Tribos)
Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
1 331
Renato Russo
Baader-Meinhof Blues
A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais
E você passa de noite e sempre vê
Apartamentos acesos
Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também
Andando nas ruas
Pensei que podia ouvir
Alguém me chamando
Dizendo meu nome
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar ao próximo é tão demodé
Essa justiça desfinada
É tão humana e tão errada
Nós assistimos televisão também
Qual é a diferença ?
Não estatize meus sentimentos
Prá seu governo
O meu estado é independente
E nossas vidas são tão normais
E você passa de noite e sempre vê
Apartamentos acesos
Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também
Andando nas ruas
Pensei que podia ouvir
Alguém me chamando
Dizendo meu nome
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar ao próximo é tão demodé
Essa justiça desfinada
É tão humana e tão errada
Nós assistimos televisão também
Qual é a diferença ?
Não estatize meus sentimentos
Prá seu governo
O meu estado é independente
1 173
Charles Bukowski
Deixem Que Caiam
vamos deixar que as bombas caiam
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
1 233
Manuel Bandeira
A Espada de Ouro
Excelentíssimo General
Henrique Duffles Teixeira Lott,
A espada de ouro que, por escote,
Os seus cupinchas lhe vão brindar,
Não vale nada (não leve a mal
Que assim lhe fale) se comparada
Com a velha espada
De aço forjada,
Como as demais.
— Espadas estas
Que a Pátria pobre, de mãos honestas,
Dá aos seus soldados e generais.
Seu aço limpo vem das raízes
Batalhadoras da nossa história:
Aço que fala dos que, felizes,
Tombaram puros no chão da glória!
O ouro da outra é ouro tirado,
Ouro raspado
Pelas mãos sujas da pelegada
Do bolso gordo dos argentários,
Do bolso raso dos operários,
Não vale nada!
É ouro sinistro,
Ouro mareado:
Mancha o Ministro,
Mancha o Soldado.
Henrique Duffles Teixeira Lott,
A espada de ouro que, por escote,
Os seus cupinchas lhe vão brindar,
Não vale nada (não leve a mal
Que assim lhe fale) se comparada
Com a velha espada
De aço forjada,
Como as demais.
— Espadas estas
Que a Pátria pobre, de mãos honestas,
Dá aos seus soldados e generais.
Seu aço limpo vem das raízes
Batalhadoras da nossa história:
Aço que fala dos que, felizes,
Tombaram puros no chão da glória!
O ouro da outra é ouro tirado,
Ouro raspado
Pelas mãos sujas da pelegada
Do bolso gordo dos argentários,
Do bolso raso dos operários,
Não vale nada!
É ouro sinistro,
Ouro mareado:
Mancha o Ministro,
Mancha o Soldado.
1 178
Manuel Bandeira
Craveiro, Dá-me Uma Rosa
Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
1 426
Manuel Bandeira
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
911
Carlos Drummond de Andrade
Cabaré Palácio
A história de Minas passa um momento na Rua Guaicurus
— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.
Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.
Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.
Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.
Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.
— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.
Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.
Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.
Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.
Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.
785
Adélia Prado
Ausência da Poesia
Aquele que me fez me tirou da abastança,
há quarenta dias me oprime no deserto.
O político morreu, coitado.
Quis ser presidente e não foi.
Meu pai queria comer.
Minha mãe, peregrinar.
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo.
Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou.
Eu que sou mau.
Por que, para mim, nem mel de vespas?
Eu que disse na praça, expondo-me
— dançai maltrapilhos, vamos seguir o tambor,
o Reino é subjacente mas existe —,
não sei responder a este motivo:
‘as torres ficam mais eternas às duas horas da tarde’.
Vejo a mangueira contra a nuvem preta,
meu coração se aquece,
mais uma vez me iludo de que farei o poema.
Tudo que aprendeu no bandalho
a marafona convertida faz para o êxtase místico;
mesmo que a costureira chegue na porta da rua
chupando o pilão com a língua,
eu acho bonito.
Me tentam a beleza física, forma concreta de lábios,
sexo, telefone, cartas,
o desenho amargo da boca do Ecce Homo.
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras do seu pó.
No país tropical grassa duro inverno.
Estou com meias, paletó e ânsias.
há quarenta dias me oprime no deserto.
O político morreu, coitado.
Quis ser presidente e não foi.
Meu pai queria comer.
Minha mãe, peregrinar.
Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo.
Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou.
Eu que sou mau.
Por que, para mim, nem mel de vespas?
Eu que disse na praça, expondo-me
— dançai maltrapilhos, vamos seguir o tambor,
o Reino é subjacente mas existe —,
não sei responder a este motivo:
‘as torres ficam mais eternas às duas horas da tarde’.
Vejo a mangueira contra a nuvem preta,
meu coração se aquece,
mais uma vez me iludo de que farei o poema.
Tudo que aprendeu no bandalho
a marafona convertida faz para o êxtase místico;
mesmo que a costureira chegue na porta da rua
chupando o pilão com a língua,
eu acho bonito.
Me tentam a beleza física, forma concreta de lábios,
sexo, telefone, cartas,
o desenho amargo da boca do Ecce Homo.
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras do seu pó.
No país tropical grassa duro inverno.
Estou com meias, paletó e ânsias.
1 367
João Soares de Paiva
Agora faz isso
Agora faz isso o senhor de Navarra,
pois em Provença é o rei de Aragão;
não têm medo, nem do seu pico, nem à sua Marra
em Tarazona, nem que está perto;
não têm medo de lhes colocar aríetes
e serão rir muito Inzura e Darren;
mas, se Deus traz o senhor de Monção
estou certo de que lhes destruirá a bacia.
Se o bom Rei lhes arrasa a Escudela,
que de Pamplona ouvistes chamar,
mal ficará o outro em Tudela,
não tem outra coisa de que se preocupar:
pois verá o bom Rei em acampamento
e destruir até o burgo de Estella:
verás sofrer os navarros e ao senhor
que a todos comanda.
Quando o senhor sai de Tudela, lança
ele a sua hoste e todo o seu poder;
bem sofrem aí de sacrifício e de pena,
pois saem para roubos e voltam correndo;
o Rei procura, como perito,
que não amanheça em terra alheia,
e de onde partiu, ele torna a dormir,
o almoço ou então o jantar.
Português antigo
Ora faz ost’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’est’el-Rei d’Aragon;
non lh’an medo de pico nen de marrra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen an medo de lhis poer boçon
e riir-s’an muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçon
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.
Se lh’o bon Rei varrê-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non á a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruir atá burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.
Quand’el-Rei sal de Todela, estrëa
ele sa ost’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pëa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, comde de bon saber,
que o non filhe a luz en terra alhëa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou se on aa cëa.
pois em Provença é o rei de Aragão;
não têm medo, nem do seu pico, nem à sua Marra
em Tarazona, nem que está perto;
não têm medo de lhes colocar aríetes
e serão rir muito Inzura e Darren;
mas, se Deus traz o senhor de Monção
estou certo de que lhes destruirá a bacia.
Se o bom Rei lhes arrasa a Escudela,
que de Pamplona ouvistes chamar,
mal ficará o outro em Tudela,
não tem outra coisa de que se preocupar:
pois verá o bom Rei em acampamento
e destruir até o burgo de Estella:
verás sofrer os navarros e ao senhor
que a todos comanda.
Quando o senhor sai de Tudela, lança
ele a sua hoste e todo o seu poder;
bem sofrem aí de sacrifício e de pena,
pois saem para roubos e voltam correndo;
o Rei procura, como perito,
que não amanheça em terra alheia,
e de onde partiu, ele torna a dormir,
o almoço ou então o jantar.
Português antigo
Ora faz ost’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’est’el-Rei d’Aragon;
non lh’an medo de pico nen de marrra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen an medo de lhis poer boçon
e riir-s’an muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçon
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.
Se lh’o bon Rei varrê-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non á a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruir atá burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.
Quand’el-Rei sal de Todela, estrëa
ele sa ost’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pëa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, comde de bon saber,
que o non filhe a luz en terra alhëa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou se on aa cëa.
1 403
1
Herberto Helder
Iv D
Por isso ele era rei, e alguém
se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
baforada,
desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
uma constelação maior que onze varas,
enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
do fogo,
bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
petróleo a arder como no circo dos prodígios
fazem os reis terríveis,
por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
o poema número a número.
se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
baforada,
desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
uma constelação maior que onze varas,
enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
do fogo,
bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
petróleo a arder como no circo dos prodígios
fazem os reis terríveis,
por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
o poema número a número.
1 039
Manuel Bandeira
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
1 084
Manuel Bandeira
Sapo-cururu
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
1 688
Carlos Drummond de Andrade
A Afonso Arinos, Setentão
Afonso, que brincadeira!
Ontem, no Colégio Arnaldo,
garotinho irresponsável;
hoje, em teus setenta anos,
verbete de enciclopédia…
E que bonito verbete,
que página além da página,
esse teu sulco profundo
na história silenciosa
de nossa gente (a outra história,
feita de noites-vigília
no escritório-oficina
de soluções e de rumos
para o instante desvairado).
Renitente praticante
de ofícios entrelaçados:
o de servidor de ideias
e o de servidor do povo,
o povo que, desconfio,
mal pode saber ainda
o que por ele tu fazes
armado só de palavra,
entre leis estraçalhadas,
esperanças malogradas
e sinais de mundo novo
rogando decifração.
Afonso, o da claridade
de pensamento, o de espírito
preocupado em riscar
passarelas de convívio
por entre irmãos divididos
e malquerenças rochosas
no território confuso:
Afonso, que bela vida
a vida nem sempre aberta
às sonatas da vitória!
Ser derrotado quem sabe
se é raiz amargosa
de triunfo intemporal?
O tempo, esse boiadeiro
de botas lentas e longas,
vai pisando na estrumeira
do curral, vai caminhando,
vai dando voltas na estrada,
alheio a cupins e onças,
pulando cercas de farpa,
vadeando rios espessos
até chegar ao planalto,
ao maralto, ao alto-lá
onde tudo se ilumina
ao julgamento da História.
Afonso, meu combatente
do direito e da justiça,
nosso exato professor
do direito mais precário
(o tal constitucional),
Afonso, galantuomo
que tens duas namoradas:
Anáh, de sempre, e essa outra
exigentíssima dama
que chamamos Liberdade,
Afonso, que vi xingado
de fascista e de outros nomes
que só a burrice inventa,
quando por sinal voltavas
de torva delegacia
aonde foste interceder
em momentos noturnais
pelos que iam xingar-te…
Mas o pico de viver
está justamente nisto
que bem soubeste ensinar-nos
combinar ternura e humour,
amenidade, puerícia
nos intervalos de luta.
E não disseste que doido
no fundo é todo mineiro
sob a neutra vestimenta
da mais sensata aparência?
Não disse Ribeiro Couto,
em breve arrufo amical,
que ouviu do Dr. Afrânio:
“Esse menino é maluco”?
Maluco, salve, o maluco,
o poeta mariliano,
o mirone de Ouro Preto,
cantor da barra do dia,
revelador do passado
em sua íntima verdade,
renovador de caminhos
de nossas letras e artes,
derrubador de odiosas
linhas de cor e prejuízo
(irmãos de pele diversa
já podem sentar-se à mesa
nacional, a teu chamado),
criador de nova atitude
do País perante os grandes,
humano e humanista Afonso,
salve, maluco!, te amamos.
Ontem, no Colégio Arnaldo,
garotinho irresponsável;
hoje, em teus setenta anos,
verbete de enciclopédia…
E que bonito verbete,
que página além da página,
esse teu sulco profundo
na história silenciosa
de nossa gente (a outra história,
feita de noites-vigília
no escritório-oficina
de soluções e de rumos
para o instante desvairado).
Renitente praticante
de ofícios entrelaçados:
o de servidor de ideias
e o de servidor do povo,
o povo que, desconfio,
mal pode saber ainda
o que por ele tu fazes
armado só de palavra,
entre leis estraçalhadas,
esperanças malogradas
e sinais de mundo novo
rogando decifração.
Afonso, o da claridade
de pensamento, o de espírito
preocupado em riscar
passarelas de convívio
por entre irmãos divididos
e malquerenças rochosas
no território confuso:
Afonso, que bela vida
a vida nem sempre aberta
às sonatas da vitória!
Ser derrotado quem sabe
se é raiz amargosa
de triunfo intemporal?
O tempo, esse boiadeiro
de botas lentas e longas,
vai pisando na estrumeira
do curral, vai caminhando,
vai dando voltas na estrada,
alheio a cupins e onças,
pulando cercas de farpa,
vadeando rios espessos
até chegar ao planalto,
ao maralto, ao alto-lá
onde tudo se ilumina
ao julgamento da História.
Afonso, meu combatente
do direito e da justiça,
nosso exato professor
do direito mais precário
(o tal constitucional),
Afonso, galantuomo
que tens duas namoradas:
Anáh, de sempre, e essa outra
exigentíssima dama
que chamamos Liberdade,
Afonso, que vi xingado
de fascista e de outros nomes
que só a burrice inventa,
quando por sinal voltavas
de torva delegacia
aonde foste interceder
em momentos noturnais
pelos que iam xingar-te…
Mas o pico de viver
está justamente nisto
que bem soubeste ensinar-nos
combinar ternura e humour,
amenidade, puerícia
nos intervalos de luta.
E não disseste que doido
no fundo é todo mineiro
sob a neutra vestimenta
da mais sensata aparência?
Não disse Ribeiro Couto,
em breve arrufo amical,
que ouviu do Dr. Afrânio:
“Esse menino é maluco”?
Maluco, salve, o maluco,
o poeta mariliano,
o mirone de Ouro Preto,
cantor da barra do dia,
revelador do passado
em sua íntima verdade,
renovador de caminhos
de nossas letras e artes,
derrubador de odiosas
linhas de cor e prejuízo
(irmãos de pele diversa
já podem sentar-se à mesa
nacional, a teu chamado),
criador de nova atitude
do País perante os grandes,
humano e humanista Afonso,
salve, maluco!, te amamos.
1 032
Manuel Bandeira
Prece
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
1 061
Carlos Drummond de Andrade
Governador Em Viagem
Do Rio a Vila Rica
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
995
Fernando Fitas
Tivemos os silêncios vigiados
Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
620
Cezário de Sousa
Continente Brasília
gente de toda parte
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
828
Carlos Drummond de Andrade
Inconfidência Mineira
Tem dois escravos Padre Toledo:
José Mina, que toca trompa,
Antônio Angola, rabecão.
O padre mete-se no rocambole
da insurreição.
A Real Justiça levanta o braço
da repressão.
Engaiola o padre na fortaleza
de São Julião.
Confisca os músicos, confisca a trompa
e o rabecão.
Música-gente, crioula música
duas vezes
na escravidão.
José Mina, que toca trompa,
Antônio Angola, rabecão.
O padre mete-se no rocambole
da insurreição.
A Real Justiça levanta o braço
da repressão.
Engaiola o padre na fortaleza
de São Julião.
Confisca os músicos, confisca a trompa
e o rabecão.
Música-gente, crioula música
duas vezes
na escravidão.
1 539
Afonso Lopes de Baião
Deu Ora El-Rei Seus Dinheiros
Deu ora el-rei seus dinheiros
a Belpelho, que mostrasse
em alardo cavaleiros
e por ric'homem ficasse;
e pareceo o Sarilho
com sa sela de badana:
qual ric'homem, tal vassalo,
qual concelho, tal campana!
a Belpelho, que mostrasse
em alardo cavaleiros
e por ric'homem ficasse;
e pareceo o Sarilho
com sa sela de badana:
qual ric'homem, tal vassalo,
qual concelho, tal campana!
571
Manuel Bandeira
Carta-poema
Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
-Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é O
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois:
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
-Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é O
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois:
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
1 332
Manuel Bandeira
Itaperuna
Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
1 159
Herberto Helder
58
colinas aparecidas numa volta de oxigénio, frutas
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
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Herberto Helder
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limoeiros, riachos, faúlhas, montes levantados ao de cima da cabeça,
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
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