Poemas neste tema

Passado e Futuro

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Buenos Aires [4]

He nacido en otra ciudad que también se llamaba Buenos Aires.
Recuerdo el ruido de los hierros de la puerta cancel.
Recuerdo los jazmines y el aljibe, cosas de la nostalgia.
Recuerdo una divisa rosada que había sido punzó.
Recuerdo la resolana y la siesta.
Recuerdo dos espadas cruzadas que habían servido en le desierto.
Recuerdo los faroles de gas y el hombre con el palo.
Recuerdo el tiempo generoso, la gente que llegaba sin anunciarse.
Recuerdo un bastón con estoque
Recuerdo lo que he visto y lo que me contaron mis padres.
Recuerdo a Macedonio, en un rincón de una confitería del Once.
Recuerdo las carretas de tierra adentro en el polvo del Once.
Recuerdo el Almacén de la figura en la calle de Tucumán.
(A la vuelta murió Estanislao del Campo.)
Recuerdo un tercer patio, que no alcancé, que era el patio de
los esclavos.
Guardo memoria del pistoletazo de Alem en un coche cerrado.
En aquel Buenos Aires, que me dejó, yo sería un extraño.
Sé que los únicos paraísos no vedados al hombre son los paraísos
perdidos.
Alguien casi idéntico a mí, alguien que no habrá leído esta página,
lamentará las torres de cemento y el talado obelisco


"La cifra", 1981


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 537 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 135
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Terceiro soneto aos invernos de outrora

Caminho que se perde no distante
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido

Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora

Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado

E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado

864
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O FUTURO

O FUTURO

Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.

Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.

Ao [...] fim do meu poema.
3 460
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Procura Antiga

Perdi qualquer coisa ali
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.
Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.
O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.
1 036
Ruy Belo

Ruy Belo

Ante um retrato de Madame de Pompadour

Ai daquelas altivas marquesas
nas páginas da história reclinadas
Nunca cruzei na rua os olhos com os vossos
à superfície do tempo
Quem hoje isolará dos dias o vosso sorriso?

Não são vossas as mãos que abrem as janelas
e deixam cair pássaros na rua
dos panos que empregais para limpar o pó
Não repetis o milenário gesto de vir
pela manhã deixar o lixo à porta
Vós que abríeis antes os lençóis da aurora
como as tendas de salomão erguidas
no planalto da nossa admiração
vejo-vos em tardes rubras brilhar
sobre um altivo mar de esquecimento
Ai que foi feito de todas essas grandes marquesas?



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 51 e 52 | Editorial Presença Lda., 1984
983
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Fim/Começo Dos Tempos

Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 043
João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

Num Segundo, O Milênio

Num Segundo, O Milênio

(05/93)

Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?

736
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Batalha de Boyne, 1966

(Em 1690 travou-se em Boyne, perto de Dublin, a histórica batalha entre o rei católico James II e o rei protestante William III. As sequelas do conflito continuam até hoje na vida da Irlanda conforme os jornais)
Bois tranquilos pastam
onde James II e William III
travaram a batalha de Boyne.
Ruídos de espadas e escudos
escorrem pelo rio da morte.
A grama é um verde eco de vida.
Há mel nas flores
e anúncios pós-modernos na estrada,
mas a batalha continua:
– James II e William III
guerreiam esta tarde nos subúrbios de Belfast.
1 010
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Faço um castelo na areia

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 856
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama

Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.

Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.

O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
1 315
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...

Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.

Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.

Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.

Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
1 249
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Geração Falida

era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.

e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.

tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time

era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.

e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.

você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.

era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.

agora

agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.

quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.

volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?

a Geração Falida?

eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade

e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.

gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.

D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.

G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.

Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.

e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.

enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,

agora

agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...

se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.

mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.

era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo

agora

há tantos de nós.

Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja

embora

-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
834
Edmir Domingues

Edmir Domingues

O espelho retrovisor

Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.

Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.

Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?

Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.

O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
822
Heiner Müller

Heiner Müller

Lamento do historiador

No quarto livro dos ANNALES Tácito queixa-se
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.

(tradução de Ricardo Domeneck)
941
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Alô, Barbara

25 anos atrás
em Las Vegas
eu me casei
pela única vez.
ficamos lá por
somente uma hora.
dirigi o caminho todo
de ida e o caminho
todo de volta
para L.A.
e mesmo assim
não me senti
casado e
continuei
me sentindo assim
por dois anos
e meio até que
ela se divorciou
de mim.
então conheci
uma mulher
que tinha formigas
de estimação e
as alimentava
com açúcar.
eu a
engravidei.
depois disso
houve
várias outras
mulheres.
mas
outro dia
um sujeito
que andou examinando
meu passado
disse: “eu
tenho o
número do telefone
da sua
ex-mulher”.
eu o coloquei
na gaveta
da minha cômoda.
então me
embebedei certa
noite
tirei o
número da gaveta
e
liguei para ela.
“ei, bebê,
sou eu!”
“eu sei que é
você”, ela disse
com aquela mesma
voz gélida.
“como cê
tá?”
“estou bem”,
ela respondeu.
“você ainda tá
morando naquela
granja?”
“sim”, ela
disse.
“bem, eu estou
bêbado.
só me deu vontade
de lhe fazer
uma breve
ligação.”
“então você está
bêbado de novo”,
ela disse com
aquela mesma
voz gélida.
“sim. bem,
tá certo,
vou dar
tchau agora...”
“tchau”, ela
falou e
desligou.
eu fui
me servir um
novo drinque.
depois de 25 anos
ela ainda
me odiava.
eu não achava
que eu era tão
ruim.
claro,
caras como eu
quase nunca
acham.
1 108
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Até Que Foi Bom

ela é agora uma boa e velha garota.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas

mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
1 080
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui As Sombras Se Misturam Com As Luzes

Cavas roucas recônditas as vozes
Do interior do tempo os rostos surgem
1 Dezembro 1991
1 140
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Elsinore

1
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
1 290
Rose Ausländer

Rose Ausländer

A heranca II

É chegada a hora
de repartir a herança

toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal

Das Erbe II

Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen

nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
838
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Elegia aos céus de Maralinga

Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.

Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.

Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,

bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
667
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Torso

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
1 253
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Outubro

Outubro eleitoral, que desabrochas
da vaga primavera de setembro,
misturando biquínis e galochas,
ardor a frio, e coisas que relembro;

outubro já verão na areia clara
de praias leblonianas, espera
um silfo, uma sereia, forma rara
a desfazer-se em rosa na atmosfera;

outubro a despertar em rebeldia
(ó meu passado!) e tropas se alinhando
no caminho do Túnel: quem diria
que a liberdade é um não sei quê nem quando?

Outubro que em tu mesmo te pintavas
para fazer do sangue o selo rubro,
penhor de novos tempos, fúrias, lavas
de puro entusiasmo, ingênuo outubro;

eis que de novo trazes no regaço,
político, um mistério, ó mês estranho.
Outubro, tem paciência, o tempo é escasso
à solução de enigma assim tamanho.

À tua brisa, outubro, se renova
nossa velha esperança malograda
depois de tanta luta e tanta prova,
rumo a Juarez e Mílton, na alvorada.

Que nos darás, amigo? Um homem puro,
numa quadra de paz e grandes feitos?
Ou temos de chorar, de encontro ao muro,
nossos erros, nos erros dos eleitos?

Voltará o passado, outubro, outubro?
Voltarão as misérias e os enganos?
(Como sacerdotisa no delubro,
a musa explora em vão os teus arcanos.)

Que depende de nós, eu sei. No entanto,
à cósmica energia de teu bojo,
o amante e o cidadão se enchem de espanto,
e sob o influxo astral tombam de rojo…

Outubro escorpional, meu aracnídeo
postado entre Balança e Sagitário:
Órion persegue Diana? em vão: agride-o
teu pungente ferrão, de efeito vário.

Outubro americano, porta aberta
a mundos novos que eram velhos mundos,
permite-nos chegar à descoberta
de nós mesmos, nos pegos mais profundos.

Outubro, que afinal não és diverso
de outro qualquer dos meses da folhinha,
perdoa a sem-razão deste meu verso,
que eu te agradeço, outubro, a croniquinha.
02/10/1955
1 964
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Coroa de sete sonetos

I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.

O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.

As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.

Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.

II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.

Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.

Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.

Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.

III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.

Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.

Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?

Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.

IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.

Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,

para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.

Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.

V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade

deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.

No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
 

Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.

VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.

O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.

É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.

Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.

VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?

Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?

Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.

No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
273
José Saramago

José Saramago

Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais,
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
1 997