Poemas neste tema
Paixão
António Ramos Rosa
Violenta No Obscuro
Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
537
Martim Soares
O Que Conselh'a Mim de M'eu Quitar
O que conselh'a mim de m'eu quitar
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.
Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.
Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.
E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;
mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.
Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.
Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.
E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;
mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
348
João Baveca
Pesa-Mi, Amiga, Por Vos Nom Mentir,
Pesa-mi, amiga, por vos nom mentir,
d'ũas novas que de mi e do meu
amig'oí, e direi-vo-las eu:
dizem que lh'entendem o grand'amor
que há comig', e, se verdade for,
por maravilha pod'a bem sair.
E bem vos digo que, des que oí
aquestas novas, sempre trist'andei,
ca bem entend'e bem vej'e bem sei
o mal que nos deste preit'averrá
pois lh'entenderem, ca posto x'é já
de morrer eu por el e el por mi.
Ca, poilo souberem, el partid'é
de nunca jamais viir a logar
u me veja, tanto m'ham de guardar;
vede'lo morto por esta razom,
pois bem sabedes vós de mi que nom
poss'eu sem el viver, per bõa fé.
Mais Deus, que sabe o gram bem que m'el quer
e eu a el, quando nos for mester,
nos guarde de mal, se vir ca bem é.
d'ũas novas que de mi e do meu
amig'oí, e direi-vo-las eu:
dizem que lh'entendem o grand'amor
que há comig', e, se verdade for,
por maravilha pod'a bem sair.
E bem vos digo que, des que oí
aquestas novas, sempre trist'andei,
ca bem entend'e bem vej'e bem sei
o mal que nos deste preit'averrá
pois lh'entenderem, ca posto x'é já
de morrer eu por el e el por mi.
Ca, poilo souberem, el partid'é
de nunca jamais viir a logar
u me veja, tanto m'ham de guardar;
vede'lo morto por esta razom,
pois bem sabedes vós de mi que nom
poss'eu sem el viver, per bõa fé.
Mais Deus, que sabe o gram bem que m'el quer
e eu a el, quando nos for mester,
nos guarde de mal, se vir ca bem é.
539
António Ramos Rosa
O Presente Absoluto
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.
884
Fernando Pessoa
Se o sino dobra a finados
Se o sino dobra a finados
Há-de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!
Há-de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!
1 388
Martha Medeiros
já meio sem esperança
já meio sem esperança
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança
manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa
falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta
quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta
fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa
quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança
enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta
é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança
não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança
manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa
falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta
quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta
fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa
quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança
enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta
é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança
não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
1 092
João Garcia de Guilhade
Amigos, Nom Poss'eu Negar
Amigos, nom poss'eu negar
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
879
João Garcia de Guilhade
Amigos, Quero-Vos Dizer
Amigos, quero-vos dizer
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
707
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
A Centelha do Absurdo
A centelha do absurdo
O grito do centeio
O horizonte de vidro surdo
Ama-me? Sei-o
Sei que o perfil das araras
Dobra-se sobre o espaço das noites claras
Aquelas em que nos beijamos
Com o gás azul-lilás
Que eu respiro com olhares de sempre jamais
O grito do centeio
O horizonte de vidro surdo
Ama-me? Sei-o
Sei que o perfil das araras
Dobra-se sobre o espaço das noites claras
Aquelas em que nos beijamos
Com o gás azul-lilás
Que eu respiro com olhares de sempre jamais
944
Carlos Felipe Moisés
Fausto
O dedo em riste
aponta o horizonte
e o ódio persiste
no rosto bifronte.
Morde e remorde
a própria língua,
mal ouve o acorde
esvaído à míngua.
A sanha incontida
arde e devora,
em dura lida,
o peito que chora.
O próprio sangue
escorre, incapaz
de aplacar, exangue,
a sede voraz.
O acorde a cantar.
O corpo é uma chama
e espalha no ar
o ódio que ama.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
aponta o horizonte
e o ódio persiste
no rosto bifronte.
Morde e remorde
a própria língua,
mal ouve o acorde
esvaído à míngua.
A sanha incontida
arde e devora,
em dura lida,
o peito que chora.
O próprio sangue
escorre, incapaz
de aplacar, exangue,
a sede voraz.
O acorde a cantar.
O corpo é uma chama
e espalha no ar
o ódio que ama.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
929
Carlos Felipe Moisés
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
1 016
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
966
Carlos Falck
Canção Cigana
Mulher de narciso e lua!
Caracol de meu silêncio,
véu pintado na janela
com guizos e tempestades.
Aspiro na tarde branca
o cheiro de tuas pernas;
há um frio desesperado
por fora do teu vestido.
E porque teu corpo leve
foge do sonho e do beijo,
o homem cai na pedreira
e morre no teu deserto.
Mulher, de narciso e lua!
Poltra na planície, nua,
correndo, com serafins,
pelos caminhos dos lírios,
vim de longe no teu rasto,
quero beijar teus mamilos;
e se nada disso for
mais do que sonho dourado,
vou caminhar sem destino
(meu destino é desatino),
gritando por ti na rua,
mulher de narciso e lua!
Caracol de meu silêncio,
véu pintado na janela
com guizos e tempestades.
Aspiro na tarde branca
o cheiro de tuas pernas;
há um frio desesperado
por fora do teu vestido.
E porque teu corpo leve
foge do sonho e do beijo,
o homem cai na pedreira
e morre no teu deserto.
Mulher, de narciso e lua!
Poltra na planície, nua,
correndo, com serafins,
pelos caminhos dos lírios,
vim de longe no teu rasto,
quero beijar teus mamilos;
e se nada disso for
mais do que sonho dourado,
vou caminhar sem destino
(meu destino é desatino),
gritando por ti na rua,
mulher de narciso e lua!
858
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 104
Giselda Medeiros
Foz
Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.
1 058
Gustavo Luz
Vamos Torcer
O amor é palavra doentia.
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
É isso mesmo doentia!
Que enlouquece os jovens
Jovens ficam doentes de amor.
É um mal sem cura.
Mas quem quer ser curado?
Quem nunca enlouqueceu,
Nunca viveu de verdade!
Como são bons esses momentos.
Eu tô maluco!
É engraçado,
Esse verso faz parte de uma melodia.
É de outro poeta.
Mas que diz tudo.
Resume a minha dor,
Os meus pensamentos.
Como não pensei nisso antes?
Estou louco!
Louco de amor.
Estou confuso!
Confuso por estar louco.
Estou inseguro!
Inseguro por estar confuso.
Estou com medo!
Medo que um dia tudo acabe.
E agora?
Será que um dia vai tudo acabar?
Será que um dia vou me curar?
Quantas perguntas.
Não, não quero mais pensar nisso.
Vou deixar acontecer.
E torcer para que Deus,
Não tenha se esquecido,
Como se escreve certo,
Pelas linhas tortas.
Tomara que não!!!
934
Pedro Amigo de Sevilha
Sei Eu, Donas, Que Nom Quer Tam Gram Bem
Sei eu, donas, que nom quer tam gram bem
hom'outra dona com'a mi o meu
amigo quer; ca, porque lhi dix'eu
"Nom me veredes já mais des aqui",
desmaiou logo bem ali por en,
e houve log'i a morrer por mim.
Porque lhi dixi que nunca veer-
-me poderia, quis por en morrer;
e fui alá e achei-o jazer
sem fala já, e houv'en gram pesar
e falei-lh'[e] houve-mi a conhocer
e diss': "Oí ũa dona falar?"
Dix'eu: "Oístes", já polo guarir,
e guareceu; maila que vos disser
que ama tant[o] hom'outra molher
mentir-vos-á, ca já x'o el provou
com quantas viu e achou: as partir
todas d'amor, e assi as leixou.
E bem vos poss'eu em salvo jurar
que outr'home vivo nom sab'amar
dereitamente; ca, por me provar,
veerom outros em mim entender
se poderiam de mim guaanhar,
mais nom poderom de mim rem haver.
Mais aquel que [mi] tam de coraçom
quer bem, par Deus, mal seria se nom
o guarisse, pois por mi quis morrer.
hom'outra dona com'a mi o meu
amigo quer; ca, porque lhi dix'eu
"Nom me veredes já mais des aqui",
desmaiou logo bem ali por en,
e houve log'i a morrer por mim.
Porque lhi dixi que nunca veer-
-me poderia, quis por en morrer;
e fui alá e achei-o jazer
sem fala já, e houv'en gram pesar
e falei-lh'[e] houve-mi a conhocer
e diss': "Oí ũa dona falar?"
Dix'eu: "Oístes", já polo guarir,
e guareceu; maila que vos disser
que ama tant[o] hom'outra molher
mentir-vos-á, ca já x'o el provou
com quantas viu e achou: as partir
todas d'amor, e assi as leixou.
E bem vos poss'eu em salvo jurar
que outr'home vivo nom sab'amar
dereitamente; ca, por me provar,
veerom outros em mim entender
se poderiam de mim guaanhar,
mais nom poderom de mim rem haver.
Mais aquel que [mi] tam de coraçom
quer bem, par Deus, mal seria se nom
o guarisse, pois por mi quis morrer.
396
Raquel Nobre Guerra
Pelicano
enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim
Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi
que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim
Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi
que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
1 460
Max Martins
Minha Arte
pois que há uma canção em ti
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 698
Gilson Nascimento
Beijo injeitado
Cabôca, si tu subesse
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
975
Fernando Pessoa
LE MIGNON
Let them speak ill of me. I do not care
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
1 484
Judas Isgorogota
Mercador de Escravas
Sonhei que eu era um mercador de escravas
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...
E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...
Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...
Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...
Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...
E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...
E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...
Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...
Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...
Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...
E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!
1 256
Judas Isgorogota
Cantiga de Cangaceiro
Cantador, saí menino,
cantando pelo sertão;
quando quiseram pisar-me,
pisei as pedras de chão...
Desde aí ganhei o mundo...
De noite, a minha viola,
de dia, o rifle na mão...
Onde estou, deitam comigo
na rede de estimação,
meu punhal e o tira-teima,
os dois no alcance da mão.
Para não perder o jeito,
a cartucheira cruzada
por cima do coração...
Cangaceiro, é no cangaço
que o meu destino me quer.
Comigo tenho de tudo,
para o que der e vier:
— carne-de-sol, rapadura,
meu beiju de mandioca,
fumo, cachaça e mulher...
O valente que me afronte
deve rezar com fervor,
e escolher reza pequena,
que eu não sou bom rezador.
Se me ouvir, não perde tempo:
eu tenho o corpo fechado,
morrer só morro de amor...
cantando pelo sertão;
quando quiseram pisar-me,
pisei as pedras de chão...
Desde aí ganhei o mundo...
De noite, a minha viola,
de dia, o rifle na mão...
Onde estou, deitam comigo
na rede de estimação,
meu punhal e o tira-teima,
os dois no alcance da mão.
Para não perder o jeito,
a cartucheira cruzada
por cima do coração...
Cangaceiro, é no cangaço
que o meu destino me quer.
Comigo tenho de tudo,
para o que der e vier:
— carne-de-sol, rapadura,
meu beiju de mandioca,
fumo, cachaça e mulher...
O valente que me afronte
deve rezar com fervor,
e escolher reza pequena,
que eu não sou bom rezador.
Se me ouvir, não perde tempo:
eu tenho o corpo fechado,
morrer só morro de amor...
1 360
Hadewijch de Antuérpia
Por mais tristes que estejam
I
Por mais tristes que estejam a estação e as avezinhas,
não pode está-lo o nobre coração.
Mas quem quiser afrontar os trabalhos de Amor
d´Ele só terá de aprender
- doçura e crueza,
alegria e dor –
o que é preciso experimentar para amar.
II
As almas orgulhosas que cresceram na dilecção
e sabem amar sem que nada as acalme,
devem ser em todos os tempos
fortes e ousadas,
sempre prontas a receber
consolo ou aflição
por bem de Amor apenas.
III
Estranhas são as vias do Amor:
e bem o sabe quem as quer seguir:
muitas vezes ele perturba o coração seguro:
quem ama não encontra constância.
Aquele a quem a Caridade
toca no fundo da alma
conhecerá muita hora de desolação.
IV
Ora ardendo, ora frio,
agora tímido e ainda há pouco ousado,
numerosos são os caprichos do Amor.
Mas a toda a hora ele nos lembra
a nossa imensa dívida
para com o seu alto poder,
que nos atrai e só a Ele nos destina.
V
Ora gracioso, ora terrível,
agora próximo e ainda há pouco distante:
para quem o conhece e nele confia
isto mesmo é alegria maior.
Como Amor
num só acto
fere e abraça!
VI
Ora humilhado, ora exaltado,
agora escondido, manifesto ainda há pouco,
para se ser um dia atingido pela dilecção
é preciso arriscar muita aventura –
antes de alcançar
aquele ponto em que se desfruta
da pura essência do Amor.
VII
Ora leve, ora pesado,
sombrio agora e claro ainda há pouco,
na doce paz, na sufocante angústia,
dando e recebendo –
dupla vida,
serve aos espíritos
que se perdem no amor.
(tradução de João Barrento)
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