Poemas neste tema

Paixão

Aires Teles

Aires Teles

Meu amor tanto vos quero

Meu amor tanto vos quero,
que deseja o coração
mil cousas contra a razão.
Porque, se vos não quisesse,
como poderia ter
desejo que me viesse
do que nunca pode ser?
Mas conquanto desespero,
e em mim tanta afeição,
que deseja o coração
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Geraldo Bessa-Victor

Geraldo Bessa-Victor

Quando surges na noite

Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...

Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Diálogo Amoroso

Voz de Murieta:
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.

Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.

Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.

Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.

Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.

Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?

Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.

Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.

Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.

Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.

Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.

Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.

Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.

Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.

Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.

Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.

“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.

Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.

Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.

Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.

Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.

Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Uma gota

Eu sinto os teus passos
Na escuridão
Pressinto o teu corpo
No ar, aqui
E vou como se o mundo todo fosse
Sugado pra dentro de ti
E não houvesse nada a fazer
Senão deixar-me ir

Pressinto os teus gestos
Quando não estás
Procuro os teus sonhos
Perdidos
E hoje mais que qualquer outra noite
Há qualquer coisa que me fere
E que me faz querer tanto ter-te aqui

Não importa
Se às vezes tudo é breve como um sopro
Não importa se for uma gota
De loucura
Que faça oscilar o teu mundo
E desfaça a fronteira
Entre a lua e o sol

Se um gesto cair assim
Despedaçado
Se eu não souber
Recolher a dor
Se te esperar a céu aberto
Onde se esconde
O que tu és que eu também sou
É que hoje mais que qualquer outra noite
Há qualquer coisa que me fere
E que me faz querer tanto ter-te aqui
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Tomaz Vieira da Cruz

Tomaz Vieira da Cruz

Mulata

Os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontraram na vida.

E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a esse estilo risonho
do teu corpo bronzeado...

Que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!

.............................................

A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
Teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...

Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

.............................................

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!
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Castro Alves

Castro Alves

Boa-Noite

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné;
C'était le rossignol et non pas l'alouette,
Dont le chant a frappé ton oreille inquiète;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.
SHAKESPEARE

Boa-Noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua —
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas de arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite! —, formosa Consuelo!...


São Paulo, 27 de agosto de 1868.

Publicado no livro Espumas flutuantes (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 122-123
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Felipe Vianna

Felipe Vianna

AO MEU AMOR

És bela,
Tão bela,
Que a rosa
Desbota.

Teu perfume
De flor
Causa ciúme
Ao amor.

A luz profunda
Do pôr-do-sol de abrolhos
Foi inspirada
Em teus olhos.

Teu amor
E a tua boca
São comparados
Ao incomparável.

Teu toque,
Teu gosto,
São igualáveis
Ao inigualável.

15/05/1996

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Hermes Fontes

Hermes Fontes

XIX [Pouco acima daquela alvíssima coluna

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou, vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros — hóstias ideais dos meus anseios,
e t o d o s cheios, t o d o s cheios
do meu infinito amor . . .
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

Publicado no livro Apoteoses (1908). Poema integrante da série Apoteose do Amor.

In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.964. (Literatura brasileira, 12
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Angela Santos

Angela Santos

As Tuas Mãos

Nas
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo

Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las

As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto

As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.

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Capinan

Capinan

Soy Loco Por Ti, America, 1967

Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira

Imagem - 02540002


In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978

NOTA: Parceria com Gilberto Gil e Torquato Net
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Variação celeste

Colhi a flor de um relâmpago
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.

Pus essa flor no negro
lago dos teus olhos, e as suas
raízes estenderam-se pelo fundo
da tua memória até esse dia em que
a lava do início te inundou.

E percorri com o tempo
de uma vela de moinho o arco
das tuas sobrancelhas, procurando
na sua margem o pórtico
dos teus lábios.


Nuno Júdice | "A Convergência dos Ventos", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 2015
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Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

Soneto 23

Miguel Hernandez

Como o touro nasci mas para o luto
e a dor, e como o touro estou marcado
por um ferro infernal no meu costado,
por varão na virilha com um fruto.

Como o touro parece diminuto
tudo a meu coração desmesurado
e do beijo em teu rosto enamorado
como o touro de amor sonho e disputo.

Como o touro só cresço no castigo,
a língua no meu sangue anda banhada,
trago ao pescoço um vendaval sonoro.

Como o touro te sigo e te persigo,
e deixas meu desejo numa espada
como o touro enganado, como o touro.


Poema integrante da série Poemas Traduzidos.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971.

NOTA: Tradução de poema de Miguel Hernandez
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Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo

Declaração de Amor

Tentei
dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.

Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber falar.

Tentei de novo, lembro bem, na escola.

Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.

Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.

A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada. E você não disse nada.

Só mais tarde, de ressaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma almofada.

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:

No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.

Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.

Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem faço um soneto"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o asseio que se
lixe, todo o meu amor para a tua ciência.

Fui preso, aos socos, e fichado.

Dias e mais dias interrogado: era PC, PC do B ou alguma dissidência?

Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma carinha
nem um cartão, nem uma linha!
Vá se confiar no Correio Nacional.

Com uma serenata, sim, uma serenata como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada...
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.

Decidi, então, botar a maior banca no céu escrever com
fumaça branca: "Te amo, assinado.." e meu nome bem
legível. Já tinha avião, coragem, brevê, tudo
para
impressionar você mas veio a crise, faltou o combustível.

Ontem você me emprestou seu ouvido e na discoteca, em
meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada e você disse "Não
escuto banda". Disse "eu não escuto nada".
Curta é a vida, longa é a paixão.

Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um silêncio
abençoado direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então empinando a orelha com
a mão você me responda só: "Hein?"
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António Feijó

António Feijó

Salgueiro

Adoro esta mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída…
- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas distraída.

Tambem adoro a brisa do Levante
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental…
- Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel no lago de cristal.

E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa de um nome idolatrado
Que essa jovem mulher n’ela escreveu
Com a doirada agulha do bordado…
E esse nome… era o meu !

1 978 1
Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Janelas

Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 318 1
Bocage

Bocage

A frouxidão no amor é uma ofensa

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.

4 602 1
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

Moço Bonito

obs: neste poema, o poeta se traveste
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.

Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz

Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes

Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca

Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.

Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,

Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.

Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...

2 099 1
Flora Figueiredo

Flora Figueiredo

Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo.

3 157 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhos de veludo falso

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
1 548 1
Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Que me venha esse homem

Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco.

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Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

De onde chegam estas palavras?

De onde me chegam estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.

E não havia um nome para a tua ausência.

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.

Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
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Olga Savary

Olga Savary

Caiçuçáua

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.


In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.

NOTA: Do tupi = amor, amad
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Juan Gelman

Juan Gelman

Oração

Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um como meu sangue.
Tua boca entre em minha boca.
Teu coração aumente o meu até estalar.
Desgarra-me.
Caias inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos em minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés.
Arde-me, arde-me.
Cobre-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito.
Que já não posso mais assim, com esta sede
queimando-me.
Com esta sede queimando-me.
A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.
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Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Tu que nunca serás

Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.

Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado...

Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio

E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

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