Poemas neste tema

Amor Romântico

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Marie-claude

Quelque chose de doux, três doux,
Três (j em ai Pâme toute chaude)
Sinsinue en moi tout à coup:
C'est que je pense à Marie-Claude.
1 018
José Fernandes Fafe

José Fernandes Fafe

Sonho

A sua presença de mulher foi-se ausentando...
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...

Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...

Pudor na sua alma ou nos meus dedos?

Como é indizível essa experiência de morrer!

O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.

973
Jacinto Freire de Andrade

Jacinto Freire de Andrade

A um Mosquito

Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.

Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.

Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.

Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.

Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.

Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.

Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.

E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.

546
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A folha insciente, antes que a própria morra

A folha insciente, antes que a própria morra
        Para nós morre, Cloé,
Para nós, que sabemos que ela morre
        Assim, Cloé, assim
Antes que os próprios corpos, que empregamos
       No amor, ela envelhece.
Assim, diversos, somos, inda jovens,
        Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos é sempre isto, e apenas
        Uma hora é o que somos,
Com tal fúria nessa hora nos usemos
        Que arda sua lembrança
Como vida, e nos beijemos, Cloé,
        Como se, findo o beijo
Único, houvesse de ruir a súbita
       Mole do morto mundo.
957
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que grande tristeza

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
1 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ouvi-te cantar de dia.

Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
1 443
Evandro Moreira

Evandro Moreira

Proserpina

Quero perder-me em teu abraço forte,
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.

Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.

Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.

Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!

945
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Clara de Andrade

Trago n'alma a devoção
Da mais pura claridade.
Clara d'Ellébeuse? Não!
Clara, mas Clara de Andrade.
1 043
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tens o leque desdobrado

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.
1 291
Camila Sintra

Camila Sintra

Geometria dos corpos

A menor distância
entre dois pontos
está na conjunção
de nossos corpos
que se atraem na razão inversa
da razão e do verso.

Beija meus senos
percorre minha hipotenusa
para te perderes no triângulo
molhado sob minhas bermudas
e descobrir minhas incógnitas
me rasgando com teu cateto.

Encaixa teu cilindro
em meu cone que te precisa
e acha, usa e abusa,
descobre o meu ponto G...

Encontra a quadratura do círculo
na curva de meus quadris.

1 157
João dos Sonhos

João dos Sonhos

Ascensão

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

946
Lúcia Afonso

Lúcia Afonso

Não há partes prediletas

Não há partes prediletas de teu corpo
que me excitem os sentidos
e me façam
as pupilas e a vagina mais molhadas,
como pedaços de um ícone quebrado.

Te quero pleno, inteiro e articulado
se enroscando em meus pedaços, a dar-me
uma visão inteira de mim mesma,
no espelho abissal de teu abraço.

Não há partes prediletas de teu corpo,
pois o que seria de mim, sob teu peso,
ao sentir teu pênis meu e teso
sem, antes, um afago nos cabelos?

Não há partes no todo predileto
de teu corpo, lábios, nuca,
a pequena marca sobre o peito,
mamilos, calcanhares, a garganta.

Partes...
e inteiro
me ficas, predileto,
no teu cheiro espalhado sobre a cama.

884
Liz Christine

Liz Christine

Apaixonada

Como posso me sentir
Ridicularizada
Por estar apaixonada?
Tenho mais é que sorrir
Porque o amor é tão lindo
Mesmo quando não correspondido
E não mais temo
Esse amor que tenho
Porque é maravilhoso
Desejar
E ser amado
E delicioso
No simples beijar
Eletrizado, extasiado
Sorrindo e repetindo
Esse amor, paixão, tem nome

E se digo palavrões
E se chego a escrever
Algumas baixarias
É pela intensidade das emoções
E se falo em fuder
É porque doces poesias
Belos poemas declamados
Não podem traduzir
A intensidade dos apaixonados
Palavras formais
Me fode com violência
Tesão, sadismo
E indecência
Te amo demais
Te amo com paixão
É assim meu romantismo
Meu doce, sincero palavrão
Te amo com tesão
Amo, amo e chamo
Venha me fuder
Venha me dizer
Que me ama
De verdade
E que sou sua putana
Com total fidelidade

Fidelidade
É sempre dizer
A verdade
E você já deve saber
Que é minha única paixão
E está tão além do simples tesão

Você é tesão complexo
Mais que sexo
É amor único
Te amo, te amo e te chamo
Venha me fuder
Venha me satisfazer
Venha me completar
Só você pode me penetrar
E só você eu posso amar

1 128
Vando Coutinho

Vando Coutinho

Anal

Nesta transa sem igual,
agindo como animal,
mas sendo mais racional,
já sei o nosso final:
beijinhos mil e pau-pau!
Rotina muito normal
na vida a dois de um casal;
camisetas no varal,
camisinhas no quintal...

1 387
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu amor é fragateiro.

Meu amor é fragateiro.
Eu sou a sua fragata.
Alguns vão atrás do cheiro,
Outros vão só pela arreata.
1 864
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Sumo

tê-la inteira
na sensação palmar
dos seus seios;
deixar eriçados
os desejos,
borbulhante a paixão.

em seu suculento
momento
sou suco-sumo,
um corpo friável,
deslizante sensual.

e você
folheia Joyce
na manhã em que
escuros
deixam claros
gozos,
ecoados na
escuridão do quarto.

1 005
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai longe, na serra alta,

Vai longe, na serra alta,
A nuvem que nela toca...
Dá-me aquilo que me falta —
Os beijos da tua boca.
913
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Maçã-do-amor

abrir pétalas com
a língua
explorar
seus cheiros e sabores

levar seu néctar
para além desse momento
para colmeias
perdidas no inconsciente

nos momentos em que
nada valer a pena
ou quando você não estiver
mais presente
minha língua
lamberá a lembrança
como lambemos aquela
maçã-do-amor

lembra-se?

1 052
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Verlaine

Não te posso dar flor nem fruto. Folha ou galho
Sim. Folha e não será de álamo ou tília fina.
Folha do mato, mas cheirosa de resina,
Levando à tua glória uma gota de orvalho.
1 240
José Gelbcke

José Gelbcke

Branca

Noiva, deixa beijar as tuas mãos pequenas,
Nascidas para estar em regalos de arminho;
São mais alvas, talvez, que o teu leque de penas
E mais puras, eu sei, do que as sedas dum ninho.

Sou mendigo de amor, elas são Madalenas,
Feitas só para andar de carinho em carinho.
Vamos juntos partir pelo mesmo caminho,
De pousadas em flor, de tapiz de açucenas.

Ao tirá-las assim dentre rendas e plumas,
Julgo ver repetir-se a apoteose do belo,
Anfitrite surgindo outra vez das espumas.

Hóstias brancas de amor, deixa agora beijá-las,
Mãos gentis que eu adoro e entre as minhas anelo
Flor de neve polar, lélia ebúrnea das salas.

929
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando a manhã aparece

Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.
1 961
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Elisa

Dizem os lábios
O que está dentro
Do coracão?

— Na face lisa
Dir-te-ão meus lábios
À mesma coisa
Que trago dentro
Do coração,
Elisa.
1 132
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

batalha final

se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos

quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo

os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado

e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...

Goulart Gomes, Salvador, BA

928
Douglas Mondo

Douglas Mondo

Soneto do ladrão amado

Arrombo a janela do teu quarto
conheço teus segredos de mulher
sei dos teus gemidos ansioso aguardo
bebo da tua voz que me pede e quer

Sussurro palavras onduladas de amor
com salivas suadas levadas pra beber
sinto o perfume e a flagrância da flor
me aninho no teu ninho sou teu bem-querer

Entro volto penetro sou homem maduro
tenho mãos de poeta de dia sou poesia
de noite profano tua alma e te engulo

Amo só na mão com teu corpo não
tua voz ouço não te vejo e alcanço
estou louco não contigo sou santo

956