Poemas neste tema

Nostalgia

Teruko Oda

Teruko Oda

Outono

Volto a ser criança
Em cada trouxinha de palha
Que esconde a pamonha!

No céu cristalino
A lua cheia de outono
parece sorrir.

1 221
Olegario Schmitt

Olegario Schmitt

Imagens

Naquele prado verde
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...

Que mais posso sentir
senão querer lá estar?

901
Luís Palma Gomes

Luís Palma Gomes

Lugar nenhum

Há afinal um lugar para nós,
a salvo dos novos deuses,
um lugar onde o tempo foi um rio
e o rio, uma película incolor

Por detrás da vida
e dos velhos olhos
há ainda um lugar assim
onde iremos finalmente ver
e sem cuidados caminhar
nos pedais da nossa infância

1 188
Otacílio de Azevedo

Otacílio de Azevedo

Carro de Boi

Rodam, tardas, gemendo, as rodas, arrastando
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...

A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.

Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...

Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.

1 284
Oscar Rosas

Oscar Rosas

Sereia

Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.

Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.

Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.

E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.

1 317
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A doce pátria

A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
1 142
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IX

É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?

Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?

De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?

Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?

Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
1 139
Marcolino Candeias

Marcolino Candeias

Aqui não tem sabiá

Para a Deka

Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias

(Montréal, Novembro, 1990)

1 443
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Serenata de Paris

Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.

Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.

Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
507
João Quental

João Quental

Os Salmões

Olhos que pela primeira vez vêm: uma sala
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.

Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.

Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.

Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.

(1988)

818
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Regresso

Amor meu, no mar navegamos de volta à raça,
à herança, ao vulcão e ao recinto, ao idioma adormecido
que nos saía pela cabeleira nas terras alheias:
o mar palpitava como uma nutriz repleta,
os seios atlânticos sustêm o mínimo navio dos passageiros
e apenas sorriem os desconhecidos bebendo substâncias geladas,
trombones e missas e máscaras, comidas rituais, rumores,
cada um se amarra a seu olvido com sua predileta corrente
e os cochichos do dissimulado de orelha furtiva
o cesto de ferro nos leva apalpando e cortando o oceano.
1 004
Sânzio de Azevedo

Sânzio de Azevedo

Se Procuro

Para José Valdivino

Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...

O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?

Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!

E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!

1 050
Sebastião Corrêa

Sebastião Corrêa

Reminiscência

À hora pensativa da tarde,
Quando é quietude a terra e o céu miragem,
Quando, na voz do vento, a alma de Schubert
Soluça uma elegia,
Irmã das sombras, solitária e fria,
Vem a Saudade me falar de ti.

Recordo... Era no outono... As folhas amarelas,
Trêmulas e tímidas, bailando,
Fugiam no amplo cenário da tristeza...
Tuas mãos níveas
Tive-as
Entre as minhas mãos,
Num triste adeus, quando a noite
"Com seu cortejo de monstros", veio
Nos separar,
E ai de nós! nunca mais
Nos pudemos encontrar!

À hora pensativa da tarde,
Quando, na voz do vento, a alma de Schubert
Soluça uma elegia,
Que embala a terra e os céus,
Eu bendigo a Saudade
Que me fala de ti, que me transporta
Ao coração de Deus.

765
Sânzio de Azevedo

Sânzio de Azevedo

Soneto

Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...

Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!

Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...

Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...

1 115
Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

O Batuque

Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.

1 041
Augusto Frederico Schmidt

Augusto Frederico Schmidt

Soneto Cigano

Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.


Publicado no livro Mar desconhecido (1942).

In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 334
Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

O Ermo

Quae sint, quae fuerint, quae sunt ventura, trahentur.
VIRGÍLIO


I

Ao ermo, ó musa: — além daqueles montes,
Que, em vaporoso manto rebuçados,
Avultam lá na extrema do horizonte...
Eia, vamos; — lá onde a natureza
Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,
Qual moça indiana, que as ingênuas graças
Em formosa nudez sem arte ostenta!...
Lá onde a solidão ante nós surge,
Majestosa e solene como um templo,
Em que sob as abóbadas sagradas,
Inundadas de luz e de harmonia,
Êxtase santo paira entre perfumes,
E se ouve a voz de Deus. — Ó musa, ao ermo!...

Como é formoso o céu da pátria minha!
Que sol brilhante e vívido resplende
Suspenso nessa cúpula serena!
Terra feliz, tu és da natureza
A filha mais mimosa; — ela sorrindo
Num enlevo de amor te encheu d'encantos,
Das mais donosas galas enfeitou-te;
Beleza e vida te espargiu na face,
E em teu seio entornou fecunda seiva!
Oh! paire sempre sobre os teus desertos
Celeste bênção; bem-fadada sejas
Em teu destino, ó pátria; — em ti recobre
A prole de Eva o Éden que perdera!

(...)

IV
(...)

Sim, ó virgem dos trópicos formosa,
Nua e singela filha da floresta,
Um dia, em vez da simples arazóia,
Que mal te encobre o gracioso talhe,
Te envolverás em flutuantes sedas,
E abandonando o canitar de plumas,
Que te sombreia o rosto cor de jambo,
Apanharás em tranças perfumadas
A coma escura, e dos donosos ombros
Finos véus penderão. Em vez da rede,
Em que te embalas da palmeira à sombra,
Repousarás sobre coxins de púrpura,
Sob dosséis esplêndidos. — Ó virgem,
Serás então princesa, — forte e grande,
Temida pelos príncipes da terra;
E de brilhante auréola cingida
Sobre o mundo alçarás a fronte altiva!
Mas, quando em tua mente revolveres
As memórias das eras que já foram,
Lá quando dentro d'alma despertares
Do passado lembranças quase extintas,
Dos bosques teus, de tua rude infância
Talvez terás saudade.

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Publicado no livro Cantos da Solidão: poesias do bacharel Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1852).

In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959

NOTA: Poema composto de 4 parte
2 200
Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Velha Fazenda - III

— "... Vi um por um, oh! provação tremenda!
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.

A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.

Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!

Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!

Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.

Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!

Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,

A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.

Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;

Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.

Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.

Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.

Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono

Barco largado na tensão do rio."


Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 458
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Longe E Nítidos Caminham Os Caminhos

Longe e nítidos caminham os caminhos
Duma aventura perdida.
Próxima a brisa
Abre-se no ar.

É o azul e o verde e o fresco duma idade
Morta mas que regressa
Com os seus claros cavalos de cristal
Que se vão esbarrar no horizonte.
1 815
Delores Pires

Delores Pires

Outono

Imersa em neblina
a cidade se reveste
de um tom nostalgia.

1 096
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lagos Ii

I

Lagos onde reinventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente

Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido
II

Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
O puro dom de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente
III

Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
— Como pode meu ser ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?
IV

Ou poderemos Abril ter perdido
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?

Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente

E sua luz de prumo e de projecto?
1975
2 560
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La vuelta

Al cabo de los años del destierro
volví a la casa de mi infancia
y todavía me es ajeno su ámbito.

mis manos han tocado los árboles
como quien acaricia a alguien que duerme
y he repetido antiguos caminos
como si recobrara un verso olvidado
y vi al desparramarse la tarde
la frágil luna nueva
que se arrimó al amparo sombrío
de la palmera de hojas altas,
como a su nido el pájaro.

¡Qué caterva de cielos
abarcará entre sus paredes el patio,
cuánto heroico poniente
militará en la hondura de la calle
y cuánta quebradiza luna nueva
infundirá al jardín su ternura,
antes que vuelva a reconocerme la casa
y de nuevo sea un hábito!



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 38 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Montevideo

Resbalo por tu tarde como el cansancio por la piedad de un declive.
La noche nueva es como un ala sobre tus azoteas.
Eres el Buenos Aires que tuvimos, el que en los años se alejó quietamente.
Eres nuestra y fiestera, como la estrella que duplican las aguas.
Puerta falsa en el tiempo, tus calles miran al pasado más leve.
Claror de donde la mañana nos llega, sobre las dulces aguas turbias.
Antes de iluminar mi celosía tu bajo sol bienaventura tus quintas.
Ciudad que se oye como un verso.
Calles con luz de patio.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 71 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La promisión en alta mar

No he recobrado tu cercanía, mi patria, pero ya tengo tus estrellas.
Lo más lejano del firmamento las dijo y ahora se pierden en su gracia los mástiles.
Se han desprendido de las altas cornisas como un asombro de palomas.
Vienen del patio donde el aljibe es una torre inversa entre dos cielos.
Vienen del creciente jardín cuya inquietud arriba al pie del muro como un agua sombría.
Vienen de un lacio atardecer de provincia, manso como un yuyal.
Son inmortales y vehementes; no ha de medir su eternidad ningún pueblo.
Ante su firmeza de luz todas las noches de los hombres se curvarán como hojas secas.
Son un claro país y de algún modo está mi tierra en su ámbito.


"Luna de enfrente"(1925)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 75 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 371