Noite e Lua
Vinicius de Moraes
Sacrifício da Aurora
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.
Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.
Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.
Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida...
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!
Manoel Herzog
FIM DE NOITE
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
Mário Faustino
Alba
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
"Levanta patife, sus!
Vê, já reluz
A luz
Depressa, corre,
Que a noite morre..."
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Juião Bolseiro
Sem Meu Amigo Manh'eu Senlheira
e sol nom dormem estes olhos meus,
e, quant'eu posso, peç'a luz a Deus
e nom mi a dá, per nulha maneira,
mais, se masesse com meu amigo,
a luz agora seria migo.
Quand'eu com meu amigo dormia,
a noite nom durava nulha rem,
e ora dur'a noit'e vai e vem,
nom vem [a] luz nem parec'o dia,
mais, se masesse com meu amigo,
a luz agora seria migo.
E segundo com'a mi parece,
u migo mam meu lum'e meu senhor,
vem log'a luz, de que nom hei sabor,
e ora vai noit'e vem e crece;
mais, se masesse com meu amigo,
a luz agora seria migo.
Pater Nostrus rez'eu mais de cento
por Aquel que morreu na vera cruz,
que el mi mostre mui ced[o] a luz,
mais mostra-mi as noites d'Avento;
mais, se masesse com meu amigo,
a luz agora seria migo.
Juião Bolseiro
Da Noite D'eire Poderam Fazer
grandes três noites, segundo meu sem,
mais na d'hoje mi vẽo muito bem,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh'ouvisse dizer rem,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E pois m'eu eire senlheira deitei,
a noite foi e vẽo e durou,
mais a d'hoje pouco a semelhou,
ca vẽo meu amigo,
e, tanto que mi a falar começou,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E comecei eu eire de cuidar
[e] começou a noite de crecer,
maila d'hoje nom quis assi fazer,
ca vẽo meu amigo,
e, faland'eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.
Matilde Campilho
Ascendente Escorpião
(rua 28, cruzamento com a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa na loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto — tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o camião varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de póquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de ténis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
o aleluia da existência ocidental:
centenas de homens vergados
fazendo vénia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola
até ao infinito lunar
Ribeiro Couto
Viola Caipira no Sítio Vista Alegre
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
Martha Medeiros
este sol não me engana
tá se pondo pra me pôr na cama
Juião Bolseiro
Aquestas Noites Tam Longas Que Deus Fez Em Grave Dia
por mim, por que as nom dórmio, e por que as nom fazia
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
Porque as fez Deus tam grandes, nom posso eu dormir, coitada,
e, de como som sobejas, quisera-m'outra vegada
no tempo que meu amigo
soía falar comigo.
Porque as Deus fez tam grandes, sem mesura, desiguaes,
e as eu dormir nom posso, por que as nom fez ataes
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?
Martha Medeiros
quando começam as pontadas
fico paralisada de medo
raio x dos meus devaneios
motivos de sobra pra doer
a febre aumenta a cada emoção
as batidas aceleram ao ouvir teu sono
sei que dormes enquanto agonizo
eu te odeio na escuridão
eu sei
é impossível sofrer a dois
de nada adiantaria tua preocupação
minha hora chega lentamente
e eu não pretendo te acordar
pra não te ver branco e sem voz
a me dizer adeus
eu não durmo, aterrorizada
porque a danada vem me buscar esta noite
eu espero, lingerie e lágrima
convulsão e testa suada
cabelos molhados, encharcados, pavor
são 4:20 da madrugada escolhida
hoje ela vem, hoje eu sei que vou
mas sem despertá-lo para o pesadelo
em que estou
é hora agora
o arrepio chega mansinho, meu corpo
esparrama
e na cama
me vem a definitiva surdez.
.
.
quinze pras oito da manhã
ainda não foi dessa vez
Martha Medeiros
à noite
todos os gatos são pardos
e raros
perdida na noite procuro
leopardos
esses homens secretos que fogem
no escuro
António Ramos Rosa
Mediadora do Corpo
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Hélia Correia
1.
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
Carlos Drummond de Andrade
Canção Para Ninar Mulher
que vem lá de longe,
olha e fica quietinha.
Olha a lua nascendo
atrás daquela porta.
Tem um gato, um passarinho,
um anel de brilhante,
todos três para você.
Dorme, que eu te dou
um vestido, um país,
te dou. . . ah isso não dou não.
Dorme que o gatuno
de olho de vidro
e smoking furtado
subiu na parede
para te espiar.
Dorme devagar.
Dorme bem de manso,
senão eu te pego,
te dou um abraço
e te espinho toda.
(Eu não sou daqui,
sou de outra nação,
eu não sou brinquedo.)
Dorme na Argentina,
dorme na Alemanha
ou no Maranhão,
dorme bem dormido.
Dorme que o capeta
está perguntando
quede a mulher acordada,
para dormir com ela.
Daniel Jonas
BENGALEIRO OU HORACIANAS
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.
Cida Pedrosa
CÉU DE CONFEITEIRO
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
António Ramos Rosa
Mediadora Apagada
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se
na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha
propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.
António Ramos Rosa
Mediadora da Sombra
da sombra,
a que circula sem nome
portas sobre
portas.
A que dissemina a sombra
de um incêndio.
A que procura
uma nocturna
pedra.
A que segue
paralelamente à água.
Procura sombra, mais sombra.
Charles Bukowski
Um Poema Para a Armadura Peitoral
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
José Tolentino Mendonça
Arte Americana do Século XX
O homem levanta-se e fala por longo tempo
condescendente a cada repetição
Podia ser um cônsul errante
podia forçar a memória a soltar
a enseada, a estação ou o trilho
mas para entregar-se à luz
é preciso ser devorado por ela
e aparentemente ele depende disto
que vai repetindo:
«não que não te deseje boa sorte
para resolveres este sarilho.»
Duas horas depois está à janela
sem conseguir dormir
Há uns miúdos em algazarra mesmo ao seu lado
e dá-lhes tempo para se afastarem
pois falharia à primeira pergunta
que alguém fizesse
O luar apanha o rebentar da onda
quando ela se aproxima
e durante esses instantes
é como se a natureza ficasse ao contrário
e o tempo com ela
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
Nuno Júdice
Deus
À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
- e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.