Poemas neste tema
Nação e Patriotismo
Noel de Arriaga
Lisboa
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
1 050
Pablo Neruda
A doce pátria
A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
1 142
Pablo Neruda
Canto VII - Canto Geral do Chile
Eternidade
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
1 364
Pablo Neruda
O desterro
Porque, bem-amada, é o homem que canta o que morre morrendo sem morte
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
1 138
Pablo Neruda
País
Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
559
Castro Alves
Hino Patriótico
Letra do hino de Emílio do Lago,
em agosto de 1868, entoado nos festejos
populares em S. Paulo pela conquista de Humaitá.
NÃO ouvis como um grito de fogo
Rasga ardente este éter azul? (Bis)
É a voz da vitória qu’irrompe
Das montanhas, dos vales do sul. (Bis)
CORO
GLÓRlA! Glória! Brasil. Lá no Prata
O teu povo gigante venceu!...
Ergue vivo a bandeira nos ares,
Ergue morto a mortalha no céu...
Águia altiva dos Andes descida
Pelos pampas em brasa roçou;
E coa ponta das asas possantes
Mais um povo do mundo apagou!
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Salve grandes soldados! Gigantes
Que a montanha da glória escalais,
E lembrados da voz do IPIRANGA
"Liberdade" no Prata clamais...
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Quanto louro coo sabre cortado!
Quanta glória entre a luz do fuzil!
Tuas sombras são louros — ó Pátria!
É teu sol a metralha — Brasil!
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Salve pois legiões aguerridas
Que a vitória coo sangue alcançais...
Cada gota de sangue de um bravo,
É uma estrela dos pátrios anais.
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
em agosto de 1868, entoado nos festejos
populares em S. Paulo pela conquista de Humaitá.
NÃO ouvis como um grito de fogo
Rasga ardente este éter azul? (Bis)
É a voz da vitória qu’irrompe
Das montanhas, dos vales do sul. (Bis)
CORO
GLÓRlA! Glória! Brasil. Lá no Prata
O teu povo gigante venceu!...
Ergue vivo a bandeira nos ares,
Ergue morto a mortalha no céu...
Águia altiva dos Andes descida
Pelos pampas em brasa roçou;
E coa ponta das asas possantes
Mais um povo do mundo apagou!
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Salve grandes soldados! Gigantes
Que a montanha da glória escalais,
E lembrados da voz do IPIRANGA
"Liberdade" no Prata clamais...
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Quanto louro coo sabre cortado!
Quanta glória entre a luz do fuzil!
Tuas sombras são louros — ó Pátria!
É teu sol a metralha — Brasil!
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
Salve pois legiões aguerridas
Que a vitória coo sangue alcançais...
Cada gota de sangue de um bravo,
É uma estrela dos pátrios anais.
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata, etc.
2 284
Castro Alves
Pesadelo de Humaitá
Poesia recitada no Rio de Janeiro.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
2 145
Pablo Neruda
IX. As naves nasceram
Lord Cochrane estuda, examina, dirige, resolve, recolhe ao azar do caminho
os homens que a terra amarga, molhada de sangue, lhe entrega,
sobe-os à nave, batiza seus olhos terrestres com águas navais,
dirige os braços chilenos do mar até então imóvel,
coloca a insígnia de comando e a nova bandeira no áspero vento.
As naves nasceram. Os olhos de Cochrane navegam, indagam, espreitam.
os homens que a terra amarga, molhada de sangue, lhe entrega,
sobe-os à nave, batiza seus olhos terrestres com águas navais,
dirige os braços chilenos do mar até então imóvel,
coloca a insígnia de comando e a nova bandeira no áspero vento.
As naves nasceram. Os olhos de Cochrane navegam, indagam, espreitam.
927
José Costa Matos
A Vida
A vida não dá presentes.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.
A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.
Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.
A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.
Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.
1 003
Pablo Neruda
VIII. Um homem no Sul
Chegou o marinheiro! Os mares do Sul acolheram o homem que fugiu da névoa
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
1 016
José Castello
Benedito Nunes ensina o caminho de volta
Crítico paraense defende a radicalidade dos escritores para afirmar grandeza da Amazônia.
Felix Delatour é um professor bretão, circunspecto e quase albino que vive escondido em um sobrado de Manaus. Ele sofre de uma trágica doença que praticamente o imobiliza: o gigantismo. Sobrevive, em seu abafado exílio, ministrando aulas de francês. Em sua sala, despida de qualquer lembrança do passado europeu, há apenas uma mesa de madeira e duas cadeiras de vime. Do lado de fora, com suas ondas de calor e nuvens de mosquitos e sempre indiferente aos requintes da língua, está a Amazônia. Diante de um jovem aluno, Delatour certa vez fez uma importante reflexão sobre seu destino de exilado. "A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar", disse. "A voz do verdadeiro viajante ecoa no rio silencioso do tempo."
Felix Delatour, esse profeta da distância e do silêncio como métodos fundamentais para o conhecimento, é um personagem de Reflexão sobre uma Viagem sem Fim, um conto (leia íntegra na página ao lado) do escritor amazonense Milton Hatoum, recentemente publicado pela Revista da USP.
O conto é dedicado ao eminente crítico literário e filósofo paraense Benedito Nunes, que vive na vizinha Belém do Pará. Como nos contos de Adolfo Bioy Casares, em que os primeiros parágrafos servem apenas para driblar a atenção do leitor, prometendo-lhe o que não lhe dará, é Benedito Nunes - e não Delatour - quem nos interessa aqui.
A dedicatória, que Milton Hatoum firmou com orgulho, não é mera formalidade. Aos 65 anos, freqüentador assíduo do meio intelectual francês e norte-americano, o paraense Benedito Nunes poderia dizer, sem medo de errar, que também para ele as viagens servem para purificar a visão. Professor da Universidade do Pará e prestigiado conferencista e ensaísta, Benedito Nunes faz muitas viagens, mas retorna sempre a Belém, onde nasceu e nunca deixou de viver.
Ao contrário de Delatour, o professor jamais permitiu que os prazeres do exílio o imobilizassem. Para ele, as viagens apontam sempre para o momento de retorno ao porto de origem. É na volta - novos olhos diante de velhas paisagens - que a aventura da viagem atinge seu apogeu.
Com o espírito depurado pelas aventuras intelectuais no Exterior, Benedito Nunes defende, no entanto, uma visão não-regionalista da região amazônica, que a livra das fantasias românticas e das ilusões de inocência virginal. "Não sou uma planta nativa", diz.
Nesta entrevista, Benedito Nunes defende a radicalidade de outros escritores e poetas contemporâneos que, exatamente como ele, conseguiram afirmar a grandeza da Amazônia, sem, no entanto, ceder à força inebriante dos mitos. Admira, por isso, o Márcio Souza de Galvez, o Imperador do Acre, mas já não tem o mesmo entusiasmo por seus romances seguintes. Enaltece as qualidades de escritores e poetas nortistas pouco lidos no sul do País, como Dalcídio Jurandir e Age de Carvalho. E se confessa, fechando o círculo, admirador incondicional do amazonense Milton Hatoum, um ficcionista que, como ele, aprendeu a ver a distância como a forma mais eficaz da proximidade.
Caderno 2 - O senhor é um intelectual extremamente fiel à região amazônica. Não paga um caro preço por essa fidelidade?
Benedito Nunes - Não. Se é isso o que você quer saber, mesmo aqui jamais perco contato com o que se passa no resto do mundo. Tenho sempre me afastado da Amazônia, mas são afastamentos por tempo determinado, com volta fixa e garantida. Minha temporada mais longa no Exterior ocorreu na segunda metade dos anos 60, quando fui leitor em Rennes, na França. Depois, nos anos 80, retornei à França por mais um ano, já como professor. Tenho viajado freqüentemente a Paris e aos Estados Unidos, em particular a Austin, no Texas, para aulas, conferências e debates. Mas faço sempre um movimento de saída e retorno, que é importante porque me confere certo afastamento, sem que os vínculos se quebrem. Não tendo uma radicação extrema ao meio, posso pensar com mais independência e vigor. As viagens me fortalecem.
Caderno 2 - O senhor não se sente isolado em relação ao resto do País? Convites para lecionar em grandes capitais brasileiras, certamente, não lhe faltam.
Nunes - Mas prefiro permanecer aqui. Não me sinto isolado em Belém do Pará simplesmente porque sou um homem que gosta do isolamento. No Pará tenho muitas relações, muitos amigos, é bom dizer. Mas conservo também, é verdade, a distância e a calma que, para mim, são condições fundamentais para o trabalho intelectual. Vivo sim em um certo isolamento que não deve ser confundido, no entanto, com insulamento. Não estou incomunicável e não é uma fuga. A distância geográfica, ao contrário, me proporciona um refúgio, para o qual posso sempre retornar em segurança. Mas não sou uma planta nativa, presa definitivamente à floresta. Talvez por isso eu entenda a região amazônica sem precisar do apoio dos localismos. Prefiro falar, por exemplo, em uma literatura "da Amazônia" e não em literatura "amazônica", denominação que inclui uma perspectiva regionalista. Ao falar em literatura "da Amazônia", estou me referindo apenas a uma origem, uma procedência e nada além disso.
Caderno 2 - Quem são, segundo sua avaliação, os grandes prosadores vivos dessa literatura da Amazônia?
Nunes - Temos de falar, primeiro, de Haroldo Maranhão. Ele se mudou há muitos anos para o Rio, mora atualmente em Juiz de Fora, mas tem uma escrita que é muito paraense. Embora com um círculo de leitores bastante restrito, Haroldo é, há algumas décadas, uma figura-chave para a literatura amazônica. Em 1946, ele foi o inventor do suplemento literário da Folha do Norte, de Belém, um importante jornal que não existe mais, com o qual colaboraram não apenas escritores da região, mas também poetas como Bandeira, Cecília e Drummond. O suplemento durou até meados de 1951, mas, antes disso, surgiu um outro, igualmente importante, editado semanalmente pelo jornal A Província do Pará. Foi nesse caderno que Mário Faustino começou sua carreira de escritor, publicando crônicas no estilo de Rubem Braga.
Caderno 2 - Quais são outros nomes injustamente esquecidos?
Nunes - Penso, por exemplo, em Dalcídio Jurandir, que começou ainda nos anos 40 com um romance chamado Chove nos Campos de Cachoeiro e não parou mais de escrever. Cachoeiro é uma cidade da Ilha do Maranhão, onde Dalcídio nasceu. De lá para cá, seus romances formam um imenso ciclo amazônico que guarda, no entanto, considerável distância das experiências regionalistas. São ficções que apresentam uma interiorização muito grande, cada vez mais densa; são, na verdade, as aventuras de uma experiência interior. Chego a pensar que o conjunto desses romances forma uma espécie de À La Recherche... escrita na Amazônica e que Dalcídio é, um pouco, o nosso Proust. Pois veja o paradoxo: ele sempre foi um escritor publicado no Sul, pela Martins, e só agora está sendo republicado lentamente em Belém, pela Cejup,uma pequena editora que se originou do Centro de Estudos Jurídicos da Universidade do Pará.
Caderno 2 - No Sul e no Sudeste falamos em literatura do Amazonas e pensamos imediatamente em Márcio Souza e seu Galvez, o Imperador do Acre. O que o senhor pensa desse livro?
Nunes - Você fala em Márcio Souza e eu penso em Benedito Monteiro, outro escritor paraense bastante esquecido, autor de dois livros, em particular, de que gosto muito: Verde Vago Mundo e O Minossauro. Ambos são escritores que fazem uma elaboração muito importante das experiências lingüísticas da Amazônia, da diversidade de línguas e perspectivas. São exemplos enfáticos de uma literatura não-regionalista, embora feita com matéria-prima da região. Não faz mais sentido pensar, hoje, em literatura regionalista. O regionalismo tem data certa: nasceu romântico, foi batizado pelo naturalismo e foi crismado em 30, pelos modernistas. Depois, se tornou crônico e, por fim, anacrônico. Os dois golpes de morte<
Felix Delatour é um professor bretão, circunspecto e quase albino que vive escondido em um sobrado de Manaus. Ele sofre de uma trágica doença que praticamente o imobiliza: o gigantismo. Sobrevive, em seu abafado exílio, ministrando aulas de francês. Em sua sala, despida de qualquer lembrança do passado europeu, há apenas uma mesa de madeira e duas cadeiras de vime. Do lado de fora, com suas ondas de calor e nuvens de mosquitos e sempre indiferente aos requintes da língua, está a Amazônia. Diante de um jovem aluno, Delatour certa vez fez uma importante reflexão sobre seu destino de exilado. "A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar", disse. "A voz do verdadeiro viajante ecoa no rio silencioso do tempo."
Felix Delatour, esse profeta da distância e do silêncio como métodos fundamentais para o conhecimento, é um personagem de Reflexão sobre uma Viagem sem Fim, um conto (leia íntegra na página ao lado) do escritor amazonense Milton Hatoum, recentemente publicado pela Revista da USP.
O conto é dedicado ao eminente crítico literário e filósofo paraense Benedito Nunes, que vive na vizinha Belém do Pará. Como nos contos de Adolfo Bioy Casares, em que os primeiros parágrafos servem apenas para driblar a atenção do leitor, prometendo-lhe o que não lhe dará, é Benedito Nunes - e não Delatour - quem nos interessa aqui.
A dedicatória, que Milton Hatoum firmou com orgulho, não é mera formalidade. Aos 65 anos, freqüentador assíduo do meio intelectual francês e norte-americano, o paraense Benedito Nunes poderia dizer, sem medo de errar, que também para ele as viagens servem para purificar a visão. Professor da Universidade do Pará e prestigiado conferencista e ensaísta, Benedito Nunes faz muitas viagens, mas retorna sempre a Belém, onde nasceu e nunca deixou de viver.
Ao contrário de Delatour, o professor jamais permitiu que os prazeres do exílio o imobilizassem. Para ele, as viagens apontam sempre para o momento de retorno ao porto de origem. É na volta - novos olhos diante de velhas paisagens - que a aventura da viagem atinge seu apogeu.
Com o espírito depurado pelas aventuras intelectuais no Exterior, Benedito Nunes defende, no entanto, uma visão não-regionalista da região amazônica, que a livra das fantasias românticas e das ilusões de inocência virginal. "Não sou uma planta nativa", diz.
Nesta entrevista, Benedito Nunes defende a radicalidade de outros escritores e poetas contemporâneos que, exatamente como ele, conseguiram afirmar a grandeza da Amazônia, sem, no entanto, ceder à força inebriante dos mitos. Admira, por isso, o Márcio Souza de Galvez, o Imperador do Acre, mas já não tem o mesmo entusiasmo por seus romances seguintes. Enaltece as qualidades de escritores e poetas nortistas pouco lidos no sul do País, como Dalcídio Jurandir e Age de Carvalho. E se confessa, fechando o círculo, admirador incondicional do amazonense Milton Hatoum, um ficcionista que, como ele, aprendeu a ver a distância como a forma mais eficaz da proximidade.
Caderno 2 - O senhor é um intelectual extremamente fiel à região amazônica. Não paga um caro preço por essa fidelidade?
Benedito Nunes - Não. Se é isso o que você quer saber, mesmo aqui jamais perco contato com o que se passa no resto do mundo. Tenho sempre me afastado da Amazônia, mas são afastamentos por tempo determinado, com volta fixa e garantida. Minha temporada mais longa no Exterior ocorreu na segunda metade dos anos 60, quando fui leitor em Rennes, na França. Depois, nos anos 80, retornei à França por mais um ano, já como professor. Tenho viajado freqüentemente a Paris e aos Estados Unidos, em particular a Austin, no Texas, para aulas, conferências e debates. Mas faço sempre um movimento de saída e retorno, que é importante porque me confere certo afastamento, sem que os vínculos se quebrem. Não tendo uma radicação extrema ao meio, posso pensar com mais independência e vigor. As viagens me fortalecem.
Caderno 2 - O senhor não se sente isolado em relação ao resto do País? Convites para lecionar em grandes capitais brasileiras, certamente, não lhe faltam.
Nunes - Mas prefiro permanecer aqui. Não me sinto isolado em Belém do Pará simplesmente porque sou um homem que gosta do isolamento. No Pará tenho muitas relações, muitos amigos, é bom dizer. Mas conservo também, é verdade, a distância e a calma que, para mim, são condições fundamentais para o trabalho intelectual. Vivo sim em um certo isolamento que não deve ser confundido, no entanto, com insulamento. Não estou incomunicável e não é uma fuga. A distância geográfica, ao contrário, me proporciona um refúgio, para o qual posso sempre retornar em segurança. Mas não sou uma planta nativa, presa definitivamente à floresta. Talvez por isso eu entenda a região amazônica sem precisar do apoio dos localismos. Prefiro falar, por exemplo, em uma literatura "da Amazônia" e não em literatura "amazônica", denominação que inclui uma perspectiva regionalista. Ao falar em literatura "da Amazônia", estou me referindo apenas a uma origem, uma procedência e nada além disso.
Caderno 2 - Quem são, segundo sua avaliação, os grandes prosadores vivos dessa literatura da Amazônia?
Nunes - Temos de falar, primeiro, de Haroldo Maranhão. Ele se mudou há muitos anos para o Rio, mora atualmente em Juiz de Fora, mas tem uma escrita que é muito paraense. Embora com um círculo de leitores bastante restrito, Haroldo é, há algumas décadas, uma figura-chave para a literatura amazônica. Em 1946, ele foi o inventor do suplemento literário da Folha do Norte, de Belém, um importante jornal que não existe mais, com o qual colaboraram não apenas escritores da região, mas também poetas como Bandeira, Cecília e Drummond. O suplemento durou até meados de 1951, mas, antes disso, surgiu um outro, igualmente importante, editado semanalmente pelo jornal A Província do Pará. Foi nesse caderno que Mário Faustino começou sua carreira de escritor, publicando crônicas no estilo de Rubem Braga.
Caderno 2 - Quais são outros nomes injustamente esquecidos?
Nunes - Penso, por exemplo, em Dalcídio Jurandir, que começou ainda nos anos 40 com um romance chamado Chove nos Campos de Cachoeiro e não parou mais de escrever. Cachoeiro é uma cidade da Ilha do Maranhão, onde Dalcídio nasceu. De lá para cá, seus romances formam um imenso ciclo amazônico que guarda, no entanto, considerável distância das experiências regionalistas. São ficções que apresentam uma interiorização muito grande, cada vez mais densa; são, na verdade, as aventuras de uma experiência interior. Chego a pensar que o conjunto desses romances forma uma espécie de À La Recherche... escrita na Amazônica e que Dalcídio é, um pouco, o nosso Proust. Pois veja o paradoxo: ele sempre foi um escritor publicado no Sul, pela Martins, e só agora está sendo republicado lentamente em Belém, pela Cejup,uma pequena editora que se originou do Centro de Estudos Jurídicos da Universidade do Pará.
Caderno 2 - No Sul e no Sudeste falamos em literatura do Amazonas e pensamos imediatamente em Márcio Souza e seu Galvez, o Imperador do Acre. O que o senhor pensa desse livro?
Nunes - Você fala em Márcio Souza e eu penso em Benedito Monteiro, outro escritor paraense bastante esquecido, autor de dois livros, em particular, de que gosto muito: Verde Vago Mundo e O Minossauro. Ambos são escritores que fazem uma elaboração muito importante das experiências lingüísticas da Amazônia, da diversidade de línguas e perspectivas. São exemplos enfáticos de uma literatura não-regionalista, embora feita com matéria-prima da região. Não faz mais sentido pensar, hoje, em literatura regionalista. O regionalismo tem data certa: nasceu romântico, foi batizado pelo naturalismo e foi crismado em 30, pelos modernistas. Depois, se tornou crônico e, por fim, anacrônico. Os dois golpes de morte<
1 064
Pablo Neruda
Todos Me Perguntavam
Todos me perguntavam quando parto,
quando me vou. Assim parece
que houvesse selado em silêncio
um contrato terrível:
ir-se de qualquer modo a alguma parte
ainda que não quisesse ir-me a nenhum lugar.
Senhores; não meu vou,
eu sou de Iquique,
sou das vinhas negras de Parral,
da água de Temuco,
da terra delgada,
sou e estou.
quando me vou. Assim parece
que houvesse selado em silêncio
um contrato terrível:
ir-se de qualquer modo a alguma parte
ainda que não quisesse ir-me a nenhum lugar.
Senhores; não meu vou,
eu sou de Iquique,
sou das vinhas negras de Parral,
da água de Temuco,
da terra delgada,
sou e estou.
1 141
Pablo Neruda
País
És minha pátria e compreendo teu canto e teu pranto
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
709
Pablo Neruda
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
985
Fernando Pessoa
Quarta: D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
5 458
Hélio Simões
Duas Cidades
Séculos caminharam sobre a pedra
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
877
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
340
Tobias Pinheiro
O Rio
Ele parece mais um boi cansado,
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
849
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 072
Elizabeth Bishop
Chegada em Santos
Eis uma costa; eis um porto;
após uma dieta frugal de horizonte, uma paisagem:
morros de formas tão práticas, cheios - quem sabe?
[de autocomiseração,
tristes e agrestes sob a frívola folhagem,
uma igrejinha no alto de um deles. E armazéns,
alguns em tons débeis de rosa, ou de azul,
e umas palmeiras, altas e inseguras. Ah, turistas,
então é isso que este país tão longe ao sul
tem a oferecer a quem procura nada menos
que um mundo diferente, uma vida melhor, e o imediato
e definitivo entendimento de ambos
após dezoito dias de hiato?
Termine o desjejum. Lá vem o navio-tênder,
uma estranha e antiga embarcação,
com um trapo estranho e colorido ao vento.
A bandeira. Primeira vez que a vejo. Eu tinha a impressão
de que não havia bandeira, mas tinha que haver,
tal como cédulas e moedas - claro que sim.
E agora, cautelosas, descemos de costas a escada,
eu e uma outra passageira, Miss Breen,
num cais onde vinte e seis cargueiros aguardam
um carregamento de café que não tem mais fim.
Cuidado, moço, com esse gancho! Ah!
não é que ele fisgou a saia de Miss Breen,
coitada! Miss Breen tem uns setenta anos,
um metro e oitenta, lindos olhos azuis, bem
simpática. É tenente de polícia aposentada.
Quando não está viajando, mora em Glen
s Falls, estado de Nova York. Bom. Conseguimos.
Na alfândega deve haver quem fale inglês e não
implique com nosso estoque de bourbon e cigarros.
Os portos são necessários, como os selos e o sabão,
e nem ligam para a impressão que causam.
Daí as cores mortas dos sabonetes e selos -
aqueles desmancham aos poucos, e estes desgrudam
de nossos cartões-postais antes que possam lê-los
nossos destinatários, ou porque a cola daqui
é muito ordinária, ou então por causa do calor.
Partimos de Santos imediatamente;
vamos de carro para o interior.
(tradução de Paulo Henriques Britto)
:
Arrival at Santos
Elizabeth Bishop
Here is a coast; here is a harbor;
here, after a meager diet of horizon, is some scenery:
impractically shaped and--who knows?--self-pitying mountains,
sad and harsh beneath their frivolous greenery,
with a little church on top of one. And warehouses,
some of them painted a feeble pink, or blue,
and some tall, uncertain palms. Oh, tourist,
is this how this country is going to answer you
and your immodest demands for a different world,
and a better life, and complete comprehension
of both at last, and immediately,
after eighteen days of suspension?
Finish your breakfast. The tender is coming,
a strange and ancient craft, flying a strange and brilliant rag.
So that's the flag. I never saw it before.
I somehow never thought of there being a flag,
but of course there was, all along. And coins, I presume,
and paper money; they remain to be seen.
And gingerly now we climb down the ladder backward,
myself and a fellow passenger named Miss Breen,
descending into the midst of twenty-six freighters
waiting to be loaded with green coffee beaus.
Please, boy, do be more careful with that boat hook!
Watch out! Oh! It has caught Miss Breen's
skirt! There! Miss Breen is about seventy,
a retired police lieutenant, six feet tall,
with beautiful bright blue eyes and a kind expression.
Her home, when she is at home, is in Glens Fall
s, New York. There. We are settled.
The customs officials will speak English, we hope,
and leave us our bourbon and cigarettes.
Ports are necessities, like postage stamps, or soap,
but they seldom seem to care what impression they make,
or, like this, only attempt, since it does not matter,
the unassertive colors of soap, or postage stamps--
wasting away like the former, slipping the way the latter
do when we mail the letters we wrote on the boat,
either because the glue here is very inferior
or because of the heat. We leave Santos at once;
we are driving to the interior.
3 339
Murillo Mendes
Guernica
Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
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Murillo Mendes
Murilograma a Graciliano Ramos
1
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
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Sousa Caldas
Ode III - Sobre a Necessidade da Revelação
(...)
Antístrofe 3a.
Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.
Epodo 3o.
Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Antístrofe 3a.
Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.
Epodo 3o.
Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema Inspirado Nos Painéis Que Júlio Resende Desenhou Para o Monumento Que Devia Ser Construído Em Sagres
I
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Movimento ritual, surdo rumor de búzios,
Alegria de ir ver o êxtase do mar
Com suas ondas-cães, seus cavalos,
Suas crinas de vento, seus colares de espuma,
Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Impetuosas velas, plenitude do tempo,
Euforia desdobrando os seus gestos na hora luminosa
Do Lusíada que parte para o universo puro
Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro
Prenúncio de traição sob os seus passos.
II
REGRESSO
Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito, hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?
Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar
Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Movimento ritual, surdo rumor de búzios,
Alegria de ir ver o êxtase do mar
Com suas ondas-cães, seus cavalos,
Suas crinas de vento, seus colares de espuma,
Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Impetuosas velas, plenitude do tempo,
Euforia desdobrando os seus gestos na hora luminosa
Do Lusíada que parte para o universo puro
Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro
Prenúncio de traição sob os seus passos.
II
REGRESSO
Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito, hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?
Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar
Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?
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