Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Felipe Vianna

Felipe Vianna

BRASIL

Do carioca do samba,
Do paulista da Moca,
Do gaúcho do chimarrão,
Do caruru da baiana,
Do nordestino da rapadura.

Este é meu orgulho,
Este é meu país.

Neste país,
Onde tudo que se planta dá
Meus bisavós da Letônia vieram p´ra cá.

Dizia-se no tempo deles
Que o Brasil era o país do futuro,
E se o futuro é a globalização dos povos,
Presente, hoje, o Brasil do futuro é.

Por isso,
Digo em brados:
“Brasil
Do meu povo amado,
Sou te fiel
Aos teus povos e raças
Que unidos na graça
Faz do meu Brasil um país diferente,
Um país ausente
Da guerra dos povos sem paz “.

Várias religiões,
Várias cores e raças
Que não interessam em nada
Pois tu és Brasil,
Minha pátria amada.

11/06/2001

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Arre, que tanto é muito pouco!

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
1 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ruído longínquo e próximo não sei porquê

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 058
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Dulcia Linquimus Arva

Minha canção de crioulo final,
pela noite acrescida de relâmpagos
no expresso do Sul
que quebra o fundo e perde os campos.
Uma amizade fizeram meus avós
Com esta distância
E conquistaram a intimidade do Pampa
e ligaram a sua destreza
a terra, o fogo, o ar, a água.
Foram soldados e fazendeiros
e apascentaram o coração com manhãs
e o horizonte igual que um bordão
tocou na profundeza da sua austera jornada.
Sua jornada foi clara como um rio
E era fresca sua tarde como o poço de água do quintal
e em seu viver eram as quatro estações
Como os quatro versos de uma estrofe esperada.
Decifraram intratáveis poeiras
Em carretas ou em cavaladas
e os alegrou o resplendor
Com que aviva o sereno a luz da armadura.
Um batalhou contra os godos,
Outro no Paraguai cansou sua espada;
Todos souberam do abraço do mundo
e foi mulher submissa a seu querer a campanha.
Os outros corações foram serenos
Como janela que da ao campo;
Resplandecentes e altos eram seus dias
Feitos de céu e plano.
Sabedoria de terra adentro a sua,
Da laçada que é comida
E da estrela que é vereda
E do violão ascendido.
Sangue negro de estrofe brotou baixo suas mãos;
Sentiram-se confessos no canto de um pássaro.
Sou um caipira e já não sei dessas coisas,
Sou homem da cidade, do bairro, da rua;
Os bondes distantes me ajudam a tristeza
Com essa queixa longa que soltam na tarde.

Retirado do livro Luna de enfrente, 1925

1 855
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Jactância de quietude

Escrituras de luz embestem a sombra, mais prodigiosa que meteoros.
A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisesse
entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma
penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha
espada,
a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada
cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu
nome é alguém e qualquer.
Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito.
Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza
espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem.
Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera
chegar.

Retirado do livro Luna de enfrente, 1925

1 901
Manuel Machado

Manuel Machado

Cantares

Vinho, sentimentos, guitarra e poesia
fazem os cantares da pátria minha.
Cantares...
Quem disse cantares disse Andaluzia.

À sombra fresca da velha parreira,
um moço dedilha a guitarra...
Cantares...
Algo que acaricia e algo que dilacera

"A nota aguda" que canta e o "baixo que chora...
E o tempo calado se vai hora após hora.
Cantares...
São marcas fatais da raça moura.

Não importa a vida, que já está perdida,
e, depois de tudo, que é isso, a vida?...
Cantares...
Cantando a dor, a dor se esquece.

Mãe, dor, sorte, dor, mãe, morte,
olhos pretos, negros, e negra a sorte...
Cantares...
Neles a alma da alma se verte.

Cantares. Cantares da pátria minha,
quem disse cantares disse Andaluzia.
Cantares...
Não tem mais notas a guitarra minha.

1 229
Oscar Cerruto

Oscar Cerruto

Cantar

Minha pátria tem montanhas,
não mar.

Ondas de trigo e trigais,
não mar.

Espuma azul os pinheirais
não mar.

Céus de esmalte fundido
não mar.

E o coro rouco do vento
sem mar.

722
Miguel Ángel Asturias

Miguel Ángel Asturias

Credo

Creio na Liberdade, Mãe de América
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!

Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens

que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.

1 510
Neide Archanjo

Neide Archanjo

Fortuna Crítica

Antônio Houaiss
"N.A., sofri o seu Quitote tango e foxtrote, Sofri mesmo — em grande parte pelas ambigüidades admiravelmente construídas nele,eis que nele nada quero ver que não tenha sido dominado por sua arte. Ora o lia como expressão de um ser feminino, ora de um masculino, ora de um siriano, ora de um a-hetero-homo-pan-sexual, ora de alguém mininesco,ora de alguém nauseado, ora como esperança,ora como desespero,ora como de iluso,ora de iludido. O que sei é que a sua busca é pungente, porque magoada e doída e magoante e dolente, graças à poderosa expressão que ilumina como se tornada fachos, armas, esporas, alimentos, venenos. Sua procura teve sobre mim o rigor atritante de coisa pensante congrata, inarredável."

Carlos Drummond de Andrade
" Aqui estou debruçado sobre seu livro Escavações curtindo aquela "admirável epifania/onde o poema se debruça/inominável". Quer nos poemas de largo fôlego, de ‘Sítios,quer na extrema concisão de ‘Fragmentos’, você alcança a justa e vibrante expressão que deixa marca no leitor."

Wilson Martins
"As admiráveis Marinhas de N.A. são uma meditação sobre o Destino, o da autora enquanto pessoa e enquanto brasileira, o da pátria enquanto mito emocional e realidade histórica; e é também uma meditação sobre a poesia enquanto veículo de expressão para o que por outros meios não poderia ser expresso.Tudo se condensa no mesmo mito, o mito do poeta no mundo, mas mundo e poeta sob as suas espécies reais de uma língua literária e de uma integração nacional. A autora domina o instrumento em todas as suas virtualidades técnicas e dá a cada ‘quadro’ a tonalidade própria a estrutura versificatória que exige,as harmônicas que lhe são próprias. As marinhas surpreendem o núcleo substanciado que é ser brasileiro e sabe identificá-lo no ‘correlativo poético’ que lhe corresponde. Tendo estreado em 1964 com Primeiros ofícios da memória, ela evidenciava desde então as mudanças de plano que àquela altura começavam a ser manifestar na poesia brasileira contemporânea. É a ‘poesia cívica’ em sua manifestação mais perfeita, não pode ser ‘cívica’ mas pode ser poesia, Podemos identificar em N.A., sem hesitação, uma das grandes vozes poéticas do nosso tempo, o ‘o contraste’ mineralógico pelo qual se deve verificar o teor de poesia de todos os demais. "
1 096
Marilina Ross

Marilina Ross

E que nunca mais

A desenterrar os vivos e aos mortos enterrar
Sobre areias movediças não se pode caminhar

A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais

A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história

A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais

A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais

Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.

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Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

Canto do Velho Minuano

Sutil, sutílimo, um tanto lento,
logo subindo, como se a voz
de alguém vibrasse, na altura, do vento
do Pampa se ergue, chama por nós!

Terrível, uiva! Mas, nessa grita,
que de hinos claros! E desvairada,
por sobre as cousas se precipita,
sopra, sibila, silva a lufada!

Quase torrente que se encapela,
serpeia, aéreo mar, o tufão,
mais cheio de ondas do que a procela
que a pique os barcos põe, de roldão!

Assim, o vento da minha terra,
em vindo o inverno que os campos tala,
solta o seu forte brado de guerra!
Tinem espadads e há trons de bala...

Todo o passado! Todo! Ora, os que amam
— poetas! — a alma do seu país,
sentem-na, em ritmos que se derramam
pelo ar das noites, cantar, feliz,

no imenso vento, que o Pampa atroa
e gela, e grosso de rebeldias,
águia suprema, sem pausas, voa
três longas noites, três longos dias.

Porque nos giros do seu insano
desregramento, do seu furor,
sempre saudável, o Minuano
é também uma força de amor!

Seca as chuvadas, áspero e frio,
e aclara a abóboda azul-celeste
— Quebram violas ao desafio... —
o meteoro que vem do Oeste!

Desfaz as nuvens, que o raio encerra.
Limpa os céus, funde-os como metais...
(Divinas tardes da minha terra!
Céus dos crepúsculos sem iguais!)

Quando entra as frinchas de cada porta,
faz-se acalanto com que adormecem,
— se acaso acordam, por noite, morta, —
os bebês frágeis que as mães aquecem!

Na solitude dos campos, à hora,
cheia de graça, do anoitecer,
tu retransmites espaço em fora
o som dos sinos, que ensina a crer!

E ao mesmo tempo, rural e urbano,
que retemperas o corpo e a alma,
nos estimulas, ó Minuano,
com os acenos da melhor palma!

Quis, no meu canto, se é que ele encerra
um eco apenas do teu — ou não,
louvar-te, ó vento da minha terra!
Fôlego largo do meu torrão!

Imagem - 00350001


In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Cantos da Terra Natal
1 400
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Manifesto da Cozinha Goiana

A Waldomiro Bariani Ortêncio


4. O Trivial

Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?

Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,

de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
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Torquato Neto

Torquato Neto

Marginália II

eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão:
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
aqui o terceiro mundo
pede a bênção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pânico e glória
aqui meu laço e cadeia
conheço bem minha história
começa na lua cheia
e termina antes do fim
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome do medo e muito
principalmente
da morte
o-lelê, lalá
a bomba explode lá fora
e agora, o que vou temer?
yes: nós temos banana
até pra dar,
e vender
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
In: Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gil; Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1962/ - Tendências Contemporâneas
Canção Popular
TRAÇOS FORMAIS:
Anáfora
Citação
Letra de Música
Paródia
Refrão
Verso Livre
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Linguagem/Literatura
- Música
HUMOR
NOME
- Escritor
. Gonçalves Dia
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Um dia as orquídeas se abriram sobre

Um dia as orquídeas se abriram sobre
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?

Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado

e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.

Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.

E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.

E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.

E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.

Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.

Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.

Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.

1 051
Torquato Neto

Torquato Neto

Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela

carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Àquele tempo a musa pícara

Àquele tempo a musa pícara
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.

Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.

De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite

Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.

Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".

O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.

De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça

até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.

Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.

Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.

São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos

e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.

Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.

Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo

entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.

1 178
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Quem de vocês matou o uruguaio

"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.

O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".

"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.

As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.

"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."

E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Barão publicou na Revista do Instituto Histórico

Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.

Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas

temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.

A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.

A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.

"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.

De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.

Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.

Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.

Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.

Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu

a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.

1 118
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Eram três mil violas a bordo

Eram três mil violas a bordo
quando chegaram:
três mil violas e ainda poucas
para chorar saudades de Portugal e poucas
para o canto que me espuma no sangue
porque mi corazón de trovar non se quita
herdei todas as violas
são minhas as violas
são minhas as guitarras, os violões
a harmônica de Gesú Mello, a rabeca de Josa e a flauta
e o berimbau que Pedro Simão tocava nos dentes em Ipueiras
são minhas as violas: no formal de partilha me tocaram
três mil violas da maruja e me tocaram
as saudades e as penas de amor e o desafio
e a gemedeira
do bojo delas
e a louvação dos valentes;
e três mil violas não bastam
para o canto dos machos à janela das fêmeas
no pais dos Mourões:
!que poucas
para a endeixa de amor que ao teu ouvido
mi corazón
de trovar non se quita!

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros

Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.

O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.

Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.

Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Da balança das águas venho de joelhos

Da balança das águas venho de joelhos
— aeroporto de Caracas —
ego sacerdos — vou me preparando para os ritos:
boa noite, Bolivar,
boa noite, Simón, — Simón Rodriguez
brincando de roda entre as crianças
e duty free e Hilton e Tropical Hotel — e vou
me preparando para
a tática dos ritos o luxo das rubricas litúrgicas
pois à volta das águas
dançam em roda as ruas degoladas e algumas pessoas
constroem o incidente da viagem — indo ou vindo
ou não seguindo mais — e a cabeça
de Balboa busca debalde
talvez os Hiperbóreos — decerto
uma terra e um mar e a terra
e o mar já não são mais entre o canal e a selva
do que o gosto do sal em sua língua
ao sol do Panamá:
resta o gosto do sal na boca
de Balboa e Malpartida e os outros
e vós sois pescadores de peixe e terras e homens
o sal da terra
quodsi sal evanuerit in quo salietur?

Por isso o olfato o paladar os olhos
e um aroma e um sabor e um rastro:
e é dado o signo
e habitamos o semáforo — por isso agora
boa noite, Guatemala — e ali
poderiam pescar-me o coração no rio
de teus cabelos, Antonieta Ovalle, o coração
neste bosque
neste bosque moram terras
mora a terra que roubou meu coração
e repito as pessoas e os lugares que encontro
e aprendi uns seios verdes em Honduras
e ao sol de Dirianbo amadureciam sobre a Nicarágua
as ancas magníficas — pois falo da viagem,
suas pousadas, o itinerário
pedestre
eqüestre
sigo os sinais do trânsito — passeio
passeia Pilar Morelos seu passeio de poldra
pela Avenida Juarez
e alí emprenharei a neta
de Hernán Cortez e a bisneta
de Cuauhtémoc em um leito de rosas
e sou — ego poeta
o guia do turismo o trotador do mundo
no avião da Braniff onde Doris
e no aeroporto de San Antonio — Texas
e em Dallas, Texas, os soldados
negros e ruivos
vão me encontrar erecto e brônzeo —
pois preparo a estratégia da morte
as manobras da vida
o estratagema da beleza
os ritos de Stepterion

— "Na bagagem? "
um coração embrulhado
numa carta de amor
e dois braços de abraçar
e dois lábios de beijar
e Abdias entoado
à canela e ao cravo
e às margaridas de Iemanjá do Nascimento.

E agora
a serpente no ninho de meus olhos
já sou eu mesmo a minha própria bússola
meu próprio ardil
e de tua rosa
brota o vento por onde
chega o chegador à laranja de ouro — chega
ao bote da serpente à seta desferida
chega ao bosque ao mármore
à mão da tecelã e ao fio e à flauta
e ao silêncio e ao canto
e ao beija-flor e ao assobio
e à salamandra e à estrela e ao encontro
da flecha e da serpente e à luz
à luz
Eleu
Eleu
Eleu
theria

Apó
Apol
Apolon
Fototrephos Fotophagos Fotopaidos Febo Apolo
puxam-te o carro de fogo
os capricórnios de fogo
e venho nele ao teu banquete
onde as nove meninas
em conchas de labaredas
servem lagostas de fogo
e verdes folhas de flamas
ego poeta — o diábolos sonoro
conservado em chamas — sou
minha própria fronteira
e tu, amor

a norte a sul
tu nascente e poente
nas lindes crepitantes:
e diz o portulano e ladro sua escrita
pois cartógrafo sou desde o país do Ceará e Mel Redondo
limita-se Ipueiras ao norte pelas
cabras monteses e os montes da Aquitânia
Delfos ao sul por Villaguay e Buenos Aires
e a leste e oeste a serra dos Mourões serranos o Amazonas
o oráculo a nordeste e segue
a linha da Mantiqueira por
Congonhas do Campo e Conceição,
Conceição, José, do Mato Dentro — a sudoeste
as coxas de Afrodite e o mar da Jônia
e os limites por baixo são o chão de Eleusis
e os limites por cima o Pentestrelo
do Cruzeiro do Sul e os Hiperbóreos
e noutras pétalas da rosa-dos-ventos
o mar de La Serena o mar
das Alagoas o mar
da Jônia as ondas
dos cabelos de Artemis
e o ananás e a romã e o buriti a noroeste:
pois a sopro de flauta fui riscando as divisas
num mapa de safiras e limões
e cravos macerados ao sereno
da madrugada de um canto

e viajar viajando
o lombo de teus chãos e tuas águas
é meu destino
chegar chegando:

nome —
profissão —
destino —

o destino —
da cifra de meu código e meus semáforos
oriundo.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite

Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite
arribei a Los Angeles y siempre
arriban los poetas a los angeles
quando sabem o adeus:
adeus Carole
addío Mona Lisa
farewell to Chelsea
adeus addío adiú
e Beth e Jéssica
e vou levando o aroma de teus musgos
— "Cest mon parfum — et ma beauté
embriaga a narina dos deuses"
e Apolo e os Querubins e Querubina
conhecem este cheiro — e um dia
ao Macho da Sibila rescendeu no terreiro
um cheiro de bocetas em flor

Mas Melpômene
a outras rosas e outras violetas
trescala ao longe:
boa noite, Melpômene Mourão — e digo boa noite
pela fala do falus falueiro
E ela ia abrindo os lábios
e a cada sopro de seus lábios
uma rosa nascia e onde
suas mãos tocavam — uma rosa nascia
e outras coisas vi nascerem
à mão dos taumaturgos:
à de Balboa aqui um mar
sangrou sua aguazul à ponta de uma espada
cresceu na concha de sua
mão marinheira à reza cosmogônica
em nome de Castela — e o mundo
lhe lavou os joelhos por onde
as três quartas partes do planeta
se crearam nas águas sob os céus
de um deus no Panamá:

e às vezes sobre as águas, Godo,
os rastros duram — e onde
pisava sua bota — da pisada
surgia a fonte dos oceanos —
pois vou a Delphos pelo Panamá
de Guatemala venho por Managua
e por Tegucigalpa e Costa Rica
e acrescentei, Apolo.
um furo novo à flauta em que soprei
essa canção a Antonieta Ovalle em La Antigua
e os guerreiros pararam nas ruas de Caracas quando
cheguei cantando o Cavaleiro e a liberdade e quando
de joelhos no chão de Bogotá
cantei o pranto fúnebre das serras da Colômbia o pranto
por Camilo
como cantam
as serranas morenas de redondos peitos
em Santa Cruz de La Sierra e na serra
de São Gonçalo dos Mourões e nas colinas Lyda
nas colinas Danai das serras de Atinaia aquela noite
por teus amantes mortos
Eleutheria
entre as vinhas do mar e a cordilheira
— caminhos dos Hyperbóreos —
e assobiamos na praia, Clodomir, chamando o vento
o vento de pescar a vingança e o amor — vento
de assobio en surdina em Puerto Limón de Costa Rica,
marinheiro do Aracati na esquina à lua
de Aracaju:
Eleu
Eleu
Eleu
theria.

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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Jaime Cortesão

Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
568
Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

A Campanha do Paraguai

HERÓIDES BRASILEIRAS

IV

RIACHUELO E BARROSO

(...)

Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!

..............................................

Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...

Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.


Publicado no livro Novas Poesias (1876).

In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959

NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
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