Poemas neste tema
Música
Edimilson de Almeida Pereira
3 [o trompetista engole
o trompetista engole
a contraluz
no cubículo o som
evola como um
papiro
é Dixie a canção
que sabemos
o trompetista ausente
faz suar nossas axilas
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.15. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
a contraluz
no cubículo o som
evola como um
papiro
é Dixie a canção
que sabemos
o trompetista ausente
faz suar nossas axilas
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.15. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
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1
Antônio Barreto
A Pulga Cheia de Pulgas
Para Mario Quintana e Rita Lee,
minhas pulgas de estimação.
Dona Pulga se coçando,
lá no fundo do balaio,
salta como uma maluca
e pula e rola, sem sono.
Dona Pulga assim pulando,
cheia de pulgas na cuca,
pula então, pererecando,
pra cuca do Papagaio.
— Currupaco-papaco-paco,
fala o louro coçando o papo.
Que pulga cheia de pulgas!
— Currupaco-papaco-paco.
Parece cachorro sem dono
ou pulga não toma banho?
Dona Pulga leva um sopapo
do Papagaio Maluco
e vai dormir atordoada,
meio pirada da cuca.
Sonha que cata piolho
no papo do Papagaio,
que no fundo do balaio
papa mosca e pisca um olho.
Porém só eu sei dizer
seu segredo de menina:
é que ela quer ser
a primeira bailarina.
Por isso vive ensaiando
seus passos por todo lado.
Dança rock e dança tango,
polca, samba e xaxado.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.24-27. (Falas poéticas
minhas pulgas de estimação.
Dona Pulga se coçando,
lá no fundo do balaio,
salta como uma maluca
e pula e rola, sem sono.
Dona Pulga assim pulando,
cheia de pulgas na cuca,
pula então, pererecando,
pra cuca do Papagaio.
— Currupaco-papaco-paco,
fala o louro coçando o papo.
Que pulga cheia de pulgas!
— Currupaco-papaco-paco.
Parece cachorro sem dono
ou pulga não toma banho?
Dona Pulga leva um sopapo
do Papagaio Maluco
e vai dormir atordoada,
meio pirada da cuca.
Sonha que cata piolho
no papo do Papagaio,
que no fundo do balaio
papa mosca e pisca um olho.
Porém só eu sei dizer
seu segredo de menina:
é que ela quer ser
a primeira bailarina.
Por isso vive ensaiando
seus passos por todo lado.
Dança rock e dança tango,
polca, samba e xaxado.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.24-27. (Falas poéticas
2 237
1
Mafalda Veiga
Planície
o bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer
ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante
pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à noite fez
é tempo da partida
e a côr no horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma
pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer
ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante
pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à noite fez
é tempo da partida
e a côr no horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma
pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
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1
Manoel de Barros
O Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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1
Olga Savary
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
3 033
1
Lindolf Bell
Gal Legal
Estremecida lua
nos olhos da América
da rosa-dos-ventos,
eu te saudo
aveave,
naunua
Florgal, Blumengal,
verde-morena-barriga-verde,
eu te saudo,
noite crespa
de atlânticos cabelos.
Gal Galileu Galilei
de um navio
de seda e luz
Gal Ipanema — Itapema
Gal Bahia do Itajaí
Gal nossa de cada dia
venha a nós
a tua voz
de ave-eva,
erva medrada do sim
e do silencio,
venha a nós
Gal Galera
dos mares bravios
de coração tropical.
Gal Galáxia
Gal Gala Dali
Gal Gala Daqui
GalGalGal
NeferNeferNefer
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
nos olhos da América
da rosa-dos-ventos,
eu te saudo
aveave,
naunua
Florgal, Blumengal,
verde-morena-barriga-verde,
eu te saudo,
noite crespa
de atlânticos cabelos.
Gal Galileu Galilei
de um navio
de seda e luz
Gal Ipanema — Itapema
Gal Bahia do Itajaí
Gal nossa de cada dia
venha a nós
a tua voz
de ave-eva,
erva medrada do sim
e do silencio,
venha a nós
Gal Galera
dos mares bravios
de coração tropical.
Gal Galáxia
Gal Gala Dali
Gal Gala Daqui
GalGalGal
NeferNeferNefer
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 952
1
Gláucia Lemos
Poema para um Domingo
Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
1 248
1
Castro Alves
Depois da Leitura de Um Poema
(Em sessão literária)
(IMPROMPTU)
Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!
Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!
(IMPROMPTU)
Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!
Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!
2 179
1
Vinicius de Moraes
A Você, Com Amor
O amor é o murmúrio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...
O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...
E a música inaudível...
O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...
O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...
O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...
E a música inaudível...
O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...
O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.
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1
Geraldo Carneiro
os fogos da fala
a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
1 118
1
Haroldo de Campos
Rochester: High Falls - Genesee River
um festival de laser
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
2 776
1
Caio Valério Catulo
1º Ato
S. Pedro
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!
Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!
Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.
1 050
1
Giselda Medeiros
Tua Voz
Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
1 073
1
Gilka Machado
Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
3 466
1
Alcides Villaça
Serenata
Por falta de público para o Nelson Gonçalves que venho ensaiando
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
1 231
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
2 007
1
Luís Guimarães Júnior
Nhanhã
Um dia apresentaram-me. Ela lia
Num canto do salão.
Deixou cair aos pés o livro, — e ria
Estendendo-me a mão.
Mão de princesa, fina, delicada,
De tão macio alvor
Qual se a talhara alguma boa fada
No cálix de uma flor.
Era no campo. As auras forasteiras
Suspiravam no ar,
Frescas do grato odor das laranjeiras,
Dos raios do luar.
Surda uma voz ao longe ressoava
Em doloridos ais...
Quem canta? perguntei. — Ora! uma escrava!
Disse ela. E nada mais.
Falou-me então das valsas delirantes
De Strauss e do furor
Dos novos cotillons. Disse-me: — Dantes
Valsava-se melhor.
E a voz da escrava como um ai de morte
Adejava ao luar...
— "Li, há dois dias, num jornal da corte
Que a Patti vai chegar:
Será verdade? Ah! quem me dera! A moda
Renascerá enfim!"
E ela, a bater as mãos, ria-se toda
Olhando para mim.
Contemplei melancólico o semblante
Dessa virgem feliz:
Era mais alva que ao luar errante
As pálidas willis;
Era tão doce como a Fantasia
Dum bardo sonhador:
Lamartine colhera uma Harmonia
Nos lábios dessa flor.
E enquanto o seu olhar negro brilhava
Como a onda ao luar,
E a suspirosa aragem derramava
O aroma do pomar;
Enquanto aquela boca fulgurante
Mais pura que os cristais,
Repetia-me a crônica elegante
Dos últimos jornais;
A voz da escrava — trêmula, queixosa,
Expirou na amplidão,
Longa como uma nênia dolorosa,
Triste como a paixão.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Livr. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Num canto do salão.
Deixou cair aos pés o livro, — e ria
Estendendo-me a mão.
Mão de princesa, fina, delicada,
De tão macio alvor
Qual se a talhara alguma boa fada
No cálix de uma flor.
Era no campo. As auras forasteiras
Suspiravam no ar,
Frescas do grato odor das laranjeiras,
Dos raios do luar.
Surda uma voz ao longe ressoava
Em doloridos ais...
Quem canta? perguntei. — Ora! uma escrava!
Disse ela. E nada mais.
Falou-me então das valsas delirantes
De Strauss e do furor
Dos novos cotillons. Disse-me: — Dantes
Valsava-se melhor.
E a voz da escrava como um ai de morte
Adejava ao luar...
— "Li, há dois dias, num jornal da corte
Que a Patti vai chegar:
Será verdade? Ah! quem me dera! A moda
Renascerá enfim!"
E ela, a bater as mãos, ria-se toda
Olhando para mim.
Contemplei melancólico o semblante
Dessa virgem feliz:
Era mais alva que ao luar errante
As pálidas willis;
Era tão doce como a Fantasia
Dum bardo sonhador:
Lamartine colhera uma Harmonia
Nos lábios dessa flor.
E enquanto o seu olhar negro brilhava
Como a onda ao luar,
E a suspirosa aragem derramava
O aroma do pomar;
Enquanto aquela boca fulgurante
Mais pura que os cristais,
Repetia-me a crônica elegante
Dos últimos jornais;
A voz da escrava — trêmula, queixosa,
Expirou na amplidão,
Longa como uma nênia dolorosa,
Triste como a paixão.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Livr. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 633
1
Fernando Pessoa
Ah! Ser indiferente!
Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias...
ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias...
ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...
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Fernando Pessoa
Quando cantas, disfarçando
Quando cantas, disfarçando
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.
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1
José Rodrigues de Paiva
Jardins Suspensos
Caíram sobre o mar
os meus jardins suspensos,
e extinguiu-se a canção
que era a voz do silêncio.
A canção de ouro e névoa,
fumos brancos de incenso,
invisíveis pilares
desses jardins suspensos.
Mas no mar a canção
sobre as ondas vogou
e às vozes do mar
suas vozes juntou.
Do silêncio das águas
construiu-se a linguagem
que elabora o poema
em líquidas imagens.
E das algas, das ondas,
das pedras, dos corais,
floresceram canções
que não se ouviram mais.
Canções de ouro e de névoa,
de águas passageiras,
como flores levadas
por correntes ligeiras.
Flores dos meus jardins
suspensos da canção,
que brotam do silêncio,
do mar, da solidão.
Emergiram das águas
os meus jardins suspensos,
renasceu a canção
das vozes do silêncio.
Música de ouro e névoa,
fumos brancos de incenso,
flores que são pilares
desses jardins suspensos.
os meus jardins suspensos,
e extinguiu-se a canção
que era a voz do silêncio.
A canção de ouro e névoa,
fumos brancos de incenso,
invisíveis pilares
desses jardins suspensos.
Mas no mar a canção
sobre as ondas vogou
e às vozes do mar
suas vozes juntou.
Do silêncio das águas
construiu-se a linguagem
que elabora o poema
em líquidas imagens.
E das algas, das ondas,
das pedras, dos corais,
floresceram canções
que não se ouviram mais.
Canções de ouro e de névoa,
de águas passageiras,
como flores levadas
por correntes ligeiras.
Flores dos meus jardins
suspensos da canção,
que brotam do silêncio,
do mar, da solidão.
Emergiram das águas
os meus jardins suspensos,
renasceu a canção
das vozes do silêncio.
Música de ouro e névoa,
fumos brancos de incenso,
flores que são pilares
desses jardins suspensos.
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Abrahão Cost'Andrade
Mulãria da Macambária
JOANA foi embora.
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
846
1
Murillo Mendes
Noite Carioca
Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido
[tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é
[camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos
[bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos
[criouléus suarentos
O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que
[transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série Ângulos.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido
[tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é
[camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos
[bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos
[criouléus suarentos
O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que
[transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série Ângulos.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
3 117
1
Murillo Mendes
Murilo Menino
Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
5 212
1
Forough Farrokhzad
só o som permanece
por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
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