Poemas neste tema

Música

Donizete Galvão

Donizete Galvão

Solilóquio de Nina Simone

Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
688
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DOCH DIE KASTRATEN

Quando ensaiei minhas árias
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.

E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.

De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.

1 973
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Do cantar e do falar

Cantar,
talvez não seja tudo.
Falar,
ainda não sei.

Cantar,
as aves cantam
um canto eterno e ritimado
na ondulação das árvores
nos bosques e campinas.

Falar,
falam e falaram
homens comuns e incomuns,
nas ruas, nas praças e nos púlpitos.

Se essas coisas doem
ainda não sei.
O que sei que dói é o silêncio
e que um dia hei de cantar,
mas sobretudo hei de falar...

940
Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

Clave de Lua

Clave de Lua

Cantar é tão longe
como o encontro efêmero
num verso travesso
acontecido infeliz.

Cantar é tão doce
como o encontro esperado
e demorado
num pentagrama, dois por dois.

Cantar é a clave
de sol crescente
em fundo de lua
cheia de amor
perfeito pra nós.

Cantar é te ver
cantando esperanças
pros meus sentidos.

1 216
Herberto Helder

Herberto Helder

Canção Despovoada

Num tempo sentado em seda, uma mulher imersa
cantava o paraíso. Era depois da morte.
Num tempo: salsa, avenças
dormindo. A infância tinha febre. Então a voz
pronunciava lenços, pombas
impressas. Arrefeciam pêras no silêncio
posterior
àquele enigma. Porque tem sono
a salsa? E o coração dos figos com a
doçura oblíqua. Há quem morra para ser
de um mês: vivem imóveis
os jardins das vozes. Em sonhos
de uma loucura clara, ligeiras casas voltavam
as costas. Nasciam folhas de ouro se alguém,
sorrindo, respirasse.

O tempo tem a sua
incli
nação perigosa: país de uvas negras e varandas
sobre a candura. Quando se toca,
a infância queima. O paraíso tem uma noite
ao fundo: treme. Há quem fique num mês
para assistir ao ar. Terrível é o espaço
da música e das glicínias
paradas na atenção. Quando uma voz diz a criança
como seu espelho, este
paraíso é de víboras azuis.
Então veste-se
um pulôver, anda-se pela cegueira com as mãos
a ferver, diz-se: o vento, o sono e as
violas. Há um crime sagrado onde
o mês aparece com. Digo: clareira.
Velocidade do tempo, oh
inteligência. Aparece com a altura
de uma noite mortal. Quem se alimenta de fruta, quem
se despe entre noites encostadas, pergunto,
quem ama até perder o nome?

Eles vêm devagar e põem cores onde a criança
se voltava junto
à morte. Azul cobalto para os anjos
ciclistas anunciando a palavra,
e amarelo para os braços abertos, e cíclame
para ficar louco no espaço
ao mesmo tempo. Ofereço-te um lírio — diz a canção
sentada.

Ah, um lírio é o que eu procuro
nas ilhas tenebrosas. Por isso canta
essa mulher desviada para a inocência
de um tempo — mês
a respirar tão depressa, e a andar tanto, e a correr
tão loucamente,
que não há mais do que em voz
em cadeira, num lugar do sono, à direita e à
esquerda de uma ausência contra
a espuma.

Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessarvozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
terrível e fria.
1 248
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Gôndola Triste 2

1
Dois velhos, sogro e genro, Liszt e Wagner,
estão hospedados perto do Grande Canal
juntos com a mulher inquieta casada com o Rei Midas
o homem que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde glacial do mar faz o seu caminho pelos soalhos do
palácio.
Wagner está um farrapo, o seu famoso perfil de roberto está mais enrugado
que nunca
o rosto uma bandeira branca.
A gôndola vai carregada com três vidas, dois bilhetes de ida e volta e um
de ida.

2
Uma das janelas do palácio abre-se de súbito, lá dentro as pessoas
assombram-se com a repentina corrente de ar.
Cá fora surge nas águas a gôndola do lixo conduzida
por dois bandidos de um só remo.
Liszt compôs uns acordes tão pesados que têm
de ser enviados
ao instituto mineralógico de Pádua para análise.
Meteoritos!
demasiado pesados para se firmarem, só podem ir ao fundo, ao fundo,
a pique para o futuro,
para os anos dos camisas castanhas.
A gôndola vai carregada com as pedras submissas do futuro.

3
Frestas, abrindo-se em 1990

25 de Março. Ansiedade pela Lituânia.
Sonhei que visitava um hospital grande.
Sem pessoal médico. Todos doentes.

No mesmo sonho uma menina recém-nascida
que dizia frases completas. 

4
Ao lado do genro, que é um senhor de idade, Liszt
é um Grand Seigneur roído pela traça.
É um disfarce.
O abismo que experimenta e rejeita diferentes máscaras escolheu
esta para ele.
O abismo que deseja entrar, visitar os humanos sem
mostrar o rosto.

5
O abade Liszt está habituado a carregar a mala
pela neve suja e ao sol
mas chegada a hora da morte ninguém há-de ir ter com ele à
estação.
Uma brisa quente saturada de conhaque leva-o a sair
a meio de um dever.
Os deveres nunca o largam.
Duas mil cartas por ano!
O aluno que tem de escrever a palavra mal soletrada cem
vezes antes de ir para casa.
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra. 

6
De novo 1990.

Sonhei que andei 200 quilómetros para nada.
Tudo aumentou de volume. Pardais grandes
como galinhas cantavam ensurdecedores.

Sonhei que desenhava teclas de piano
na mesa da cozinha. Em silêncio tocava nelas.
Os vizinhos entraram para ouvir.

7
O teclado que se manteve em silêncio ao longo de todo o Parsifal
(mas que o escutou) tem finalmente direito a dizer algo.
Suspiros … sospiri …
Liszt ao tocar mantém esta noite o pedal marítimo em baixo
para que o poder verde do mar suba pelo soalho acima
e se misture com as pedras do edifício.
Boa noite, lindo abismo!
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.

8
Sonhei que começavam hoje as aulas e que cheguei tarde.
Na sala todos usavam uma máscara branca.
Impossível dizer quem era o professor.
638
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Um artista no Norte

Eu Edward Grieg passeei-me como um homem livre entre os homens.
De trato fácil li jornais viajei por aqui e por ali.
Regi a orquestra.
O auditório com as luzes cintilando de triunfo como um navio
de comboios
quando se põe em marcha.

Levei-me para aqui para me fechar no silêncio.
É pequeno o meu estúdio.
O piano aninhado como a andorinha no beiral.

O mais das vezes as belas e íngremes encostas nada dizem.
Não há saída possível
mas às vezes uma pequena fresta abre-se
e uma luz incide directamente do assombro.

Reduzir!

E as pancadas dos martelos na montanha vêm
vêm
vêm
vêm numa noite de primavera ao nosso quarto
disfarçadas de batimentos do coração.

Um ano antes de morrer lançarei quatro hinos para chegarem até Deus.
Mas é aqui que tudo começa.
Uma canção do que está próximo.

Do que está próximo.

O nosso campo de batalha
onde nós os Ossos dos Mortos
lutamos para nos tornarmos vivos.
645
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Schubertiana

1
Longe de Nova York, um lugar alto donde se avistam
as casas em que oito milhões de seres vivos habitam.
A cidade gigante para aqueles lados é uma longa deriva cintilante, uma galáxia
em espiral vista de lado.
Dentro da galáxia, chávenas de café são arrastadas pela secretária,
janelas de armazém suplicam, um turbilhão de sapatos que não deixam
nenhum rasto.
O fogo escapa-se ao alto, portas de elevador fecham-se silenciosamente
por detrás de portas fechadas a sete chaves, um volume cheio de vozes.
Corpos tombados dormitam em carros subterrâneos, catacumbas em
movimento.
Sei também – estatísticas à parte – que neste momento
nalguma sala mais abaixo toca-se Schubert, e que
para essa pessoa as notas são mais reais que tudo o resto. 

2
As imensas planícies sem árvores do cérebro humano acabaram
por se dobrar e redobrar até ficarem do tamanho de um punho.
Em Abril a andorinha regressa ao ninho do ano anterior sob o
beiral precisamente no mesmo celeiro precisamente no mesmo
distrito.
Voa do Transval, passa o equador, voa durante seis
semanas por cima de dois continentes, navega com precisão para
este ponto extenuado na massa da terra.
E o homem que reúne os sinais de uma vida inteira
nalguns acordes vulgares para cinco músicos de cordas
aquele que tem um rio para atravessar pelo buraco duma agulha
é um jovem roliço de Viena, os amigos chamam-no
“O Cogumelo”, que dormia de óculos postos
e se punha pelas manhãs pontualmente à escrivaninha.
Quando o fazia centopeias magníficas desatavam a mover-se
sobre a página. 

3
Tocam os cinco instrumentos. Volto para casa pelo calor dos bosques
onde a terra se distende sob os meus pés,
enrolo-me como alguém ainda por nascer, adormeço, vagueio imponderável
para o futuro, sinto de súbito que as plantas estão
a pensar.

4
Quanto nos leva cada minuto a acreditar que vivemos
para não nos esvairmos pela terra adentro!
A acreditar em massas de neve agarrando-se à superfície das rochas sobre
a cidade.
A acreditar nas promessas não faladas e no sorriso da
concórdia, a acreditar que o telegrama não é connosco, e
que o súbito golpe do machado não vem por dentro.
A acreditar nos eixos que nos levam pela estrada fora entre abelhas
de aço trezentas vezes ampliadas.
Mas nada disso merece de facto a nossa crença.
Os cinco instrumentos de cordas dizem que podemos ser levados
a acreditar noutra coisa qualquer, e por instantes acompanham-nos na estrada.
Tal qual a lâmpada que se apaga nas escadas, e a mão
seguindo – acreditando – no corrimão cego que faz o seu
caminho pela escuridão adentro. 

5
Juntamo-nos ao banco do piano e tocamos a quatro mãos em Fá
menor, dois condutores para o mesmo carro, parece um pouco
ridículo.
As mãos parecem movimentar pesos feitos de sons
para diante e para trás, parecem movimentar pesos pesados
numa tentativa de mudar a grande escala do temível equilíbrio:
felicidade e sofrimento pesam exactamente o mesmo.
Annie disse, “Esta música é tão heróica”, e tem razão.
Mas aqueles que lançam um olhar invejoso ao homem de acção, aqueles que
por dentro se desprezam por não serem assassinos,
não se descobrem nesta música.
E as pessoas que compram e vendem outras pessoas, que acreditam
que não há ninguém que não possa ser comprado, não se descobrem aqui.
Não é a sua música. A longa linha melódica que permanece igual
entre todas as suas variações, por vezes brilhante e delicada,
por vezes áspera e poderosa, rastro de caracol e arame
de aço.
O obstinado sussurro deste instante que está connosco
para cima para
o fundo.
437
Mauro Mota

Mauro Mota

VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL

Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.

Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
753
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, vem um canto na noite.

Sim, vem um canto na noite.
Não lhe conheço a intenção,
Não sei que palavras são.

É um canto desligado
De tudo que o canto tem.
É algum canto de alguém.

Vem na noite independente
Do que diz bem ou mal.
Vem absurdo e natural.

Já não me lembro que penso.
Outro; é um canto a pairar
Como o vento sobre o mar.


05/09/1934
4 566
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O véu das lágrimas não cega.

O véu das lágrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa música me entrega –
A mãe que eu tinha, o antigo lar,

A criança que fui,
O horror do tempo, porque flui,
O horror da vida, porque é só matar!
Vejo e adormeço,

Num torpor em que me esqueço
Que existo inda neste mundo que há...
Estou vendo minha mãe tocar.
E essas mãos brancas e pequenas,

Cuja carícia nunca mais me afagará –,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
(Meu Deus!)
Un soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!
Estou outra vez ali.
Afasto do luar exterior e raro
Os olhos com que o vi.

Mas quê? Divago e a música acabou...
Divago como sempre divaguei
Sem ter na alma certeza de quem sou,
Nem verdadeira fé ou firme lei

Divago, crio eternidades minhas
Num ópio de memória e de abandono.
Entronizo fantásticas rainhas
Sem para elas ter o trono.

Sonho porque me banho
No rio irreal da música evocada.
Minha alma é uma criança esfarrapada
Que dorme num recanto obscuro.

De meu só tenho,
Na realidade certa e acordada,
Os trapos da minha alma abandonada,
E a cabeça que sonha contra o muro.

Mas, mãe não haverá
Um Deus que me não torne tudo vão,
Um outro mundo em que isso agora está?
Divago ainda: tudo é ilusão.
Un soir à Lima

Quebra-te, coração...


17/09/1935
4 379
Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
638
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Allegro

Toco Haydn depois de um dia negro
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.

O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.

Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.

Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”

A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.

E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
691
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Baile de Formatura

Para Mari Lúcia

Eu não sonhei
que você estava linda.
Eu realmente fui ao baile
e vi você de relance, linda,
de uniforme de normalista,
e seus olhos eram olhos
de uma mulher enamorada,
parecida com a Malu Mader.
Sentindo frio em minhalma,
procurei o bar
pra tomar cuba-libre e coragem.
Quando voltei pro salão
você não estava.
Tinha casado e mudado.
Ainda havia flamingos,
viagens sentimentais,
encantamentos, convites,
damas apaixonadas,
sofisticadas e vagabundas,
a quem amei, mesmo sabendo
que isso não pode ser amor.
Não adianta me chamar
de irresponsável.
Eu estava me sentindo um tolo
por querer você.

Ainda assim, tive luas azuis,
luas pálidas,
luas brilhando sobre
cidades desconhecidas
e um caso para relembrar
e esquecer,
e novo tempo de partir
e o que será, será,
as luzes da cidade
refletindo
um sorriso na lembrança,
um certo sorriso de verão,
cerca de meia-noite,
um sorriso de velhos amigos
embora estranhos no paraíso,
e esse sorriso reacendeu
minha velha chama:
eu dançaria a noite inteira
de rosto colado,
dançando no escuro
canções de setembro,
dançando na chuva,
nas areias da maré baixa,
mas você ainda não estava
dançando a melodia imortal,
você era uma estrela
piscando acima do arco-íris,
e de repente havia fumaça
em seus olhos,
amores clandestinos,
minha garota melancólica,
até nosso reencontro,
mas depois daquela última dança,
corpo e alma,
nunca mais seremos os mesmos.

Hoje a canção é você
e eu estou feliz
por ser infeliz nessa fascinação
entre folhas mortas,
gardênias azuis,
serenatas ao luar,
canções da Índia,
cartas de amor...
With a song in my heart
eu te esperei vinte anos,
acordado e triste,
no salão silencioso e apagado.
Você mudou, noite e dia,
mudou suave e adoravelmente,
e ainda tem os mesmos olhos,
olhos de mulher apaixonada,
olhos de Malu Mader,
e agora, por causa de você,
por tudo que você é,
eu posso finalmente sonhar
que durante todo esse tempo
você não flertou com ninguém,
e que olha só para mim,
meu amor,
meu par.

1 848
Tomás Castro

Tomás Castro

Concierto a puertas cerradas

Con estas manos hechas para ti
quiero
uno a uno tocar
los instrumentos de tu cuerpo

al palparte
me salen tonos
partituras
música en fin
de todas partes

se precisa un golpe
de batuta
para tocarte sin desafinar

estás llena de violines
en ti los pájaros ensayan
sus últimas canciones
en ti debuta una alta fidelidad
que termina
entre mis dedos
haciéndote fraterna

amo tus instrumentos
cuando me inundas de sonidos
cuando tu cuerpo me nombra
el músico más grande

que nadie se sienta herido
– ni bach ni beethoven
ni los trompetistas del juicio final –

eres un concierto
que sólo yo puedo tocar.

1 370
Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

Música

A doce, iriada melodia,
roxa sombra na tarde escarlate,
chorosa, ouço-a; bate
e verte quentura na minha alma fria.

Quantos anos galgaram lépidos,
furtivos, maldosos, sobre a minha cabeça!
E não há tempo que, húmido, arrefeça
a toada suave de tons tépidos...

Remédio para as minhas feridas,
para os nervos pacífico brometo,
quando eu seguir no caixão preto,
entre velas e ladainhas,

meus ouvidos tapados a algodão
hão-de ouvi-la, tal como nessa tarde,
tão discreta, suave e sem alarde,
sobrepondo-se ao cantochão...
708
Castro Alves

Castro Alves

O Bandolim da Desgraça

QUANDO de amor a Americana douda
A moda tange na febril viola,
E a mão febrenta sobre a corda fina
Nervosa, ardente, sacudida rola.

A gusla geme, sestorcendo em ânsias,
Rompem gemidos do instrumento em pranto...
Choro indizível... comprimir de peitos...
Queixas, soluços... desvairado canto!

E mais dorida a melodia arqueja!
E mais nervosa corre a mão nas cordas!...
Ai! tem piedade das crianças louras
Que soluçando no instrumento acordas! ...

"Ai! tem piedade dos meus seios trêmulos..."
Diz estalando o bandolim queixoso.
... E a mão palpita-lhe apertando as fibras...
E fere, e fere em dedilhar nervoso!...

Sobre o regaço da mulher trigueira,
Doida, cruel, a execução delira!...
Então — coas unhas cor-de-rosa, a moça.
Quebrando as cordas, o instrumento atira!...

........................................

Assim, Desgraça, quando tu, maldita!
As cordas dalma delirante vibras...
Como os teus dedos espedaçam rijos
Uma por uma do infeliz as fibras!

— Basta —, murmura esse instrumento vivo.
— Basta —, murmura o coração rangendo,
E tu, no entanto, num rasgar de artérias,
Feres lasciva em dedilhar tremendo.

Crença, esperança, mocidade e glória,
Aos teus arpejos, — gemebundas morrem!...
Resta uma corda... — a dos amores puros —...
E mais ardentes os teus dedos correm!...

E quando farta a cortesã cansada
A pobre gusla no tapete atira,
Que resta?... — Uma alma — que não tem mais vida!
Olhos — sem pranto! Desmontada — lira!!!

1 894
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

A casa do mundo

Aquilo que às vezes parece

um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:

1 925
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

A BELA E A FERA I

Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta

o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas

sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta

o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave

um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
626
Castro Alves

Castro Alves

Adelaide Amaral

ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!

Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.

A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...

Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".

2 288
Castro Alves

Castro Alves

Ao Violinista F Moniz Barreto Filho

(IMPILOVISO NO TEATRO SANTA ISABEL)

MOTE

"No teu arco prendeste à eternidade!"
Tobias Barreto.
ERA NO CÉU, à luz da lua errante,
Moema triste, abandonando os lares,
Cindia as vagas dos cerúleos mares
Te erguendo ao longe, ó peregrino infante!

Lá dos jardins sob o vergel fragrante,
A sombra dos maestros, sobre os ares,

Ouvias das estrelas os cantares
— Aves douro no espaço cintilante.

Mas quando o gênio teu se alteia aflito,
Da alabastrina luz à claridade,
Lançando flores, lá do céu proscrito,

Pasma Bellini; e em meio à imensidade
Diz a lua suspensa no infinito:
"No teu arco prendeste a eternidade!"

1 756
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

O MÁGICO

De mim o que trará em sua capa
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará

de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio

sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de

mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
813
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - LXXX

De viagens e dores eu regressei, amor meu,
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.


Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.


Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:


que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
1 253
Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke

Minha vida

não é esta hora abrupta
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
1 542