Poemas neste tema
Mudança e Transformação
Martha Medeiros
dos habituais comportamentos
dos habituais comportamentos
contemporâneos
optar é deles o mais desumano
escolher entre tantos
a quem vou amar
se telefono agora ou depois
ou não ligo
se insisto ou desisto
ou nem isso
peço demissão
fico grávida
troco de país
mudo de vida
(e que verso vem agora
o que inventar
para continuar sendo lida)
que saudade me fará o calor
caso venha a preferir o frio
e estando a escolha feita
nada me convence
ou tranquiliza
estou sempre de olho na outra margem do rio
contemporâneos
optar é deles o mais desumano
escolher entre tantos
a quem vou amar
se telefono agora ou depois
ou não ligo
se insisto ou desisto
ou nem isso
peço demissão
fico grávida
troco de país
mudo de vida
(e que verso vem agora
o que inventar
para continuar sendo lida)
que saudade me fará o calor
caso venha a preferir o frio
e estando a escolha feita
nada me convence
ou tranquiliza
estou sempre de olho na outra margem do rio
1 012
Fernando Pessoa
No ciclo eterno das mudáveis coisas
No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
24/11/1925
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
24/11/1925
2 421
Martha Medeiros
sim, é verdade, estou feliz
sim, é verdade, estou feliz
mas isso não significa
que não deva olhar pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora
sim, a princípio, nada me falta
mas não preciso em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar os meus desejos
por outros que não lembro agora
sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras
sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação
a mim a santa paz não devora
mas isso não significa
que não deva olhar pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora
sim, a princípio, nada me falta
mas não preciso em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar os meus desejos
por outros que não lembro agora
sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras
sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação
a mim a santa paz não devora
1 114
Fernando Pessoa
Não sei de quem recordo meu passado
Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une –
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.
02/07/1930
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une –
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.
02/07/1930
1 601
Fernando Pessoa
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos.
20/11/1928
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos.
20/11/1928
1 589
Fernando Pessoa
Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.
26/04/1928
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.
26/04/1928
1 986
Fernando Pessoa
Hoje estou triste, estou triste.
Hoje estou triste, estou triste.
Estarei alegre amanhã...
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.
Ou chuva, ou sol, ou preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.
Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Estou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão.
22/04/1928
Estarei alegre amanhã...
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.
Ou chuva, ou sol, ou preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.
Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Estou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão.
22/04/1928
4 785
Martha Medeiros
foram exatos treze segundos
foram exatos treze segundos
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
1 014
Martha Medeiros
quando é que se decreta
quando é que se decreta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
1 163
Fernando Pessoa
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
1 276
Vasko Popa
- No começo
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
635
Ruy Belo
A história de um dia
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 37 e 38 | Editorial Presença Lda., 1984
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 37 e 38 | Editorial Presença Lda., 1984
1 267
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
673
Alexandre S. Santos
Momento de Ânimo
Em mergulhando na natureza,
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
1 031
Carlos Felipe Moisés
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
1 015
Lucebert
eu desligo uma revolução
eu desligo uma revolução
eu desligo uma pequena revolução deleitável
eu não sou mais da terra
eu sou de novo da água
eu carrego capacetes espumantes na cabeça
eu carrego fantasmas fotógrafos na cabeça
em minhas costas descansa uma sereia
em minhas costas descansa o vento
o vento e a sereia cantarolam
os capacetes espumantes sussurram
os fantasmas fotógrafos despencam
eu desligo uma pequena deleitável revolução revoluteante
e despenco e sussuro e cantarolo
:
ik draai een kleine revolutie af
ik draai een kleine mooie revolutie af
ik ben niet langer van land
ik ben weer water
ik draag schuimende koppen op mijn hoofd
ik draag schietende schimmen in mijn hoofd
op mijn rug rust een zeemeermin
op mijn rug rust de wind
de wind en de zeemeermin zingen
de schuimende koppen ruisen
de schietende schimmen vallen
ik draai een kleine mooie ritselende revolutie af
en ik val en ik ruis en ik zing
Lucebert, "O domador de animais" (pintura a óleo, 1959).
.
.
.
638
Carlos Felipe Moisés
Devolução
A noite veio, dispersou meu corpo,
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.
1 053
Jorge Luis Borges
Nubes
No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incesantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.
■
Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
¿Qué son las nubes? ¿Una arquitectura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en la mañana.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 607 e 608 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incesantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.
■
Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
¿Qué son las nubes? ¿Una arquitectura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en la mañana.
"Los conjurados" (1985)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 607 e 608 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
18 216
Carlos Falck
Bilhete à Ilha
Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.
Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.
Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.
E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.
Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.
Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.
E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.
896
Carlos Drummond de Andrade
Telegrama de Moscou
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
1 639
Max Martins
Revide
A cada fim
seu recomeço: Um broto
no galho morto
Marahu, jun. 1988
In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
seu recomeço: Um broto
no galho morto
Marahu, jun. 1988
In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
1 786
Dílson Catarino
Cores e Odores
As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
866
Donizete Galvão
Anil
Pedra tocada por Yves Klein,
em que borda do poço
se perdeu?
Em que veio de mina
ficou incrustada?
Por que a pálpebra se fechou
quando deveria estar aberta?
Por que não foi feita
a pergunta certa?
Onde o mantra
que faz surgir Tara,
caminhando hierática
sobre a muralha?
Em que noite adormeci verde
e acordei Saara?
em que borda do poço
se perdeu?
Em que veio de mina
ficou incrustada?
Por que a pálpebra se fechou
quando deveria estar aberta?
Por que não foi feita
a pergunta certa?
Onde o mantra
que faz surgir Tara,
caminhando hierática
sobre a muralha?
Em que noite adormeci verde
e acordei Saara?
1 009
Fernando Pessoa
Occasion cannot make me weak or strong
Occasion cannot make me weak or strong
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
837