Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Rechaça Os Relâmpagos

Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.

Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.

Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.

1 134
Antônio Barreto

Antônio Barreto

Por Motivo de Mudança

Oferece-se
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas

Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)

E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.


In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
1 331
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Meu Brasil Brasileiro

Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 386
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Contemplação No Banco

i

O coração pulverizado range
sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sanguínea?

Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,
não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.

Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.

Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar
nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.

Escultura de ar, minhas mãos
te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.

Ele talvez compreenda com todo o corpo,
para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.
ii

Nalgum lugar faz-se esse homem…
Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.

Não lhe convém o débil nome de filho,
pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.

Irmão lhe chamaria, mas irmão
por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?

Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,
na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.

Meu retrato futuro, como te amo,
e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…


iii

Vejo-te nas ervas pisadas.
O jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.
1 794
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Jovens Alemães

Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.

E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.

Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.

Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
1 209
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sonetilho do Falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
1 531
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ítaca

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 465
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Transiberiano

Atravesso o outono siberiano:
cada bétula um candelabro de ouro.
De repente uma árvore negra, uma árvore vermelha,
mostra uma ferida ou uma labareda.
A estepe, o rosto
de áspera imensidade, largura verde,
planeta cereal, terrestre oceano.

Passei de noite
em Novosibirsk, fundada
pela nova energia.
Na extensão suas luzes trabalhavam
no meio da noite, o homem novo
fazendo nova a natureza.
E tu, grande rio Yenisey, me disseste
com ampla voz ao passar, tua palavra:
“Agora não correm em vão minhas águas.
Sou sangue da vida que desperta”.

A pequena estação em que a chuva
deixa uma lembrança de água nos rincões
e acima as antigas, doces casas
de madeira, fragmentos dos bosques,
têm hóspedes novos, uma fileira
de ferro: são os novos tratores
que ontem chegaram, rígidos, uniformes
soldados da terra,
armas do pão, exército
da paz e a vida.
Trigos, madeiras, frutos
da Sibéria, bem-vindos
na casa do homem:
ninguém lhes dava direito a nascer,
ninguém podia saber que existíeis,
até que se quebrou a neve
e entre as asas brancas do degelo
entrou o homem soviético
a estender as sementes.
Oh terras siberianas,
na luz amarela
do mais comprido outono da terra,
alegres são as folhas de ouro,
toda a luz os cobre com sua taça entornada!

O trem transiberiano
vai devorando o planeta.
Cada dia uma hora
desaparece diante de nós,
cai atrás do trem,
torna-se semente.
Junto aos Urais
deixamos o bom frio do outono
e antes de Krasnoyarsk, antes de um dia,
a primavera invisível
vestiu de novo seu tíbio traje azul.
Na cabina seguinte
viaja o jovem geólogo
com sua mulher e um menino pequeninho.
A ilha de Sajalin os espera
com seus quarenta graus
de frio e solidão,
mas também esperam os metais
que têm dado referência
aos descobridores.

Adiante, menino soviético!
Como venceremos a solidão,
como venceremos o frio,
como ganharemos a paz,
se não vais pelo transiberiano
para fecundar as ilhas?
O trem vai repartindo
até Vladivostok, e ainda
entre os arquipélagos de cor de aço,
os rapazes que mudarão a vida,
que mudarão frio e solidão e vento
em flores e metais.
Adiante, rapazes
que neste trem transiberiano,
ao longo de sete dias de marcha
sonhais sonhos precisos
de ferro e de colheitas.

Adiante, trem siberiano,
tua vontade tranquila
quase dá volta ao globo!

Extensão, ampla terra, percorrendo-te,
resvalando no trem dias e dias,
amei tuas latitudes de estepe,
teus cultivos, teus povoados, tuas usinas,
teus homens reduzindo-te em substância
e teu outono infinito que me cobria de ouro
enquanto o trem vencia a luz e a distância!

Desde agora te levarei em meus olhos,
Sibéria, mãe
amarela, inabarcável
primavera futura!
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde o Caminho

Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.

A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.

Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.

O fragor branco do céu.

O dia não estala.
1 134
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Voando Para o Sol

Desde as extensões enrugadas
do Norte, Noroeste, fui voando
até Pequim alaranjado e verde.
Yennan sob meu voo
era uma só casca amarela
de lua mineral e de vazio.
Os motores e o vento,
o sol aéreo,
saudaram a terra sagrada,
as covas desde onde
a liberdade acumulou sua pólvora.
Já os heróis não estavam
entre as cicatrizes da terra:
sua semente
alta e livre crescia
debulhada e reunida.
Ardia a pele seca
do deserto de Gobi, as regiões
das fronteiras lunares,
os ramos arenosos
de teu largo mundo, China,
até que o vôo baixo
decifrou as campinas,
as águas, os jardins,
e de repente em tua margem,
Pequim, antigo e novo,
me recebeste. Então
rumor de terra e trigo e primavera,
passos nos caminhos,
ruas povoadas até o infinito,
como se reunisses
num copo puro
todo o rumor da água
para mim levantaste
as vidas de teu povo:
os agudos silvados,
os ruídos do aço,
tremor de céu e seda.
Eu levantei em meu copo
tuas numerosas vidas
e o antigo silêncio.

Era o dom que me davas, uma força
de antiga pedra que canta,
de velho rio que fecunda
a jovem primavera.

Vislumbrei de repente
a velha árvore do mundo
coberta de flores e frutas.
Ouvi de repente
o rio da vida
passar cumulado e firme
de idiomas cristalinos.
Bebi em teu antigo copo
a dura transparência,
o novo dia:
sabor de estrela e terra se fundiram
em minha boca. E divisei teu rosto entre os rostos,
antiga e jovem mãe
sorridente,
semeando com teu traje de guerrilha,
e resguardando o trigo
e a paz de teu povo
com teu sorriso armado
e tua doçura de aço.
1 314
Eliane Stoducto

Eliane Stoducto

Pororocas

Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...

291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó Juliano Apóstata, que laço

Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na m[inha] vida tua morte.

Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e (...) e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?

Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em gritos [?] de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, (...)

Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
1 460
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Maio de 68

a Eduardo Prado Coelho


As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura     fragmentada     morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
656
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ambos Nos Transformámos, Ambos Somos

Ambos nos transformámos, ambos somos.
Mas quem somos?
Alguém nos indicou no espelho. E nós olhámos
o estranho homem que desceu as escadas.

Eu não sou tu. Tu não virás se
eu não souber
transformar a ignorância no trajecto
das palavras à imagem
nua.

Ambos nos separamos, confundidos.
Não somos mais que esta passagem única
mas agora quem escreve sou eu ou tu
e somos ambos a pergunta viva.
951
Fernando Cereja

Fernando Cereja

São Paulo

casca de árvoreseca do cimento concretoevolução

923
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminho Sem Saída…

Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 192
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Assim Em Suas Mãos Nos Troca a Vida

E quem já nem em sonhos conhecemos
Longe se perde nos confins extremos
Da grande madrugada prometida

Assim em suas mãos nos troca a vida.
1 119
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Florismundo

Florismundo

Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.

1 093
Ernesto de Melo e Castro

Ernesto de Melo e Castro

Hermafrodita

De Hermes e de Afrodite o filho esbelto e amado,
de Salmacis oscula o corpo melodioso,
e a ninfa treme e ondeia o moço deslumbrado,
com um prazer que chega até a ser doloroso...

Ela – dócil, a arfar, como, ao vento, as searas...
Ele – forte, a arquejar, como, com cio, um touro...
O cabelo da ninfa inunda as duas caras,
e há beijos musicais sob essa chuva de ouro...

Enleandos um ao outro, a asa de uma mosca
não caberia não! entre esses corpos belos,
que se enroscam, sensuais, febris, como se enrosca
no tronco a vide em flor, e a hera nos castelos.

Dos dois corpos a união, entre lascivos ais,
cada vez, cada vez se torna mais completa,
e aquelas coxas cada vez se agitam mais:
uma brancas, de luar, outras rijas, de atleta...

Num doido frenesi, entrar parecem querer
ela – no corpo dele, ele – no corpo dela!
Choram, gemem, dão ais... e no auge do prazer,
começam a gritar para o céu que se estrela:

– «Ó deuses! atendei esta súplica ardente:
se é verdade que ouvis as vozes que vos chamam,
os nossos corações, fundi-os num somente,
fundi num corpo só nossos corpos que se amam!»

Chegou ao vasto Olimpo a rogativa louca;
e Zeus, o grande Zeus, cuja força é infinita,
as duas bocas transformou numa só boca,
e dos dois corpos fez um só: HERMAFRODITA!

1 783
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

II Os versos, que cantei importunado

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
580
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

XXIX Da emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razões claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.
725
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

ELEGIA II Da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
1 019
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

68. Descontínuas, Desfechadas Linhas

68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.

Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar

o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
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Fabio Valor Caldas

Fabio Valor Caldas

Tudo Que For Pecado

Sinta a minha presença
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.

Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.

Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?

A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.

Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.

A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.

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