Poemas neste tema

Morte e Luto

Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Canção do berço vazio

Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.

Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.

Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.

Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?

Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...

Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...

Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.



1 497
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXVI

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
1 014
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXVIII

Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?

Não pode também matar-te
um beijo da primavera?

Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?

E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 033
Hans Arp

Hans Arp

Textículos do pássaro


1-

ai eis que faleceu nosso grande josé
quem há-de carregar os brasões nas tranças quem
........há-de girar o moedor do grão-café
quem há-de apascentar a idílica anta
nos mares ele confundia as barcas com a palavrícula
........parapluie e ao vento ele chamava de apicultor
ai ai ai faleceu nosso grande josé são balalão
........faleceu josé
os peixes de palha estapeiam-se nos sinos à pronúncia
........de seu nome por isso sigo sussurrando josé
........josé josé
por que foste virar uma constelação ou uma corrente
........d´água num redemoinho quente ou tetas
........de luz negra ou telhas transparentes no
........tambor gemente dos corpos rochosos
agora secam-se-nos dos crânios às solas e as
........fadas encontram-se já semi-carbonizadas
........em meio às fogueiras

2-

........agora trovejam detrás do sol
os boliches negros e nao há quem dê corda à bússola
........e às rodas das carriolas
quem há-de comer com a ratazana à solitária mesa
........quem há-de caçar o diabo quando ele tentar
........seduzir os cavalos quem há-de explicar o
........monograma nas galáxias
seu busto há-de enfeitar a lareira de todos os
........nobres homens da verdade mas isto não
........serve de consolo ou cocaína a uma caveira oca

3-

sobre as cancelas d´água agitaram os acrobatas
........suas bandeirolas como demonstra a figura 5
os aventureiros com barbas postiças e cascos
........diamantinos subiram nevascamente ao pódio
........por meio de embalonadas peles de baleia
o grande leão fantasmático harun al rashid dito
........harung al radi bocejou três vezes e exibiu
........seus dentes enegrecidos de fumante
as cascavéis mercerizadas desenovelaram-se de suas
........rocas capinaram sua soja e trancafiaram-na
........em pedras
da bainha da morte surgiram os olhos das estrelas jovens
após chicotear as bochechas do sol dançaram os
........cascos das mulas na bocarra da garrafa
os mortos caíram feito flocos das torres de couro
quantos esqueletos giraram as rodas dos portões
ao terceiro cantar da cachoeira fugiu-lhe à parede
o sangue da cara e a matriz de atrizes
........estilhaçou-se
das profundezas escalaram os armários e espalharam
........suas âncoras
finalmente o mar desafiou a impotência das bússolas
os anjos brilhantes giraram em seus anzóis amargos
as corujas vidradas regurgitaram a morte de bico
........em bico
os pássaros penduraram suas caudas de vidro como
........cachoeiras das rochas
as sitiantes carregaram nos cabelos sóis empalhados
........encendiados às sitiantes permitiu-se abandonar
........suas bonecas de plástico apenas em suas
........tireóides em seus batons-botox em sua
........cidadezinha jerusalém

4-

a donzela cerimoniosamente bombeia nuvens
........em sacolas de pedra e couro
gigandastes silenciosos espiralam pardais
........estridentes no azul
as torres de areia entopem-se de bonecas de pano
as eclusas represam hipocampos esferas e moinhos
as barcas chama-se joão e maria e flutuam adiante
........sem noção
o dragão carrega a insígnia cuca-gula e é guiado
........manso pela coleira
às cidades amputa-se os pés
aos campanários dá-se pista de dança apenas em porões
por isso escapamos da obrigação de limpar as
........garras cornetas birutas

5-

apesar da lua pendurar-se feito espelho face a face
........dói-me o anjo no olho
à mesa as germinações vêm-me ao encontro e você
........lateja nas plantas para que suas flores espirrem
os leões terminam diante de seus departamentos de
........trânsito com jarras cheias de diamantes
........entre as garras
os guias carregam aventais de madeira

os pássaros carregam sapatilhas de madeira
os pássaros estão cheios de ecos
ovos tobogãam-se infindáveis de seus minúsculos miocárdios
seus bicos carregam o mastro celeste
suas solas pousam em chamas saltitantes
o granizo em grãos parte-se e invoca o senhordeus
a roca do céu naufraga por isso pisam com seus cascos
........sobre cereais negros
em janeiro neva grafite no pelo das cabras
em fevereiro mostra-se o avestruz de luz-giz
........e estrelas brancas
em março acasala-se o arcancho e o tijolo e besouro
........besuntam-se avante
e as estrelas gangorram-se em seus anéis
e as flores de recepção ruflam em suas correntilhas
e as princesas cantam em suas chaleiras
quem há-de perseguir com mini-dedos e pára-quedas
........o vento da manhã
1 276
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

WITH RUE MY HEART

De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.

De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.

1 007
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THE SIGTH THAT HEAVES

O suspiro que erva ondula
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.

As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.

1 067
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLV

O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?

E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?

E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?

Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
1 000
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Princípio

Na praia sangrenta a gelatina verde das algas — horizontes!
Os olhos do afogado à tona e o sexo no fundo (a contemplação na
desagregação da forma...)
O mar... A música que sobe ao espírito, a poesia do mar, a cantata soturna
dos três movimentos
O mar! (Não a superfície calma, mas o abismo povoado de peixes
fantásticos e sábios...)

É o navio grego, é o navio grego desaparecido nas floras submarinas —
Deus balança por um fio invisível a ossada do timoneiro sob o grande
mastro
São as medusas, são as medusas dançando a dança erótica dos mucos
vermelhos se abrindo ao beijo das águas
É a carne que o amor não mais ilumina, é o rito que o fervor não mais
acende
É o amor um molusco gigantesco vagando pela revelação das luzes árticas.

O que se encontrará no abismo mesmo de sabedoria e de compreensão
infinita
Ó pobre narciso nu que te deixaste ficar sobre a certeza de tua plenitude?
Nos peixes que da própria substância acendem o espesso líquido que vão
atravessando
Terás conhecido a verdadeira luz da miséria humana que quer se ultrapassar.

É preciso morrer, a face repousada contra a água como um grande nenúfar
partido
Na espera da decomposição que virá para os olhos cegos de tanta
serenidade
Na visão do amor que estenderá as suas antenas altas e fosforescentes
Todo o teu corpo há de deliquescer e mergulhar como um destroço ao apelo do fundo.

Será a viagem e a destinação. Há correntes que te levarão insensivelmente e
sem dor para cavernas de coral
Lá conhecerás os segredos da vida misteriosa dos peixes eternos
Verás crescerem olhos ardentes do volume glauco que te incendiarão de
pureza
E assistirás a seres distantes que se fecundam à simples emoção do amor.

Encontrar, eis o destino. Aves brancas que desceis aos lagos e fugis! Oh, a
covardia das vossas asas!
É preciso ir e se perder no elemento de onde surge a vida.
Mais vale a árvore da fonte que a árvore do rio plantada segundo a corrente
e que dá seus frutos a seu tempo...
Deixai morrer o desespero nas sombras da ideia de que o amor pode não vir.

Na praia sangrenta a velha embarcação negra e desfeita — o mar a lançou
talvez na tempestade!
Eu — e casebres de pescadores eternamente ausentes...
O mar! o vento tangendo as águas e cantando, cantando, cantando
Na praia sangrenta entre brancas espumas e horizontes...
1 191
Marcial

Marcial

VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO

Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.

534
Elizabeth Barrett Browning

Elizabeth Barrett Browning

Catarina a Camões

I

Pra a porta onde não surges nem me vês
Há muito tempo que olho já em vão.
A esperança retira o seu talvez;
Aproxima-se a morte, mas tu não.
Amor, vem
Fechar bem
Estes olhos de que dissestes ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

II

Quando te ouvi cantar esse bordão
Nos meus de primavera alegres dias;
Todo alheio louvar tendo por vão
Só dava ouvidos ao que tu dizias
– Dentro em mim
Dizendo assim:
"Ditosos olhos de que disse ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos."

III

Mas tudo muda. Nesta tarde fria
O sol bate na porta sem calor.
Se estivesse aí murmuraria
Como dantes tua voz – "amo-te, amor";
A morte chega
E já cega
Os olhos que ontem eram teus desvelo
O lindo ser dos vossos olhos belos.

IV

Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses
Agora, ao pé do leito em que me fino,
Ainda que a beleza lhes negasses,
Só pelo amor que neles eu defino
Com verdade
E ansiedade
Repetirias, meu amor, ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

V

E se neles pusesse teu olhar
E eles pusessem seu olhar no teu,
Toda a luz que começa a lhes faltar
Voltaria de pronto ao lugar seu.
Com verdade
E ansiedade
Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

VI

Mas – ai de mim! – tu não me vês senão
Nos pensamentos teus de amante ausente,
E sorrindo talvez, sonhando em vão,
Trás o abanar do leque levemente;
E, sem pensar,
Em teu sonhar
Iras talvez dizendo sempre ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos,

VII

Enquanto o meu espírito se debruça
Do meu pálido corpo sucumbido,
Ansioso de saber que falas usa
Teu amor pra meu espírito ferido,
Poeta, vem
Mostrar bem
Que amor trazem aos olhos teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

VIII

Ó meu poeta, ó meu profeta, quando
Destes olhos louvaste o lindo ser,
Pensaste acaso, enquanto ias cantando,
Que isso já estava prestes de morrer?
Seus olhares
Deram-te ares
De que breve podias não mais vê-los,
O lindo ser dos vossos olhos belos.

IX

Ninguém responde. Só suave, defronte,
No pátio a fonte canta em solidão,
E como água no mármore da fonte,
Do amor pra a morte cai meu coração.
E é da sorte
Que seja a morte
E não o amor, que ganhe os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos!

X

E tu nunca virás? Quando eu me for
Onde as doçuras estão escondidas,
E onde a tua voz, ó meu amor,
Não me abrirá as pálpebras descidas,
Dize, amo meu,
"O amor, morreu!"
Sob o cipreste chora os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XI

Quando o angelus toca à oração,
Não passarás ao pé deste convento,
Lembrando-te, a chorar, do cantochão
Que anjos nos traziam do firmamento?
No ardor meu
Eu via o céu
E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos,
Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"

XII

Devagar quando, do palácio ao pé,
Cavalgares, como antes, suave e rente,
E ali vires um rosto que não é
O que vias ali antigamente,
Dirás talvez
"Tanta vez
Me esperaste aqui, ó meus desvelos
Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"

XIII

Quando as damas da corte, arfando os peitos,
Te disserem, olhando o gesto teu,
"Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos
Àquela linda dama que morreu",
Tremerás?
Calar-te-ás?
Ou cantarás, chorando, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos?

XIV

"Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases
E deliciosas quando eu as repito!
Cem poesias outras que cantasses,
Sempre nesta a melhor terias dito.
Sinto-a calma
Entre a minha alma
E os rumores da terra ? pesadelos:
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XV

Mas reza o padre junto à minha face,
E o coro está de joelhos todo em prece,
E é forçoso que a alma minha passe
Entre cantos de dor, e não como esse.
Miserere
Plos que fere
O mundo, e pra Natércia, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVI

Guarda esta fita que te mando
(Tirei-a dos cabelos para ti).
Sentir-te-ás, quando o teu choro arda,
Acompanhado na tua dor por mi;
Pois com pura
Alma imperjura
Sempre do céu te olharão teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVII

Mas agora, esta terra inda os prendendo,
Desses olhos o brilho é inda alado...
Amor, tu poderás encher, querendo,
Teu futuro de todo o meu passado,
E tornar
A cantar
A outra dama ideal dos teus desvelos:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVIII

Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros!
Perjuros ao louvor que ele vos deu,
Se esta hora mesmo vos não mostrais puros
De lágrima que acaso vos encheu?
Será forte
Choro ou morte
Se indignos os tornar de teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XIX

Seu futuro encherá meu spírito alado
No céu, e abençoá-lo-ei dos céus.
Se ele vier a ser enamorado
De olhos mais belos do que os olhos meus,
O céu os proteja,
Suave lhes seja
E possa ele dizer, sincero, ao vê-los:

2 734
Rosalía de Castro

Rosalía de Castro

Cantar de emigração

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas horas mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará

6 023
Isaac Rosenberg

Isaac Rosenberg

Raiar do dia nas trincheiras

A escuridão desmorona -
É o mesmo tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva roça minha mão -
Um rato esquisito e sarcástico -
Ao arrancar do parapeito a papoula
Para por detrás da orelha.
Rato comediante, você seria fuzilado se soubessem
De suas simpatias cosmopolitas.
Agora você tocou esta mão inglesa
Amanhã fará o mesmo com uma alemã -
Sem dúvida em breve se bem lhe aprouver
Cruzar o verde sonolento entre nós.
Você parece sorrir por dentro ao passar
Por olhos fortes, pernas rijas, atletas orgulhosos
Menos aptos à vida que você,
Atados aos caprichos do homicídio,
Esparramados pelas entranhas da terra,
Os campos rasgados da França.
O que você vê em nossos olhos
No ferro e fogo barulhento
Arrojados pelo céu quieto?
Que tremor - que peito horrorizado?
Papoulas com raízes nas veias de homens
Caem, e caem eternamente;
Mas a minha está segura em minha orelha,
Apenas um tanto embranquecida de poeira.

(tradução de Ricardo Domeneck)
1 730
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXI

A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?

Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?

Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
1 027
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vou dormir, dormir, dormir,

Nirvana

Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.

Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.

Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 899
Maria Azenha

Maria Azenha

Recordações

Nenhum vestígio
Nenhuma noite impura
Nenhum país de lume
Nenhuma serra ali.
A tua ausência é tão funda
Que não regressa a ti.

906
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LX

E que importância tenho eu
no tribunal do olvido?

Qual é a representação
do resultado vindouro?

É a semente cereal
com sua multidão amarela?

Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
1 059
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXII

Que significa persistir
no beco da morte?

No deserto do sal
como se pode florescer?

No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?

Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 004
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LIX

Pobres poetas a quem a vida e a morte
perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e logo são cobertos por impassível pompa,
entregues ao rito e ao dente funerário.

Eles – obscuros como pedrinhas – agora
detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados ao fim pelos intrusos,
entre os acompanhantes, a dormir sem silêncio.

Antes e já seguros de que está morto o morto
fazem das exéquias um festim miserável
com pavões, porcos e outros oradores.

Espreitaram sua morte e então a ofenderam:
só porque sua boca está fechada
e já não pode contestar seu canto.
586
Pablo Neruda

Pablo Neruda

III. A morte na Nicarágua

Desfalece em León o leão e o acodem e o solicitam,
os álbuns carregam as rosas do imperador desfolhado
e assim passeiam-no no seu levita de tristeza
longe do amor, entregue ao conhaque dos piratas.

É como um imenso e sonâmbulo cão que trota e coxeia por salas repletas de comovedora ignorância e ele assina e cumprimenta com mãos ausentes, aproxima-se a noite detrás dos vidros,
os montes recortam a sombra e em vão os dedos fosfóricos do bardo pretendem a luz que se extingue: não há lua, não chegam estrelas, a festa se acaba.

E Francisca Sánchez não reza aos pés amarelos de seu minotauro.

Assim, desterrado em sua pátria meu pai, teu pai, poetas, morreu.

Tiraram do crânio seus miolos sangrantes os cruéis anões
e os passearam por exposições e hangares sinistros:
o pobre perdido ali, só entre condecorados, não ouvia gastas palavras,
mas na onda do ritmo e do sonho caiu no elemento,
voltou à substância aborígine das ancestrais regiões.

E a pedreira que trouxe à história, a rosa que canta no fogo,
o alto som de seu campanário, sua luz torrencial de safira
voltou à morada na selva, voltou às suas raízes.

Assim foi como o nosso, o errante, o enigma de Valparaíso,
o beneditino sedento das Baleares,
o prófugo, o pobre pastor de Paris, o triunfante perdido,
descansa na areia da América, no berço das esmeraldas.

Honra à sua cítara eterna, à sua torre indelével!
1 043
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Comunhão

Ângulos e curvas se ajustam
formando um volume, um todo:
somos uma cousa única,
eu e a lembrança do morto.

Nada de excêntrico ou de incerto
para a alma nem para o corpo:
união natural e completa
como a de líquidos num copo.

A solidão perdeu aos poucos
a rispidez. E foi a chave.
Eu e a lembrança do morto
em comum, temos vida própria
- não excessivamente grave.

1 753
Sylvia Plath

Sylvia Plath

Auge

A mulher está perfeita.
Morto,

Seu corpo mostra um sorriso de satisfação
A ilusão de uma necessidade grega

Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés

Parecem dizer:
Fomos tão longe, é o fim.

Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada

Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou

Todas em seu selo como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim

Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.

A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.

Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga

(5 fevereiro 1963)



1 361
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - XCIII

Se alguma vez teu peito se detém,
se algo deixa de andar ardendo por tuas veias,
se tua voz em tua boca se vai sem ser palavra,
se tuas mãos se esquecem de voar e dormem,


Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos
porque esse último beijo deve durar comigo,
deve ficar imóvel para sempre em tua boca
para que assim também me acompanhe em minha morte.


Morrerei beijando tua louca boca fria,
abraçando o cacho perdido de teu corpo,
e buscando a luz de teus olhos fechados.


E assim quando a terra receber nosso abraço
iremos confundidos numa única morte
a viver para sempre de um beijo a eternidade.
1 366
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Partida

Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
1 304
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Morte

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
1 783