Poemas neste tema

Morte e Luto

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Amor eterno farol

Amor — eterno farol!
Que faz, pois, o ser viúva?
As vezes também há sol
Nos tristes dias de chuva!...
1 601
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Eu, da Morte, quase não morro

Eu, da Morte, quase não morro.
Morro mais de mim que morro dela.

E em cada encruzilhada que me tem acontecido
eu me tenho visto
escolher caminho sempre aquele que a ela
torna mais fácil o mister que tem comigo.

1 190
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

12 SETEMBRO 1977

Robert Lowell morto num táxi em Manhattan.

O sol parece infantil.

960
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

Minha Bermuda

A sujeira invisível que minha bermuda acumula
só aquele sabão-em-pó vê.

Sinto que novos atributos, de origem não-identificada,
lhe são lentamente agregados.
Ela adquire novo odor:
papelão velho, restos de comida,
líquidos orgânicos, pêlos de gato -
perfeita síntese odorífera
de horas lendo diante da TV
(fazer duas coisas ao mesmo tempo
é um prazer meu).

Então vem o momento
em que é preciso decidir não mais usá-la.
Está suja - conceito bastante elástico.
Volte-se ao início do processo.

Assim percebo a passagem do tempo,
quando se vive para a escolha do epitáfio.

1 022
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Aos Bons Amigos Da Torre

A todos, sem exceção, muitos abramos:
Raparigas, rapazes, novos, velhos!
Que eu, de alma erguida ao alto e de joelhos,
Os tenha, um só instante, nos meus braços!

Que da nossa afeição os ténues laços
Se tornem firmes como os Evangelhos!
Que dos mais belos, dos mais feios concelhos
Deus, para a Torre, vos dirija os passos!

Até pro ano, firmes, lá na Torre!
Demos as nossas almas esse gosto!
Fica abolida a morte! Ninguém morre!

E queira Deus e mais a Virgem Santa
Que passem o ano bem... mas que em Agosto
Sofram todos dos brônquios e garganta...

1 762
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Devolução

A noite veio, dispersou meu corpo,
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.

1 058
Florbela Espanca

Florbela Espanca

A luz ignóbil

A luz ignóbil, informe,
É um diamante enorme
Engastado no azul duma safira...
A ignóbil luz
Inunda toda a rua...

O Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
Á janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó Almas de grangrenas,
Almas ’slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas como ralhos
Cortantes como gritos!
Almas onde se perdem infinitos!...

Almas trágicas de feias
Que nunca acreditaram
Em beijos e noivados...
E que desperdiçaram
Quimeras aos braçados
E sonhos as mãos cheias!...

ò almas de assassinos que morreram
E riram e mataram!
Almas de garras que se esclavinharam
Em carnes virgens por sensualidade!

Almas de orgulho e de claridade
Talhadas em diamante!
Almas de gato-tigre, almas de fera!

O ébrios da quimera
O cisternas sem fundo!
Que trazeis nos olhos macerados
Seivas de Primavera...
Todo o horror do mundo!...

Ó Almas de boémios, rutilantes,
Que Não sabem que há sol,
Almas esfuziantes
Que atravessam o mar como um farol!

Ó Almas de poetas, assombradas,
Almas sagradas
De tanto adivinhar!
Almas maravilhadas
De arder em labaredas
Sem nunca se queimar!

Almas de velhas que querem agradar...
De amantes que Não cessam de enganar...
Ó Almas de ladrões
Onde passam, a rir, constelações!

Almas de vagabundos
Onde há charcos e lagos
Pântanos e lamas...
Onde se erguem chamas,
Onde se agitam mundos,
E coisas a morrer...
E sonhos... e afagos...
Almas sem Pátria,

Almas sem rei,
Sem fé nem lei!
Almas de anjos caídos,
Almas que se escondem pra gemer
Como leões feridos!

Vinde todas aqui á minha voz
Que o mundo é ermo
E estamos sós.

Vós todas que sois iguais a mim
O Almas de mentira!
Vinde á minha janela, á minha rua
Ver a ignóbil luz,
A luz informe,
O diamante enorme,
Engastado no azul duma safira...

Vai passar certamente a procissão...
Na minha rua vai um riso franco
Um riso de alvorada!
Há dentro dela tudo quanto é branco!
É urna asa de pomba, desdobrada!...

Brancos os lilases e as rosas...
Mudou-se em prata o oiro das mimosas
E há lirios as molhadas,
Aos feixes, ás braçadas...
Tudo branco, Meu Deus!

Lá vêm os anjos todos de brocado,
De olhos ingénuos e resplendor...
O ar tem o sabor
Dum grande morangal
Que nunca foi tratado...

Olhem as virgens, olhem! Que sorriso!
Vieram do Paraíso
mesmo agora...
E todo o ar
Parece acabadinho de lavar
Ao despontar da aurora...

Caem do céu miríades de penas
Leves como aves...
Dulcíssimas, suaves...
Curvam-se as açucenas...

Em mãos de prata lá vêm os Evangelhos
As casas, ao luar, são mais pequenas
Puseram-se — quem sabe?... — de joelhos...

O ar é virginal...
Um templo de cristal
Onde, rodopiando,
Passam brandas, arfando,
Como asas de pombas sobre as eiras,
O estandarte real
E pendões e bandeiras!...

Quem vem?...
Esvaiu-se num sopro a procissão...
Silencio! Nada! Ninguém!
Pasmo de coisas mortas!
Alucinação!
E o meu coração
Põe-se a bater às portas...

E não abre ninguém!
Ninguém! Ninguém! Ninguém!...
1 723
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Com a doçura

Com a doçura de urna linda ave
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
1 568
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto VIII - A terra se chama Juan

I
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)

Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.

Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.

E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.

Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.

Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.

Cristóbal, esta lembrança para ti.

Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.

Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.




II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)

Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.

Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.




III
Luis Cortés
(de Tocopilla)

Camarada, meu nome é Luis Cortés.

Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.

Você, camarada, sabe como é isso.

Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.

É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.

Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.

Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.

Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.

Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.




IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)

Olegario Sepúlveda é meu nome.

Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.

Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.

Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.

Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.

Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.

Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.

(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.

Sepúlveda, na frente do dique Grande.

Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.




V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)

junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.

Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.

lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.




VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)

Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.

até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.


E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.


E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.


Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.

Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.


Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.


Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.


Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.

Um pouco mais profundo és agora.

Agora tens terra e tens tempo.




VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)

No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.

Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.

Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.

Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.

É Antonino Bernales o culpado.

Não se mexeu de sua pequena choça.

Passou dormindo aqueles dias.

Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.

Unem-se todos debaixo dos fraques.

Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.

O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.

Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.

Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.




VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)

Estou morta.
Sou de María Elena.

Vivi a vida toda no pampa.

Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.

Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.

Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.

Eu esperava que nós não fôssemos.

Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.

Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.

Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.




IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)

Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.

Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.

A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.

Por isso virei mineiro.

Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.

Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.

Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.

José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.




X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)

Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.

Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.

A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.

Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.




XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)

O senhor é Neruda? Entre, camarada.

É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.

Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.

Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.

Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.

Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.




XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)

Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.

De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.

Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.

Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.

Era “picano” o mestre Huerta.

Media um metro e noventa e cinco.

Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.

Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.

Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.

O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.

Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.

Depois se arrastou pela mina.

Já não podia descer à galeria.

O antimônio lhe comeu as tripas.

Emagreceu de dar medo.

Mas nem podia andar.

Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.

Ainda não tinha trinta anos.

Pergunte onde está enterrado.

Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.

Ainda não tinha trinta anos.

É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.




XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)

Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.

Me levaram e me bateram um dia inteiro.

Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.

Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.

Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.

“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.

Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.

Mas por dentro estou como antes, camarada.

A gente eles só quebram matando.




XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)

Arrumei a comida das criancinhas e saí.

Quis entrar em Lota para ver meu marido.


Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.

Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.

Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.

Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.

Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.

Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.

Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.

Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.

Mas isto não vai acontecer pra sempre.

Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.




XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)

Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.

Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.

Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.

Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.

(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)

Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.




XVI
Catástrofe em Sewell

Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.

Estes nomes são como o cimento do Chile.

O povo é o cimento da pátria.

Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.

O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.

Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.

Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.

Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.

Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.

Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.

Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.

Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.

Não temos nós deuses que nos socorram.

As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.


Nós não rezamos.

Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.

Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.

E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.

Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.

Eu me chamo como eles, como os que morreram.

Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.

Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.

Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.

Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.

E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.




XVII
A terra se chama Juan

Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.

Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.

Seus ossos estão em todos os lugares.

Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.

Nasceu de novo como uma planta eterna.

Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.

Amarraram-no, e é agora decidido soldado.

Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.

Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.

Enterraram-no, e vem cantando conosco.

Juan, é tua a porta e o caminho.

A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.

Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.

Povo, do sofrimento nasceu a ordem.


Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.


Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
1 176
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O desterro

Porque, bem-amada, é o homem que canta o que morre morrendo sem morte
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
1 141
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Olhos que façam chorar

Olhos que façam chorar,
Só os teus, de mais ninguém.
Por que me lembrais, ó olhos,
Os olhos de minha mãe?

Essa lembrança bendita
Apenas é crueldade...
Por que me lembrais, ó olhos,
A minha imensa saudade?

Se ela dorme há muito tempo,
Se há muito tempo morreu...
Por que me lembrais, ó olhos,
Um bem que est’alma perdeu?

Fechai-vos devagarinho,
Olhos como os de ninguém!
Deixai-me esquecer a mágoa
Dos olhos da minha mae!...
1 948
Giselda Medeiros

Giselda Medeiros

Antigênesis

E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.

1 190
Torquato Tasso

Torquato Tasso

NA MORTE DE MARGARIDA BENTIVOGLIO

Não é isto um morrer,
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.

1 149
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Morreu a pequenina

Morreu a pequenina... Foi sol-pór
Aquele sol nascente. Quem diria!...
Mas Não! Não pode ser! Não morreria!
Não pode ser tortura o que é amor!

Anda a brincar e a rir seja onde for...
Anda por ali em doida correria...
Abram bem as estrelas do meio-dia,
Vejam se está no seio dalguma flor!...

«Lá vem a Primavera!» oiço dizer;
«A sempre alegre e moça, a sempre bela,
A que das fragas rosas faz nascer!»

Gorjeios... risos... Sim, oiço-os também...
Será a Primavera?... ou será Ela?!
Será a pequenina que além vem?!...
1 912
Mário Hélio

Mário Hélio

24-IV (Espaçonavegavelar)

num acúmulo de horas vejo coisa rodopiar
através de cabeça por se desvendar
através do espaçoar
do mar
num acúmulo de oras vejo rosto corar
vejo a prece do medo do modo do homem gritar
através do escaçomar
do ar
num acúmulo de ras tos nareia domar
vejo gente morrendo ao se procurar
anular
num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem
tanta coisa desvendar?

598
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

O PENSADOR DE RODIN

Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.

2 317
Gilka Machado

Gilka Machado

Chuva de Cinzas

Chuva de Cinzas

Chuva de cinzas...Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.
(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)

2 400
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Morte ao amanhecer

Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga

Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio

Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente

E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando

906
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Vallejo

Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
1 084
Mário Hélio

Mário Hélio

35-V-(Esparsa)

desculpa meu edgar poe
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa

774
Mário Hélio

Mário Hélio

34-IV(Vegeptil)

lâmina de carne
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu

770
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Rosa imortal

Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.

Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa

Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.

Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.

748
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Simples

Acabaram-se talvez os excessos e os impulsos.
Dissipámo-nos na luz como uma sombra.
Mas as palavras continuam feridas e comovem-se
em presenças verticais no vento, em obscuras chamas.
Que alianças, que pedidos sem fim, que consentimentos
perduram ainda nas palavras feridas!
É já a música nos flancos e nos ombros
e a argila leve do desejo e um frémito de folhas
e o vento e a ausência que quase diz um nome.
Nós aceitámos o ardor e o luto, o deserto das mesas.
Porque quisemos recomeçar na génese das pedras
ao nível do repouso simples das folhas e da cinza.
1 148
Majela Colares

Majela Colares

Vertigem

Já se ouviam, de estrelas, rebramidos
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.

Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.

A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.

Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.

As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.

As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.

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