Poemas neste tema

Morte e Luto

Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Poema da Passagem

Se das coisas findas e das que se findaram
Ficar alguma lição será a do passar.
Só o passar é infinito como o verbo
E, no entanto, a rosa e a poesia se conservam
E se conservam o tempo, o espaço, o ar, a luz.
A música, talvez, há de acabar
Ou toque e não se faça ouvir
(Sobreviverá algo estranho como o sentir
Ou o mistério da vida acabará ?).
As perguntas e as respostas não mais terão sentido
Nem se saberá o que é ter morrido
Porque o próprio saber não existirá
Quando o que sempre foi
Vier a ser o que será
E ninguém, nem quem me lê perceberá
Longínquos que ficamos no caminho.

865
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Alguns Toureiros

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.
1 813
Martha Medeiros

Martha Medeiros

começou com uma troca de olhares

começou com uma troca de olhares
uns ares de sedução
se quiseres, se puderes
uns plurais de romantismo
não me beijes, me namores
não fujas, não partas
já não podes me deixar
uns apelos singulares
eu te amo, tu me amas
uns acordes provençais
se não podes, não me iludas
uns traquejos familiares
tu és minha, de quem mais
uns que tais, uns nem venhas
uns não posso nunca mais
uns poderes andaluzes
não me traias, oh meu deus
uns adeuses prematuros
uns que outros absurdos
uns sinais de fim de linha
atitudes passionais
tragédias seculares
suicídios, ameaças
promessas indevidas
e tudo terminou
com uma troca de facadas
noticiaram dois jornais
538
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Cântico

Abre-te,
anjo,
das asas que pendes
e rola vagaroso
entre os espinhos da coroa.
Sucumbe,
ainda tolo,
dentro do último riso
à espera do mar.
Nada cantará esta noite
- de crepúsculo inusitado -
Dos ossos que sustentam
teus olhos em sangue,
extraio, sem cuidado,
o único vestígio
da vida decadente.
Não mintas,
ainda que a boca
gravídica
tente o suicídio.
Dá a paz
a todos os insetos
abaixo de teu olhar.
Sepulta-me
entre as pétalas
do cárcere dos lobos.
Estás certo...
Ainda que o sol
se deteriore,
sou a porta.

826
Toni Montesinos Gilbert

Toni Montesinos Gilbert

Vida de areia

Quem dera que fosse feito de pó azul
para me diluir em todas as almas.
Se o meu corpo fosse pó a voar
passagens de céu, com um pouco
de frialdade, mereceria as mortes
irrecuperáveis, para sempre já
empoeirados pela sua ausência histórica.

Perderam-se, ficaram sem sangue.
E foi porque ninguém voltou a chamá-las.
E começaram a sonhar com montanhas,
e mais tarde com pedras, depois com areia
do tempo deserto. E por fim, com pó.
O sonho solitário conduziu-as
a cavar o amor numa estrela,
junto do que nunca puderam ter.

Eu quero chegar a todas as almas,
ser azul para distender o tempo,
ser um horizonte entre vida e morte,
esperar os amanheceres lento,
como se voltasse a nascer, azulado.

Quem dera que estivesse fora do século,
sem correspondência com nenhum espaço
concreto, sentir-me livre como pó
diluído em qualquer das ruas
conhecidas por onde caminhei.
Ser a presença total e absoluta.
Possuir o olhar omnipresente…

Mas apenas sou de carne e osso.
Um dia morrerei e não poderei pensar,
nunca mais, como construir um relógio
para sentir a vida mais extensa.
888
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Fim do Mundo

No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
1 073
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Vida assim nos Afeiçoa

Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!

"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;

"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 063
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Talvez um conto de Andersen

Há silenciosos
bosques na memória,
tão solenes que lá os deuses não entram,
vida e morte congelados em denso nevoeiro
a confundir o eterno ciclo do tempo.

Tenebrosas fábulas os povoam
imagens de trevas, feitiços e bruxas
árvores que perderam a casca:
seu duro interior exposto rejeita marcas
de canivetes de namorados,
folhas sêcas não mais beijadas pela luz do Sol
esperam inutilmente ventos que as levarão
para longe,
para fora dos densos remansos,
para dentro do eterno reciclar dos insetos,
das bactérias e dos cogumelos,
galhos e troncos onde nunca crianças subirão
e que cansaram de se erguer para o céu.

Quando lá entramos
vindos dos longos corredores do sonho
sentimos o frio terror do reverso do espelho
e ouvimos o convite do cansaço
para deitar, para dormir,para o final.
831
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Busca

Não se
sabe de Clara.
Se me procuram para revelações,
Esvazio o meu rosto e quedo,
Ocultando a sua ida.
Eu aceito, se me acusam.
Sua figura longa vertendo, tardando,
Com a retina em veludo
- Clara, cedendo, num gesto de flor.
Se me encerram, eu não rogo ou protesto.
Sua forma contrária andando na terra,
Invertendo as linhas que seguiam retas,
Sua passagem lenta pelas trilhadas
Se firmou algures...
Mas se aumentam as pesquisas,
Esquadrinham sinais,
Eu vou tomar seus olhos convincentes
E com eles direi :
-"Não há mais Clara".

868
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Transparência

a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
1 198
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Elegia para Minha Mãe

Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!

Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.

Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)

Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.

No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!

Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.

Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),

Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
2 386
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Oscilação No Branco

A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 102
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Declaração Em Juízo

Peço desculpa de ser
o sobrevivente.
Não por longo tempo, é claro.
Tranquilizem-se.
Mas devo confessar, reconhecer
que sou sobrevivente.
Se é triste/cômico
ficar sentado na platéia
quando o espetáculo acabou
e fecha-se o teatro,
mais triste/grotesco é permanecer no palco,
ator único, sem papel,
quando o público já virou as costas
e somente baratas
circulam no farelo.

Reparem: não tenho culpa.
Não fiz nada para ser
sobrevivente.
Não roguei aos altos poderes
que me conservassem tanto tempo.
Não matei nenhum dos companheiros.
Se não saí violentamente,
se me deixei ficar ficar ficar,
foi sem segunda intenção.

Largaram-me aqui, eis tudo,
e lá se foram todos, um a um,
sem prevenir, sem me acenar,
sem dizer adeus, todos se foram.
(Houve os que requintaram no silêncio.)
Não me queixo. Nem os censuro.
Decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
Não cuidaram de que um sobraria.
Foi isso. Tornei, tornaram-me
sobre-vivente.

Se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
Viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. Adiamento.
Calendário do ano próximo.
Jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! quanto.
Alguma vez os invejei. Outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duravam, perdurando.
E me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver.

Não chegou. Digo que não. Tudo foram ensaios,
testes, ilustrações. A verdadeira vida
sorria longe, indecifrável.
Desisti. Recolhi-me
cada vez mais, concha, à concha. Agora
sou sobrevivente.

Sobrevivente incomoda
mais que fantasma. Sei: a mim mesmo
incomodo-me. O reflexo é uma prova feroz.
Por mais que me esconda, projeto-me,
devolvo-me, provoco-me.
Não adianta ameaçar-me. Volto sempre,
todas as manhãs me volto, viravolto
com exatidão de carteiro que distribui más notícias.
O dia todo é dia
de verificar o meu fenômeno.
Estou onde não estão
minhas raízes, meu caminho:
onde sobrei,
insistente, reiterado, aflitivo
sobrevivente
da vida que ainda
não vivi, juro por Deus e o Diabo, não vivi.

Tudo confessado, que pena
me será aplicada, ou perdão?
Desconfio nada pode ser feito
a meu favor ou contra.
Nem há técnica
de fazer, desfazer
o infeito infazível.
Se sou sobrevivente, sou sobrevivente.
Cumpre reconhecer-me esta qualidade
que finalmente o é. Sou o único, entendem?
de um grupo muito antigo
de que não há memória nas calçadas
e nos vídeos.
Único a permanecer, a dormir,
a jantar, a urinar,
a tropeçar, até mesmo a sorrir
em rápidas ocasiões, mas garanto que sorrio,
como neste momento estou sorrindo
de ser — delícia? — sobrevivente

É esperar apenas, está bem?
que passe o tempo de sobrevivência
e tudo se resolva sem escândalo
ante a justiça indiferente.
Acabo de notar, e sem surpresa:
não me ouvem no sentido de entender,
nem importa que um sobrevivente
venha contar seu caso, defender-se
ou acusar-se, é tudo a mesma
nenhuma coisa, e branca.
850
Louise Glück

Louise Glück

O dilema de Telêmaco

Nunca consigo decidir
o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.
893
Louise Glück

Louise Glück

A rosa branca

Isto é a terra? Então
não sou daqui

Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra das folhas trêmulas
do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?

A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida, tu que não fazes sinal algum,

embora eu chame por ti na noite:

não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —

E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão

como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és a luz que chamei
mas o breu atrás dela.
929
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Unir o Ar Ao Ar

Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 050
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Dupla Situação

Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal de que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.

Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.

Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.

Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.
682
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Moinho

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
1 688
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Metamorfose Branca

Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar

Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?

O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher     o animal     a noite intacta
a morte
a ferida permanente

(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)

Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto

A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida

Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula

O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo

Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra

No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.

Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco

Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco

Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem     brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água

(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)

Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana

o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)

O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade

O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada

Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 031
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pagamento

Quando é que sai o pagamento?
O pagamento está difícil.

Quando se fará a folha
e se construirá a máquina
que fará o cálculo e os descontos?

E quando se fabricará o dinheiro,
espécie nova de dinheiro,
para fazer o pagamento?
Quem receberá no primeiro lote
quem no segundo e no terceiro
se antes de tudo vier a morte
poupar serviço ao tesoureiro?

O pagamento está difícil.

A espera, quem é que paga a espera
e os extraordinários da esperança
e os serviços (esquecidos) dos pais
e dos avós e dos antiquérrimos?

O pagamento está difícil.

Que contador porá em dia as contas
e qual será o seu critério?
Irá medir produtividade
assiduidade, pequenos méritos
oblíquas faltas, imperfeitos
serões, tarefas de má vontade?
Só sairá o pagamento
depois do inquérito concluído?

O pagamento está difícil.

Nem um simples apontamento
foi tomado, não há controle
e direção?
Ou não houve serviço nunca,
ninguém jamais se empregou
nem patrões existiram nem
saiu produção de nada?
Não houve encomenda de nada
na fábrica inexistente,
e ninguém podia tomar nota
alguma em nenhum escritório?
Não cabe pois reclamar
nem salário nem horas extras
nem demora ou juros de mora?

O pagamento está difícil.

Difícil é o pagamento
ou conceber a estranha folha
que nunca sai
e saindo, não se registra
e registrada, não se paga
e pagando, não vale a cédula
e valendo, o vento a carrega
e carregando, foi bem feito
se não havia o que pagar?

O pagamento está difícil
porque não há com que pagar
o que não era de ser pago
e contudo está-se cobrando?
cobrando com unhas, gritos
com bater pé, suplicar,
exigir latir bramir
chorar,
de lei na mão, uma lei feita
só de parágrafos riscados
outra vez escritos, outra vez
riscados escritos riscados
etc.?

O pagamento está difícil
ou já foi feito antes de tudo
há 40 anos, à sorrelfa,
que ninguém lembra ou se acaso lembra
é que o dinheiro era falso
era marcado era maldito
era por todos refugado?

O pagamento está difícil?
Depois de tão anunciado,
solenemente prometido,
foge o caixa, são massacrados
os condutores do dinheiro
tudo é furtado num segundo
e o próprio assalto é simulado?

Some a ideia de pagamento
de tal sorte que ninguém mais
lhe conhece o significado
e os que reclamam não reclamam
com intenção de receber
mas por força do triste hábito?
e tornam-se mudos
de voz e gesto
e se esquecem todos
de reclamar e de adiar
e de negar?

Então, de todos olvidado
não mais pensado ou referido
nem na lousa dos dicionários
o pagamento — afinal — saiu.
Para cada um e seu irmão,
seu amigo e seu inimigo,
seu desconhecido, seu antípoda,
seu ascendente e descendente,
seu curió demissionário, seu gato escaldado, seu cachorro caduco,
suas plantinhas de vaso (sem sol) da janela,
seu coração
de válvulas paradas
seu coração
entranhado de cisco
seu coração
já sem forma de
coração.

O pagamento total geral
saiu! saiu!
o pagamento sem escrita
sem cifrão
sem limitação
sem explicação
sem razão
sem código
sem termo
saiu.

Não havia quem recebesse.
1 436
Antonio Rogerio Czelusniak

Antonio Rogerio Czelusniak

Vôo

Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.

344
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Morte a Cavalo

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.
2 580
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Vida Depois da Vida

A morte não
existe para os mortos.

Os mortos não
têm medo da morte desabrochada

Os mortos
conquistam a vida, não
a lendária, mas
a propriamente dita
a que perdemos
ao nascer.

A sem nome
sem limite
sem rumo
(todos os rumos, simultâneos,
lhe servem)
completo estar-vivo no sem-fim
de possíveis
acoplados.

A morte sabe disto
e cala.

Só a morte é que sabe.
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

há pessoas que perdem os óculos

há pessoas que perdem os óculos
o emprego, o ônibus, o fígado
rompem contratos, noivados
perdem a estreia do teatro
há pessoas que perdem a viagem, os amigos
rompem o nervo ciático
perdem a cabeça, a deixa, a memória
faturam cachês minguados
há pessoas que perdem dinheiro, fazenda, anéis
a missa das seis
rompem a noite atrás de motéis, de mulheres
que perdem o vestido, a calcinha, o pudor
há pessoas que perdem o valor, o isqueiro
perdem o lugar, o sono, o poder
corrompem o amor, perdem sua vez
há mães que perdem seus filhos
então não há mais nada a perder
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