Poemas neste tema

Morte e Luto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carta de Natal a Murilo Mendes

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
— Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade —

E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
— Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa — entre as compras do Natal

Para ligar o eterno e este dia
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
3 714 1
Carlos Lima

Carlos Lima

Dístomo

Amor e morte
limites em que se move a humana dança
A lógica do tempo no mal entendido céu dos geômetras
o absurdo de um cadáver que se arrasta
pela virulência inútil nos olhos do tempo
espreitando os vermes dos dias futuros
na cama dos sonhos de ingênuos crimes infantis
apaixonado pelo uivo da lua e o vermelho cio das nuvens

Amor e morte
limites em que se move a humana dança
Há neste dia uma ternura de punhais
ferindo com mãos obsessivas o esqueleto da noite
e não perdoa a imperfeição dos seres

Vendi a alma ao diabo não me engano
é contra o real, contra o real
que na nossa arte conspiramos

A insanidade da noite
trará o falso lenitivo de um soneto
ou essa tranqüilidade de cachorros ociosos
após lamber o osso de uma verdade satisfatória?

862 1
Paulo Leminski

Paulo Leminski

LÁPIDE 1

epitáfio para o corpo


Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.


2 995 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tristão E Isolda

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.
2 620 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

1 555 1
Clóvis Moura

Clóvis Moura

O Rio Parnaíba

Gargarejo de mortes de afogados
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.

Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.

Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.

A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.

2 970 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Barcarola

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.

Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.

Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.

Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.

Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...

Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.

Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.

Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.

A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!

Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.

Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.

É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.

Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!

Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!

Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -

E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!

Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!



Publicado no livor Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.144-147. (Ensaios, 32
3 294 1
Manuel Geraldo

Manuel Geraldo

Memória V

Numa alucinação
De credos vesgos
Milhares
de entre nós
Fora ceifados

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

861 1
Clóvis Moura

Clóvis Moura

Rio Seco

Cemitério de peixes enterrados
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.

Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.

Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.

As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.

2 585 1
Bocage

Bocage

Meu Ser Evaporei na Luta Insana

Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

1 918 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Aos meus filhos

Na intermitência da vital canseira,
Sois vós que sustentais (Força Alta exige-o...)
Com o vosso catalítico prestígio,
Meu fantasma de carne passageira!

Vulcão da bioquímica fogueira
Destruiu-me todo o orgânico fastígio...
Dai-me asas, pois, para o último remígio,
Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

Culminâncias humanas ainda obscuras,
Expressões do universo radioativo,
Ions emanados do meu próprio ideal,

Benditos vós, que, em épocas futuras,
Haveis de ser no mundo subjetivo,
Minha continuidade emocional!

2 134 1
Ives Gandra da Silva Martins

Ives Gandra da Silva Martins

Olhar do Tempo

Olhar do tempo. Como eu sinto a messe,
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.

853 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Apóstrofe à carne

Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
- Olhos que o húmus necrófagoo estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

E o Homem - negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

4 330 1
Mário Hélio

Mário Hélio

25-V(A angústia)

a angústia é um barco
a angústia é um porto

a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber

a angústia é um homem
excessivamente morto

593 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

A Meu Pai Morto

Madrugada de treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o!" deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E sai para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado céu.

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

6 924 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Idealização da humanidade futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímppetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

4 541 1
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

O lázaro da pátria

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos...
Há um cansaço no Cosmos... Anoitece.

Riem as meretrizes no Cassino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

2 794 1
Bernardo de Passos

Bernardo de Passos

Glosas

Morre o pobre e nem caixão
Vai no esquife, que desgraça!
Para o cemitério passa
Sem padre nem sacristão!...
Quem fará esta excepção?...
Se é Deus que rege os destinos
Dos grandes e pequeninos,
E todos são filhos seus...
Pra desmentir esse Deus,
Morre o rico, dobram sinos.

Diz, padre, que leis são essas
Que servem pra ti somente...
Tu confessas toda a gente
E à gente não te confessas...
Diz por que tanto te interessas
Nesses segredos que encobres,
Porque é que não te descobres
Nos jornais ou num sermão,
Dizendo porque razão
Morre o pobre e não há dobres?

Só os ricos são gerados,
Dessa Virgem, desse Deus?...
Só eles são filhos seus
E os pobres são enteados?...
Padre, tu só tens cuidados
Com os ricos, teus compadres,
Que deixam ir as comadres
Esmolinhas oferecer
A Deus, sem ninguém saber...
Que Deus é esse dos Padres?...

Qual é o Deus que autoriza,
Ao rico, mil esplendores,
E aos pobres trabalhadores,
Nem pão, nem lar, nem camisa?...
Manda, pra quem não precisa,
O oiro, a prata e os cobres,
Palácios, honras de nobres!...
E eu, triste farrapo humano,
Julgo esse Deus um tirano,
Que não faz caso dos pobres

1 295 1
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

O TÚMULO DE EDGAR POE

(Tradução de Jorge de Sena)

Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!

Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.

Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,

Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.

7 325 1
Bulhão Pato

Bulhão Pato

A Mãe e o Filho Morto

A pobre da mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertavas
O coração que batia
Era o dela, e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei, e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!

Rezava, e do fundo dalma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! — que dor expressou!

Pensei então: a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"

1 205 1
Papiniano Carlos

Papiniano Carlos

Canção

Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!

Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!

Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.

Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.

2 263 1
Bocage

Bocage

Meu ser evaporei na lida insana

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumio dos desenganos.

Deos, oh Deos!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe num momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

2 949 2
Mário Beirão

Mário Beirão

A Epopéia dos Malteses

Choros que o pó amassaram,
Ódios, fel desesperança,
Minha crueza geraram:
Sou a estátua da Vingança!

Maltês meu nome de guerra!
Ver-me é logo pressentir
Que o vento sul se descerra
Já mirram searas de o ouvir!
De noite vou pelas eiras,
Alma em fogo — deitar fogo
A searas, medidas inteiras:
Abraso e assim desafogo!

Sou fera? Vá, que me dormem!
E vós outros que sereis?
Não sou fera, não, sou o Homem,
Escravo firmando leis!

Meu sangue reza nas veias;
Por quem reza? Por quem chora?
Pelos que em terras alheias
Foram escravos outrora!

Oculyo no chão barrento,
Com piedade, com ternura,
Os que dormem ao relento,
Os mortos sem sepultura!

Coveiro da própia raça!
Dor de além-dor! Ao que eu vim!
Grito eo medo me trespassa,
Acordo e fujo de mim!

1 162 1
Diogo Bernardes

Diogo Bernardes

Soneto

Leandro em noite escura ia rompendo
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;

E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.

"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.

"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".

1 803 1