Poemas neste tema
Morte e Luto
Pedro Dantas
A Cachorra
Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
941
Dom Francisco Manuel de Melo
Soneto I
Formosura, e Morte, advertidas por um corpo
belíssimo, junto à sepultura.
Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:
Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:
Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.
Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.
belíssimo, junto à sepultura.
Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:
Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:
Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.
Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.
1 420
Clinio Jorge de Souza
Haicai
Seca... urubus
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
1 148
Carlos Nejar
Abandonei-me ao Vento
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
1 529
Camilo Mota
Alice
As palavras fundiram-se à montanha
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
860
António Manuel Couto Viana
Camilo Pessanha II
Em campa rasa, a tampa de granito
Afonta-o no brasão de fidalguia,
No nome (com Doutor e com d’Almeida) escrito
Com erros de ortografia.
Quem roubou as correntes que o cercavam de ferro?
(Quieto o coração, no temor das algemas.)
Quem poluiu e rasgou o lençol do desterro
Que lhe envolveu, no enterro, os ossos e os poemas?
Ei-lo, já não ali, liberto da prisão,
Por fim a deslizar (assim outrora o quis)
Sem ruído, a sumir-se como um verme, no chão.
E vê treva em um país
Perdido de segredo e solidão.
Afonta-o no brasão de fidalguia,
No nome (com Doutor e com d’Almeida) escrito
Com erros de ortografia.
Quem roubou as correntes que o cercavam de ferro?
(Quieto o coração, no temor das algemas.)
Quem poluiu e rasgou o lençol do desterro
Que lhe envolveu, no enterro, os ossos e os poemas?
Ei-lo, já não ali, liberto da prisão,
Por fim a deslizar (assim outrora o quis)
Sem ruído, a sumir-se como um verme, no chão.
E vê treva em um país
Perdido de segredo e solidão.
1 142
António Manuel Couto Viana
António Patrício
Não teve tempo de escrever a poesia
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
1 345
Corrêa de Araújo
Na arena
Sou cavalheiro e menestrel, chorosas,
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
959
Carvalho Nogueira
Paula Ney
Era mesmo o poeta Paula Ney:
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
807
Cid Saboia de Carvalho
Êxtase
Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
895
Claudius Portugal
As Várias Faces de um Espelho
I
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
1 092
Afonso Cautela
Ponto Final
Não, não estou doente,
não preciso de escolta,
os rins funcionam, felizmente,
ou por morrer também se paga multa?
Não preciso de nada,
estou em ordem,
despeçam-se de mim à bofetada
e passem muito bem.
Deixem-me dormir que tenho fome
e sede e sono,
o meu corpo bebe e come
dor e abandono.
Já tenho fato,
metam-no na caixa,
não esqueçam de pôr luto
e nos sapatos, graixa.
não preciso de escolta,
os rins funcionam, felizmente,
ou por morrer também se paga multa?
Não preciso de nada,
estou em ordem,
despeçam-se de mim à bofetada
e passem muito bem.
Deixem-me dormir que tenho fome
e sede e sono,
o meu corpo bebe e come
dor e abandono.
Já tenho fato,
metam-no na caixa,
não esqueçam de pôr luto
e nos sapatos, graixa.
795
Geraldo Carneiro
nevermore
fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
1 158
Chico Buarque
O meu guri
Chico Buarque 1981
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
3 198
Pe. Osvaldo Chaves
Doce e Breve
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
1 066
José Castello
Nordeste se reencontra com Ascenso Ferreira
Obras do mais importante poeta modernista da região são relançadas pela Nordestal Editora.
O Nordeste se reencontra com seu maior poeta modernista. "Feliz de quem achou sua maneira de expressão", escreveu certa vez Tristan Tzara, um dos pilotos da vanguarda literária européia na primeira metade do século. A frase cabe como uma luva em Ascenso Ferreira, que Luís da Câmara Cascudo descreveu, na primeira vez que o encontrou, ainda no pátio da Faculdade de Direito do Recife, como um homem "que olha a vida do alto de um metro e noventa e pisa com cem quilos as ruas velhas do Recife".
Mas a descoberta da identidade, muitas vezes, tem um duro preço. Nascido em 1895 em Palmares, interior de Pernambuco, Ascenso - sempre encoberto por seu infalível chapelão - morreu quatro dias antes de completar 70 anos, em 1965, e sua obra se perdeu, a partir daí, no mais terrível silêncio, que mais parecia uma maldição. Seus únicos três livros de poemas - Catimbó, de 1927, Cana Caiana, de 1939, e Xenhenhém, de 1951 - tiveram sua edição comercial mais recente em 1963, sob o selo da José Olympio. Dezoito anos depois, graças à teimosia do crítico e poeta pernambucano Juhareiz Correya, eles foram republicados em primorosa, mas restrita, edição artesanal.
Nos últimos dias de 1995, por fim, 32 anos depois da edição comercial mais recente, os poemas de Ascenso Ferreira foram finalmente relançados em cuidadoso trabalho da Nordestal Editora, dirigida pelo mesmo Correya, em co-edição com a Fundação de Arte de Pernambuco - Fundarte, presidida pelo romancista Raimundo Carrero. Rompe-se, assim, uma tela de mutismo e inoperância que, por anos a fio, cercou a obra do poeta.
Descaso
- O falso argumento, exibido durante todo esse tempo por desmemoriados e preguiçosos, era o de que a família de Ascenso Ferreira proibia a republicação de sua obra. Juhareiz Correya chegou a publicar no Jornal da Cidade, do Recife, no início dos anos 80, um irado artigo em que acusava a família do poeta de amordaçá-lo depois de morto. O próprio Correya ouviu da viúva, alguns dias depois, o mais enfático desmentido. Houve apenas descaso e desprezo.
A nova edição dos poemas modernistas de Ascenso Ferreira, que chegou em janeiro às livrarias do Nordeste em um só volume, reproduz ilustrações de Carybé, Cícero Dias, Joaquim Cardozo e Luís Jardim, entre outros, e é aberta com belos textos introdutórios, que já se tornaram clássicos do gênero, assinados por Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Catimbó, o primeiro dos três livros, é prefaciado por Ritmo Novo, um pequeno ensaio de Mário de Andrade. "Nesse livro, ele eleva ao máximo possível a tendência rapsódica da poesia brasileira", Mário escreve. Cana Caiana tem um texto de apresentação assinado por Luís da Câmara Cascudo. "Ninguém o imitará, mas Ascenso criou, como ninguém fez, sua maneira", escreve Cascudo. Xenhénhém é apresentado por um artigo assinado por Roger Bastide, para quem "aliando a intuição à ciência, Ascenso realizou algo muito difícil: a poesia popular".
Toda essa pompa é mais do que justa. Ascenso Ferreira é, afinal, o mais expressivo nome do movimento modernista no Nordeste. Nem o esquecimento, nem a fama injusta de folclórico e exótico, embaçam o brilho de seus versos. Ascenso se chamava, na verdade, Aníbal Torres. Era magro, desengonçado e escrevia sonetos decadentes que reuniu em um pequeno livro, Eu Voltarei ao Sol da Primavera, obra que merece ser sumariamente esquecida. Seu primeiro soneto, Flor Fenecida, foi publicado em A Notícia, em 1911. Perdeu o pai aos 7 anos, em acidente brutal, ferida de que jamais se recuperou por completo. Aos 13, já trabalhava no comércio e escrevia seus primeiros sonetos, baladas e madrigais, na pior tradição parnasiana. Em 1917, aos 22 anos, em ruptura radical, o poeta muda o nome de registro para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, com que se insere em uma linhagem eminentemente matriarcal. Com o Ascenso, ele repete o nome do avô materno, com o Ferreira reverencia o sobrenome da mãe. Engorda, passa dos 100 quilos, ml distribuídos nos 1,89 metro de altura. Sua marca, a partir daí, é o vozeirão forte, mas encantador. Torna-se uma espécie de ator em tempo integral, camuflado pelo nome falso e pelo imenso chapéu de palha, uma espécie nordestina de bufão.
No ano-símbolo de 1922, Ascenso se torna amigo de Joaquim Cardozo, Gilberto Freire e Luís da Câmara Cascudo. A princípio, apesar das amizades, o poeta é uma das vozes a se erguer contra o modernismo de 1922, que chega ao Nordeste pelas mãos de Joaquim Inojosa. Mas logo se aproxima da Revista do Norte, porta-voz dos modernistas na região, e em 1926, publica seu primeiro poema modernista, Lusco Fusco, que, no primeiro livro da nova fase, Catimbó, datado de 1927, aparece com o título de Boca da Noite. No ano seguinte, reforçando os laços modernistas, Ascenso se torna amigo de Mário de Andrade. Em 1929, faz sua primeira viagem ao sul do País e realiza um recital consagrador no Teatro dos Brinquedos, em São Paulo. Intelectuais influentes como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se aproximam, então, do poeta.
Em 1945, Ascenso abandona a mulher, com quem se casara em 1921, para viver em companhia de uma adolescente, Maria de Lurdes Medeiros, abrindo um novo divisor de águas em sua vida. A essa altura, ele já é um fenômeno de cuja presença todos desejam privar. Em 1951, o poeta faz sua quarta viagem ao Sudeste para o lançamento de seus poemas reunidos em edição de luxo. Em 1955, quando participa ativamente da campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência da República, a dupla identidade de Ascenso Ferreira já está inteiramente à mostra. Apesar da experiência modernista e de toda a consagração que mereceu, ele ainda é visto, essencialmente, como um "poeta foclórico", pecha preconceituosa de que jamais se livrará.
Colorido
- Ascenso Ferreira é um rapsodo de perfil clássico, uma cópia solar e primitiva dos cantadores ambulantes que perambulavam pela Grécia antiga. O folclore é, a rigor, coisa bem diferente. Seus poemas ganham colorido e ritmo especiais quando lidos, em particular por ele mesmo, tanto que chegou a gravá-los em disco. Ascenso foi, de fato, o primeiro poeta brasileiro a registrar, de própria voz, seus versos.
Manuel Bandeira, em análise precisa, escreveu certa vez: "Quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas." São poemas sobre os mangues, o massapê e a caatinga, destilados no ritmo dos reisados, dos maracatus e das vaquejadas. Apesar da presença impregnada do mundo nordestino, não se pode incorrer no erro de classificar Ascenso Ferreira como um poeta regionalista. "Ele não fez reportagens de fatos étnicos, nem lambiscou o exotismo dos costumes bárbaros do Brasil", escreveu Sérgio Milliet, em momento de absoluta lucidez.
Também Manuel Bandeira soube detectar, com precisão, essa ponte que Ascenso ergueu entre o natural e o artificial. "Costuma se falar de verso metrificado e verso livre, como se algum abismo os separasse", escreveu Bandeira. "Ascenso é o melhor exemplo com que se possa provar que não existe tal abismo." É de Bandeira, ainda, a sentença: "Ascenso continuou a ser deliciosamente provinciano, sem nenhum ranço regionalista." É bom recordar, aqui, de Roger astide quando esse diz, em ensaio sobre a obra de Ascenso, que a poesia popular, enquanto expressão estética do povo, a rigor não existe. "O povo não faz poesia popular, ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses", escreve. Ascenso é uma prova disso.
Paradoxo
- Há, apesar de tudo, muito paradoxo nessa admiração. A afeição que Manuel Bandeira e Mário de Andrade nutriram por Ascenso Ferreira esteve quase sempre pontuada por um tipo disfarçado - e envergonhado - de desprezo. Essa atitude ambígua que o sul civilizado nutriu em relação ao grande rapsodo nordestino de
O Nordeste se reencontra com seu maior poeta modernista. "Feliz de quem achou sua maneira de expressão", escreveu certa vez Tristan Tzara, um dos pilotos da vanguarda literária européia na primeira metade do século. A frase cabe como uma luva em Ascenso Ferreira, que Luís da Câmara Cascudo descreveu, na primeira vez que o encontrou, ainda no pátio da Faculdade de Direito do Recife, como um homem "que olha a vida do alto de um metro e noventa e pisa com cem quilos as ruas velhas do Recife".
Mas a descoberta da identidade, muitas vezes, tem um duro preço. Nascido em 1895 em Palmares, interior de Pernambuco, Ascenso - sempre encoberto por seu infalível chapelão - morreu quatro dias antes de completar 70 anos, em 1965, e sua obra se perdeu, a partir daí, no mais terrível silêncio, que mais parecia uma maldição. Seus únicos três livros de poemas - Catimbó, de 1927, Cana Caiana, de 1939, e Xenhenhém, de 1951 - tiveram sua edição comercial mais recente em 1963, sob o selo da José Olympio. Dezoito anos depois, graças à teimosia do crítico e poeta pernambucano Juhareiz Correya, eles foram republicados em primorosa, mas restrita, edição artesanal.
Nos últimos dias de 1995, por fim, 32 anos depois da edição comercial mais recente, os poemas de Ascenso Ferreira foram finalmente relançados em cuidadoso trabalho da Nordestal Editora, dirigida pelo mesmo Correya, em co-edição com a Fundação de Arte de Pernambuco - Fundarte, presidida pelo romancista Raimundo Carrero. Rompe-se, assim, uma tela de mutismo e inoperância que, por anos a fio, cercou a obra do poeta.
Descaso
- O falso argumento, exibido durante todo esse tempo por desmemoriados e preguiçosos, era o de que a família de Ascenso Ferreira proibia a republicação de sua obra. Juhareiz Correya chegou a publicar no Jornal da Cidade, do Recife, no início dos anos 80, um irado artigo em que acusava a família do poeta de amordaçá-lo depois de morto. O próprio Correya ouviu da viúva, alguns dias depois, o mais enfático desmentido. Houve apenas descaso e desprezo.
A nova edição dos poemas modernistas de Ascenso Ferreira, que chegou em janeiro às livrarias do Nordeste em um só volume, reproduz ilustrações de Carybé, Cícero Dias, Joaquim Cardozo e Luís Jardim, entre outros, e é aberta com belos textos introdutórios, que já se tornaram clássicos do gênero, assinados por Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Catimbó, o primeiro dos três livros, é prefaciado por Ritmo Novo, um pequeno ensaio de Mário de Andrade. "Nesse livro, ele eleva ao máximo possível a tendência rapsódica da poesia brasileira", Mário escreve. Cana Caiana tem um texto de apresentação assinado por Luís da Câmara Cascudo. "Ninguém o imitará, mas Ascenso criou, como ninguém fez, sua maneira", escreve Cascudo. Xenhénhém é apresentado por um artigo assinado por Roger Bastide, para quem "aliando a intuição à ciência, Ascenso realizou algo muito difícil: a poesia popular".
Toda essa pompa é mais do que justa. Ascenso Ferreira é, afinal, o mais expressivo nome do movimento modernista no Nordeste. Nem o esquecimento, nem a fama injusta de folclórico e exótico, embaçam o brilho de seus versos. Ascenso se chamava, na verdade, Aníbal Torres. Era magro, desengonçado e escrevia sonetos decadentes que reuniu em um pequeno livro, Eu Voltarei ao Sol da Primavera, obra que merece ser sumariamente esquecida. Seu primeiro soneto, Flor Fenecida, foi publicado em A Notícia, em 1911. Perdeu o pai aos 7 anos, em acidente brutal, ferida de que jamais se recuperou por completo. Aos 13, já trabalhava no comércio e escrevia seus primeiros sonetos, baladas e madrigais, na pior tradição parnasiana. Em 1917, aos 22 anos, em ruptura radical, o poeta muda o nome de registro para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, com que se insere em uma linhagem eminentemente matriarcal. Com o Ascenso, ele repete o nome do avô materno, com o Ferreira reverencia o sobrenome da mãe. Engorda, passa dos 100 quilos, ml distribuídos nos 1,89 metro de altura. Sua marca, a partir daí, é o vozeirão forte, mas encantador. Torna-se uma espécie de ator em tempo integral, camuflado pelo nome falso e pelo imenso chapéu de palha, uma espécie nordestina de bufão.
No ano-símbolo de 1922, Ascenso se torna amigo de Joaquim Cardozo, Gilberto Freire e Luís da Câmara Cascudo. A princípio, apesar das amizades, o poeta é uma das vozes a se erguer contra o modernismo de 1922, que chega ao Nordeste pelas mãos de Joaquim Inojosa. Mas logo se aproxima da Revista do Norte, porta-voz dos modernistas na região, e em 1926, publica seu primeiro poema modernista, Lusco Fusco, que, no primeiro livro da nova fase, Catimbó, datado de 1927, aparece com o título de Boca da Noite. No ano seguinte, reforçando os laços modernistas, Ascenso se torna amigo de Mário de Andrade. Em 1929, faz sua primeira viagem ao sul do País e realiza um recital consagrador no Teatro dos Brinquedos, em São Paulo. Intelectuais influentes como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se aproximam, então, do poeta.
Em 1945, Ascenso abandona a mulher, com quem se casara em 1921, para viver em companhia de uma adolescente, Maria de Lurdes Medeiros, abrindo um novo divisor de águas em sua vida. A essa altura, ele já é um fenômeno de cuja presença todos desejam privar. Em 1951, o poeta faz sua quarta viagem ao Sudeste para o lançamento de seus poemas reunidos em edição de luxo. Em 1955, quando participa ativamente da campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência da República, a dupla identidade de Ascenso Ferreira já está inteiramente à mostra. Apesar da experiência modernista e de toda a consagração que mereceu, ele ainda é visto, essencialmente, como um "poeta foclórico", pecha preconceituosa de que jamais se livrará.
Colorido
- Ascenso Ferreira é um rapsodo de perfil clássico, uma cópia solar e primitiva dos cantadores ambulantes que perambulavam pela Grécia antiga. O folclore é, a rigor, coisa bem diferente. Seus poemas ganham colorido e ritmo especiais quando lidos, em particular por ele mesmo, tanto que chegou a gravá-los em disco. Ascenso foi, de fato, o primeiro poeta brasileiro a registrar, de própria voz, seus versos.
Manuel Bandeira, em análise precisa, escreveu certa vez: "Quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas." São poemas sobre os mangues, o massapê e a caatinga, destilados no ritmo dos reisados, dos maracatus e das vaquejadas. Apesar da presença impregnada do mundo nordestino, não se pode incorrer no erro de classificar Ascenso Ferreira como um poeta regionalista. "Ele não fez reportagens de fatos étnicos, nem lambiscou o exotismo dos costumes bárbaros do Brasil", escreveu Sérgio Milliet, em momento de absoluta lucidez.
Também Manuel Bandeira soube detectar, com precisão, essa ponte que Ascenso ergueu entre o natural e o artificial. "Costuma se falar de verso metrificado e verso livre, como se algum abismo os separasse", escreveu Bandeira. "Ascenso é o melhor exemplo com que se possa provar que não existe tal abismo." É de Bandeira, ainda, a sentença: "Ascenso continuou a ser deliciosamente provinciano, sem nenhum ranço regionalista." É bom recordar, aqui, de Roger astide quando esse diz, em ensaio sobre a obra de Ascenso, que a poesia popular, enquanto expressão estética do povo, a rigor não existe. "O povo não faz poesia popular, ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses", escreve. Ascenso é uma prova disso.
Paradoxo
- Há, apesar de tudo, muito paradoxo nessa admiração. A afeição que Manuel Bandeira e Mário de Andrade nutriram por Ascenso Ferreira esteve quase sempre pontuada por um tipo disfarçado - e envergonhado - de desprezo. Essa atitude ambígua que o sul civilizado nutriu em relação ao grande rapsodo nordestino de
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José Castello
Histórias de poesia e pobreza
Amais inquietante história relatada por Paul Auster em A Arte da Fome, coletânea de prefácios, entrevistas e ensaios que acaba de ser traduzida pela José Olympio, não fala de fantasmas, ou de meninos que voam, como os que aparecem em sua Trilogia de Nova York, mas ainda assim é de dar arrepios. Auster, que foi um poeta mediano antes de se transformar em grande ficcionista, a conta em uma entrevista, concedida 11 anos depois da experiência que rememora e agora reproduzida no livro.
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
926
Dílson Catarino
Poema do Final do Mundo
Toda alma humana anda perdida
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
924
Carlos Nóbrega
O Banco da Gare
tu que estás morto
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
980
Carlos Nóbrega
Os Olhos Idos
oh por que
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
580
Carlos Nóbrega
O Passado
Tudo vive a cair
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio
1 029
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
813
Carlos Nóbrega
Substantivo Concreto
No quarto do morto
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos
951
Angela Carneiro
Poevivendo
lendo poesia
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
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