Poemas neste tema

Morte e Luto

Ana Garrett

Ana Garrett

Entre o ser ou o não ser

Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.

De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.

906
Carlos Gondim

Carlos Gondim

Maria

No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.

Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,

Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.

Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!

(Poemas do cárcere, 1923)

761
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

Opus Zero

A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.

Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!

841
Felipe Sampaio

Felipe Sampaio

Duas Faces

Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97

364
Firmino Rodrigues da Silva

Firmino Rodrigues da Silva

Nénia

Niterói, Niterói, que é do sorriso
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!

Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.

Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!

Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe

Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.

— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?

Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...

Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,

Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —

Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!

Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................

Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...

Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito

3 128
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Gravura Nordestina

A Eduardo Campos

Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.

As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.

Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.

Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.

Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.

Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.

Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.

Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.

Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.

O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.

O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.

Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.

Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.

Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.

Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.

1 159
Fabio Valor Caldas

Fabio Valor Caldas

Janela

Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.

Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.

Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...

Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.

933
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Na mira

quartetos
(fragmentos)

I

Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.

Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.

V

Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.

Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.

Poema em espanhol
1 162
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

A Garcia Lorca

A branca madrugada não sabia
que encontraria o teu corpo, frio
como o orvalho que caíra
de noite, manso, sobre os olhos.

Estavas já no outro plano
imenso e leve, e breve habitarias
todos os lugares que só tu
e os anjos conhecem intimamente.

O súbito estremecer de uma folhagem
ao toque ingênuo de uma lebre,
e uma asa que deslizava lenta

sobre os teus lábios, eram tudo
que em teu redor inda se movia.
O resto, sem aviso, emudecera longamente...

973
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Fastio

Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.

A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.

828
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

1 547
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

935
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Sou alguém comum

Sou alguém comum

Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.

984
Francisco Nóbrega

Francisco Nóbrega

Ode ao Aleijadinho

Na sorte amarga que curtiste outrora,
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.

Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.

Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.

O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.

No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.

Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.

Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.

858
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

O aprendiz de sapateiro

Bate o prego no salto,
o prego salta,
o martelo na sola,
o martelo ao sol,
a faca afiada a chiar na sola,
a forma, a sovela, a linha escassa.

Não passe o sapateiro
além do chinelo.

Sola, meia-sola, salto,
brocha, alicate, prego, brocha,
a palmilha pisando firme
no compasso do martelo.

Sola, meia-sola, sapato, salto,
salto para a morte.

1 875
Fernando J. B. Martinho

Fernando J. B. Martinho

Fronteira Azul

Esta manhã vai subir
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.

Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.

Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.

Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.

Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.

Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.

Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

480
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

A Meu Pai

A Meu Pai

O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.

Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?

Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!

Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!

Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.

Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.

Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.

1 103
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Como se cada beijo

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

3 059
Urhacy Faustino

Urhacy Faustino

ad immortalitatem

para Mário Quintana

Agora que pertence à Grande Constelação,

do outro lado da vida,

ele ri

da estrela terrena que era.

1 029
Fahed Daher

Fahed Daher

Deus os abençoe

Fernando José De Paula.: Quando recebi o seu convite
comunicação da sua formatura estava diante da escultura
alegoria à medicina, a caveira tentando tomar a
paciente que o médico teimosamente procura tomar das
màos da morte e imediatamente compus este soneto
que dedico a você-, na sua formatura e que através de
você dedico a todos os seus colegas.

Desencarnados- secos - descarnados,
duros e gastos ossos da caveira,
as mãos em garra ,de qualquer maneira
querendo arrebatar o adoentado.

Força que atua em hora derradeira,
fatal destino,vida do passado,
no nauseabundo odor do fermentado,
apodrecido -trágica esterqueira-

Do outro lado a glória,o sol, a vida
serena e forte, na disputa dura,
a medicina enfrenta , atrevida,

o mal e a morte, rebuscando a ciência
no profundo ideal e na Fé pura
de ser obra de Deus por excelência.

835
Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

O Epitáfio que Não Foi Gravado

Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.

A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.

1 489
Francisco Bernardino Ribeiro

Francisco Bernardino Ribeiro

Ode

(Ao Algoz de 24 de maio de 1833 - S. Paulo)

Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?

Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"

Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?

Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!

És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.

Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!

645
Emílio Moura

Emílio Moura

Os que se Foram

Pouco a pouco vou compreendendo esta verdade tão
simples:
Agora é que realmente existem
os que se foram.
Só agora é que todos eles se movimentam
livres, imensamente livres.
Só agora é que falam
o que sempre calaram e era precisamente o que me
levaria
à única verdade que traziam.
Saem de velhos retratos, ou de ressuscitadas palavras
soltas,
e caminham comigo que os não sabia tão transparentes
e comunicativos
tão lógicos,
tão completos.
Completos e definitivos.

1 060
Eustáquio Gorgone

Eustáquio Gorgone

Semana Santa

A Despedida na Rua

Adeus, mulher lavrada numa tora de árvore
De nariz afilado e as mãos em preces
Onde as crianças espetam flores.
Adeus! O instrumento da morte
Afinou as minhas unhas e toca
A canção que fere teus ouvidos.
Vejo teus lábios descascados, mãe!
Foi a umidade que roubou
O verniz de tua face
E agora a noite puxa teus cabelos ruivos
Fazendo deles um cabresto
Para o sofrimento.
Volta, mãe! Não fiques mascando o pó
Atrás de mim e trazendo minha puberdade
Em teu olhar cheio de lágrimas.
Tenho muito que andar
Com essa cruz de bétula.
Tenho que atravessar rios e fazendas
Que se espremem
No capim das montanhas.
Não venhas, mãe! A ventania
Corta os corações.

879