Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquela que tinha pobre

Aquela que tinha pobre
A única saia que tinha,
Por muitas roupas que dobre
Nunca será mais rainha.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Das flores que há pelo campo

«Das flores que há pelo campo
O rosmaninho é rei...»
É uma velha cantiga...
Bem sei, meu Deus, bem o sei.
1 576
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Lição

É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 23 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 321
Teresa Tenório

Teresa Tenório

Medida

a medida do amor é ser deserto
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo
axial
porque o real do amor é fragmentar-se
No decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil
desvelar-se

311
Eduardo Dominguez Trindade

Eduardo Dominguez Trindade

O Sonho

Eu sigo a sombra fugaz de um sonho,
Eu sigo um lindo sonho que morreu…
Toda a força do meu corpo ponho
Na busca infinita do sonho meu!

Este fúlgido sonho que sigo
É o sonho do nosso amor passado;
É o sonho que sonhei contigo,
quando tu estavas ao meu lado…

No meu sonho, a vida era alegria:
Era poder ver-te todo dia;
Ver teu olhar límpido e risonho.

Mas hoje, só resta a saudade.
Minha única felicidade
É acreditar neste meu sonho!

3 de janeiro de 1996.

1 081
Tristão da Cunha

Tristão da Cunha

Itervm

Há muito tempo já que eu vou perdendo
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...

No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.

Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!

Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...

959
Ruy Belo

Ruy Belo

Humphrey Bogart

Era a cara que tinha e foi-se embora
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 360
Adélia Prado

Adélia Prado

Os Tiranos

Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Limites

Uma noite me dei conta de que possuía uma história,
contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim.
E de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
Até os dons, um certo comum apelo ao religioso
e que tudo pesava. E desejei ser outro.
Minha mãe não tinha letras.
Meu pai frequentou um ginásio por três dias
de proveitoso retiro espiritual.
Tive um mundo grandíssimo a explorar:
‘Demagogia, o que é mesmo que essa palavra é?’
Abismos de maravilha oferecidos em sermãos triunfantes:
‘Tota pulchra est Maria!’
Só quadros religiosos nas paredes.
Só um lugar aonde ir
— e já existiam Nova Iorque, Roma!
Tanta coisa eu julguei inventar,
minha vida e paixão,
minha própria morte,
esta tristeza endócrina resolvida a jaculatórias pungentes,
observações sobre o tempo. Aprendi a suspirar.
A poesia é tão triste! O que é bonito enche os olhos de
[lágrimas.
Tenho tanta saudade dos meus mortos!
Estou tão feliz! À beira do ridículo
arde meu peito em brasas de paixão.
Vinte anos de menos, só seria mais jovem.
Nunca, mais amorável.
Já desejei ser outro.
Não desejo mais não.
1 112
Adélia Prado

Adélia Prado

Lapinha

Quando éramos pobres e eu menina
era assim o Natal em nossa casa:
quatro semanas antes
a palavra ADVENTO sitiava-nos,
domingo após domingo.
Comeríamos melhor naquele dia,
seríamos pouco usuais:
vinho, doces, paciência.
Porque o MENINO estremecia no feno
e nos compadecíamos de Deus até as lágrimas.
Olhando a manjedoura, o que eu sentia
— sem arrimo de palavras —
era o que sinto ainda:
‘O desejo de esbeltez será concretizado.’
À luz que não tolera excessos,
o musgo, a areia, a palha cintilavam,
a pedra. Eu cintilava.
1 698
Adélia Prado

Adélia Prado

Tanta Saudade

No coração do irrefletido mau gosto
a alegria palpita.
Montes de borboletas entram janela adentro
provocando coceiras, risos, provocando beijos.
Como nós nos amamos e seremos felizes!
Ah! Minha saia xadrez com minha blusa de listras...
Faço um grande sucesso na janela
fingindo que olho o tempo, ornada de tanajuras.
Papai tomou banho hoje,
quer vestir sua camisa azul de anil,
fio sintético transparente, um bolsinho só.
Quem me dera um só dia
dos que vivi chorando em minha vida
quando éreis vivos, ó meu pai e minha mãe.
1 497
Valdir L. Queiroz

Valdir L. Queiroz

Dissertação II

Perdi-a no sábado inebriante,

com álcool amenizado...

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Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

O observador privilegiado

O espólio intelectual de Alexandre Eulálio, que vem surgindo em publicações post-mortem, entre as quais o substancial Livro Involuntário, seleção de Carlos Augusto Calil e Maria Eugenia Boaventura, revela-se precioso. Os organizadores, pela inteligente classificação do material, surpreenderam a ordem secreta na aparente aleatoriedade dos múltiplos interesses eulalianos. As oito partes são precedidas pelo texto A Imaginação do Passado e complementadas por posfácio, notas e índices. Assim, o espírito meticuloso do autor parece homenageado: nos detalhes obsessivos, distingue-se o mestre de um método oculto.
A Imaginação do Passado defende uma organicidade subterrânea de escritos ocasionais, mas estes não se contrapõem ao que o autor chama de nobre gueto universitário. Ele defende as mediações e nega a oposição maniqueísta entre modos de operar diversos. Defende ainda que análise formal e interpretação histórica se defrontem numa instância dialógica, que anularia os feixes de intersecção de diacronia e sincronia. Contra as generalizações, Alexandre exige ainda referenciamentos objetivos e aparato filológico, chegando ao corolário: A abrangência da história intelectual como história das formas é antes de mais nada história das idéias. Nessa utopia, enxerga o perfil ideal da crítica.
Os interesses plurais de Alexandre podem ser rastreados através das várias partes da publicação. A primeira, Crônicas do Brasil, parte do começo dos começos, a carta de Pero Vaz de Caminha, cujo cine-olho, segundo o autor, o identifica como um Flaherty quinhentista. Nesse deslocamento metonímico, comparando Caminha ao documentarista cinematográfico, se espelha um dos aspectos do método eulaliano de aproximação crítica. Do mesmo modo, quando aborda uma das suas paixões, o livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley, retira uma lição crítica de evocações descritivas da inglesinha. Naquele livro se surpreenderia um interesse sociológico como crítica ao ambiente da província, onde coexistiam dois mundos culturais divergentes (o britânico protestante-liberal e o ibero-católico, mal saído da escravidão) que se contemplam e se julgam no interior de um eu tornado harmonioso pelo equilíbrio mesmo das suas contradições.
É este método de se retirar lições que se manifesta ainda, na seção Desejo de História, nos vários retratos de Tiradentes, que se torna apenas a tragédia individual de um homem, que seria ainda mais imponente dentro de suas limitações, observação que poderia caber também ao perfil de Tomás Antonio Gonzaga, logo adiante. Observe-se ainda a extrema isenção quanto ao prisma ideológico quando se refere ao folhetim de Joaquim Felício dos Santos, As Páginas do Ano de 2000, uma das mais violentas sátiras escritas ao reinado de Pedro 2º. A capacidade de dissociar valores crítico-literários e valores históricos, sem entrar num juízo pessoal, seria mesmo um dos melhores atributos críticos de Alexandre Eulálio.
Esta isenção se emaranha ainda em maior complexidade quando trata da personalidade dúplice de Paulo Prado, que conciliava um apaixonado da pesquisa histórica e um entusiasta de movimentos artísticos de vanguarda. O Retrato do Brasil seria próspera sementeira de questões e problemas, que se revelaria como um valor em si mesmo.
Os textos de uma coluna em O Globo em 1965 estão em Matéria e Memória, título que evoca o filósofo Henri Bergson. É matéria filtrada pela memória, passando pelo filtro de Marcel Proust, para o qual mais se inclinaria o autor. As admirações envolvem do irônico estilista mexicano Júlio Torri e os seus aforismos satíricos, passando pelo louvor de Bocage, ou, antes, os vários Bocages que o autor conheceu, e chegando ao Artur Azevedo da revista teatral O Tribofe, óculo de alcance de um observador privilegiado. Destaque-se a nota sobre Thomas de Quincey e o seu Confessions of an English Opium Eater, que revela o apego do crítico às pesquisas de um imaginário em liberdade, em contraposição a convenções da época e preconceitos do próprio De Quincey.
No centro do livro, Talento Maior nos revela um Alexandre talvez inesperado para os que não o conheceram, voltado para questões interpretativas genéricas. Em Noble Brutus, o que importa é o dilema psicológico entre o homem privado e o público, o novo conceito de liberdade e o conceito grego de predestinação conciliados e, enfim, a possibilidade de tudo fazer, que seria a grande contribuição de Shakespeare ao teatro moderno. Esta possibilidade é o centro da questão em O Édipo de Gide. Mais além do Édipo prometéico gideano, dividido entre a predestinação e a afirmação humana contra o deus, mais do que a questão literária entre liberdade & predestinação, o crítico vê o conflito real entre submissão e autoridade, simbolizado na luta de Édipo contra Tirésias.
Das ambiguidades, retira o autor a lição de que a solução para um problema proposto é só aquela solução e mais nada. Não há receitas genéricas. Disso pode-se pular para o extremamente particular, que é o poético no breve ensaio Maio em São Cristóvão. O poeta é Clarice Lispector no conto Mistério em São Cristóvão. Descrevendo-o, Alexandre se torna ele mesmo um crítico-poeta, ao propor que do cotidiano prosaico se passa para a ante-sala do desconhecido, através de uma imprevista colocação de peças no tabuleiro de xadrez.
As formas e relações violentamente novas criariam o clima de alucinação do conto clariceano. Ou seja, a ficção como química verbal, alquimia do verbo rimbaudiana.
Machado, as Mais das Vezes, reúne textos dedicados a um dos seus ídolos, Machado de Assis. Alexandre escolhe, com Esaú e Jacó em Inglês, o viés da visão de fora, um viés universalista para um Machado que abandonara os aspectos fundamentalmente éticos dos romances anteriores (Quincas Borba, Dom Casmurro) em favor de um realismo simbólico, que tinha raiz (na) fria maravilha que é o Brás Cubas. Esse viés prossegue em Aspiral Ascendente, pela visão de Jean-Michel Massa da formação jovem de Machado, onde se vêem transmutações (...) pouco perceptíveis a olho nu.
Em contraste com a pesquisa crítica de La Jeunesse de Machado de Assis, estão os quatro volumes de Vida e Obra de Machado de Assis, de R. Magalhães Júnior, com o seu enorme luxo de minúcias, ou seja, a lupa faiscante da história pequena (com h minúsculo: petite histoire). Contudo, o que mais o interessa é a paixão crítica, ao expor a argúcia de um crítico de fora, o inglês John Gledson em Machado de Assis: Ficção e História, desvendando no mestre a intrincada teia de alusões e referências do discurso ficcional. O breve estudo final, A Estrutura Narrativa de Quincas Borba, vê em Machado uma muito mais radical e duradoura denúncia contra imposturas e mistificações do tempo.
Notas de uma Agenda será, para certa classe de leitores, uma leitura de mais particular fascínio. Vêem-se evocações sartreanas a propósito de Cruz e Souza e sua negritude; o encontro do decadentista mineiro Severiano de Resende com Miguel Angel Astúrias e sua prosa impregnada da forma simbolista, e, por tabela, o encontro de Astúrias com James Joyce (entrevisto/observado com curiosidade numa vitrine de antiquário); o encontro de Carlos Felipe (Saldanha), criador do personagem Capitão Fantasma e uma velhinha que abominava toda poesia (Je la déteste, vraiment je la déteste); as minúcias linguísticas da Lição de Coisas de Carlos Drummond de Andrade e o seu inventário do atingir o sussurro do ptyx, arco mallarmaico, alegoria arbitrária (...) de significado ocluso; o pedido para se acentuar a última sílaba de Caniboswáld, comentário do Oswald canibal de Benedito Nunes, para não confundir Oswáld (de Andrade) e o assassino indigitado do primeiro Kennedy (Lee Ôswald), mas sim evocar o tempestuoso herói da Corinne, de Madame de Stael, e outras relações faiscantes pelo arguto jogo de referências e pelo discretíssimo humor eulaliano. Finalmente, anote-se que em Um Sentido Mais Puro (de Mallarmé) Alexandre revela nã
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Ruy Belo

Ruy Belo

Homeoptoto

Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)

Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem

Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 219
Adélia Prado

Adélia Prado

Branco

É no sonho que voltam para dar testemunho,
insistentes e fustigados,
batidos de halo e nimbo, uma legenda só: pungência pura.
O que sempre falam as palavras não dizem.
Sustidos no alto clima de claridade e pedras,
sol sobre tufos verdes e areia, vento desencadeado,
os fixos olhos dos que viram Deus avisam.
Misericordiosos e imóveis.
1 088
Ruy Belo

Ruy Belo

Inscrição

Na face dele havia risos vivos
que lhe escorriam da alma para a boca

Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 022
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Poesia da Presença Invisível

Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as
[colinas

— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras
[confusas;

Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.


Publicado no livro Poemas (1947).

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.18-19
1 462
Ruy Belo

Ruy Belo

A pressão dos mortos

Fechas a mala do carro cheia de bagagem. E de súbito apercebes-te de que não é novo o gesto. Muitas vezes o viste já repetir. A muitas horas do dia, mas nunca como num fim de tarde. Qualquer que fosse a paisagem, a mesma paisagem: a terra calcinada, o canto das cigarras, o ar espesso do vapor a provocar a rarefacção das coisas vistas e a dar-lhes um ar de miragem. Fecha-se o tampo do caixão sobre a cara conhecida para todo o sempre. Nem se levanta o problema da eternidade. Esta terra é que tu amaste com todas a contrariedades e os problemas quotidianos. Amaste homens que por vezes talvez te tenham dado na cara e eram deliciosamente imperfeitos como tu. E tiveste de te despedir deles. Já não eram daqui. Já tinham problemas de mortos. Já se falava deles no imperfeito e não no presente. Mudou um simples tempo de verbo e tudo mudou. Um último olhar a essa caixa de mau gosto. Gostarias de atirar um torrão, como em criança, para esconjurar os maus sonhos. Mas falta-te a inocência. Decisivamente, tens de fechar com força a mala do carro. E pedes que te ponham os pneus à pressão 22. A pressão dos mortos.


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 182 e 183 | Editorial Presença Lda., 1984
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Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Terceiro Canto

I

Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!

II

Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.

III

Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!

— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.

— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.

Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.

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Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)

NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
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Ruy Belo

Ruy Belo

As grandes insubmissões

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

- Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

- Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
917
Patrícia Galvão

Patrícia Galvão

Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
929
Adélia Prado

Adélia Prado

Exercício Espiritual

Maria,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
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Sei Shônagon

Sei Shônagon

2 Rengas

O cuco-pequeno
Visitou pr’ouvir-lhe o canto
Mas é do sabor
De brotos de samambaia
Que ela se lembra saudosa!
(em pareceria com Anikobu, de 95)
Na neve que cai
Que com flores se confunde
No gélido céu
De leve faz-se sentir
Presença da primavera
(em parceria com o Conselheiro Consultor Kintô, de 102)
/// Sei Shônagon, trad. de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. ///
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Angela Santos

Angela Santos

Escravo e Senhor

Vem
ao meu castelo
Senta-te à mesa
com os fantasmas que o habitam,
ergue a taça e brinda
à vida
que não se sabe ainda

Vai pelos corredores,
labirintos
olha os retratos antigos
as paredes decaídas,
mas não te detenhas diante
daquela moldura vazia

Vem!
Senta-te no trono destruído
sente a força do que servi
e diz-me se é senhor
o que é escravo de si.

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