Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
728
Martha Medeiros

Martha Medeiros

parece que foi ontem

parece que foi ontem
que você me convidou para sumir
morar numa cabana e viver de amor
sem freezer, forno de micro-ondas,
videocassete, teatro
restaurantes, butiques, viagens, aeroportos,
microfones
toca-fitas, disco-laser, piscinas, boates,
camarões
hidromassagem, aeróbica, vernissages,
freeshop, rock’n’roll


parece que não fui
642
Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo

Declaração de Amor

Declaração de Amor

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.

Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.

Tentei de novo, lembro bem, na escola.

Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.

Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.

A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.

Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:

No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.

Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.

Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:

Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.

Fui preso, aos socos, e fichado.

Dias e mais dias interrogado: era PC
2 753
Paulo Véras

Paulo Véras

Oferenda

Trago nas mãos
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia

Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão

Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta

E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras

908
Paulo Véras

Paulo Véras

Marujo

Dentro da minha casa
acolho uma velhice
que me acompanha desde que nasci

O copo de prata de vovó
com seus lábios bordados na borda
Os olhos de uma tia morta
a vigiar-me da moldura oval
A bengala de meu avô
incentivando-me o passeio na calçada
A fruteira de vidro verde
(com frutas de cera)
a decepar-me o apetite
O aparelho de jantar azul
a fornecer-me a penumbra e a sopa
das seis da tarde

Na beira do rio
tem quermesse e eu não posso ir
tem bingo e leilão de peru assado
tem barquinho e rolete de cana

Estou vestido de marinheiro
e só posso navegar no jardim

1 106
Edmir Domingues

Edmir Domingues

O Último poema

Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.

Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.

Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.

Mas agora estou cansado.

Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.

Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.

O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.

Moriturus te salutat.

Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
                                        1987.
763
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Sextina da face oculta

Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.

É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.

Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.

É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.

Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.

O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.

(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
514
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Montanha Completa

Montanha completa

permanente

presente

sob as pálpebras

lá fora     atrás     presente
532
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Rasto do Deserto

No rasto do deserto

memória

sem memória
982
Cesare Pavese

Cesare Pavese

TERRA RUBRA TERRA PRETA

Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
786
Sânzio de Azevedo

Sânzio de Azevedo

Se Procuro

Para José Valdivino

Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...

O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?

Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!

E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!

1 053
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Esfera Unificada

Próxima a folhagem dos cabelos
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio mais denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-me da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada
1 111
Castro Alves

Castro Alves

Quando eu Morrer

Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE


Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...

São Paulo, março de 1869.


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
3 530
Sebastião Corrêa

Sebastião Corrêa

Reminiscência

À hora pensativa da tarde,
Quando é quietude a terra e o céu miragem,
Quando, na voz do vento, a alma de Schubert
Soluça uma elegia,
Irmã das sombras, solitária e fria,
Vem a Saudade me falar de ti.

Recordo... Era no outono... As folhas amarelas,
Trêmulas e tímidas, bailando,
Fugiam no amplo cenário da tristeza...
Tuas mãos níveas
Tive-as
Entre as minhas mãos,
Num triste adeus, quando a noite
"Com seu cortejo de monstros", veio
Nos separar,
E ai de nós! nunca mais
Nos pudemos encontrar!

À hora pensativa da tarde,
Quando, na voz do vento, a alma de Schubert
Soluça uma elegia,
Que embala a terra e os céus,
Eu bendigo a Saudade
Que me fala de ti, que me transporta
Ao coração de Deus.

766
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Quase Um Rosto

É quase     um rosto

no vento

é o rosto no vento
526
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Balanço de Agosto

Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.

Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.

O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.

Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.

Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.

Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.

Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.

Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.

Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove

sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.

Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?

Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.

E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.

Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
638
Andres Provi Pereira

Andres Provi Pereira

Mia, Vulevo a ti

luego...

Mía, vuelvo
a tí luego de los años de ausencia camino por doquier mis pies me guien
y me hiere la nostalgia que piensa en el ayer, ese ayer de aventuras
y locuras juveniles que tejieron ilusiones en cada tarde de arena y
frente al mar cromado una vez más siento la brisa serena Mía, los días
y los años de milejanía te han cambiado, más hermosa y madura eres,
camino por tus calles llenas de recuerdos y las esquinas aún conservan
las travesuras de mi infancia y los días tempranos de la adolescensia.
Hoy te palpo y a los ojos puedo mirarte, tus lágrimas se confunden con
las mías y se que amas mi presencia. Mía, cómo no amarte, cómo estar
lejos y no adorarte si de ti mi vida está llena, mi vida está formada.
Llevo muy dentro el amor de tus raíces y tu dulce savia a hago mía y
me hago tuyo, se que amas mi presencia. Cómo olvidarte, en ti están
mis días de la secundaria, hoy recorro las aulas, hay tanto de mí y
los pupitres me recuerdan, mi lugar favorito, la cueva de rocas, hoy
está solitaria. Mía, tus palmeras y el sol ardiente me recuerdan las
tardes domingueras cuando tu mar me cubría de alegría, cuando sumergido
en tus aguas de colores buscaba la barracuda que Simón tantas veces
pregonaba, tiene ojos verdes, lágrimas azules y es hermosa, la busque
y nunca, nunca pude hallarla. Te amaré por siempre mía, perla del mar
olorosa.

888
Geir Campos

Geir Campos

9a Cantiga de Acordar Mulher

Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.


Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 238
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você chegou com uma nova versão

você chegou com uma nova versão
do passado
e mais que apressado
esqueceu
que o que passou
ficou do meu lado
1 093
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coisas de Maio

Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?

Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…

O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.

Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 281
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De Ontem, de Hoje

E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
972
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Colinas

Suaves morros se sucediam
-verdes pastos,
raros bois,
desertos de capim-
e exibiam silenciosos discursos
aos que passavam na estrada.

Sim,
já tinham sido cobertos por imensas matas
a darem trabalho para índios,
bandeirantes, padres e quem mais
desejasse atravessá-las.

Sim,
já tinham visto o ouro de Minas fluir,
tropas de burros com soldados,
civis e agentes do distante Rei,
seus passos ecoando em trilhas e vales.

Sim,
já tinham sido vastos cafezais
de dominadores barões do Império,
enquanto o café seguia para longe,
por longos trilhos e dormentes hoje insones.

Pessoas inumeráveis
também murmuravam inaudíveis silêncios:
índios e caciques, brancos e escravos,
pobres e ricos, ingleses e caboclos,
mestiços e barões, todos já mandaram
e já obedeceram, já respiraram
e já os esquecemos.

Matas, ouro, plantações, pessoas...
muito viveu e muito desapareceu.
Das vidas sacrificadas pelo tempo,
nada sabemos, suas gargalhada e choros
não mais ecoam, suas tristezas e felicidades
desapareceram. O opaco presente silencia,
invisível alambique a destilar
esquecimento e ternura.

Só o céu, o mesmo céu azul e frio,
nos envolve com o mesmo manto de silêncios,
nos contamina com o que nada mais é,
e falamos.
Ou talvez calemos, não sabendo
se tremeremos inquietos pelo passado
ou pelo futuro, não sabendo
que perguntas acordarão o gênio maligno
que Salomão aprisionou na garrafa
e o jogou no esquecimento do oceano.

Algum dia seremos também punidos
com o eterno desaparecimento,
tudo será deserto à nossa volta,
tudo será esquecido. Então, alguém,
passando por alguma estrada se interrogará
sobre os mundos desaparecidos
e sobre os que os habitavam.
E nós também os olharemos,
invisíveis.

874
Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Resquícios

Só me lembro de teus olhos brilhantes
Me dizendo coisas impossíveis de dizer
E de teu sorriso imenso, radiante
Se alimentando de todo o meu prazer.

Depois ...Lembrar ficou tão difícil
Na confusão de beijos e de abraços.
Tomei teu corpo, o que tornou-se vício,
E perdi os sentidos no gozo de teus braços.

E fui feliz, deus, louco e criança
Tanto que, sem música, criei a dança
Irreal que chamei de felicidade

E quando, enfim o real nos despertou,
Apesar da dor valeu, pois só quem amou
Teve, na vida, um pouco de Verdade!

851
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Encontro

O professor Rodrigues Lapa descobriu na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em autógrafo, um longo poema inédito de Tomás Antônio Gonzaga, que se supunha perdido — “A Conceição”.

A notícia melhor desta semana
— canto de passarinho em faia ou tília —
não foi a Operação Americana,
sonho na madrugada de Brasília,

sonho que, de inocente, lembra Emília
no País da Anedota Munckausiana.
Tampouco foi o aumento com que engana
o barnabé o choro da família.

A mais bela notícia… a que me afaga
o coração, e dela me alimento,
vem-me de ti, velho Tomás Gonzaga.

É teu poema, a furar o esquecimento
dos arquivos, qual flor rompendo a fraga:
Poesia, eternidade do momento.
24/08/1958
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