Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Joseph Brodsky
Odisseu a Telêmaco
Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).
1 252
Fernando Pessoa
A PARTIDA [a]
A PARTIDA
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 711
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 753
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 053
Menezes y Morais
Balada dos Mortos na Parede etc
teus mortos
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
913
Manuel Bandeira
Elegia para Minha Mãe
Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
2 382
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 158
Mercedez Vasconcellos
Para o Poeta José Luís Conti
Recolhendo tristezas sem lágrimas, o poeta
percorre distâncias imaginárias e silenciosas
de caminhos que ainda brilham.
Encontra vida nos jardins da existência e se
deixa encantar no encanto das melhores e
saudosas lembranças.
No cheiro do café e do pão quentinhos, existe
parte de uma criança sedenta e feliz, sem
tristezas e grandes saudades, mesmo porque, as
marcas do tempo não chegaram.
percorre distâncias imaginárias e silenciosas
de caminhos que ainda brilham.
Encontra vida nos jardins da existência e se
deixa encantar no encanto das melhores e
saudosas lembranças.
No cheiro do café e do pão quentinhos, existe
parte de uma criança sedenta e feliz, sem
tristezas e grandes saudades, mesmo porque, as
marcas do tempo não chegaram.
881
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 076
Marco Valadares
Nossos Caminhos Pela Vida
Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
344
Myriam Fraga
A Cidade
Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
1 181
Manuel Bandeira
Peregrinação
O córrego é o mesmo.
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!
Petrópolis, 12.3.1943
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!
Petrópolis, 12.3.1943
1 271
Myriam Fraga
Salomé
Tantos anos depois
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
1 402
Myriam Fraga
Os Retratos
I
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
1 209
Marilina Ross
E que nunca mais
A desenterrar os vivos e aos mortos enterrar
Sobre areias movediças não se pode caminhar
A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais
A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história
A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais
A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais
Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.
Sobre areias movediças não se pode caminhar
A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais
A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história
A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais
A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais
Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.
893
José Angel Buesa
Poema do regresso
Venho do fundo escuro de uma noite implacável,
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro
Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.
Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.
Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado... porque estava contigo.
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro
Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.
Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.
Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado... porque estava contigo.
1 383
Manuel Bandeira
Maria da Glória
Glória, Maria da Glória.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
1 317
Marina Colasanti
NO APARTAMENTO EM COLÔNIA
Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
1 028
Inge Müller
Sob escombros III
Ao buscar água caiu sobre mim uma casa
Em nossas costas a casa foi carregada
Nos ombros meus e do cachorro
Não me perguntem como
Isso para mim é passado
Perguntem como ao cachorro
:
Unterm Schutt III
Als ich Wasser holte fiel ein Haus auf mich
Wir haben das Haus getragen
Der vergessene Hund und ich
Fragt mich nicht wie
Ich erinnere mich nicht
Fragt den Hund wie.
669
Moreira Campos
Chuva
São as primeiras águas de janeiro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
1 590
Mario Ribeiro Martins
Os Idos
Quando nos tempos idos, mas lembrados,
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
1 077
Eduardo Guimaraens
Dentro da noite, misteriosamente
Dentro da noite, misteriosamente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
como um murmúrio, um segredo dolente?
E ao coração da noite se entrelaça?
Que estranha voz pelos jardins perpassa,
como a sombra de alguém que, além, fugisse?
E ao coração da noite se entrelaça,
a recordar o adeus que eu te não disse?
Como a sombra de alguém que, além fugisse,
ouço essa estranha voz que me adolora,
a recordar o adeus que eu te não disse,
sob o esplendor da derradeira aurora.
Ouço essa estranha voz que me adolora,
como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
sob o esplendor da derradeira aurora,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo.
Como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
nostálgico, o teu nome segredando,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo,
pela noite sonâmbulo, sonhando!
Nostálgico, o teu olhar segredando,
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
pela noite sonâmbulo, sonhando...
Sinto o travor da lágrima secreto.
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
como o verso de um canto inesquecido.
Sinto o travor da lágrima secreto.
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Como o verso de um canto inesquecido,
por que tornaste a minha boca ansiosa?
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Oh, sensitiva angústia dolorosa!
Por que tornaste a minha boca ansiosa,
sombra de outrora que o passado acorda?
Oh, sensitiva angústia dolorosa
por todo o mal que esta paixão recorda!
Sombra de outrora que o passado acorda
e ao coração da noite se entrelaça,
por todo o mal que esta paixão recorda,
que estranha voz pelos jardins perpassa
e ao coração da noite se entrelaça?
Como um murmúrio, um segredar dolente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
dentro da noite, misteriosamente?
Imagem - 00350001
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
que estranha voz pelos jardins perpassa,
como um murmúrio, um segredo dolente?
E ao coração da noite se entrelaça?
Que estranha voz pelos jardins perpassa,
como a sombra de alguém que, além, fugisse?
E ao coração da noite se entrelaça,
a recordar o adeus que eu te não disse?
Como a sombra de alguém que, além fugisse,
ouço essa estranha voz que me adolora,
a recordar o adeus que eu te não disse,
sob o esplendor da derradeira aurora.
Ouço essa estranha voz que me adolora,
como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
sob o esplendor da derradeira aurora,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo.
Como se, ainda outra vez, pálido e mudo,
nostálgico, o teu nome segredando,
mas sem nada lembrar, lembrasse tudo,
pela noite sonâmbulo, sonhando!
Nostálgico, o teu olhar segredando,
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
pela noite sonâmbulo, sonhando...
Sinto o travor da lágrima secreto.
Ouve-o de novo o meu amor inquieto,
como o verso de um canto inesquecido.
Sinto o travor da lágrima secreto.
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Como o verso de um canto inesquecido,
por que tornaste a minha boca ansiosa?
Volto, sofrendo, ao meu jardim perdido.
Oh, sensitiva angústia dolorosa!
Por que tornaste a minha boca ansiosa,
sombra de outrora que o passado acorda?
Oh, sensitiva angústia dolorosa
por todo o mal que esta paixão recorda!
Sombra de outrora que o passado acorda
e ao coração da noite se entrelaça,
por todo o mal que esta paixão recorda,
que estranha voz pelos jardins perpassa
e ao coração da noite se entrelaça?
Como um murmúrio, um segredar dolente,
que estranha voz pelos jardins perpassa,
dentro da noite, misteriosamente?
Imagem - 00350001
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 125
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 142
Torquato Neto
A Rua
toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 952