Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Charles Bukowski
Trapos, Garrafas, Sacos
lembro
na minha infância do som
de:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
foi durante a
Depressão
e você podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
então você ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e então você avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verão:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
oh
aquele cavalo estava tão
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerável
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
às vezes
um de nossos pais
gritava:
“Ei! Por que você não
alimenta esse cavalo, seu
merda!”
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e então
tudo o que podíamos
ver
era a parte de trás da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde então
não houve
mais nenhum.
As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam não saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratávamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saída. A mãe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois períodos de recreio. Os alunos das primeiras séries se reuniam em torno de sua própria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecíamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penúltimo a ser escolhido, e David, o último. Assim, sempre jogávamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblíquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prática. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu não sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu não. Eu movimentava o bastão com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei à primeira base, o primeiro basista disse:
– Essa é a única maneira de você chegar até aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saíam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escárnio nos lábios.
– Está me achando bonito? – ele perguntou.
Não sabia o que responder. Eu não estava acostumado a conversar.
– Os caras dizem que você é louco – ele falou –, mas em mim você não mete medo. Dia desses pego você na saída.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrível. Então o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção à segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
– Você está fora! – gritou o garoto que servia de árbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
– Eu disse: VOCÊ ESTÁ FORA! – gritou o árbitro.
Então eu soube que não seria aceito. David e eu não seríamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o “fora” porque ali não era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de “fora”. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu não era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caíam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. Não queria vê-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mãe. Não queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. Não conseguia acreditar que eu jogasse tão mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastão de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, “louco”. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
– Ei, é o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastão como há muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu às alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava à esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. Então Brubaker começou a correr atrás da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazê-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta série. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar até a segunda, toquei-a, corri até a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguém da primeira série tinha feito um home run! Ao chegar de volta à posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitão do time, Stanley Greenberg:
– Vamos colocá-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
– Não – disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha às mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de ódio, um ódio que já não tinha um porquê.
A temporada de futebol americano foi pior. Jogávamos um futebol de toque[3]. Não me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chão. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. Não gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saíam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nós. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso líder. A palavra final era sua. Ele me falou:
– Você não entende as regras. Basta de futebol pra você.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufóricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. Só precisava de um pouco de prática. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu já não jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pátio onde ninguém estava jogando. Eu era o único que não praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lá, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
– Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluí que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
– Quem chutou a bola? – perguntei.
– Quer mesmo saber?
– Sim.
– O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
– Foi Billy Sherril – alguém disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpático do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estômago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
– Levante e lute com ele, Billy – disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
– Certo – disse Stanley –, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda não era minha hora de passar dessa para melhor. Mas então um professor apareceu.
– O que está acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
– Henry bateu no Billy – disse Stanley Greenberg.
– Foi isso mesmo, garotos? – perguntou o sr. Hall.
– Sim – responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho até a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e então bateu à porta do diretor. Ficou lá dentro por um tempo considerável e então saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saísse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nó. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porém, já não tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
– Bem – ele disse por fim –, me conte o que aconteceu.
– Não aconteceu nada.
– Você machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vão querer saber por quê.
Não respondi.
– Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que não o agrada?
– Não.
– Então, por que fez isso?
Novamente me calei.
– Você se acha melhor do que as outras pessoas?
– Não.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lá e para cá sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
– Diga logo: por que você fez isso?
Não respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lá e para cá. O telefone tocou. Ele atendeu.
– Alô? Oh, sra. Kirby? Ele o quê? Quê? Escute, será que a senhora não poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. Está certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questão com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mãos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caía sobre os olhos e me encarou.
– Por que você está me causando todo esse problema?
Não respondi.
– Você se acha durão, né?
Continuei em silêncio.
– Um garoto durão, né?
Uma mosca voava em círculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. Então ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
– Certo, garoto, você é durão, e eu sou durão. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mãos.
Não me considerava um cara durão; por isso, recusei.
– Vamos, me dê sua mão.
Estendi minha mão e ele começou a balançá-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
– Quero cumprimentá-lo por ser um cara durão.
Estreitou ainda mais o aperto.
– Acha que eu sou um cara durão?
Não respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lâmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visão.
– E agora, me acha um cara durão? – ele perguntou.
– Vou matar você – eu disse.
– Vai o quê?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mão parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
– Caras durões não gritam, não é?
Apertou até o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possível, assim ninguém nas salas de aula poderia me ouvir.
– E agora, sou um cara durão?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
– Sim.
O sr. Knox soltou minha mão. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caísse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e não pude deixar de pensar que não era tão ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
– Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e você vai entregá-lo. Vai entregar direitinho para eles, não vai?
– Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu não tinha nenhum desejo de abri-lo.
– Misto-quente
na minha infância do som
de:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
foi durante a
Depressão
e você podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
então você ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e então você avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verão:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
oh
aquele cavalo estava tão
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerável
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
às vezes
um de nossos pais
gritava:
“Ei! Por que você não
alimenta esse cavalo, seu
merda!”
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e então
tudo o que podíamos
ver
era a parte de trás da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde então
não houve
mais nenhum.
As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam não saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratávamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saída. A mãe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois períodos de recreio. Os alunos das primeiras séries se reuniam em torno de sua própria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecíamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penúltimo a ser escolhido, e David, o último. Assim, sempre jogávamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblíquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prática. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu não sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu não. Eu movimentava o bastão com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei à primeira base, o primeiro basista disse:
– Essa é a única maneira de você chegar até aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saíam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escárnio nos lábios.
– Está me achando bonito? – ele perguntou.
Não sabia o que responder. Eu não estava acostumado a conversar.
– Os caras dizem que você é louco – ele falou –, mas em mim você não mete medo. Dia desses pego você na saída.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrível. Então o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção à segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
– Você está fora! – gritou o garoto que servia de árbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
– Eu disse: VOCÊ ESTÁ FORA! – gritou o árbitro.
Então eu soube que não seria aceito. David e eu não seríamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o “fora” porque ali não era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de “fora”. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu não era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caíam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. Não queria vê-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mãe. Não queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. Não conseguia acreditar que eu jogasse tão mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastão de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, “louco”. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
– Ei, é o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastão como há muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu às alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava à esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. Então Brubaker começou a correr atrás da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazê-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta série. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar até a segunda, toquei-a, corri até a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguém da primeira série tinha feito um home run! Ao chegar de volta à posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitão do time, Stanley Greenberg:
– Vamos colocá-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
– Não – disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha às mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de ódio, um ódio que já não tinha um porquê.
A temporada de futebol americano foi pior. Jogávamos um futebol de toque[3]. Não me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chão. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. Não gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saíam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nós. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso líder. A palavra final era sua. Ele me falou:
– Você não entende as regras. Basta de futebol pra você.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufóricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. Só precisava de um pouco de prática. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu já não jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pátio onde ninguém estava jogando. Eu era o único que não praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lá, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
– Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluí que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
– Quem chutou a bola? – perguntei.
– Quer mesmo saber?
– Sim.
– O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
– Foi Billy Sherril – alguém disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpático do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estômago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
– Levante e lute com ele, Billy – disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
– Certo – disse Stanley –, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda não era minha hora de passar dessa para melhor. Mas então um professor apareceu.
– O que está acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
– Henry bateu no Billy – disse Stanley Greenberg.
– Foi isso mesmo, garotos? – perguntou o sr. Hall.
– Sim – responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho até a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e então bateu à porta do diretor. Ficou lá dentro por um tempo considerável e então saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saísse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nó. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porém, já não tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
– Bem – ele disse por fim –, me conte o que aconteceu.
– Não aconteceu nada.
– Você machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vão querer saber por quê.
Não respondi.
– Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que não o agrada?
– Não.
– Então, por que fez isso?
Novamente me calei.
– Você se acha melhor do que as outras pessoas?
– Não.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lá e para cá sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
– Diga logo: por que você fez isso?
Não respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lá e para cá. O telefone tocou. Ele atendeu.
– Alô? Oh, sra. Kirby? Ele o quê? Quê? Escute, será que a senhora não poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. Está certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questão com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mãos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caía sobre os olhos e me encarou.
– Por que você está me causando todo esse problema?
Não respondi.
– Você se acha durão, né?
Continuei em silêncio.
– Um garoto durão, né?
Uma mosca voava em círculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. Então ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
– Certo, garoto, você é durão, e eu sou durão. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mãos.
Não me considerava um cara durão; por isso, recusei.
– Vamos, me dê sua mão.
Estendi minha mão e ele começou a balançá-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
– Quero cumprimentá-lo por ser um cara durão.
Estreitou ainda mais o aperto.
– Acha que eu sou um cara durão?
Não respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lâmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visão.
– E agora, me acha um cara durão? – ele perguntou.
– Vou matar você – eu disse.
– Vai o quê?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mão parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
– Caras durões não gritam, não é?
Apertou até o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possível, assim ninguém nas salas de aula poderia me ouvir.
– E agora, sou um cara durão?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
– Sim.
O sr. Knox soltou minha mão. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caísse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e não pude deixar de pensar que não era tão ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
– Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e você vai entregá-lo. Vai entregar direitinho para eles, não vai?
– Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu não tinha nenhum desejo de abri-lo.
– Misto-quente
1 234
Allen Ginsberg
No túmulo de Apollinaire
. .. void le temps
Oú I’on connaitre I’avehir
Sans mourir de connaissance
I
Visitei Père Lachaise para procurar os restos mortais de Apolli
naire no dia em que o Presidente dos Estados Unidos apareceu
na França para a grande conferência dos chefes de estado
é isso aí o aeroporto azul de Orly claridade de primavera no ar de Paris
Eisenhower chegando do seu sepulcro americano
e sobre os túmulos com sapos de Père Lachaise uma ilusória
neblina espessa como fumaça de marijuana
Peter Orlovsky e eu caminhamos suavemente por Père Lachaise
ambos sabíamos que iríamos morrer
e assim nos demos nossas temporárias mãos ternamente numa
eternidade em miniatura como uma cidade
estradas e sinais pedras e colinas e nomes nas casas de todos
procurando o endereço perdido de um notável Francês do Vazio
para cometer nosso terno crime de homenagear seu abandonado menhir e deixar meu temporário Uivo Americano no topo do seu silencioso Calligramme
para que ele o lesse nas entrelinhas com olhos de Raio X de poeta
assim como miraculosamente lera sua própria lírica da morte no Sena
espero que algum garotío pirado deixe seu panfleto no meu túmulo para que assim Deus o leia para mim nas frias
noites de inverno do céu
nossas mãos já sumiram daquele lugar minha mão agora escreve
no quarto de Git-Le-Coeur Paris
Você não pode dirigir automóveis num túmulo de um metro e
oitenta no entanto o universo é um mausoléu suficiente
mente grande para qualquer coisa
o universo é um sepulcro e eu dou voltas sozinho por aqui
sabendo que Apollinaire andou pela mesma rua há 50 anos
sua loucura acaba de dobrar a esquina e Genet está conosco roubando livros
o Oddente está de novo em guerra e de que será o lúcido suicídio que deixará tudo em ordem outra vez
Guillaume Guillaume como invejo sua fama sua contribuição para as letras americanas
seu Zone com suas longas linhas loucas de besteiras sobre a morte
sai para fora do seu túmulo e fala pela porta da minha mente
solta novas séries de imagens hai-kus oceânicos táxis azuis em
Moscou negras estátuas de Buda
reza por mim na gravação fonográfica da sua existência anterior
com uma voz pausada e triste e com versos de uma profunda
música suave triste e estridente como a 1? Guerra Mundial
comi as cenouras azuis que você me mandou do túmulo e a orelha de Van Gogh e o peiote desvairado de Artaud
e caminharei pela ruas de Nova York envolto no manto negro da Poesia Francesa
fazendo improvisos sobre nossa conversa no Père Lachaise em Paris
e o poema do futuro que recebe sua inspiração da luz que escorre para dentro do seu túmulo
II
Aqui em Paris sou teu hóspede Oh sombra amistosa a mão ausente de Max Jacob
Picasso jovem me passa uma bisnaga de Mediterrâneo
eu presente no antigo banquete vermelho de Rousseau eu comi seu violino
grande festa no Bateau Lavoir não mencionada nos livros de texto sobre a Argélia
Huidobro esquecido no ósseo oceano Ungaretti recordando o branco pêlo púbico
Tzara no Bois de Boulogne explicando a alquimia das metralhadoras de cucos
ele chora ao traduzir-me para o sueco
bem vestido de gravata violeta e calças pretas
uma doce barba ruiva que emerge do seu rosto como o musgoque pende pelas paredes do Anarquismo
ele me contou infindavelmente suas brigas com André Breton
a quem um dia ajudara a aparar o bigode dourado
o velho Blaise Cendrars recebeu-me em seu estúdio e falou-me cansado da imensidão da Sibéria
Jacques Vaché convidou-me para examinar sua terrível coleção de pistolas
o pobre Cocteau amargurado por causa do outrora maravilhoso Radiguet diante do seu último pensamento eu desmaiei
Rigaut104 com uma carta de apresentação para a Morte
e Gide que elogiou o telefone e outras notáveis invenções
em princípio concordamos apesar da sua conversa de roupa de baixo de lavanda
mas mesmo assim ele bebeu para valer da erva de Whitman e mostrou-se intrigado por todos os amantes chamados Colorado
príncipes da América chegando com braçadas de Shrapnel e baseball
Ah Guillaume o mundo era tão fácil de combater parecia tio fácil
você sabia que os grandes classicistas políticos iriam invadir Montparnasse
com nenhuma coroa de louro profético para reverdecer suas testas
nenhum ramo verde nos seus travesseiros nenhuma folha das suas guerras —Maiakovski chegou e revoltou-se
III
Voltei sentei-me num túmulo e fiquei encarando teu tosco menhir
um pedaço de granito delgado como um falo inacabado
uma cruz apagada na pedra 2 poemas na lápide um Coeur Renversé
outro Habituez-vous comme moi A ces prodiges que j’annonce
Guillaume Apollinaire de Kostrowitsky
alguém deixou um pote de geléia com margaridas e uma rosa
surrealista de louça de datilografa a 5 ou 10 centavos
alegre túmulo pequeno com flores e coração virado
debaixo de uma delicada árvore musgosa sob a qual me sentei tronco tortuoso
ramagens de verão e cobertura de folhagens sobre o menhir e ninguém lá
Et quelle voix sinistre ulule Guillaume qu’es-tu devenu
seu vizinho ao lado é uma árvore
lá embaixo os ossos cruzados amontoados e talvez o crânio amarelo
e os poemas impressos Ãlcools no meu bolso sua voz no museu
Agora passadas de meia-idade percorrem o cascalho
um homem encara o nome e segue na direção do crematório
o mesmo céu rola entre as nuvens assim como nos dias mediterrâneos da Riviera durante a guerra
enamorado Apoio bebendo comendo ocasionalmente ópio recebendo a luz
Devem ter sentido o choque em St. Germain quando ele partiu Jacob & Picasso tossindo no escuro
uma atadura desenrolada e o crânio largado quieto na cama dedos grossos esticados o mistério e o ego idos
um sino dobra no campanário rua abaixo pássaros gorgeiam nas castanheiras
a Família Bremond dorme ao lado Cristo dependurado peitudo e sexy no túmulo deles
o cigarro queima no meu colo e enche a página de fumaça e chamas
uma formiga percorre minha manga de veludo cotelê a árvore
na qual estou recostado cresce vagarosamente
arbustos e ramagens erguem-se entre os túmulos uma sedosa
teia de aranha reluz no granito
eu estou enterrado aqui e sentado sobre meu sepulcro à sombra de uma árvore
Oú I’on connaitre I’avehir
Sans mourir de connaissance
I
Visitei Père Lachaise para procurar os restos mortais de Apolli
naire no dia em que o Presidente dos Estados Unidos apareceu
na França para a grande conferência dos chefes de estado
é isso aí o aeroporto azul de Orly claridade de primavera no ar de Paris
Eisenhower chegando do seu sepulcro americano
e sobre os túmulos com sapos de Père Lachaise uma ilusória
neblina espessa como fumaça de marijuana
Peter Orlovsky e eu caminhamos suavemente por Père Lachaise
ambos sabíamos que iríamos morrer
e assim nos demos nossas temporárias mãos ternamente numa
eternidade em miniatura como uma cidade
estradas e sinais pedras e colinas e nomes nas casas de todos
procurando o endereço perdido de um notável Francês do Vazio
para cometer nosso terno crime de homenagear seu abandonado menhir e deixar meu temporário Uivo Americano no topo do seu silencioso Calligramme
para que ele o lesse nas entrelinhas com olhos de Raio X de poeta
assim como miraculosamente lera sua própria lírica da morte no Sena
espero que algum garotío pirado deixe seu panfleto no meu túmulo para que assim Deus o leia para mim nas frias
noites de inverno do céu
nossas mãos já sumiram daquele lugar minha mão agora escreve
no quarto de Git-Le-Coeur Paris
Você não pode dirigir automóveis num túmulo de um metro e
oitenta no entanto o universo é um mausoléu suficiente
mente grande para qualquer coisa
o universo é um sepulcro e eu dou voltas sozinho por aqui
sabendo que Apollinaire andou pela mesma rua há 50 anos
sua loucura acaba de dobrar a esquina e Genet está conosco roubando livros
o Oddente está de novo em guerra e de que será o lúcido suicídio que deixará tudo em ordem outra vez
Guillaume Guillaume como invejo sua fama sua contribuição para as letras americanas
seu Zone com suas longas linhas loucas de besteiras sobre a morte
sai para fora do seu túmulo e fala pela porta da minha mente
solta novas séries de imagens hai-kus oceânicos táxis azuis em
Moscou negras estátuas de Buda
reza por mim na gravação fonográfica da sua existência anterior
com uma voz pausada e triste e com versos de uma profunda
música suave triste e estridente como a 1? Guerra Mundial
comi as cenouras azuis que você me mandou do túmulo e a orelha de Van Gogh e o peiote desvairado de Artaud
e caminharei pela ruas de Nova York envolto no manto negro da Poesia Francesa
fazendo improvisos sobre nossa conversa no Père Lachaise em Paris
e o poema do futuro que recebe sua inspiração da luz que escorre para dentro do seu túmulo
II
Aqui em Paris sou teu hóspede Oh sombra amistosa a mão ausente de Max Jacob
Picasso jovem me passa uma bisnaga de Mediterrâneo
eu presente no antigo banquete vermelho de Rousseau eu comi seu violino
grande festa no Bateau Lavoir não mencionada nos livros de texto sobre a Argélia
Huidobro esquecido no ósseo oceano Ungaretti recordando o branco pêlo púbico
Tzara no Bois de Boulogne explicando a alquimia das metralhadoras de cucos
ele chora ao traduzir-me para o sueco
bem vestido de gravata violeta e calças pretas
uma doce barba ruiva que emerge do seu rosto como o musgoque pende pelas paredes do Anarquismo
ele me contou infindavelmente suas brigas com André Breton
a quem um dia ajudara a aparar o bigode dourado
o velho Blaise Cendrars recebeu-me em seu estúdio e falou-me cansado da imensidão da Sibéria
Jacques Vaché convidou-me para examinar sua terrível coleção de pistolas
o pobre Cocteau amargurado por causa do outrora maravilhoso Radiguet diante do seu último pensamento eu desmaiei
Rigaut104 com uma carta de apresentação para a Morte
e Gide que elogiou o telefone e outras notáveis invenções
em princípio concordamos apesar da sua conversa de roupa de baixo de lavanda
mas mesmo assim ele bebeu para valer da erva de Whitman e mostrou-se intrigado por todos os amantes chamados Colorado
príncipes da América chegando com braçadas de Shrapnel e baseball
Ah Guillaume o mundo era tão fácil de combater parecia tio fácil
você sabia que os grandes classicistas políticos iriam invadir Montparnasse
com nenhuma coroa de louro profético para reverdecer suas testas
nenhum ramo verde nos seus travesseiros nenhuma folha das suas guerras —Maiakovski chegou e revoltou-se
III
Voltei sentei-me num túmulo e fiquei encarando teu tosco menhir
um pedaço de granito delgado como um falo inacabado
uma cruz apagada na pedra 2 poemas na lápide um Coeur Renversé
outro Habituez-vous comme moi A ces prodiges que j’annonce
Guillaume Apollinaire de Kostrowitsky
alguém deixou um pote de geléia com margaridas e uma rosa
surrealista de louça de datilografa a 5 ou 10 centavos
alegre túmulo pequeno com flores e coração virado
debaixo de uma delicada árvore musgosa sob a qual me sentei tronco tortuoso
ramagens de verão e cobertura de folhagens sobre o menhir e ninguém lá
Et quelle voix sinistre ulule Guillaume qu’es-tu devenu
seu vizinho ao lado é uma árvore
lá embaixo os ossos cruzados amontoados e talvez o crânio amarelo
e os poemas impressos Ãlcools no meu bolso sua voz no museu
Agora passadas de meia-idade percorrem o cascalho
um homem encara o nome e segue na direção do crematório
o mesmo céu rola entre as nuvens assim como nos dias mediterrâneos da Riviera durante a guerra
enamorado Apoio bebendo comendo ocasionalmente ópio recebendo a luz
Devem ter sentido o choque em St. Germain quando ele partiu Jacob & Picasso tossindo no escuro
uma atadura desenrolada e o crânio largado quieto na cama dedos grossos esticados o mistério e o ego idos
um sino dobra no campanário rua abaixo pássaros gorgeiam nas castanheiras
a Família Bremond dorme ao lado Cristo dependurado peitudo e sexy no túmulo deles
o cigarro queima no meu colo e enche a página de fumaça e chamas
uma formiga percorre minha manga de veludo cotelê a árvore
na qual estou recostado cresce vagarosamente
arbustos e ramagens erguem-se entre os túmulos uma sedosa
teia de aranha reluz no granito
eu estou enterrado aqui e sentado sobre meu sepulcro à sombra de uma árvore
1 094
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
594
Charles Bukowski
À Espera
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
onde um de cada três lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantações
de laranja –
se você tivesse um carro e
gasolina.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difíceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chão:
“seu filho da puta de
merda!”
“Henry, Henry, me solta,
me solta!”
“seu filho da puta, eu vou
te matar!”
minha mãe ligou para a polícia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
à noite:
“o que vamos fazer? o que vamos
fazer?”
“deus, não faço a menor ideia...”
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as línguas
expostas, aqueles olhos tão tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silêncio
e as mulheres pálidas como
estátuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentávamos os cães com restos endurecidos de
pão
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verão, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saída de um cinema em Chicago. Ele não teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrás o sistema bancário havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pôde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rádio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mês de setembro eu fui designado para a escola de ensino médio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
– Olhe – eu disse –, Chelsey fica em outro bairro. É muito longe.
– Você vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famílias ricas botavam seus filhos lá. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lá também. Não conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta até Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrível. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus próprios automóveis, muitos deles conversíveis novinhos, e eles não eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulôveres, relógios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lá estava eu, minha camisa feita em casa, meu único par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros não se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos não eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessível. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhávamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixá-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distância de quatro quilômetros na ida e outros quatro na volta. Carregávamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey você podia escolher entre fazer educação física ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para não ter que usar um abrigo de ginástica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lã, o que irritava minhas feridas. Usávamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usássemos nossas roupas normais.
Estudávamos o Manual do Exército. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. Marchávamos ao redor do campo. Praticávamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vários exercícios era terrível para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. Saía sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lã, a mancha não ficava visível e não se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
– Chinaski! – gritou. – Seu rifle está com um vazamento de óleo.
– Sim, senhor.
Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de água e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
– Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
– Olhe o que aconteceu – eu falei.
Minha mãe entrou no quarto.
– Esse filho da puta não quer se curar – meu pai disse a ela. – O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mãe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhãs de carro como se estivesse indo trabalhar.
– Sou engenheiro – ele dizia às pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartão branco comprido. Peguei o cartão e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dólar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta às oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrás de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lá fora o sol brilhava.
– Mamãe – ouvi o garotinho perguntar –, o que há de errado no rosto daquele homem?
A mulher não respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela não respondeu.
Então o garoto gritou:
– Mamãe! O que há de errado no rosto daquele homem?
– Cale a boca! Não sei o que há de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lá, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficávamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lá para cá, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
– O dr. Menen ainda não chegou – e desligou.
– Com licença – eu disse.
– Sim? – perguntou a enfermeira.
– Os médicos ainda não chegaram. Posso voltar mais tarde?
– Não.
– Mas não há ninguém aqui.
– Os médicos estão atendendo.
– Mas eu tinha uma consulta às oito e meia.
– Todos aqui estão marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
– Já que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns médicos estejam aqui então.
– Se você sair agora, perderá automaticamente a sua consulta. Terá que retornar amanhã, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei até onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros não protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou três enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seções, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E então mais duas. Nós sentados, esperando. Então alguém disse:
– Lá vem um médico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
– Martinez? – o médico chamou. – José Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
– Martinez? Martinez, meu velho, como você está?
– Mal, doutor... Acho que vou morrer...
– Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lá dentro. Peguei um jornal que alguém havia deixado e tentei lê-lo. Mas todos pensávamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o próximo seria chamado.
Então Martinez gritou.
– AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
– Calma, calma, não é para tanto... – disse o médico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silêncio. Tudo que podíamos ver era a sombra da porta entreaberta. Então um auxiliar também correu para lá. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivém. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele não estava morto, pois o tecido não lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
– Jeferson Williams? – ele perguntou.
Não houve resposta.
– Jeferson Williams está aí?
Não houve reação.
– Mary Blackthorne?
Não houve resposta.
– Harry Lewis?
– Sim, doutor?
– Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O médico examinou mais cinco pacientes. Então deixou a sala, parou junto à mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava óculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xícara de café. Tomou um gole, e então, segurando o café numa das mãos, com a outra empurrou a porta vaivém e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartões brancos e chamou por nossos nomes. À medida que íamos respondendo, ela nos devolvia os cartões.
– O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhã, se quiserem. O horário de sua consulta está marcado no cartão.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhã.
– Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do óleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saía sangue e pus e eu ficava lá sentado, vagando sobre a corda bamba, à beira de um precipício. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridículo e inacreditável.
– O pior caso que já vi – disse um dos médicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
– O que há de errado com aquele homem? Mãe, o que há de errado com a cara daquele homem?
E a mãe fazia:
– PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenações, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prédios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, não havia nada a fazer. Os médicos, por não saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que história triste, né? Lembro-me dos prédios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos médicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falácia dos hospitais... que os médicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lá para que os médicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, além de poderem trepar com as enfermeiras: – Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do câncer, esqueça o fedor da vida. Não somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remédio, uma injeção, toda a droga de que precisamos está ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantará para nós, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dálias e laranjas e brilhando através dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberrações. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
– Nunca vi ninguém suportar a broca desse jeito!
– Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reunião de comedores de enfermeiras, uma reunião de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reunião.
– Como você se sente?
– Maravilhoso.
– Não acha que a agulha machuca um pouco?
– Vá se foder.
– Como?
– Mandei você se foder.
– É apenas um garoto. Um garoto amargo. Não podemos culpá-lo. Quantos anos você tem?
– Catorze.
– Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. Você é durão.
– Vá se foder.
– Não pode falar assim comigo.
– Foda-se. Foda-se. Foda-se.
– Você devia se manter mais positivo. Imagina se você fosse cego?
– Então não precisaria olhar para sua cara estúpida.
– O garoto é louco.
– Claro que ele é, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e não imaginei que voltaria lá vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisões e prostíbulos: eis as universidades da vida. Eu já recebera vários títulos dessas instituições. Exigia ser tratado por senhor.
– Ao sul de lugar nenhum
A máquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os óculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
– Ainda não – ela disse –, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
– Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substância grossa e com textura semelhante à de manteiga.
– Os médicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
– Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
– O sr. Sleeth?
– O homem do narigão.
– Era o sr. Sleeth.
– Não o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
– Morreu.
– Você quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
– Suicídio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
Então escutei um homem gritar na sala ao lado:
– Joe, cadê você? Joe, você disse que voltaria! Joe, cadê você?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
– Ele fez isso durante todas as tardes desta semana – disse a srta. Ackerman – e nada do Joe aparecer para buscá-lo.
– Eles podem ajudá-lo?
– Não sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. É isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
– Joe, Joe, você disse que ia voltar! Onde você está, Joe?
– Agora segure também esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar você bem direitinho! Isso. Falta só fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
– Ok, ponha suas roupas. Vejo você depois de amanhã. Até mais, Henry.
– Até mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
– Joe! Joe! Cadê você, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu não dava a mínima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui até o final da linha e desci. A tarde caía e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa após a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu não tinha emprego nem ia à escola. Eu não fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durão, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu não iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas não haviam desaparecido, mas diminuíram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessões de drenagem eram intermináveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se é que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta também havia desaparecido. Não havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os médicos que não podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença é que eu era a vítima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemática e história. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhãs. Havia três vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
– Henry, este será seu último tratamento. Vou sentir sua falta.
– Ah, corta essa – eu disse –, pare com essa brincadeira. Você vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elétricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
– O que há, Janice? O que há de errado com você?
– Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
– Vamos – ela disse –, este vai ser seu último tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
– Agora já sei o seu primeiro nome – eu disse. – Janice. É um nome bonito. Assim como você.
– Oh, fique quieto – ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a máquina e deixou a sala. Jamais voltei a vê-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
– Eles fazem você mijar num tubo, levam seu dinheiro e vão para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills – ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hálito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no próximo trimestre, disse meu pai.
– Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurá-lo até que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que é que você poderia ficar aí sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que você seja um engenheiro. Como, diabos, você vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas até a altura da bunda? Isso é tudo o que você é capaz de desenhar? Por que você não desenha flores ou montanhas ou o oceano? Você vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas não estavam curadas, mas já não estavam tão terríveis quanto antes.
– Misto-quente
onde um de cada três lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantações
de laranja –
se você tivesse um carro e
gasolina.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difíceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chão:
“seu filho da puta de
merda!”
“Henry, Henry, me solta,
me solta!”
“seu filho da puta, eu vou
te matar!”
minha mãe ligou para a polícia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
à noite:
“o que vamos fazer? o que vamos
fazer?”
“deus, não faço a menor ideia...”
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as línguas
expostas, aqueles olhos tão tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silêncio
e as mulheres pálidas como
estátuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentávamos os cães com restos endurecidos de
pão
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verão, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saída de um cinema em Chicago. Ele não teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrás o sistema bancário havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pôde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rádio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mês de setembro eu fui designado para a escola de ensino médio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
– Olhe – eu disse –, Chelsey fica em outro bairro. É muito longe.
– Você vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famílias ricas botavam seus filhos lá. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lá também. Não conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta até Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrível. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus próprios automóveis, muitos deles conversíveis novinhos, e eles não eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulôveres, relógios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lá estava eu, minha camisa feita em casa, meu único par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros não se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos não eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessível. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhávamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixá-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distância de quatro quilômetros na ida e outros quatro na volta. Carregávamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey você podia escolher entre fazer educação física ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para não ter que usar um abrigo de ginástica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lã, o que irritava minhas feridas. Usávamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usássemos nossas roupas normais.
Estudávamos o Manual do Exército. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. Marchávamos ao redor do campo. Praticávamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vários exercícios era terrível para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. Saía sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lã, a mancha não ficava visível e não se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
– Chinaski! – gritou. – Seu rifle está com um vazamento de óleo.
– Sim, senhor.
Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de água e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
– Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
– Olhe o que aconteceu – eu falei.
Minha mãe entrou no quarto.
– Esse filho da puta não quer se curar – meu pai disse a ela. – O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mãe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhãs de carro como se estivesse indo trabalhar.
– Sou engenheiro – ele dizia às pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartão branco comprido. Peguei o cartão e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dólar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta às oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrás de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lá fora o sol brilhava.
– Mamãe – ouvi o garotinho perguntar –, o que há de errado no rosto daquele homem?
A mulher não respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela não respondeu.
Então o garoto gritou:
– Mamãe! O que há de errado no rosto daquele homem?
– Cale a boca! Não sei o que há de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lá, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficávamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lá para cá, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
– O dr. Menen ainda não chegou – e desligou.
– Com licença – eu disse.
– Sim? – perguntou a enfermeira.
– Os médicos ainda não chegaram. Posso voltar mais tarde?
– Não.
– Mas não há ninguém aqui.
– Os médicos estão atendendo.
– Mas eu tinha uma consulta às oito e meia.
– Todos aqui estão marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
– Já que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns médicos estejam aqui então.
– Se você sair agora, perderá automaticamente a sua consulta. Terá que retornar amanhã, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei até onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros não protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou três enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seções, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E então mais duas. Nós sentados, esperando. Então alguém disse:
– Lá vem um médico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
– Martinez? – o médico chamou. – José Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
– Martinez? Martinez, meu velho, como você está?
– Mal, doutor... Acho que vou morrer...
– Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lá dentro. Peguei um jornal que alguém havia deixado e tentei lê-lo. Mas todos pensávamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o próximo seria chamado.
Então Martinez gritou.
– AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
– Calma, calma, não é para tanto... – disse o médico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silêncio. Tudo que podíamos ver era a sombra da porta entreaberta. Então um auxiliar também correu para lá. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivém. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele não estava morto, pois o tecido não lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
– Jeferson Williams? – ele perguntou.
Não houve resposta.
– Jeferson Williams está aí?
Não houve reação.
– Mary Blackthorne?
Não houve resposta.
– Harry Lewis?
– Sim, doutor?
– Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O médico examinou mais cinco pacientes. Então deixou a sala, parou junto à mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava óculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xícara de café. Tomou um gole, e então, segurando o café numa das mãos, com a outra empurrou a porta vaivém e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartões brancos e chamou por nossos nomes. À medida que íamos respondendo, ela nos devolvia os cartões.
– O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhã, se quiserem. O horário de sua consulta está marcado no cartão.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhã.
– Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do óleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saía sangue e pus e eu ficava lá sentado, vagando sobre a corda bamba, à beira de um precipício. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridículo e inacreditável.
– O pior caso que já vi – disse um dos médicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
– O que há de errado com aquele homem? Mãe, o que há de errado com a cara daquele homem?
E a mãe fazia:
– PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenações, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prédios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, não havia nada a fazer. Os médicos, por não saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que história triste, né? Lembro-me dos prédios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos médicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falácia dos hospitais... que os médicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lá para que os médicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, além de poderem trepar com as enfermeiras: – Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do câncer, esqueça o fedor da vida. Não somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remédio, uma injeção, toda a droga de que precisamos está ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantará para nós, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dálias e laranjas e brilhando através dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberrações. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
– Nunca vi ninguém suportar a broca desse jeito!
– Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reunião de comedores de enfermeiras, uma reunião de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reunião.
– Como você se sente?
– Maravilhoso.
– Não acha que a agulha machuca um pouco?
– Vá se foder.
– Como?
– Mandei você se foder.
– É apenas um garoto. Um garoto amargo. Não podemos culpá-lo. Quantos anos você tem?
– Catorze.
– Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. Você é durão.
– Vá se foder.
– Não pode falar assim comigo.
– Foda-se. Foda-se. Foda-se.
– Você devia se manter mais positivo. Imagina se você fosse cego?
– Então não precisaria olhar para sua cara estúpida.
– O garoto é louco.
– Claro que ele é, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e não imaginei que voltaria lá vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisões e prostíbulos: eis as universidades da vida. Eu já recebera vários títulos dessas instituições. Exigia ser tratado por senhor.
– Ao sul de lugar nenhum
A máquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os óculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
– Ainda não – ela disse –, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
– Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substância grossa e com textura semelhante à de manteiga.
– Os médicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
– Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
– O sr. Sleeth?
– O homem do narigão.
– Era o sr. Sleeth.
– Não o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
– Morreu.
– Você quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
– Suicídio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
Então escutei um homem gritar na sala ao lado:
– Joe, cadê você? Joe, você disse que voltaria! Joe, cadê você?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
– Ele fez isso durante todas as tardes desta semana – disse a srta. Ackerman – e nada do Joe aparecer para buscá-lo.
– Eles podem ajudá-lo?
– Não sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. É isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
– Joe, Joe, você disse que ia voltar! Onde você está, Joe?
– Agora segure também esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar você bem direitinho! Isso. Falta só fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
– Ok, ponha suas roupas. Vejo você depois de amanhã. Até mais, Henry.
– Até mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
– Joe! Joe! Cadê você, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu não dava a mínima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui até o final da linha e desci. A tarde caía e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa após a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu não tinha emprego nem ia à escola. Eu não fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durão, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu não iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas não haviam desaparecido, mas diminuíram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessões de drenagem eram intermináveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se é que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta também havia desaparecido. Não havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os médicos que não podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença é que eu era a vítima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemática e história. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhãs. Havia três vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
– Henry, este será seu último tratamento. Vou sentir sua falta.
– Ah, corta essa – eu disse –, pare com essa brincadeira. Você vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elétricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
– O que há, Janice? O que há de errado com você?
– Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
– Vamos – ela disse –, este vai ser seu último tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
– Agora já sei o seu primeiro nome – eu disse. – Janice. É um nome bonito. Assim como você.
– Oh, fique quieto – ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a máquina e deixou a sala. Jamais voltei a vê-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
– Eles fazem você mijar num tubo, levam seu dinheiro e vão para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills – ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hálito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no próximo trimestre, disse meu pai.
– Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurá-lo até que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que é que você poderia ficar aí sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que você seja um engenheiro. Como, diabos, você vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas até a altura da bunda? Isso é tudo o que você é capaz de desenhar? Por que você não desenha flores ou montanhas ou o oceano? Você vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas não estavam curadas, mas já não estavam tão terríveis quanto antes.
– Misto-quente
1 444
Edmir Domingues
Fabulosos
De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
764
Allen Ginsberg
Para tia Rose
Tia Rose —agora —se eu pudesse vê-la
com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor
de reumatismo —e um comprido e pesado sapato preto
para sua ossuda perna esquerda
coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark
passando pelo grande piano negro
até a sala de visitas
onde davam festas
e eu cantava canções legalistas espanholas
com uma esganiçada voz aguda
(histérico) o comitê ouvindo
enquanto você coxeava pela sala
recolhendo o dinheiro
Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga
de casaco
enfiado no bolso
o enorme moço calvo
da brigada Abraham Lincoln
—sua comprida cara triste
suas lágrimas de insatisfação sexual
(que soluços sufocados e ancas ossudas
sob os travesseiros de Osborne Terrace)
—a vez que fiquei sentado nu na privada
enquanto você empoava minhas coxas com Calomine
contra a queimadura da urtiga —meus tenros
e envergonhados primeiros negros pêlos crespos
o que você pensaria secretamente
sabendo que eu já era homem —
e eu a menina ignorante do silêncio familiar no delgado
pedestal
das minhas pernas no banheiro —Museu de Newark
Tia Rose
Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
com Tamerlão e Emily Bronte
Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osbome
Terrace
ao longo do saguão escuro até a porta da frente
mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo
que deve ter sido um florido
vestido de seda
recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark
—vejo-a chegar à sala de visitas
dançando na sua perna aleijada
e batendo palmas seu livro
havia sido aceito por Liveright
Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados
Tio Harry vendeu sua última meia de seda
Claire largou a escola de dança interpretativa
Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa
de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês
a última vez que eu a vi você estava no hospital
pálido crânio emergindo da pele cinérea
menina inconsciente com veias azuis
numa tenda de oxigênio
a guerra da Espanha já acabou há muito tempo
Tia Rose
Paris, 1958
com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor
de reumatismo —e um comprido e pesado sapato preto
para sua ossuda perna esquerda
coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark
passando pelo grande piano negro
até a sala de visitas
onde davam festas
e eu cantava canções legalistas espanholas
com uma esganiçada voz aguda
(histérico) o comitê ouvindo
enquanto você coxeava pela sala
recolhendo o dinheiro
Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga
de casaco
enfiado no bolso
o enorme moço calvo
da brigada Abraham Lincoln
—sua comprida cara triste
suas lágrimas de insatisfação sexual
(que soluços sufocados e ancas ossudas
sob os travesseiros de Osborne Terrace)
—a vez que fiquei sentado nu na privada
enquanto você empoava minhas coxas com Calomine
contra a queimadura da urtiga —meus tenros
e envergonhados primeiros negros pêlos crespos
o que você pensaria secretamente
sabendo que eu já era homem —
e eu a menina ignorante do silêncio familiar no delgado
pedestal
das minhas pernas no banheiro —Museu de Newark
Tia Rose
Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
com Tamerlão e Emily Bronte
Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osbome
Terrace
ao longo do saguão escuro até a porta da frente
mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo
que deve ter sido um florido
vestido de seda
recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark
—vejo-a chegar à sala de visitas
dançando na sua perna aleijada
e batendo palmas seu livro
havia sido aceito por Liveright
Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados
Tio Harry vendeu sua última meia de seda
Claire largou a escola de dança interpretativa
Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa
de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês
a última vez que eu a vi você estava no hospital
pálido crânio emergindo da pele cinérea
menina inconsciente com veias azuis
numa tenda de oxigênio
a guerra da Espanha já acabou há muito tempo
Tia Rose
Paris, 1958
987
Charles Bukowski
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
615
Roberto Piva
Uma tarde
.......Uma tarde
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
1 492
Charles Bukowski
A Costureira
minha primeira esposa fazia seus próprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
1 131
Charles Bukowski
pois eles tinham coisas para dizer
os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
1 188
Charles Bukowski
O Homem Forte
eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
671
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
673
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
735
António Ramos Rosa
Um Obscuro Jardim
Lembro-me ou esqueço um obscuro jardim,
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
1 183
Allen Ginsberg
O Automóvel Verde
Se eu tivesse um Automóvel Verde
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
1 377
Allen Ginsberg
Relato de um sonho:
Uma noite bêbado na minha casa com um
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
1 009
Edmir Domingues
Balada dos cavalos de infância
Os nossos cavalos brancos
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
149
Dantas Motta
Breviarium de Frei Jeremias
Está amanhecendo o dia, minha amiga!
E os nossos sentimentos tão iguais!
Tão longas as nossas dores,
Tão breves os nossos risos.
Paira em tudo uma indecisão amarga
E eu não sei o que fazer
Nesta manhã tão clara, tão branca,
Em que as névoas são inúteis,
Os passarinhos proverbiais.
O sol, que nasceu ontem,
É o mesmo de hoje e será o mesmo
De amanhã, de depois, de depois.
Só nossos corpos em nossas almas
Se mudarão e com eles o mundo
Que é tão vasto e, entanto,
Não comporta minhas tristezas,
Minhas alegrias. Está amanhecendo!
O sono da noite, que correu bravia,
Não comporta os trabalhos do dia
E este sofrimento afinal não é tão breve.
Certo, amanhã morreremos e eu não deixarei
Mais fundas lembranças que não os teus
Outonos sobre as memórias repetidos,
Nem outro bem que não a amargura
De ter vivido.
Os amigos de São Paulo, Rio,
Belo Horizonte,
Pensam que este riso é meu,
E com eles até Israel, em Irati,
No Paraná.
Mercedes, porém, apesar de estúpida,
Sabe-o apenas um disfarce
Com que oculto esta tristeza,
Esta dor.
.
.
.
E os nossos sentimentos tão iguais!
Tão longas as nossas dores,
Tão breves os nossos risos.
Paira em tudo uma indecisão amarga
E eu não sei o que fazer
Nesta manhã tão clara, tão branca,
Em que as névoas são inúteis,
Os passarinhos proverbiais.
O sol, que nasceu ontem,
É o mesmo de hoje e será o mesmo
De amanhã, de depois, de depois.
Só nossos corpos em nossas almas
Se mudarão e com eles o mundo
Que é tão vasto e, entanto,
Não comporta minhas tristezas,
Minhas alegrias. Está amanhecendo!
O sono da noite, que correu bravia,
Não comporta os trabalhos do dia
E este sofrimento afinal não é tão breve.
Certo, amanhã morreremos e eu não deixarei
Mais fundas lembranças que não os teus
Outonos sobre as memórias repetidos,
Nem outro bem que não a amargura
De ter vivido.
Os amigos de São Paulo, Rio,
Belo Horizonte,
Pensam que este riso é meu,
E com eles até Israel, em Irati,
No Paraná.
Mercedes, porém, apesar de estúpida,
Sabe-o apenas um disfarce
Com que oculto esta tristeza,
Esta dor.
.
.
.
624
Charles Bukowski
Sim
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.
1 035
Dantas Motta
Éclogas Pequenas em que Fala um Só Pastor
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
873
Allen Ginsberg
Fragmento 1956
Agora, para a vinda do poema, que eu seja digno dele
& cante santamente o pathos natural da alma humana,
a pele nua e original sob nossos sonhos
& roupagens do pensamento, a própria identidade perfeita
radiante de paixões e rostos intelectuais
Quem carrega as linhas, a dolorosa contorção
enrugada sobre os olhos, o corpo todo
respirando e sensível entre flores e prédios
de olhos abertos, autoconsciente, trêmulo de amor -
Alma que eu tenho, que Jack tem, Húncke tem,
Bill tem, Joan tinha e ainda tem na minha lembrança,
que o vagabundo tem nos seus trapos, o louco em sua roupa preta.
Almas idênticas umas às outras, assim como parado na
esquina há dez anos atrás eu olhei Jack
e lhe disse que éramos a mesma pessoa - olha
nos meus olhos e fala com você mesmo, isso me torna o
amante de todo mundo, Hal meu contra sua vontade,
eu já tinha sua alma no meu corpo quando
ele olhava zangado -junto ao lampião da 8? Avenida e 27ª
Rua em 1947 - eu acabara de voltar da África
com um vislumbre da visão que na verdade
viria para mim no seu tempo assim como viria para todos -Jack
o pior assassino, Alien o maior covarde
com uma faixa de amor amarelo atravessando
os meus poemas, uma bicha da cidade, Joe Army gritando
de aflição na prisão de Dannemora em 1945,
quebrando os brancos nós dos seus dedos nas grades
seu triste companheiro parvo de cela levando porradas dos guardas
um assoalho de ferro por baixo, Gregory chorando em Tombs
Joan com olheiras sob os olhos de benzedrina
escutando a paranóia pela parede,
Huncke de Chicago sonhando nas Arcadas
do infernal Pokerino de luz azul na pele de Times Square,
o pálido rosto aos berros de Bill King na janela do metrô
debatendo-se no minuto final do vão da morte para voltar,
o próprio Morphy, arqui-suicida, esvaindo-se em sangue
no Passaic, trágico e perplexo nas suas
últimas lágrimas, atingindo a morte naquele instante
humano, intelectual, barbudo, quem mais
seria ele nesse momento a não ser ele mesmo?
& cante santamente o pathos natural da alma humana,
a pele nua e original sob nossos sonhos
& roupagens do pensamento, a própria identidade perfeita
radiante de paixões e rostos intelectuais
Quem carrega as linhas, a dolorosa contorção
enrugada sobre os olhos, o corpo todo
respirando e sensível entre flores e prédios
de olhos abertos, autoconsciente, trêmulo de amor -
Alma que eu tenho, que Jack tem, Húncke tem,
Bill tem, Joan tinha e ainda tem na minha lembrança,
que o vagabundo tem nos seus trapos, o louco em sua roupa preta.
Almas idênticas umas às outras, assim como parado na
esquina há dez anos atrás eu olhei Jack
e lhe disse que éramos a mesma pessoa - olha
nos meus olhos e fala com você mesmo, isso me torna o
amante de todo mundo, Hal meu contra sua vontade,
eu já tinha sua alma no meu corpo quando
ele olhava zangado -junto ao lampião da 8? Avenida e 27ª
Rua em 1947 - eu acabara de voltar da África
com um vislumbre da visão que na verdade
viria para mim no seu tempo assim como viria para todos -Jack
o pior assassino, Alien o maior covarde
com uma faixa de amor amarelo atravessando
os meus poemas, uma bicha da cidade, Joe Army gritando
de aflição na prisão de Dannemora em 1945,
quebrando os brancos nós dos seus dedos nas grades
seu triste companheiro parvo de cela levando porradas dos guardas
um assoalho de ferro por baixo, Gregory chorando em Tombs
Joan com olheiras sob os olhos de benzedrina
escutando a paranóia pela parede,
Huncke de Chicago sonhando nas Arcadas
do infernal Pokerino de luz azul na pele de Times Square,
o pálido rosto aos berros de Bill King na janela do metrô
debatendo-se no minuto final do vão da morte para voltar,
o próprio Morphy, arqui-suicida, esvaindo-se em sangue
no Passaic, trágico e perplexo nas suas
últimas lágrimas, atingindo a morte naquele instante
humano, intelectual, barbudo, quem mais
seria ele nesse momento a não ser ele mesmo?
772
Charles Bukowski
Alô, Barbara
25 anos atrás
em Las Vegas
eu me casei
pela única vez.
ficamos lá por
somente uma hora.
dirigi o caminho todo
de ida e o caminho
todo de volta
para L.A.
e mesmo assim
não me senti
casado e
continuei
me sentindo assim
por dois anos
e meio até que
ela se divorciou
de mim.
então conheci
uma mulher
que tinha formigas
de estimação e
as alimentava
com açúcar.
eu a
engravidei.
depois disso
houve
várias outras
mulheres.
mas
outro dia
um sujeito
que andou examinando
meu passado
disse: “eu
tenho o
número do telefone
da sua
ex-mulher”.
eu o coloquei
na gaveta
da minha cômoda.
então me
embebedei certa
noite
tirei o
número da gaveta
e
liguei para ela.
“ei, bebê,
sou eu!”
“eu sei que é
você”, ela disse
com aquela mesma
voz gélida.
“como cê
tá?”
“estou bem”,
ela respondeu.
“você ainda tá
morando naquela
granja?”
“sim”, ela
disse.
“bem, eu estou
bêbado.
só me deu vontade
de lhe fazer
uma breve
ligação.”
“então você está
bêbado de novo”,
ela disse com
aquela mesma
voz gélida.
“sim. bem,
tá certo,
vou dar
tchau agora...”
“tchau”, ela
falou e
desligou.
eu fui
me servir um
novo drinque.
depois de 25 anos
ela ainda
me odiava.
eu não achava
que eu era tão
ruim.
claro,
caras como eu
quase nunca
acham.
em Las Vegas
eu me casei
pela única vez.
ficamos lá por
somente uma hora.
dirigi o caminho todo
de ida e o caminho
todo de volta
para L.A.
e mesmo assim
não me senti
casado e
continuei
me sentindo assim
por dois anos
e meio até que
ela se divorciou
de mim.
então conheci
uma mulher
que tinha formigas
de estimação e
as alimentava
com açúcar.
eu a
engravidei.
depois disso
houve
várias outras
mulheres.
mas
outro dia
um sujeito
que andou examinando
meu passado
disse: “eu
tenho o
número do telefone
da sua
ex-mulher”.
eu o coloquei
na gaveta
da minha cômoda.
então me
embebedei certa
noite
tirei o
número da gaveta
e
liguei para ela.
“ei, bebê,
sou eu!”
“eu sei que é
você”, ela disse
com aquela mesma
voz gélida.
“como cê
tá?”
“estou bem”,
ela respondeu.
“você ainda tá
morando naquela
granja?”
“sim”, ela
disse.
“bem, eu estou
bêbado.
só me deu vontade
de lhe fazer
uma breve
ligação.”
“então você está
bêbado de novo”,
ela disse com
aquela mesma
voz gélida.
“sim. bem,
tá certo,
vou dar
tchau agora...”
“tchau”, ela
falou e
desligou.
eu fui
me servir um
novo drinque.
depois de 25 anos
ela ainda
me odiava.
eu não achava
que eu era tão
ruim.
claro,
caras como eu
quase nunca
acham.
1 113
Joaquim Cardozo
Imagens do Nordeste
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
1 578
Carlos Drummond de Andrade
A Música Barata
Paloma, Violetera, Feuilles Mortes,
Saudades do Matão e de mais quem?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.
Valsas e canções engavetadas
num armário que vibra de guardá-las,
no velho armário, cedro, pinho ou…?
(O marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)
Não quero Handel para meu amigo
nem ouço a matinada dos arcanjos.
Basta-me
o que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos,
se perdeu.
(lc)
Saudades do Matão e de mais quem?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.
Valsas e canções engavetadas
num armário que vibra de guardá-las,
no velho armário, cedro, pinho ou…?
(O marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)
Não quero Handel para meu amigo
nem ouço a matinada dos arcanjos.
Basta-me
o que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos,
se perdeu.
(lc)
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