Poemas neste tema
Medo e Ansiedade
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 065
Ana Garrett
Entre o ser ou o não ser
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
903
Reinaldo Ferreira
Quando as fachadas, tumulares, de pardas
Quando as fachadas, tumulares, de pardas,
Defendem sonolências impassíveis,
Sou livre pra as boémias intangíveis
- E a noite intui-me cúmplices mansardas...
Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas
E atraente nudez de impossíveis...
Eu sou talvez pintor de nus horríveis,
Zombo dos mestres e odeio as fardas!
Mas mal, estéril, assoma o brilho frio
- Que sempre a madrugada me frustrou
O contacto iminente ao fugidio -
Tenho medo de quem nocturno sou,
Da minha afinidade a um desvario
Que o outro mais casto em mim repudiou!
Defendem sonolências impassíveis,
Sou livre pra as boémias intangíveis
- E a noite intui-me cúmplices mansardas...
Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas
E atraente nudez de impossíveis...
Eu sou talvez pintor de nus horríveis,
Zombo dos mestres e odeio as fardas!
Mas mal, estéril, assoma o brilho frio
- Que sempre a madrugada me frustrou
O contacto iminente ao fugidio -
Tenho medo de quem nocturno sou,
Da minha afinidade a um desvario
Que o outro mais casto em mim repudiou!
1 337
Reinaldo Ferreira
Domina-me um terror incoerente
Domina-me um terror incoerente
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
1 824
Reinaldo Ferreira
Agora o céu não é das aves
Agora o céu não é das aves,
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
2 212
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras
Entre dois espaços entre duas sombras
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
1 107
António Ramos Rosa
Acende-Se Algo Na Garganta
Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
984
Hilda Machado
O nariz contra a vidraça
como a paisagem era terrível
mandou se fechassem as janelas
o nariz contra a vidraça e o fla-flu comendo lá fora
genocídios, promessas, plenilúnios
O festim de Nabucodonosor, a vitória dos pó-de-arroz
as dores do pai e os gritos de amor
são agora aquarelas pitorescas
O nariz contra a vidraça
melhor ainda atrás da persiana
ela com seus preciosismos
unhas feitas entre desfiladeiros de livros
barricadas contra o sublime e o medo
Discretavoyeuse
o sofá combinando com o tom das exegeses
a polidez dos móveis, avencas, decassílabos, filmes russos
perífrases sobre paninhos de crochê
e em vez de carne poemas no congelador
Anônima, dizia sempre à manicure
e apesar das mãos que enrugam
as unhas bem curtas e o esmalte claro, por favor
Um dia, o leite derramado na cozinha, saiu
garras vermelhas, bateu à porta do vizinho
1 222
Emily Dickinson
543
Temo o Homem de pouca Fala –
Temo o Homem que Cala –
Ao Orador – posso aturar –
Ao Tagarela – entreter –
Mas O que pondera – Enquanto o Restante –
Esbanja até o derradeiro tostão –
Desse Homem – desconfio –
E temo que seja Grande –
999
Tomáz Kim
Tempo Habitual
De nojo o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
1 254
Max Jacob
NOITE INFERNAL
Qualquer coisa de horrivelmente frio cai
nos meus ombros. Qualquer coisa de pegajoso agarra-se-me ao pescoço. Urna voz vem do céu
e grita: Monstro! sem que eu saiba se é de mim e dos meus vícios que se
trata ou se quer significar afinal o ser viscoso que se agarra a mim.
nos meus ombros. Qualquer coisa de pegajoso agarra-se-me ao pescoço. Urna voz vem do céu
e grita: Monstro! sem que eu saiba se é de mim e dos meus vícios que se
trata ou se quer significar afinal o ser viscoso que se agarra a mim.
1 098
Al Berto
Vigílias
pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
6 273
Al Berto
Retrato de Fugitivo
ele caminha pela solidão nocturna dos quartos de hotel
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo
e bebe
e ama
e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia
mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo
e bebe
e ama
e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia
mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos
6 256
Mário Hélio
7- VII (Confidência)
tua sombra persegue-me a todo instante,
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
920
Sandra Falcone
Sherezhade
Pudesse
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
933
Fernando Pessoa
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
4 447
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
628
Fernando Pessoa
Quando, com razão ou sem,
Quando, com razão ou sem,
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
3 992
Luís Quintais
Ave
Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
827
Fernando Pessoa
Talvez que seja a brisa
Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...
Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.
Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?
17/08/1930
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...
Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.
Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?
17/08/1930
4 010
Tomas Tranströmer
Solidão
I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
407
Fernando Pessoa
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
4 377
Fernando Pessoa
Ó ervas frescas que cobris
Ó ervas frescas que cobris
As sepulturas,
Vosso verde tem cores vis
A meus olhos, já servis
De conjecturas.
Sabemos bem de quem viveis
Ervas do chão,
Que sossego é esse que fazeis
Verde na forma que trazeis
Sem compaixão.
Ó verdes ervas, como o azul medo
Do céu sem Ser,
Cunhado como entre segredo
Da vida viva, e outro degredo
Do infindo haver.
Tenho um terror com todo eu
Do verde chão...
Ó Sol, não baixes já no céu,
Quero um momento ainda meu
Como um perdão.
14/06/1930
As sepulturas,
Vosso verde tem cores vis
A meus olhos, já servis
De conjecturas.
Sabemos bem de quem viveis
Ervas do chão,
Que sossego é esse que fazeis
Verde na forma que trazeis
Sem compaixão.
Ó verdes ervas, como o azul medo
Do céu sem Ser,
Cunhado como entre segredo
Da vida viva, e outro degredo
Do infindo haver.
Tenho um terror com todo eu
Do verde chão...
Ó Sol, não baixes já no céu,
Quero um momento ainda meu
Como um perdão.
14/06/1930
4 367
Nelly Sachs
CORO DOS SALVOS
Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
602