Poemas neste tema

Mãe e Maternidade

Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Vermeer

Não é um mundo seguro. O ruído começa ali,
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.

A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra. 

E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.

Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.

Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel. 

Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.

O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
473
Nelly Sachs

Nelly Sachs

CINGIDA JÁ PELO BRAÇO DO CONSOLO CELESTE

Eis a mãe enlouquecida,
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –

Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
698
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O véu das lágrimas não cega.

O véu das lágrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa música me entrega –
A mãe que eu tinha, o antigo lar,

A criança que fui,
O horror do tempo, porque flui,
O horror da vida, porque é só matar!
Vejo e adormeço,

Num torpor em que me esqueço
Que existo inda neste mundo que há...
Estou vendo minha mãe tocar.
E essas mãos brancas e pequenas,

Cuja carícia nunca mais me afagará –,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
(Meu Deus!)
Un soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!
Estou outra vez ali.
Afasto do luar exterior e raro
Os olhos com que o vi.

Mas quê? Divago e a música acabou...
Divago como sempre divaguei
Sem ter na alma certeza de quem sou,
Nem verdadeira fé ou firme lei

Divago, crio eternidades minhas
Num ópio de memória e de abandono.
Entronizo fantásticas rainhas
Sem para elas ter o trono.

Sonho porque me banho
No rio irreal da música evocada.
Minha alma é uma criança esfarrapada
Que dorme num recanto obscuro.

De meu só tenho,
Na realidade certa e acordada,
Os trapos da minha alma abandonada,
E a cabeça que sonha contra o muro.

Mas, mãe não haverá
Um Deus que me não torne tudo vão,
Um outro mundo em que isso agora está?
Divago ainda: tudo é ilusão.
Un soir à Lima

Quebra-te, coração...


17/09/1935
4 379
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Hefesto

Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.

No tempo mitológico
o dia é a vida.

Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.

1 617
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quarto: D. TAREJA

QUARTO

D. TAREJA

As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!

Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria.


24/09/1928
4 952
Castro Alves

Castro Alves

História de Um Crime

"FAZEM HOJE muitos anos
Que de uma escura senzala
Na estreita e lodosa sala
Arquejava ua mulher.
Lá fora por entre as urzes
O vendaval sestorcia...
E aquela triste agonia
Vinha mais triste fazer.

"A pobre sofria muito.
Do peito cansado, exangue,
Às vezes rompia o sangue
E lhe inundava os lençóis.
Então, como quem se agarra
Às últimas esperanças,
Duas pávidas crianças
Ela olhava... e ria após.

"Que olhar! que olhar tão extenso!
Que olhar tão triste e profundo!
Vinha já de um outro mundo,
Vinha talvez lá do céu.
Era o ralo derradeiro.
Que a lua, quando se apaga,
Manda por cima da vaga
Da espuma por entre o véu.

"Ainda me lembro agora
Daquela noite sombria,
Em que ua mulher morria
Sem rezas, sem oração!...
Por padre — duas crianças...
E apenas por sentinela
Do Cristo a face amarela
No meio da escuridão.

"As vezes naquela fronte
Como que a morte pousava
E da agonia aljofrava
O derradeiro suor...
Depois acordava a mártir,
Como quem tem um segredo...
Ouvia em torno com medo,
Com susto olhava em redor.

"Enfim, quando noite velha
Pesava sobre a mansarda,
E somente o cão de guarda
Ladrava aos ermos sem fim,

Ela, nos braços sangrentos
As crianças apertando,
Num tom meigo, triste e brando
Pôs-se a falar-lhes assim:

(Continua no poema Último Abraço, arquivo seguinte)

2 572
Castro Alves

Castro Alves

Mãe Penitente

"Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!

"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!

"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!

"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.

"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!

"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"

4 131
Castro Alves

Castro Alves

Último Abraço

"Filho, adeus! Já sinto a morte,
Que me esfria o coração.
Vem cá... Dá-me tua mão...
Bem vês que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, é o último momento...
A morte — a separação!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...

"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao céu — pelo desejo,
Presa à terra — pelo amor!...
Que importa! é tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas é maior o castigo...
Ai! não bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espedaçaram-me as carnes
O tronco, o açoite, a tortura,

De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrifício...
Filho! bem vês meu suplício...
Vão separar-me de ti!

"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus braços prender-te
Pra não morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confissão...
Vou revelar-te um segredo
Tão negro, que tenho medo
De não ter o teu perdão!...

Mas não!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no coração
Uma mãe não bate à toa.

3 104
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Pré-História

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta, não mais olhou
Para mim, para ninguém:
Cai no álbum de retratos.
2 434
Carlos Gondim

Carlos Gondim

Maria

No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.

Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,

Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.

Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!

(Poemas do cárcere, 1923)

760
Gregório de Matos

Gregório de Matos

A Nossa Senhora da Madre de Deus Indo Lá o Poeta

Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado
O sol vejo nascer desse Horizonte.

Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.

Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora, é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.

Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos ofrece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.

2 447
Walt Whitman

Walt Whitman

Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,
No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,
Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.

Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.

Agora vou dispensar-me de mulheres frias,
Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,
Vejo que me compreendem e não me negam,
Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.

Elas não são em nada menos do que eu,
Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,
A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,
Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,
São irrevogáveis quanto a seus direitos - são calmas, claras, seguras de si próprias.

Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,
Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,
Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,
Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,
Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.

Sou eu, mulheres, faço meu caminho,
Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,
Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,
Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,
Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,
Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.

Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,
Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,
Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,
Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,

As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,
Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,
Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,
Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,
Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.

1 922
Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

Angelim Intacto

Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68

A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.

O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.

A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.

O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.

Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.

Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:

Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...

Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.

Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.

Sobral, setembro de 1985.

1 113
Noel de Arriaga

Noel de Arriaga

Lisboa

— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!

Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!

Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!

Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!

— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!

1 050
Natércia Freire

Natércia Freire

Regresso

Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.

Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...

Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.

— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!

Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.

Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!

As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...

Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!

1 249
Candido Diaz

Candido Diaz

Quero colo

Ai, que sinto a proximidade dos acordes maternos!
Ai, que me oferecem a língua-ninho!
Ai, que vínculos celestiais me suportam nesta hora,
trazendo e levando doces uivos de cães abandonados!

Tecnologia, nunca te associei aos meus lamentos,
mas agora que trazes poesia aos meus olhos,
que sinto a língua calorosa em meu pecoço, obrigado!
Vejo a tela do computador como olhos a transmitir,
boca a sussurrar, lareira acesa em quarto frio.
Quase me dá tesão.

Sim, quero essa dor do prazer!
Quero essa sensação de gozo por vir!
Escutem-me! Estou a chorar minhas palavras,
em portugues!

Quero dizer de minhas fraquezas - quero colo.
De meus desejos - quero contato. Todos!
De meus objetivos - quero crescer. Juntos!
Só isso. So quero gente!

Portugues, tecnologia, ajudem-me!
Língua que me lambeu por toda a vida,
que escutei a filtrar as paredes do útero,
que me acalentou enquanto mamava,
que me falou dos A’s e dos 1,2’s.
Que se entrelaçou a outras línguas
na busca do amor companheiro.
Tecnologia, que na vez de pombo-correio,
faz todas as minhas esperanças
ficarem atrás de uma tênue tela.

Um, que seja um só!
Fala-me em portugues!

649
Ieda Estergilda

Ieda Estergilda

Sensações

O que vai nascer me provoca
ternura e náusea
o que vai nascer soca
minhas entranhas e aumenta
as expectativas.

o que sei dele, do esperado
é meu corpo se abrindo para lhe dar lugar
pesando, com seu corpo dentro.

o que vai nascer vive
em leito de água e silêncio
nada sabe do que se fala e trama cá fora
o que vai nascer não sabe
forma-se a cada dia para o dia de ser entre nós.

942
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXIX

Vens da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram à morte
nos deram a lição da vida na greda.


És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.


Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.


És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira.
1 444
Madi

Madi

Tempo de Umidade

Tempo de Umidade

Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer

890
Olympia Mahu

Olympia Mahu

Mamãe

Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...

E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...

Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...

Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.

Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...

Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.

Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...

Olimpya Mahu, 10/09/94

862
Soares Bulcão

Soares Bulcão

Mater

Floreces na penumbra anônima do albergue,
Sob o humilde casal de pobres infelizes,
Onde mora a honradez, e a cuja sombra se ergue
A árvore da desgraça onde o amor fez raízes.

Ao mundo, sem que a dor teu ânimo se vergue,
Surges predestinada às fundas cicatrizes,
E passam sem deixar quem o teu passo enxergue,
Vás, embora, onde vás, pises por onde pises.

Segues a tua estrada entre flores e espinhos;
Ora esbarras na treva, ora na luz, e dentre
O universal rumor fere-te a voz dos ninhos;

E o teu sonho é tão grande, e a missão tão profunda,
Que desprezas a dor, porque trazes no ventre,
— Fonte de eterna vida — a dor que em ti fecunda!

982
Ribamar Feitosa

Ribamar Feitosa

Cantiga de Ninar Mamãe

Dorme, mamãe,
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.

Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.

Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.

Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.

Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.

682
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Pandemonium

a Maurício Jubim

Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.

Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.

E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.

E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.

Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.

Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,

Uma visão que é tua sombra pura
rodando na mais trágica tortura.

A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.

E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.

E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.

Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.

Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!

E os emissários espectrais das mortes
Abrindo as grandes asas flamifortes...

E o teu perfil oscila, treme, ondula,
Pelos abismos eternais circula...

Circula e vai gemendo e vai gemendo
E suspirando outro suspiro horrendo.

E a sombra rubra que te vai seguindo
Também parece ir soluçando e rindo.

Ir soluçando, de um soluço cavo
Que dos venenos traz o torvo travo.

Ir soluçando e rindo entre vorazes
Satanismos diabólicos, mordazes.

E eu já nem sei se e realidade ou sonho
Do teu perfil o divagar medonho.

Não sei se e sonho ou realidade todo
Esse acordar de chamas e de lodo.

Tal é a poeira extrema confundida
Da morte a raios de ouro de outra Vida.

Tais são as convulsões do último arranco
Presas a um sonho celestial e branco.

Tais são os vagos círculos inquietos
Dos teus giros de lágrimas secretos.

Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.

Eis que te reconheço escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.

Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa

Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundos desesperos da Desgraça.

Eis que lembro os teus olhos visionários
Cheios do fel de bárbaros Calvários.

E o teu perfil asas abrir parece
Para outra Luz onde ninguém padece...

Com doçuras feéricas e meigas
De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.

E o teu perfil forma um saudoso vulto
Como de Santa sem altar, sem culto.

Forma um vulto saudoso e peregrino
De força que voltou ao seu destino.

De ser humano que sofrendo tanto
Purificou-se nos Azuis do Encanto.

Subiu, subiu e mergulhou sozinho,
Desamparado, no fetal caminho.

Que lá chegou transfigurado e aéreo,
Com os aromas das flores do Mistério.

Que lá chegou e as mortas portas mudas
Fez abalar de imprecações agudas...

E vai e vai o teu perfil ansioso,
De ondulações fantásticas, brumoso.

E vai perdido e vai perdido, errante,
Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.

Vai suspirando, num suspiro vivo
Que palpita nas sombras incisivo...

Um suspiro profundo, tão profundo
Que arrasta em si toda a paixão do mundo.

Suspiro de martírio, de ansiedade,
De alívio, de mistério, de saudade.

Suspiro imenso, aterrador e que erra
Por tudo e tudo eternamente aterra...

O pandemonium de suspiros soltos
Dos condenados corações revoltos.

Suspiro dos suspiros ansiados
Que rasgam peitos de dilacerados.

E mudo e pasmo e compungido e absorto,
Vendo o teu lento e doloroso giro,

Fico a cismar qual é o rio morto
Onde vai divagar esse suspiro.

2 227
Audre Lorde

Audre Lorde

Fogo pendente

Tenho quatorze anos
e minha pele me traiu
o menino que não posso viver sem
ainda chupa o dedo
em segredo
me pergunto por que meus joelhos
estão sempre tão cinzentos
e se eu morrer
antes de amanhecer
mama está no quarto
com a porta fechada.

Eu preciso aprender a dançar
a tempo para a próxima festa
meu quarto é pequeno demais pra mim
considere se eu morro antes da formatura
eles cantarão melodias tristonhas
mas ao fim
dirão a verdade sobre mim
Não há nada que eu queira fazer
e coisas demais
que precisam ser feitas
mama está no quarto
com a porta fechada.

Ninguém nem para pra pensar
no meu lado nisso
Eu devia ter entrado pro Time de Matemática
minhas notas eram melhores que as dele
por que eu tenho que ser
aquela
que usa aparelho?
não tenho nada para vestir amanhã
será que viverei o suficiente
para crescer
e mama está no quarto
com a porta fechada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Hanging Fire
Audre Lorde

I am fourteen
and my skin has betrayed me
the boy I cannot live without
still sucks his thumb
in secret
how come my knees are
always so ashy
what if I die
before morning
and momma's in the bedroom
with the door closed.

I have to learn how to dance
in time for the next party
my room is too small for me
suppose I die before graduation
they will sing sad melodies
but finally
tell the truth about me
There is nothing I want to do
and too much
that has to be done
and momma's in the bedroom
with the door closed.

Nobody even stops to think
about my side of it
I should have been on Math Team
my marks were better than his
why do I have to be
the one
wearing braces
I have nothing to wear tomorrow
will I live long enough
to grow up
and momma's in the bedroom
with the door closed.


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