Poemas neste tema

Literatura e Palavras

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Conta As Letras

O que conta as letras
esquece o viscoso e o obscuro
não vai mais longe que
o dicionário

O que ouve a música das sílabas
não se perde no prazer
a fugitiva luz está presente
em algo simples inacessível

Tocaste o lábio desse monstro
abre-se a ferida de uma estátua
um mugido ondula
e é ele próprio o sopro da brancura
1 043
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra de Um Sabor Denso

Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva

A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições

A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
1 014
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Princípio

Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.

Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.

O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Deusas Habitam Este Átrio

Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde

A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura     Já não vejo
a montanha na altura     escrevo
na rarefacção do texto inexorável

Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
992
Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Poema da Passagem

Se das coisas findas e das que se findaram
Ficar alguma lição será a do passar.
Só o passar é infinito como o verbo
E, no entanto, a rosa e a poesia se conservam
E se conservam o tempo, o espaço, o ar, a luz.
A música, talvez, há de acabar
Ou toque e não se faça ouvir
(Sobreviverá algo estranho como o sentir
Ou o mistério da vida acabará ?).
As perguntas e as respostas não mais terão sentido
Nem se saberá o que é ter morrido
Porque o próprio saber não existirá
Quando o que sempre foi
Vier a ser o que será
E ninguém, nem quem me lê perceberá
Longínquos que ficamos no caminho.

865
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizem Que É Jardim

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
935
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Resposta a Vinícius de Moraes

Camarada diamante!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz de vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.


Resposta ao poema Retrato, à sua maneira: https://www.escritas.org/pt/t/52778/retrato-a-sua-maneira
1 376
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Artista Inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificilmente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
2 821
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra I

A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.

Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.

Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.

Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 040
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Falar com coisas

As coisas, por detrás de nós,
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é
comprar o que seja sem moeda:
é sem fundos, falar com cheques,

em líquida, informe diarreia.
1 004
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

A Augusto de Campos

Ao tentar passar a limpo,
refazer, dar mais decoro
ao gago em que falo em verso
e em que tanto me rechovo,
pensei que de toda a gente
que a nosso ofício ou esforço,
tão pra nada, dá-se tanto
que chega quase ao vicioso,
você, cuja vida sempre
foi fazer/catar o novo
talvez veja no defunto
coisas não mortas de todo.

Você aqui encontrará
as mesmas coisas e loisas
que me fazem escrever
tanto e de tão poucas coisas:
o pouco-verso de oito sílabas
(em linha vizinha à prosa)
que raro tem oito sílabas,
pois metrifica à sua volta;
a perdida rima toante
que apaga o verso e não soa,
que o faz andar pé no chão
pelos aceiros da prosa.
Nada daquilo que você
construiu durante a vida;
muito aquém do ponto extremo
é a poesia oferecida
a quem pode, como a sua,
lavar-se da que existia,
levá-la a essa pureza extrema
em que é perdida de vista;
ela que hoje da janela
vê que na rua desfila
banda de que não faz parte,
rindo de ser sem disciplina.

Por que é então que este livro
tão longamente é enviado
a quem faz uma poesia
de distinta liga de aço?
Envio-o ao leitor contra,
envio-o ao leitor malgrado
e intolerante, o que Pound
diz de todos o mais grato;
àquele que me sabendo
não poder ser de seu lado,
soube ler com acuidade
poetas revolucionados.
1 071
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Auto-Crítica

Só duas coisas conseguiram
(des)feri-lo até a poesia:
o Pernambuco de onde veio
e o aonde foi, a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico
e deu-lhe a outra, fêmea e viva,
desafio demente: em verso
dar a ver Sertão e Sevilha.
1 301
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Inexplicável Para Não Explicar

Inexplicável para não explicar
saborear na língua a virulência
de uma circulação
de um influxo

Ligeiros jogos na aparência
mas o trabalho sempre do arado
o rosto exposto
à incessante ressaca
da terra

Material e método de uma experiência
a vida aberta gasta
até à transparência
aqui e além de uma palavra
Corpo e língua acesos
pela mesma obscura deflagração
893
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 100
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O que se diz ao editor a propósito de poemas

A José Olympio e Daniel
 
Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?

Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.
841
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Um Lugar Para As Hordas

É um lugar para as hordas
para os cavalos     Para algo
que se designa aqui
na evidência

Contanto que o ardor os nomeie
essa paixão árida que não canta
mas vibra seca no papel incerta

Quem detém os olhos? Quem vê o curso
do vento nas palavras?
E as flechas que por vezes se desfazem?
992
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se

Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento

São linhas ou corpos     indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
1 026
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Sextina de Aniversário

Bom dia, Manoel Bandeira!
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.

O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!

A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).

Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.

Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.

Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
746
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Talvez Nada Nos Reste

Talvez nada nos reste
senão este trabalho
que divide e rasga a própria ferida

Tudo o que o poema faz desfaz

Mas sustenta a ferida
nas margens mais distantes
da distância
na insensata esperança
no abismo

Tu beijas aqui a dança e o desastre

Já ninguém te vê
palavra nula imediata
Nenhum sinal da aliança viva
um único sinal
dilacerante
acorde

Amanhã de novo buscarei
o lugar sem nome
e o nome inominável
1 047
André Aquino

André Aquino

Poemas Tristes

Às
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada

Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.

Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível

Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo

Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção

Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.

Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora

Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso

Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...

825
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limiar Ou o Silêncio

Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome

A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo

Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 085
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar

ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever


ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais


ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
1 262
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mais Raso

Mais raso
onde não é aqui
e o que vibra apenas vibra
ou nada vibra

quase     ou já o limiar
incessante
que requer o limite ou o obstáculo
contra o grito

Aqui quando se diz
aqui
o desejo e o espaço
a palavra     limite e não limite
do vazio
1 143
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ignorância do Caminho

Ignoro o caminho, a mais pura ciência de viver. Não importa já a razão dominadora com o seu cerco que expulsa o silêncio e disseca o próprio ar que se respira. A palavra só existe em função da realidade que cria e à qual se furta. A palavra viva é a impossível nudez do corpo, a lâmpada do silêncio, o retorno ao aqui. Estar aqui, voltar aqui é recomeçar o começo, é começar o que ainda e sempre está por começar. Todas as palavras são pedras de um exílio e todas nos abrem os lábios da ferida. Todo o vocábulo é nascimento e morte. O branco é cúmplice do exílio e do milagre da linguagem. Nenhuma sombra poderia respirar se não fosse a ficção nula da brancura da página. A página acende o obscuro sangue de uma lâmpada, de um corpo ou de um silêncio, e logo o apaga para reavivar a mesma chama de silêncio, a própria língua do corpo.
1 123