Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Hilda Machado

Hilda Machado

O cineasta do Leblon

“Aquele que escavar em sua consciência
até a camada do ritmo e flutuar nela
não perderá o juízo.”
Nina Gagen-Torn
O brilho de laranja ao sol
amendoeira rubra e pavão
oculta sobressaltos faustianos
encenam-se dramas na alma
suadas peripécias
lágrimas
mímesis
em sítios escusos está a mocinha raptada por um turco
e a nudez do missionário espancado
folheia-se uma antologia de acidentes
títulos afundam
e no lodo
personagens sem nome
e escândalos de fancaria
O comércio incessante
distrai das caudalosas sociologias do fracasso
idades do ouro perdidas
terror espetacular
recorta o esforço de colosso trágico
alçar-se acima da imensa massa de vencidos
violinos pela indesejada que fatalmente alcança e ceifa
carnaval exterior que é dublagem
Nos domingos de lua cheia
um infante sôfrego obriga a minuciosos tratados
miuçalhas
monopólio
asperezas
contrabando
e então
razias de corsário
na lua nova cruzo a cidade pra beijar a sua boca
transpor morros e encontrar a elevação
tropeça-se em pétalas de rosas
em trufas
visitas ao paraíso
as quartas-feiras são turvas
e trazem as penas do inferno
telefonemas seus
telefonemas meus
telefonemas da outra
e a ex
compomos o obrigatório conflito
repetir com honestidade a velha trama
até que ao fim do primeiro bimestre
erra-se no açúcar
escorrega-se na farsa
e mudam-se todos para a novela das 7
Homem da lua
fantasia de rudes hormônios
o bicho se coça
fervor marcial e bico de passarinho
cavalo rampante que rasga com as patas convenções de estilo
atravessa pontes queimadas
alcançou o vale feroz
terremoto maior que o de Lisboa arrasa cidadelas
afrouxa parafusos
e do colchão abala a mola-mestra
ouviu, carro?
tribos bárbaras desabam sobre a minha Europa
ouviu, montanha?
mudaram os livros que eu agora levo pra cama
antigas lendas fabulosas
uma grosseira rapsódia
cinco escritos libertinos
eu bebo como num banquete em Siracusa
e gozo como as prostitutas de Corinto
palmeira, ouviu?
1 127
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

As Canções de Amor

Poema I

Amor,
porque te consigo imaginar
o gosto da boca,
a força dos braços,
o calor do corpo,

porque te consigo imaginar
a luz do olhar
o pulsar do peito
o faminto desejo

me dou,
em tremor profundo,
ainda que me desmanche
inteira
em seiva, gemidos, sussurros,
me tornando dessa maneira
em alguns versos do nosso
livro ...

Poema II

Em minhas mãos,
entregaste o corpo alvo
e nu ,
de incenso e mirra esquecido,
permitindo tatuar o vale
com a lava do vulcão
amanhecido
juntos, derramados os pudores em
branda taça,
um torpor de vinhos nos cimos
duros, debruçado o grito em tua âncora,
meu espanto findo

Iniciando escrever o livro
transfiro em ti a minha força, vinda
do vermelho das ameixas
roxas,
quando teu corpo sobre o meu
derramado, calar a sede da serpente
hirta.

Na página primeira escrita
à memória do milenar gozo
no alvo corpo a escorrida lava
desmente a aridez da futura estrada.

Poema III

Porque te amo
me divido, e em mim se multiplica
o que antes sem saber
subtraído me havia.
Do cântaro no peito ressecado
renasceu a flor que não morrera,
pois que estava em nós, e não
sabíamos
pois que nos lambera, e não
sentíamos.
O teu rosto desconhecido perpetua a
chama , que no peito ainda ardia.

Porque te amo
louco me derramo, corajoso e vasto
entre as lavas do teu vulcão em
chamas,
e nos teus olhos me revejo
cálice, âmbula, patena e sacrário
inteira catedral de êxtase erguida

Nos teus braços
do cansaço me exilo,
ao longe numa curva do caminho,
vejo
o meu retrato de ontens pendurado,
do riso frouxo que da boca se me
expande,

o silêncio pleno de vidraças que se
abrem.
Em tua boca, gestamos nosso
vinho
no seio túmido, a flor que
embriaga,
em nosso gozo,
um poema de Hilda Hilst.

Poema IV

À sombra do pessegueiro,
aconchegada no meu peito
em silêncio, a solidão
urdia o caminho dos nossos passos
nos mails tímidos, travados
na virtual estrada descoberta

Tomei para mim o teu ardor
de fome de ontens tecida,
tomei toda a febre das tuas dores,
tomei-a em júbilo até o apagar
das tuas cinzas, de nomes esquecidas

Passo a passo ensaiei, cingir
em grilhões a desesperança
e nos dividimos para sermos únicos

Poema V - O Recado

Estarei ausente da tua ceia, mas deixo o pão em beijo transformado,
e mesmo que as minhas bússolas,
navegassem rotas,
encontrariam a sombra do
pessegueiro azul em teu corpo
refletido.

Dos astrolábios tantos
que nos guiaram os passos
de quilhas, conveses e tombadilhos
que nos encheram os sonhos,
estarei na milenar memória das tuas
mãos
na hora de cortares o pão,
e no cálice ausente, de vinhos e
ontens sorvido

Espera-me amor!
abre a janela e me deixa ver refletida
a tua luz.
A estrela que me guia os passos
enlouquecida de sombras,
haverá de reconhecer o teu sinal
e o advento estará em nossas mãos,
... lúdicas mãos,
de amanhãs tecida.

Poema VI

Chove lá fora,
na minha janela
a chuva insiste em dizer
que por um momento,
me exilei de você

Caiu a linha,
lá fora é noite fria
e sem estrelas onde vê-la

Nesse instante
carrego a solidão do mundo

lembro do teu riso
ao dizer-me manco
e lembro do teu pranto
ao incomentar a renda preta

Ainda chove lá fora
pe é estranho... não somos os
dois a sentir o frio.

Poema VII

Tens no seio nu
o segredo das minhas algemas
e do incansável galopar do meu
corcel
na busca embriagada do teu mel,
porque não me basta
a memória escrita do teu rosto,
nem me alcança
as janelas abertas
onde derramamos nossa solidão, e
ainda que por mil anos
galope a crina azul do meu cavalo,
o meu segredo
inatingível em tuas mãos,
escutará somente o arpejo
de correntes,
desandadas em tua busca.

Poema VIII

Porque me sabe a boca
o teu gosto, por dentro e fora
revelado,
em nuvens meus sentidos
se desfaz, enquanto sacralizo o vinho
amanhecido na tua concha pérola

Porque te descobri me deixei ficar
nas tuas ilhas, conquistado,
e me fiz pescador , dos teus silêncios,
dos frêmitos esquecidos
no tremor da carne nua, e
porque me sabe a boca o teu gosto,
te faço um poema com o sabor da lava
escorrida no meu peito.

Sinto o grito do vulcão
em minha língua enternecido,
e o rio desaflito em plena noite derramado
nas correntezas do prazer e da poesia

Me toma, conquistado por querer,
me leva, e me perde no teu canto,
deixe que sepulte o meu inferno
e esqueça a ira dos mares navegados,
renasça em mim o brilho do anjo e do demônio
igualmente opostos na carne da mesma carne,
me faça em carneiro e lã, ou musgo em cama macia,
me deite, me nine, ordene,
me ame, me ame, me ame.

1 044
Samuel Nogueira Filho

Samuel Nogueira Filho

O Soneto Imortal

Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...

Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?

Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.

Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?

996
Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Uma vez em Campina Grande

Uma vez em Campina Grande
Perto da Maciel Pinheiro
Tomei tanto sorvete de rainha
Que o Rei Luís de França
Resolveu bombardear o Japão.
Acuda-me Zé Limeira, nego véio,
Tocaram fogo no Cariri
Só pra que eu pudesse rimar
Tatu com xixi.
1 180
Herberto Helder

Herberto Helder

66

quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
1 056
Herberto Helder

Herberto Helder

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mesmo assim fez grandes mãos, mãos sem anéis, incorruptíveis,
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
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Herberto Helder

Herberto Helder

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Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor,
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
1 138
Claudio Willer

Claudio Willer

Sobre os 40 Anos da Morte de García Lorca (1936-1976)

Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)


In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
1 163
Herberto Helder

Herberto Helder

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obscuridade, sangue, carne inundada, la beltà?
um toque apenas, com que delicadeza!
dor e canção:
e mergulhas na água branda, e sais molhado nos dedos e nas pálpebras
e esgotas o mundo,
tu, o confuso, o queimado,
o luminoso:
ninguém mede aos palmos uma queimadura:
a parte interna da luz fervilha se lhe metem as unhas:
que potência e inclinação de cabeça!
que te toquem,
que te tornem pleno: mas se
de tão lenta mal te mova a força rítmica,
não te movas, antes
te doas todo, e te atravesse um sopro:
e a jóia violenta suba do deserto:
e a imagem estrita te revele bruscamente:
mais concreta a cada letra a morte sentada escrita:
porque a radiação bruscamente te revela no escuro:
canhoto,
absoluto
1 025
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Palavra

Heraclito de Epheso diz:

«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»

Diz o provérbio do Malinké:

«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
1 351
Herberto Helder

Herberto Helder

67

isto que às vezes me confere o sagrado, quero eu
dizer: paixão: tirar,
pôr, mudar uma palavra, ou melhor: ficar certo
com a vírgula no meio da luz,
dividindo,
erguendo-me do embrulho da carne obsessiva:
que eu habite durante uma espécie de eternidade
o clarão —
isto não o entendo, esta pancada desferida
no máximo concreto: copo,
cigarros,
o livro, e do próprio meu: a ininterrupta
amargura da memória, o tão pouco de
quente respiração — isto
eu não entendo que os dedos sejam arrancados com o copo, que
no caderno a vírgula
fundamental
trave tudo para sempre — e depois é a obra das bruscas
aberturas, a abertura de cada coisa, e cada
minha abertura na abertura
do mundo — isto
não o entendo fora e dentro, esta
velocidade, só
porque fui tão oficinal com as pontuações mais simples
e o quotidiano em baixo,
amor e desamor
— porque não entendo que uma garra me tenha apanhado por trás
da cabeça
e me tenha impelido, e o
desequilíbrio sobre as árduas escritas em casa, ou a
devastação morfológica, ou
um abalo, um abuso,
nada,
me concedam a sumptuosa ignorância quantas atmosferas acima
dos pés na vírgula: o
arrebatamento
909
Claudio Willer

Claudio Willer

As Palavras da Tribo

poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez

"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche

(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim


In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 333
Herberto Helder

Herberto Helder

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a labareda da estrela oculta a estrela, numa
rebentação de luz
a camisa oculta a camisa, e o sangue às riscas
gira e brilha no fundo da camisa contra a estrela:
que te abalam do direito adentro ao esquerdo:
o choque púrpura, o ascensional
néon ardendo
— e como é que isto é um segredo? —
a mão oculta-se na queimadura a cada faísca da folha
— mas como se escreve o sentido? —
o sangue que o escreve oculta o sangue e o escrito
— e então como se oculta e desoculta
isto: a estrela que te devora e de que tremes todo,
bêbado e nocturno?
1 214
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

A Israel

¿Quién me dirá si estás en el perdido
laberinto de ríos seculares
de mi sangre, Israel? ¿Quién los lugares
que mi sangre y tu sangre han recorrido?
No importa. Sé que estás en el sagrado
libro que abarca el tiempo y que la historia
del rojo Adán rescata y la memoria
y la agonía del Crucificado.
En ese libro estás, que es el espejo
de cada rostro que sobre él se inclina
y del rostro de Dios, que en su complejo
y arduo cristal, terrible se adivina.
Salve, Israel, que guardas la muralla
de Dios, en la pasión de tu batalla.


"Elogio de la sombra"



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 313 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 348
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

A cierta sombra, 1940

Que no profanen tu sagrado suelo, Inglaterra,
el jabalí alemán y la hiena italiana.
Isla de Shakespeare, que tus hijos te salven
y también tus sombras gloriosas.
En esta margen ulterior de los mares
las invoco y acuden
desde el innumerable pasado,
con altas mitras y coronas de hierro,
con Biblias, con espadas, con remos,
con anclas y con arcos.
Se ciernen sobre mí en la alta noche
propicia a la retórica y a la magia
y busco la más tenue, la deleznable,
y le advierto: oh, amigo,
el continente hostil se apresta con armas
a invadir tu Inglaterra,
como en los días que sufriste y cantaste.
Por el mar, por la tierra y por el aire convergen los ejércitos.
Vuelve a soñar, De Quincey.
Teje para baluarte de tu isla
redes de pesadillas.
Que por sus laberintos de tiempo
erren sin fin los que odian.
Que su noche se mida por centurias, por eras, por pirámides,
que las armas sean polvo, polvo las caras,
que nos salven ahora las indescifrables arquitecturas
que dieron horror a tu sueño.
Hermano de la noche, bebedor de opio,
padre de sinuosos períodos que ya son laberintos y torres,
padre de las palabras que no se olvidan,
¿me oyes, amigo no mirado, me oyes
a través de esas cosas insondables
que son los mares y la muerte?


(1969)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 308 e 309 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 090
Herberto Helder

Herberto Helder

75

se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra
671
Herberto Helder

Herberto Helder

78

e a única técnica é o truque repetido de escrever entre o agraz e o lírico,
como com raios de lixa,
sentado sobre o sangue amarrado dos testículos,
abrindo do táctil para o intáctil,
como que às faíscas estilísticas,
um pouco como que ríspido,
como que rútilo,
como que revulsivo,
como que passado de passivo para activo,
como ser a obra de como que isso,
oh maravilha da frase corrigida pelos erros,
estrela a sair por todos os lados da cabeça doendo com um brilho de
pregos,
em nenhum écran do Deus descontínuo,
a frase rítmica e restrita que não pode ser posta em língua,
elíptica,
a frase de que sou filho
925
Herberto Helder

Herberto Helder

76

no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
1 146
Herberto Helder

Herberto Helder

74

dúplice
lírica, dúbia mão sem Deus a trabalhar em música,
e tu respiras e pareces ligeiro,
mas abrem-se e fecham-se linhas, sangram unhas, e és
ávido, atento, áspero,
e o ritmo que tiras de ti regula a como que excessiva
dança à beira da vertigem: perigo
e poesia, que não são nada,
mas faz com que os dias mais se desarrumem,
e a tensão crie em ti profundidade, sêca
elegância, e delas dances, cabelo
batido a oxigénio,
a terra mudando de estações, e a mão
desenvolvida pela
luminotecnia
se ilumine a si mesma, e os fusíveis
nos circuitos eléctricos:
caia a noite ou não caia sobre o papel salgado,
escreves ambidextro entre caos e matemática,
porque és ardentemente indefeso,
porque tens de arrancar ao barulho, indecifrável e indemne, a linha
cantante
1 039
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

Meus versos

O combustível do poeta nao é o belo apenas
É a possibilidade de sentir e sonhar
De emocionar e (se) expor.
A lenha que me aquece e impulsiona
É a energia de quem lê, liberada e devolvida.
- Devo à vida meus impulsos,
Afasto a morte com meus insensos,
E o amor - já disseram - é a guia de todas as contas
De todas as pontas
De todo o meu canto
Na total alegria de caminhar e,
leitor como sintese, multiplicar meu dia-a-dia.

861
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Invocación a Joyce

Dispersos en dispersas capitales,
solitarios y muchos,
jugábamos a ser el primer Adán
que dio nombre a las cosas.
Por los vastos declives de la noche
que lindan con la aurora,
buscamos (lo recuerdo aún) las palabras
de la luna, de la muerte, de la mañana
y de los otros hábitos del hombre.
Fuimos el imagismo, el cubismo,
los conventículos y sectas
que las crédulas universidades veneran.
Inventamos la falta de puntuación,
la omisión de mayúsculas,
las estrofas en forma de paloma
de los bibliotecarios de Alejandría.
Ceniza, la labor de nuestras manos
y un fuego ardiente nuestra fe.
Tú, mientras tanto, forjabas
en las ciudades del destierro,
en aquel destierro que fue
tu aborrecido y elegido instrumento,
el arma de tu arte,
erigías tus arduos laberintos,
infinitesimales e infinitos,
admirablemente mezquinos,
más populoso que la historia.
Habremos muerto sin haber divisado
la biforme fiera o la rosa
que son el centro de tu dédalo,
pero la memoria tiene sus talismanes,
sus ecos de Virgilio,
y así en las calles de la noche perduran
tus infiernos espléndidos,
tantas cadencias y metáforas tuyas,
los oros de tu sombra.
Qué importa nuestra cobardía si hay en la tierra
un sólo hombre valiente,
qué importa la tristeza si hubo en el tiempo
alguien que se dijo feliz,
que importa mi perdida generación,
ese vago espejo,
si tus libros la justifican.
Yo soy los otros. Yo soy todos aquellos
que ha rescatado tu obstinado rigor.
Soy los que no conoces y los que salvas.


"Elogio de la sombra" (1969)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 321 e 322 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 238
Antônio Barreto

Antônio Barreto

Por Motivo de Mudança

Oferece-se
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas

Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)

E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.


In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
1 332
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

A Divisibilidade: a Invisibilidade a Dois

A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

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Edgard Braga

Edgard Braga

máquina como se fosse fazer costura

máquina como se fosse fazer costura
nada mais fazer do que signos
)p-preto o-preto e-preto
um-m
um-a
tudo diferente de um coser qualquer
que se fechasse em pontilhado branco

máquina como quem quer desfazer
costura de coisas no papel branco
entre um hífen ponte de meditação

dedos-dados dados em lanço de pontos pretos
um lenço um cachimbo
em preto-branco espaço
remate do poema
branco


In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
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