Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Herberto Helder

Herberto Helder

93

há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
628
Herberto Helder

Herberto Helder

5A

Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
577
Herberto Helder

Herberto Helder

95

abrupto termo dito último pesado poema do mundo
até novembro de 2008.
952
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Espaço a Espaço

Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 099
Herberto Helder

Herberto Helder

5C

Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.


1985, revisto em 1987.
1 120
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canções de Alinhavo

I

Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.

II

Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?

III

Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.

IV

Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?

V

Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.

VI

O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.

VII

O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.

VIII

Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.

IX

L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.

X

Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
1 487
Herberto Helder

Herberto Helder

4

filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando
dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela abaixo
— a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
1 082
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Carta Aberta ao Homem Novo

Irmão que não conheço
e a quem não peço
a identidade.

Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.

Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.

Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.

954
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Varanda

Se estou presente em ti
espaço em que me afirmo
surpreendente e simples

as palavras surgem na ordem livre
numerosas solares
degrau a degrau subo à varanda
onde o sol é uma flor extraordinária
sobre um mar negro de ingenuidade
*
Os mais simples traços
delicados rectos
levemente oblíquos
— na chuva dum rosto
largo como o sol
lábios fluindo,
um seio sobre o mar.
*
Defino-me deste lado — ardente.
Prossigo mais um degrau — o dia é claro.
Uma brisa sopra nos interstícios.
Na varanda uma nuvem se desfaz.
Tudo é perfil em traços nítidos.
*
De janela a janela o dia é plural.
O mar atravessa-se entre os postes.
Uma toalha crespa
dá-me a palavra lavada e seca.

(A dança vertical
no sono)
Encerrado em limites densos
o Verão respira num corpo

Rodopia sobre camadas frescas
assente sobre si no centro
em folhas sobre folhas
numa rosa fechada

Eu espero imóvel
entre paredes nuas.
588
D. Dinis

D. Dinis

U Noutro Dia Dom Foam

U noutro dia Dom Foam
disse ũa cousa que eu sei,
andand'aqui em cas d'el-rei,
bõa razom mi deu de pram
       per que lhi trobass'; e nom quis,
       e fiz mal porque o nom fiz.

Falou migo o que quis falar
e com outros mui sem razom;
e do que nos i diss'entom
bõa razom mi per foi dar
       per que lhi trobass'; e nom quis
       e fiz mal porque o nom fiz.

Ali u comigo falou
do casamento seu e d'al,
em que mi falou muit'e mal,
que de razões i monstrou
       per que lhi trobass'; e nom quis
       e fiz mal porque o nom fiz.

E sempre m'eu mal acharei
porque lh'eu entom nom trobei;

ca se lh'entom trobara ali,
vingara-me do que lh'oí.
660
Herberto Helder

Herberto Helder

2

o teu nome novo, comecei eu a tirá-lo com uma navalha
da madeira grossa,
e nunca mais saía a única letra até dentro,
a primeira, e já toda a mão me sangrava
com o talho à volta dos dedos,
e a letra e o melhor do meu sangue e a seiva
metiam-se pela ferida como se ela mesma fosse
o meu trabalho apenas,
sangue que escorria pulso abaixo e me escoava:
a própria lavra da escrita —
^oh quando arranjarei mão que alcance em sangue e força
o fundo final desse começo de ti,
nome terreno,
isso: coisa amada tanto quanto o alvoroço mortal deste fim
de idade:
será que nenhum poder me devasta ainda?
1 089
D. Dinis

D. Dinis

U Noutro Dia Seve Dom Foam

U noutro dia seve Dom Foam
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
       E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
       porque vos ides e me leixades".

E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
       [lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
       porque vos ides e me leixades".

El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
       dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
       porque vos ides e me leixades".
806
Herberto Helder

Herberto Helder

12

mal com as — soberbas! — pequenas putas que me ensinaram tudo
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
655
Herberto Helder

Herberto Helder

9

tão fortes eram que sobreviveram à língua morta
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, centenas, milhares de anos,
e eles vibram,
e entre as coisas técnicas do apartamento,
máquinas de medir o pequeno tempo, digo:
relógios de parede — um,
relógios de pulso — três, mas apenas um que funciona furiosamente,
e rádio e tv e telemóveis,
esmagam-me meu Deus por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra, que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego
mas que talvez respire, um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura entre nós dois pelos milénios fora,
e delas eu estremeço ainda
1 080
Herberto Helder

Herberto Helder

13

e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
1 011
Ernani Sátyro

Ernani Sátyro

Soneto

A Antonietta
Sinto que adoras ver-me recitar
Os versos de Machado a Carolina.
Nesses momentos, sempre me domina
O desejo também de te louvar.

É bem difícil, sabes, imitar
O ouro que jorrava aquela mina,
Mas, mesmo assim, bendigo a minha sina:
Se não sei fazer versos, sei amar.

Nosso recanto é o mundo recriado,
Pelos nossos três filhos prolongado.
Como a dos outros, árdua é nossa lida.

Numa parte, porém, temos mais sorte:
O Mestre seu amor louvou na morte,
O meu amor eu louvo ainda em vida.

941
Marco Lucchesi

Marco Lucchesi

Ubi es, Vita

O sono de Leopardi
o verbo de Clarice
e a sombra de Cioran

Vida vida
eis o botim
dos que reclamam vida
731
Adélia Prado

Adélia Prado

Atávica

Minha mãe me dava o peito e eu escutava,
o ouvido colado à fonte dos seus suspiros:
‘Ó meu Deus, meu Jesus, misericórdia’.
Comia leite e culpa de estar alegre quando fico.
Se ficasse na roça ia ser carpideira, puxadeira de terço,
cantadeira, o que na vida é beleza sem esfuziamentos,
as tristezas maravilhosas.
Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes
que dão gosto, meu Jesus misericórdia.
Por prazer da tristeza eu vivo alegre.
1 750
Adélia Prado

Adélia Prado

Os Acontecimentos E Os Dizeres

Quem está vivo diz:
hoje às três horas padre Libério
dá a bênção na Vila Vicentina.
Ou assim: coisa boa é um banho.
Ou ainda: casamento é coisa muito fina.
Eu achei tanta graça quando aprendi a dar nós,
fiquei cheia de poder.
Entendi depois o que queria dizer:
“toda convicção é apostólica”,
fiquei cheia de espanto.
As palavras só contam o que se sabe.
Mas quem disser: Deus é um espírito de paz,
está repetindo um menino de sete anos, que acrescentou:
eu tenho medo é de dia; de noite, não,
porque é claro.
1 183
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Zona Intermediária

A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.

Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.

É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.

A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.

Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.

Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 113
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Diálogo Imóvel

No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada

Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada

Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço

de ó silencioso e claro

todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino

O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas

A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho

A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala

todo o diálogo se perdeu

— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil     fascínio
da flor

— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Para o Leitor Ler De/Vagar

Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminosidade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou um
esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.

Sou fechado
como uma pedra pedrissima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.

— Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês atroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As ondas de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amargas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primitiva face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.

Leitor: volto
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. Este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. —
Ondas do que um leitor devagar.
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Adélia Prado

Adélia Prado

O Que a Musa Eterna Canta

Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
‘Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros’.
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as maltraçadas linhas.
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Herberto Helder

Herberto Helder

16

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
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