Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Helga Moreira
Ao rimar dor com pensamento
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
1 002
Herberto Helder
78
e a única técnica é o truque repetido de escrever entre o agraz e o lírico,
como com raios de lixa,
sentado sobre o sangue amarrado dos testículos,
abrindo do táctil para o intáctil,
como que às faíscas estilísticas,
um pouco como que ríspido,
como que rútilo,
como que revulsivo,
como que passado de passivo para activo,
como ser a obra de como que isso,
oh maravilha da frase corrigida pelos erros,
estrela a sair por todos os lados da cabeça doendo com um brilho de
pregos,
em nenhum écran do Deus descontínuo,
a frase rítmica e restrita que não pode ser posta em língua,
elíptica,
a frase de que sou filho
como com raios de lixa,
sentado sobre o sangue amarrado dos testículos,
abrindo do táctil para o intáctil,
como que às faíscas estilísticas,
um pouco como que ríspido,
como que rútilo,
como que revulsivo,
como que passado de passivo para activo,
como ser a obra de como que isso,
oh maravilha da frase corrigida pelos erros,
estrela a sair por todos os lados da cabeça doendo com um brilho de
pregos,
em nenhum écran do Deus descontínuo,
a frase rítmica e restrita que não pode ser posta em língua,
elíptica,
a frase de que sou filho
925
Adélia Prado
Grafito
Era uma vez um homem sem estudo
que amava discursos.
Tinha o punho firme para murro e ferros,
mas apertava os olhos quando as belas frases,
sua boca se abria um pouco pra escutar:
“...a pátria espera de cada brasileiro
o sacrifício até de suas vidas...”
Isto desengraxava sua alma,
sua unha preta de carvão e poeira.
“...basta, Abraão, olha entre a sarça
o animal para o sacrifício,
poupa teu filho Isaac...”
Sacerdotal como era,
professoral como admirava ser,
exercia a palavra para proveito
de quantos dela vissem e ouvissem.
Com arame, cuja ponta afilou com martelo,
gravou no cimento fresco à porta da cozinha:
FOI NUMA TERÇA-FEIRA DE 24.8.54, QUE,
O SR. GETÚLIO DORNELES VARGAS
RESOLVEU DAR FIM NA SUA VIDA, PRESSISA-MENTE
AS 8 I MEIA HORAS DA MANHÃ.
DEUS CONDUZ SUA ALMA PARA O CÉU...
que amava discursos.
Tinha o punho firme para murro e ferros,
mas apertava os olhos quando as belas frases,
sua boca se abria um pouco pra escutar:
“...a pátria espera de cada brasileiro
o sacrifício até de suas vidas...”
Isto desengraxava sua alma,
sua unha preta de carvão e poeira.
“...basta, Abraão, olha entre a sarça
o animal para o sacrifício,
poupa teu filho Isaac...”
Sacerdotal como era,
professoral como admirava ser,
exercia a palavra para proveito
de quantos dela vissem e ouvissem.
Com arame, cuja ponta afilou com martelo,
gravou no cimento fresco à porta da cozinha:
FOI NUMA TERÇA-FEIRA DE 24.8.54, QUE,
O SR. GETÚLIO DORNELES VARGAS
RESOLVEU DAR FIM NA SUA VIDA, PRESSISA-MENTE
AS 8 I MEIA HORAS DA MANHÃ.
DEUS CONDUZ SUA ALMA PARA O CÉU...
979
António Ramos Rosa
Febre Feliz
Febre feliz, de entre a sombra me incita,
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
1 044
António Ramos Rosa
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 107
Carlos Drummond de Andrade
Traços do Poeta
Dantas Mota, profeta, e voz de rio
no curso do Oriente ou de Aiuruoca,
mineiramente amarga e transparente
para quem sabe ouvir, e que provoca
a poesia, onde quer que ela, pulsando,
seja signo de amor ou de protesto,
Dantas Mota, raiz de fundo alcance,
milho de ouro em paiol, bíblica festa
de fraterno sentir e revelar
as doídas verdades esquecidas,
as candeias, os lumes abafados,
o soluço travado na garganta
e o mais que se pressente, mas oculta-se
nos subúrbios longínquos da esperança.
no curso do Oriente ou de Aiuruoca,
mineiramente amarga e transparente
para quem sabe ouvir, e que provoca
a poesia, onde quer que ela, pulsando,
seja signo de amor ou de protesto,
Dantas Mota, raiz de fundo alcance,
milho de ouro em paiol, bíblica festa
de fraterno sentir e revelar
as doídas verdades esquecidas,
as candeias, os lumes abafados,
o soluço travado na garganta
e o mais que se pressente, mas oculta-se
nos subúrbios longínquos da esperança.
663
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
617
Herberto Helder
85
bic cristal preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de ouro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
— isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de ouro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
— isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
1 044
Ruy Ventura
Chuvas no Alentejo
chuva no poema
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
412
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
1 016
Herberto Helder
4Q
Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
1 018
António Ramos Rosa
Para Respirar Um Pouco
Na tábua em que escrevo
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
1 172
António Ramos Rosa
Qualquer Frase
Qualquer frase, vela sonora
a igualdade da mesma água,
uma dureza viva desliza,
alta parede esbraseada,
lâmpada com raios de cinza
acesa.
a igualdade da mesma água,
uma dureza viva desliza,
alta parede esbraseada,
lâmpada com raios de cinza
acesa.
1 022
Carlos Drummond de Andrade
Lembrança de Portinari
O universo de Portinari,
se às vezes dói, sempre fulgura:
entrelaça, como num verso,
o que é humano ao que é pintura.
se às vezes dói, sempre fulgura:
entrelaça, como num verso,
o que é humano ao que é pintura.
1 222
Herberto Helder
4R
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
1 048
Herberto Helder
5B
As varas frias que batem nos meus lugares levantam
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
553
Herberto Helder
E Chamou Deus À Luz Dia
E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
1 060
Carlos Drummond de Andrade
Passatempo
O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
1 438
António Ramos Rosa
Para a Linguagem Necessária
Minhas palavras, meus saltos
bruscos, pontiagudos
para dizer o espaço
que subjaz sempre novo.
Para dizer o que resta
ou o que falta de súbito,
o que nos faz continuar,
água livre.
*
A linguagem sem pintura
mas bela de natural
envelhecendo ao sol
carne pungente e dura
com nervos de pedra à mostra
*
Não saber não querer e no silêncio
desejar esse abraço inerte e idêntico
a liberdade de não querer
o desejo de ser esse não ser
de pedra e água sem ninguém,
descer à imóvel dureza do osso,
ganhar a força elástica do animal.
*
Insisto, não insisto, é só uma tentativa,
porque desejo o gosto renovado,
perder-me é encontrar-me aberto, sem desejos,
o corpo reunido, intensamente solto,
o ar suspenso.
bruscos, pontiagudos
para dizer o espaço
que subjaz sempre novo.
Para dizer o que resta
ou o que falta de súbito,
o que nos faz continuar,
água livre.
*
A linguagem sem pintura
mas bela de natural
envelhecendo ao sol
carne pungente e dura
com nervos de pedra à mostra
*
Não saber não querer e no silêncio
desejar esse abraço inerte e idêntico
a liberdade de não querer
o desejo de ser esse não ser
de pedra e água sem ninguém,
descer à imóvel dureza do osso,
ganhar a força elástica do animal.
*
Insisto, não insisto, é só uma tentativa,
porque desejo o gosto renovado,
perder-me é encontrar-me aberto, sem desejos,
o corpo reunido, intensamente solto,
o ar suspenso.
615
Adélia Prado
Hora do Ângelus
A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
1 105
António Ramos Rosa
De Coincidência Em Incoincidência
É um quadrado quase perfeito
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
618
António Ramos Rosa
Princípio de Estação
Venho do sol (uma cortina de bruma
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
983
Herberto Helder
89
a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
622
Herberto Helder
4
Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
1 016