Poemas neste tema
Liberdade
Ruy Belo
Intervalo de vida
Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
1 371
Armando Freitas Filho
Entre nós até o segredo
Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 198
José Bonifácio de Andrada e Silva
Ode aos Baianos
(...)
Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1861).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.157-158. (Coleção Afrânio Peixoto)
NOTA: Poema composto de 136 quadra
Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1861).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.157-158. (Coleção Afrânio Peixoto)
NOTA: Poema composto de 136 quadra
1 955
António Ramos Rosa
Um Rosto Emerge
Um rosto emerge
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.
1 051
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 208
Edmir Domingues
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
769
Yu Xuanji
Deixando-se levar
Nenhum laço me prende; sempre livre,
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
1 138
António Ramos Rosa
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
558
Edmir Domingues
soneto I - Quando o mundo acabe
E de espaço e de tempo enfim libertos
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
638
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
589
Allen Ginsberg
Kral Majales
E os Comunistas não têm nada a oferecer a não ser lentes e bochechas gordas e policiais mentirosos
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
720
Carlos Drummond de Andrade
Ver E Ouvir, Sem Brincar
Ninguém pergunta mais:
— Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a ideia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
— Como é? Vai pular no carnaval?
Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
— Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.
Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem, fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?
Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.
Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.
A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?
16/02/1980
— Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a ideia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
— Como é? Vai pular no carnaval?
Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
— Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.
Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem, fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?
Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.
Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.
A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?
16/02/1980
1 208
Fernando Pessoa
Para adorar a beleza
Para adorar a beleza
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
1 248
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Estes Os Dias do Novo Estio Deslumbrado
Quando depomos as grades e as barreiras
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
1 059
José Saramago
Opção
Antes arder ao vento como archote
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser a dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.
Num deserto de sombras e de medos,
Que ser a dócil rima do teu mote,
Um morrão de cigarro nos teus dedos.
1 320
Carlos Drummond de Andrade
Libertação
Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.
Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.
Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.
Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.
O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.
JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.
Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!
Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.
À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas
(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.
Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.
Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.
Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?
Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.
Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.
Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.
Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.
Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.
Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)
Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.
Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.
Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.
Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.
O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.
JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.
Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!
Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.
À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas
(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.
Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.
Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.
Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?
Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.
Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.
Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.
Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.
Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.
Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)
Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
825
Edmir Domingues
Louvado a Tiradentes
Joaquim José da Silva
Xavier, Tiradentes,
que cultivaste a rosa
rubra, da liberdade,
com teu sangue de herói
cultivaste essa rosa,
rara e esquisita flor
posto que indispensável.
Eis, mereces o canto
da louvação mais pura,
Joaquim José da Silva
Xavier, Tiradentes,
pois nos quiseste dar
pelo teu sangue li-
bertas qua será tamen.
E morreste na forca
vestindo a alva mais pura
como puro que foi
teu puro sentimento.
Assim te louvo agora
Herói da Pátria Imensa,
louvo São João Del Rei,
Joaguim José da Silva
Xavier, nosso Mártir.
Pátria, conserva a glória, desse Alferes
que um dia ainda serás independente.
1966.
Xavier, Tiradentes,
que cultivaste a rosa
rubra, da liberdade,
com teu sangue de herói
cultivaste essa rosa,
rara e esquisita flor
posto que indispensável.
Eis, mereces o canto
da louvação mais pura,
Joaquim José da Silva
Xavier, Tiradentes,
pois nos quiseste dar
pelo teu sangue li-
bertas qua será tamen.
E morreste na forca
vestindo a alva mais pura
como puro que foi
teu puro sentimento.
Assim te louvo agora
Herói da Pátria Imensa,
louvo São João Del Rei,
Joaguim José da Silva
Xavier, nosso Mártir.
Pátria, conserva a glória, desse Alferes
que um dia ainda serás independente.
1966.
685
Carlos Drummond de Andrade
Destino: Brasília
Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.
Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.
Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.
Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.
Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.
Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.
Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.
Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.
Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.
Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?
Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.
Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?
Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.
Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.
É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…
Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.
Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,
Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.
Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.
E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.
Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.
Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.
Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.
Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.
Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.
Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.
Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.
Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.
Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.
Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?
Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.
Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?
Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.
Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.
É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…
Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.
Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,
Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.
Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.
E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.
Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 548
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
979
Charles Bukowski
Fuga
O senhorio caminha de lá pra cá pelo corredor
tossindo
fazendo-me saber que está ali,
e eu tenho que esconder
as garrafas,
e não posso ir até o banheiro
as luzes não funcionam,
há buracos nas paredes de
canos arrebentados
e a descarga está estragada,
e o cretino de merda
segue de um lado para o outro
ali fora
tossindo, tossindo,
pra lá e pra cá em seu roupão surrado
ele segue,
e eu já não suporto mais,
eu me liberto,
PARTO pra cima dele
assim que ele passa,
“Mas que diabos é isso?”
ele grita,
mas é tarde demais,
meu punho já lhe acerta o maxilar;
é um golpe rápido e ele cai,
encolhido e fraco;
pego minha mala e
desço os degraus,
e lá está sua esposa no vão da porta,
ela SEMPRE ESTÁ NO VÃO DA PORTA,
eles não têm mais nada a fazer senão
ficar parados junto à porta ou caminhar pelos corredores,
“Bom dia, sr. Bukowski”, seu rosto é o rosto de uma toupeira
pedindo minha morte em suas preces, “o que...”
e eu a empurro para o lado,
ela cai pelos degraus da varanda e
sobre um arbusto,
escuto o estalar dos galhos
e vejo metade de seu corpo submerso nas folhas
como uma vaca cega,
e então sigo rua abaixo
com minha mala,
o sol está agradável,
e começo a pensar
no próximo lugar aonde irei
me instalar, e espero
encontrar alguns seres humanos decentes,
alguém que possa me tratar
melhor.
tossindo
fazendo-me saber que está ali,
e eu tenho que esconder
as garrafas,
e não posso ir até o banheiro
as luzes não funcionam,
há buracos nas paredes de
canos arrebentados
e a descarga está estragada,
e o cretino de merda
segue de um lado para o outro
ali fora
tossindo, tossindo,
pra lá e pra cá em seu roupão surrado
ele segue,
e eu já não suporto mais,
eu me liberto,
PARTO pra cima dele
assim que ele passa,
“Mas que diabos é isso?”
ele grita,
mas é tarde demais,
meu punho já lhe acerta o maxilar;
é um golpe rápido e ele cai,
encolhido e fraco;
pego minha mala e
desço os degraus,
e lá está sua esposa no vão da porta,
ela SEMPRE ESTÁ NO VÃO DA PORTA,
eles não têm mais nada a fazer senão
ficar parados junto à porta ou caminhar pelos corredores,
“Bom dia, sr. Bukowski”, seu rosto é o rosto de uma toupeira
pedindo minha morte em suas preces, “o que...”
e eu a empurro para o lado,
ela cai pelos degraus da varanda e
sobre um arbusto,
escuto o estalar dos galhos
e vejo metade de seu corpo submerso nas folhas
como uma vaca cega,
e então sigo rua abaixo
com minha mala,
o sol está agradável,
e começo a pensar
no próximo lugar aonde irei
me instalar, e espero
encontrar alguns seres humanos decentes,
alguém que possa me tratar
melhor.
1 273
Manuel Bandeira
O Brigadeiro
Depois de tamanhas dores,
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
1 375
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
627
José Saramago
Provavelmente
Provavelmente, o campo demarcado
Não basta ao coração nem o exalta;
Provavelmente, o traço da fronteira
Contra nós, amputados, o riscámos.
Que rosto se promete e se desenha?
Que viagem prometida nos espera?
São asas (que só duas fazem voo),
Ou solitário arder de labareda?
Não basta ao coração nem o exalta;
Provavelmente, o traço da fronteira
Contra nós, amputados, o riscámos.
Que rosto se promete e se desenha?
Que viagem prometida nos espera?
São asas (que só duas fazem voo),
Ou solitário arder de labareda?
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Fernando Pessoa
Eu vi ao longe um navio
Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
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