Poemas neste tema

Infância

Afonso Duarte

Afonso Duarte

Ode Sputnika

Vulneráveis Satélites
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!

E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.

Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.

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Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos

Translúcido

Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Lugares da infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
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Lauro Leite

Lauro Leite

Ironia Lúcida

Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados

Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,

Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.

Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.

Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.

Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.

Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.

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Afonso Duarte

Afonso Duarte

O Medo das Sombras

Rondam sombras pelas telhas:
Não é vento são andanças
De bruxas! As bruxas velhas
Chupam o sangue às crianças.

A mãe dorme, a filha ao pé,
Em casa de telha vã
Onde nem há chaminé;

E de interiores deserta
É toda uma casa aberta
A chuva e sol da manhã.

E a filha diz para a mãe,
Como a mãe responde à filha,
Porque este drama não tem
A mais do que mãe e filha:

— Mãezinha, que é, que é?

— Não luz vidro no soalho,
Nem há lume de tição;
Está a gatinha ao borralho.

Oh! dorme, meu coração,
Susto, filha, não te dê:
A água do bebedouro
Espelha luz que se vê.

Longe vá o mau agouro,
Benza-me a luz que nos olha:
Quem não existe não é.

O pucarinho de folha
Lá está no mesmo pé.

— Pela telha destelhada,
Minha mãe, minha mãezinha,
Voar negro de andorinha
Com risos de gargalhada!

— Água da bica, lá fora,
Corre, corre, que se chora:
Filha minha, não tens sede?

— Como peixinhos na rede,
Sombras, ó mãe, na parede!

Não é nada não é nada:
Buraco da fechadura,
Em rosa de luz coada
Será a luz da madrugada
Que vem em nossa procura.

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Adélia Prado

Adélia Prado

Epifania

Você conversa com uma tia, num quarto.
Ela frisa a saia com a unha do polegar e exclama:
‘assim também, deus me livre’.
De repente acontece o tempo se mostrando,
espesso como antes se podia fendê-lo aos oito anos.
Uma destas coisas vai acontecer:
um cachorro late,
um menino chora ou grita,
ou alguém chama do interior da casa:
‘o café está pronto’.
Aí, então, o gerúndio se recolhe
e você recomeça a existir.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Passo, na noite da rua suburbana,

Passo, na noite da rua suburbana,
Regresso da conferência com peritos como eu.
Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia,
Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite
Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal.
Ah, o som do jantar nas casas felizes!
Passo, e os meus ouvidos vêem para dentro das casas.
O meu exílio natural enternece-se no escuro
Da aia meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue.
Ser a criança economicamente garantida,
Com a cama fofa e o sono da infância e a criada!
O meu coração sem privilégio!
Minha sensibilidade da exclusão!
Minha mágoa extrema de ser eu!

Quem fez lenha de todo o berço da minha infância?
Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino?
Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas
Nos caixotes de lixo do mundo
As rendas daquela camisa que usei para me baptizarem?
Quem me vendeu ao Destino?
Quem me trocou por mim?
Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas.
Pus pontos concretos, como um numerador automático.
Tive razão como uma balança.
Disse como sabia.

Agora, a caminho do carro eléctrico do término de onde se volta à cidade,
Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados
E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir.
Mas apanharei o eléctrico.
Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da correia puxada
Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear.
Apanharei o eléctrico.
Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico —
Sempre, sempre, sempre...
Voltei sempre à cidade,
Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios,
Voltei sempre com vontade de jantar.
Mas nunca jantei o jantar que soa atrás de persianas
Das casas felizes dos arredores por onde se volta ao eléctrico,
Das casas conjugais da normalidade da vida!
Pago o bilhete através dos interstícios,
E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura...
Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar.
E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.
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Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca

Segunda

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

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Adélia Prado

Adélia Prado

Orfandade

Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquela falsa e triste semelhança

Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,

Isto não é o Carnaval, nem eu.
Tenho vontade de dormir, e ando.
O que passa, ondeando, em torno meu,
Passa (...)

Dormir, despir-me deste mundo ultraje,
Como quem despe um dominó roubado.
Despir a alma postiça como a um traje.

Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anónimo, (...) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As tuas mãos terminam em segredo.

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
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Vicente Franz Cecim

Vicente Franz Cecim

Música com sombras

Porque te vestes de Sombra

é que eu te espero onde os dias morrem para sempre

Escuta É a voz humana

essa areia sufocada em tua garganta: isso, a areia

soprada por um vento,

é a coisa que os homens chamam a Voz humana

A Nossa voz,

ah

Dela, nada dizer Calar na bruma

Porque tu vestes de sombras

a criança que trazes pela mão,

torturada como um vício, branca como uma virtude

triste

como uma flor presa em sua Raiz

Onde está o colar dos desesperos, ali

puseste os pulsos das manhãs nascentes Nenhum Anjo, nenhum Anjo

Estamos presos no Centro,

ou livres caindo no escuro

E eu não sei qual das duas portas, assim abertas, são mais terríveis são

mais belas

Se

só sei

que te espera

a que virá coberta pela Sombra

trazendo pela mão essa criança sem Face, sem rugas também

sem ter nascido

Se assim escurecesse em silêncio esta paisagem

onde pousamos ausentes para os olhos

dos cegos,

toda Serpente seria caridosa, todo encanto teria nervos azuis de pedras de fontes

de lamentos não-nascidos do fundo da garganta

nem a tua nem a da menor que tu, a tua criança

que devolves à claridade

com um gesto de amargura

e recuperas

para o negro dia dos meus olhos

com um gesto de ternura

Ela, a fonte em nossas frontes, pensativamente está

pousada,

observa

Paisagem de deserto, e mão cheia de pó:

um sonho para olhos de vidros sonharem

com torturas

Ela: é a Paisagem: é o Lugar, e é o Pranto

do lugar onde os dias morrem

para sempre

Nenhum anjo, nenhum anjo

Não é a Voz humana, nem ao menos murmurando

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Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Mulãria da Macambária

JOANA foi embora.
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria

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Adélia Prado

Adélia Prado

Roça

No mesmo prato
o menino, o cachorro e o gato.
Come a infância do mundo.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O conto antigo da Gata Borralheira,

O conto antigo da Gata Borralheira,
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os filósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) —
Que disto tudo só fica o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
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Juó Bananére

Juó Bananére

Os Meus Otto Anno

O chi sodades che io tegno
D'aquillo gustoso tempigno,
Ch'io stava o tempo intirigno
Brincando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá.

Che sbornia, che pagodêra,
Che pandiga, che arrelía,
A genti sempre afazia
No largo d'Abaxo o Piques.
Passava os dia i as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino c'os conduttore.

Deitava sempre di notte,
I alivantava cidigno.
Uguali d'un passarigno,
Allegro i cuntento da vita.
Bibia un caffé ligêro,
Pigava a penna i o tintêro
Iva curréno p'ra scuóla.

Na scuóla io non ligava!
Nunga prestava tençó,
Né nunga sapia a liçó.
O professore, furioso,
C'oa vadiação ch'io faceva,
Mi dava discompostura;
Ma io era garadura
I non ligava p'ra elli.

Inveiz di afazê a liçó,
Passava a aula intirigna,
Fazéno i giogáno boligna
Ingoppa a gabeza dos ôtro.
O professore gridava,
Mi dava un puxó di oreglio,
I mi butava di gioeglio
Inzima d'un grão di milio.

Di tardi xigava in gaza,
Comia come un danato,
Puxava u rabbo du gatto,
Giudiava du gaxorigno,
Bulia co'a guzignêra,
Brigava c'oa migna ermá:
I migna mái p'ra cabá,
Mi dava una brutta sova.

Na rua, na vizinhança,
Io era mesmo un castigo!
Ninguê puteva commigo!
Bulia con chi passava,
Quibrava tuttas vidraça,
I giunto co Bascualino
Rubava nus botteghino,
A aranxia pera du Rio.

Vivia amuntado nus muro,
Trepado nas larangiêra;
I sempre ista bringadéra
Cabava n'un brutto tombo.
Mas io éra incorrigive,
I logo nu otro dia,
Ricominciava a relia,
Gaía traveiz di novo!

A migna gaza vivia
Xiigna di genti, assim!!...
Che iva dá parti di mim.
Sembrava c'un gabinetto
Di quexa i regramaçó.
Meu páio, pobre goitado,
Vivia atrapagliado
P'ra si livrá dos quexozo.

I assi di relia in relia,
Passê tutta infança migna,
A migna infança intirigna.
Che tempo maise gotuba,
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá!

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In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966

NOTA: Paródia do poema "Meus Oito Anos", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
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Cora Coralina

Cora Coralina

Meu Melhor Livro de Leitura

(...)

Minhas estórias de Carochinha, meu melhor livro de leitura,
capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.
Eu me identificava com as estórias.
Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.
Fui a Bela Adormecida no Bosque.
Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar
e viajei com o Gato de Sete Botas. Morei com os anõezinhos.
Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal
na correria de volta, sempre à espera do príncipe encantado,
desencantada de tantos sonhos
nos reinos da minha cidade.

Mãe Didi... Por onde vão os rumos de meus pensamentos,
sempre presente minha madrinha fada.
Eu a vejo em Mãe Didi.

Tia Nhorita, Didinha, seus farnéis inesgotáveis de bondade,
de biscoito e brevidades,
sustentando Aninha, desamada, abobada e feia
caso perdido, pensavam todos.
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Natal Sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

Rio, 1952
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Sebastião Alba

Sebastião Alba

Sem título

Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini

Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará

De pouco serve a ida ao lugar de ausência

que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto

E tudo será sem data e sem prenúncio

E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos

(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)


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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.


30/07/1914
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Cora Coralina

Cora Coralina

Antiguidades

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.

Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

(...)


In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
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Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Manhã de Abril

Olho o céu nas poças da rua
que a chuva de ontem deixou,
como pássaros verdes as primeiras folhas
empoleiram-se nos ramos enegrecidos a do inverno
e o sol entorna sobre o casario miserável
uma chuva de falso oiro.
Que raiva me dá...
Foi hoje a enterrar aquela miúda loura
que via brincar na rua
com as tranças apertadas nos laços vermelhos
— morressem antes os velhos
que da vida nada esperam,
já sem amor, já sem esperança,
roídos de chagas e da lepra dos dias.
que não morresse ninguém, valá!
mas ela...
levaram-lhe flores os outros meninos da rua,
iam contentes como para uma festa,
e a mãe atrás do caixão chorando,
e as folhas verdes
e as flores nos canteiros e nas janelas
como se florir fosse uma coisa natural e inevitável
e o velho mendigo cego estendendo a mão,
e a gente educada tirando o chapéu por hábito...

Que raiva me dá a Primavera sobre a dor do Mundo!

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Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto

1979: Ano I da Criança Brasileira

criança que pratica esporte
respeita as regras do jogo

criança que pratica esporte
respeita as regras do logro

criança que pratica esporte
respeita as regras do ogro

criança que pratica esporte
respeita as regras do lobo

criança que pratica esporte
respeita as regras da globo

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