Poemas neste tema

Guerra e Paz

Dimas Macedo

Dimas Macedo

Subitamente

Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.

917
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Hela hoho, helahoho!

[I]

Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma ,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha ,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
[Armas de Arras?].

E tudo é uma poeira incerta, uma nuvem de gente anónima
Que o vento da estratégia levanta em [formas divinas?],
E em ondas sopra entre os meus olhos atentos
E o Sol da verdade eterna, e a encobre sinistramente.

Marcha triunfal, onde a um tempo e não a um tempo,
Onde numa simultaneidade por transparências uns de outros,
Surgem, aparecem, aglomeram-se em minha consciência,
Os guerreiros de todos os tempos, os soldados de todas as raças,
As couraças de todas as origens,
As armas brancas de todas as forjas,
As hostes compostas de usos marciais de todos os exércitos.
960
Afonso X

Afonso X

Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer

- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.

- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.

- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.

- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
590
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - A Guerra!

II

A Guerra!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares...
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo,
Passam...
Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado
Nem os vê nem os deixa de ver,
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares.
Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra,
A fúria terna e [...] dos combates
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?)
A ferida [...]
E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo!
3 036
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras

Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras
Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes
Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo
(Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças)
E os escudos deitados [clamam?] como goelas fumegantes dos que assaltam
E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas.
(Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva
E tudo renasce e a vida da natureza cobre
O que fica das conquistas)
Antenas de ferro — capacetes em bico — de Bismarck
862
Afonso X

Afonso X

Vi Um Coteife de Mui Gram Granhom

Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
       ai que coteife pera a carreta!

Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
       ai que coteife pera a carreta!

Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
       ai que coteife pera a carreta!
620
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ansiedade, 1983

Eu vi um homem
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
1 086
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Now are no Janus’ temple-doors thrown wide

Now are no Janus' temple‑doors thrown wide
To utter thougts of war upon the land.
Now doth no double facing God divide
Him from himself, that sight of him may brand
The symbol of opposed things upon
Our hearts that at our eyes on him are thrown.
Now do no pagan cults tremble at Mars' name
Because bad‑auguring birds like clouds have flown
O'er nations' frontiers, nor do oracles frame
Strange answers unto ears of armoured chiefs,
Replies that leave perplexed their perplexed eyes
That know not whether that heart‑pang they hear
Is the first grief heralding their peoples' griefs
Or the strange cold that the Gods' mysteries
Speak to his soul that is to conquest near.

No. All is dead that wreathed war round with Gods.
Nor omens mute, nor the foiled sacrifice,
No dim words spoken by spilt blood on sods.
Nay, nor the later sense that vice and sloth,
When in a people's heart they nestle both
Do on them call the wrath of heaven, us move.
Our souls are void, like a stage mummer's cries
And our hate and our love mock hate and love.

Something of coldness, like the coming winter,
Crosses our autumn like a profecy.
Round our leaves now no swallows circle and twitter.
No more, no more, shall we heart‑wholesome be.
There is a sadness that with us doth stay
Like a billetted guest, and far away
Our ultimate death awaits us like a sea.

Alas! that even the poesy of wars
Should, like a tired thing, have gone where things go.
Alas! alas! that we have come thus far
Knowing still the same nothing that we know,
To meet more than ourselves, nor no throe
That shall be herald of a newer man.
And ever as the old woes the cold new woe
Fills with its deathless measure our life's span.

No, even the Christian manner of love or hate
Is dead. No God that lives in us survives
The winter in us that snow‑kills God and Fate
And has iced o'er the rivers of our lives.
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.

All is as if were not part of it.
All clashes, rings and turmoils as if far.
The foiled imagining within our wit
Ousts war's clear image with bare thought of war.
Our plans are cold, our courage cold, our eyes
When they look inwards dream but the far plain
And vague, picture‑seen faces and their pain
Touches no sense of ours, nor do dreamed cries
Rise in us. What cold thing has become of
Our very hatred? What way has strength gone?
We die as if the sky were not above
Our heads and beneath us sand, grass and stone.

The great eternal presence of all things
No longer doth with us collaborate
To lift our hearts up on invisible wings
And bid us tremble at the thrill of Fate.
The possible fall of empires doth no more
Touch us with that great and mysterious dread
That John on Pathmos saw rise o'er his head
Like a space‑filling sea without a shore.

Alas! our nobler fear has gone away
Where our weariness pointed. We are blind
And learned to blindness. Our wild gestures stray
From us like leaves that fall far off with the wind,
And we fight clearly, coldly, night and day.

These things I thought, knowing that far behind
My visible horizon war was slave
Of that Invisible Master who doth wave
His speechless hand o'er continents and seas
And men like reaped things fall, and the blind wind
With groping hands that in the night are blind
Touches the dead men's faces' mysteries.

This I thought when, lo! before me there was
A door of iron, or what iron seemed,
An unsized portal, and its live‑seeming lock
Seemed all the uses of a lock to mock.
To see that door was to know none could pass
Through it, nor could its other‑side be dreamed.

A ribbon of broad stairs led up to it
But had no meaning, like a laugh unseen,
I looked and the door seemed to sway as hit
By blows, but no blows fell on it. That screen
Was interposed between me and no scene,
Yet, like an eye staring from out the night,
It touched my heart cold with its iron mean.
And this was not in space nor in a light.

Somewhere in me where dreams do themselves show
And have an inner meaning God doth know,
The door was set, and it seemed to my soul
That there since some inner eternity
It ever had been and I something had seen,
Yet half forgot, that like a half‑shown scroll,
Concealed its sense in what it showed to me.

And lo! as my heart looked, the door grew clear
As a near‑lit thing seen in a black night,
And a great sense of a great coming fear
Was fear already in my heart's affright.
Then as I looked I saw - yet it did seem
That in my vision that had ever been -
From beneath the strange door down the steps flow
A string of silent blood, that step by step,
Fell with a motion desolate and slow.

The thin red stream seemed conscious of its course
Though its course seemed to be none, but to fall.
I looked and it fell ever, with a force
Of relinquishment to its fall, a knell
To some hope in me, and the blood
That ever was but a small line did flood
All my pained soul and made it red. The spell
Of its thin redness spreade o'er my thought's mood
And all my thoughts became a great red wall
Set up in front of what in me doth brood.

Then everything shifted, yet was the same.
I looked on as one who sees a child's game
And finds its eyes at interest in it
And knows not why. A sense of end did hit
My power of having feelings with a rain
That did with deep red all my dim soul stain
As it had stained that soul.

Then all the outer world was dashed to night
And, though no floor remained, no sides, no light
To that space‑missed new world, set far from being,
Yet by some clearer virtue of my seeing
All I saw was without nor left nor right
With a name to it, without a place
Even in itself, without an I to see.
The mere great door and the red blood's thin trace
And all the rest was void and mystery.

Then all again seemed changing unto some
New, unimaginable and fearful thing.
The door and that blood‑line seemed to come
A strange new‑featured Face looking out through
The Universe's whole frame, traversing
It like light an invisible glass - a wing
Belonging to no bird our thoughts construe.

Then the door seemed to recede - nay, to have
Receded, when I knew not, nor was there
A when, for Time seem'd as seems a far wave
On a wide sea, something gone past. The bare
Eternal door seemed to have gone to the end
Of a visible infinity, and all
That now remained on which my soul could spend
Its terror was the blood ever at its fall.

Then, though still the same small line of red,
The blood seeemed to grow glass and in it I saw
A mighty river full of strange things - dead
Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones,
And still the line was a small red line, (...)
Of other meaning than that
That before God for the clear world atones.

But the (...) visions in that line contained
Seemed wide as space. The red line seemed a slit
In a thin door through which our eyes can see
Large fields, a city and the whole sky stained
With clouds, and all this in the line could be;
And from some unknown where I looked on it.

It seemed the edge of a cube opening
Sideways to sides of visions, more and more.
Now and then across its glass - like being a wing
Passed a tremor ran over everything
That had in it a clear and tragic being.
Then ceased. And from, past space, the door
Still held my unconscious consciousness of seeing.

It seemed sometimes a bright, red moving veil
And through it as through a stained window I guessed
A night and stars on a vague pale day pressed,
On a same horizon desolate and pale.

Then, as I stared, suddenly before me,
Like a fan suddenly opened, the blood‑line
Took space from side to side, leaving naught to me
Left or right of it. Its red (...) fact
Became a red Niagara, a cataract.
But there were no steps, nothing: it did fall
As if drawn in the air, over no edge, and all
Was this and this was its own mystery.

Then lo! over the edge, no longer now,
But empires rolled, and I saw Greece and Rome
Pass. And still over the eternal flow
Reddened from left to right my inner sight's home
Of seeing. And all like to God's blood did come
Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow.

And I saw more and more strange empires roll
Down and some I knew not, nor seeing them, guessed.
Awhile their falling the fall's brink caressed
Then they sunk down somewhere within my soul,
And my soul was the soul of all the world,
And from my (...) eyes that saw all this
Suddenly I felt, as if a flag unfurled,
God in me look out at these mysteries.

My eyes seemed windows of another sight
Of someone set behind my soul in the night
Looking through my eyes and my sight, mine own
Was but a glass those unknown eyes looked through,
And still the vision was blood falling down
In cataracts into Mystery, red and slow.

I became one with world and Fate and God,
And the great River that came on and fell
Let me see through its veil of (...) blood
The stars shine and a vague moonlight, then fell
Something from me. The cataract came more near
To my sight; then it seemed into mine eyes
To creep to become with them and the fear
To pass behind them into some soul (...).

Then all that did remain was the stars light
And again in the dark infinity
My pity and my dread alone with me
And my dream's meaning like a paling night.
1 648
João Maimona

João Maimona

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima

1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.

2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.

1 080
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Fim/Começo Dos Tempos

Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 043
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Foi-S'o Meu Amigo Daqui

Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.

E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.

E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
       que, pois m'el tarda e nom vem,
       el-rei o faz, que mi o detém.
564
João Maimona

João Maimona

As Muralhas da Noite

A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
1 227
Afonso X

Afonso X

Dom Foão, Quand'ogan'aqui Chegou

Dom Foão, quand'ogan'aqui chegou
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.

Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].

O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.

Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!

E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
317
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Batalha de Boyne, 1966

(Em 1690 travou-se em Boyne, perto de Dublin, a histórica batalha entre o rei católico James II e o rei protestante William III. As sequelas do conflito continuam até hoje na vida da Irlanda conforme os jornais)
Bois tranquilos pastam
onde James II e William III
travaram a batalha de Boyne.
Ruídos de espadas e escudos
escorrem pelo rio da morte.
A grama é um verde eco de vida.
Há mel nas flores
e anúncios pós-modernos na estrada,
mas a batalha continua:
– James II e William III
guerreiam esta tarde nos subúrbios de Belfast.
1 010
Pero da Ponte

Pero da Ponte

O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira

O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.

A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.

Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!

Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!

E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia

de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
544
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto IV [Se o sacro ardor, que ferve no meu peito

XXXIV

Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.

XXXV

Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?

(...)

XXXIX

Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
2 665
Afonso X

Afonso X

O Genete

O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.

Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.

Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.

Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.

Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.

Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
644
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Via Sacra: Oitava Estação: O Convívio

Em Auschwitz os
crânios eram
serenos crânios

que não tiveram

no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas

a vã plumagem.

Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.

E este segredo

Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.

Todos os crânios

de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início

que a quantidade

não conseguia
apequenar
com seu horror.

Perante os crânios

Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram

e deste verbo

oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis

da dor submissa.


In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
893
Afonso X

Afonso X

O Que Foi Passar a Serra

O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
       que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
       maldito seja!

O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
       que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
       maldito seja!

O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
       que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
       maldito seja!

O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
       que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
       maldito seja!
881
Afonso X

Afonso X

Domingas Eanes Houve Sa Baralha

Domingas Eanes houve sa baralha
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.

O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.

E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.

E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.
542
Afonso X

Afonso X

O Que da Guerra Levou Cavaleiros

O que da guerra levou cavaleiros
e a sa terra foi guardar dinheiros,
       nom vem al maio.

O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
       nom vem al maio.

O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
       nom vem al maio.

O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
       nom vem al maio.

O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
       nom vem al maio.

O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
       nom vem al maio.

O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
       nom vem al maio.

O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
       nom vem al maio.

O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
       nom vem al maio.

O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
       nom vem al maio.

O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
       nom vem al maio.

O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
       nom vem al maio.

O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
       nom vem al maio.

O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
       nom vem al maio.

O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
       nom vem al maio.
928
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

América

América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não aguento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.
Deve haver algum jeito de resolver isso.
Burroughs está em Tânger acho que ele não volta mais isso é sinistro.
Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?
Estou tentando entrar no assunto.
Eu me recuso a desistir das minhas obsessões.
América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.
América as pétalas das ameixeiras estão caindo.
Faz meses que não leio os jornais todo dia alguém é julgado por assassinato.
América fico sentimental por causa dos Wobblies.
América eu era comunista quando criança e não me arrependo.
Fumo maconha toda vez que posso.
Fico em casa dias seguidos olhando as rosas no armário.
Quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.
Eu resolvi vai haver confusão.
Você devia ter me visto lendo Marx.
Meu psicanalista acha que estou muito bem.
Não direi as Orações ao Senhor.
Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.
América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.
Eu estou falando com você.
Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?
Estou obcecado pelo Time Magazine.
Eu o leio toda semana.
Sua capa me encara toda vez que passo sorrateiramente pela confeitaria da esquina.
Eu o leio no porão da Biblioteca Pública de Berkeley.
Está sempre me falando de responsabilidades. Os homens de negócios são
sérios. Os produtores de cinema são sérios. Todo mundo é sério menos eu.
Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.
A Ásia se ergue contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2.000 quilômetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
Aboli os prostíbulos da França, Tânger é o próximo lugar.
Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.
América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?
Continuarei como Henry Ford meus versos são tão individuais como seus carros mais ainda todos têm sexos diferentes.
América eu lhe venderei meus versos a 2.500 dólares cada com 500 de abatimento pela sua estrofe usada.
América liberte Tom Mooney
América salve os legalistas espanhóis.
América Sacco & Vanzetti não podem morrer
América eu sou os garotos de Scottsboro
América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião da célula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores era tudo tão
sincero você não imagina que coisa boa era o Partido em 1935 Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade Mãe Bloor me
fazia chorar certa vez vi Israel Amster cara a cara. Todo mundo devia ser espião.
América a verdade é que você não quer ir à guerra.
América são eles os Russos malvados.
Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.
A Rússia nos quer comer vivos. O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros das nossas garagens.
Ela quer pegar Chicago. Ela precisa de um Reader’s Digest vermelho. Ela quer botar nossas fábricas de automóveis na Sibéria. A grande burocracia dela mandando em nossos postos de gasolina.
Isso é ruim. Ufa. Ela vai fazê os Índio aprendê vermelho. Ela quer pretos bem grandes. Ela quer nos fazê trabalhá dezesseis horas por dia.
Socorro!
América tudo isso é muito sério.
América essa é a impressão que tenho quando assisto à televisão.
América será que isso está certo?
É melhor eu pôr as mãos à obra.
É verdade que não quero me alistar no Exército ou girar tornos em fábricas de peças de precisão. De qualquer forma sou míope e psicopata.
América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.
2 066
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Europa! Europa!

Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol

Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede

Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra

a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol

Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios

Paris, 1958
1 623
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
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