Poemas neste tema

Flores e Jardins

Heinrich Heine

Heinrich Heine

DU BIST WIE EINE BLUME

Tu és tal como uma flor,
Tão graciosa, e bela, e pura.
Contemplo-te, e uma tristeza
Ao coração me tritura.

Quisera pôr minhas mãos
Na tua fronte formosa,
Pedindo a Deus que te guarde
Tão pura, bela, e graciosa.

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."

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Nogueira Tapety

Nogueira Tapety

Primaveril

É tempo de partir para o campo, Maria...
Vamos, que a Natureza em festa nos espera;
E na pompa da luz rebrilha a primavera,
Deslumbrante de sons, de aromas, de alegria...

convalesce a floresta, a adusta ramaria,
Que o outono desfolhara, as cores recupera
E a jitirana em flor faz de cada tapera
Uma alcova nupcial perfumada e macia...

Vamos... Quando nós dois passarmos nos caminhos
Do côncavo do céu ao côncavo dos ninhos,
Hão de em coro aclamar cada passo que deres.

Vamos... Tu há e ser, como eu sou, panteísta,
A amar a natureza, a implacável artista,
Que te fez a mais pura e a melhor das mulheres.

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Mário Rui de Oliveira

Mário Rui de Oliveira

Em estado puro

Em estado puro

Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem
caminha, em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se
sai da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a
própria condição humana. Como benção ou danação, o escultor devolve-
nos a vida em estado puro.
Viver é também isso. Percorrer um campo de anémonas, quase com
vergonha do que trazemos escondido, na mão.

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Castro Alves

Castro Alves

A D Joana

(No dia do seu aniversário)

SENHORA, eu vos dou versos, porque apanho
Das flores dahna um ramalhete agreste
E são versos a flora perfumada,
Que de meu seio a solidão reveste.

E vós que amais a parasita ardente,
Que abre como um suspiro em pleno maio,
E o aroma que anima o cálix rubro
— Talvez de uma alma perfumoso ensaio,

E esse vago tremer de níveas pétalas,
Que faz das flores meias borboletas,
O escarlate das malvas presumidas,
A modéstia infantil das violetas,

E essa linguagem transparente e meiga
Que a natureza fala nas campinas
Pelas vozes das brisas suspirosas,
Pela boca rosada das boninas ...

Hoje, na vossa festa, em vosso dia,
Em meio aos vossas íntimos amores...
Juntai aos ramalhetes estes versas,
Pois versas de afeição... também são flores!

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Gustavo Teixeira

Gustavo Teixeira

Visões

As meninas que amei
Ó vós que na manhã de minha mocidade
Reduzistes a pó as minhas esperanças,
Porque vindes por entre as névoas da saudade
Derramar em minha alma o perfume das tranças ?

Ó flores que trazeis o olor da virgindade
E risos matinais em bocas de crianças,
Deixai-me, enfim, em paz na minha soledade
Apascentando o meu rebanho de lembranças!...

Mas se agora vos punge a dor do louco amante
Que via em vosso olhar a estrela do Levante
E ouvia uma canção em vossa ebriante voz:

Quando em breve eu fechar os olhos entre círios,
Pagai-me em bogaris, crisântemos e lírios,
As santas ilusões que desfolhei por vós!

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Daniel Faria

Daniel Faria

Sabes, leitor

Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página

e aproveito o facto de teres chegado agora

para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.

a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar

que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,

que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,

que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre

apesar de nós.

esta raiz para a palavra que ela lançou no poema

pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,

mesmo que a recuses

nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,

a colherei

a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra

e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

de Dos Líquidos (2000)
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Antonieta Raucci

Antonieta Raucci

Haicai

Pássaros cantam
Ressoam dentro do peito
Te espero

Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Rosas

Rosa! És a flor mais bela e mais gentil
Entre as flores que a Natureza encerra;
Bendito sejas tu, ó mês d’Abril
Que de rosas inundas toda a terra!

Brancas, vermelhas ou da cor sombria
Do desespero e do pesar mais fundo,
Sois símbolos d’amor e d’alegria
Vos sois a obra-prima deste mundo!

Ao ver-vos tão bonitas, tão mimosas
Esqueço a minha dor, minha saudade
Pra sô vos contemplar, ó orgulhosas.

Eu abençoo então a Natureza,
E curvo-me ante vos com humildade
Ó rainhas da graça e da beleza!

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Llaneza

A Haydée Lange

Se abre la verja del jardín
con la docilidad de la página
que una frecuente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de una Realidad innegable,
como las piedras y los árboles.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 45 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Anúncio da Rosa

Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores; qual mais fragrante, todas exóticas,
todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.

Vede o caule,
traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu. quem sou?
Deus me ajudara, mas êle é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

Vinde, vinde,
olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.
Injusto padecer exílio, pequenas eólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,
rosa na máquina,
apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.
Aproveitem. A última
rosa desfolha-se.
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele Iii

[1]
Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus,
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus!

[2]
Que filtro embriagante
Me deste tu a beber?
Até me esqueço de mim
E não te posso esquecer!...

[3]
Está tudo quanto olho
Na ’scuridão mais intensa,
Faltou de teus olhos lindos
A luz profunda e imensa...

[4]
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p’la morte!

[5]
Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.

[6]
Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!

[7]
Tenho por ti uma paixão
Tão forte e acrisolada,
Que até adoro a saudade
Quando por ti é causada.

[8]
Às vezes quando anoitece
Cai em meu peito tal mágoa!...
Quero cantar. E num instante
Sinto os olhos rasos d’água!

[9]
Quando me não quiseres mais
Mata-me por piedade!
Deixares-me a vida, sem ti
É bem maior crueldade!

[10]
Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.

[11]
Há beijos na tua boca
Pode colhê-los quem quer.
Só eu não posso. Vê tu
Que desgraçada mulher!

[12]
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente.

[13]
Há no fado das vielas
Notas tão sentimentais,
Tão delicadas, tão belas,
Que não s’esquecem jamais!

[14]
Andam teus olhos de luto;
Sempre eles de negro andaram,
Pelas feridas que fizeram
Pelas mortes que causaram.

[15]
Olhos negros, noite infinda
Sede meu norte, meu guia,
Ó noite escura e bendita
Sê o meu sol, o meu dia!

[16]
Gosto imenso dumas flores
Muito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas.

Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.

[17]
Não sei que têm meus versos;
Alegres quero fazê-los
Mas ficam-me sempre tristes
Como a cor dos teus cabelos.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai alta no céu a lua da Primavera

Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.


06/07/1914
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

29 - Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem paro mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

02 - O meu olhar é nítido como um girassol.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


08/03/1914
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há Jardins Invadidos de Luar

Há jardins invadidos de luar
Que vibram no silêncio como liras.
Segura o teu amor entre os teus dedos
Neste jardim de Abril em que respiras.

A vida não virá — as tuas mãos
Não podem colher noutras a doçura
Das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar,
Fosses tu o jardim cheio de lagos,
As árvores em flor, a profusão
Da sua sombra negra nos caminhos.
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Camilo Pessanha

Camilo Pessanha

Fonógrafo

Vai declamando um cômico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
A cripta e a pó, - do anacrônico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio, a lua.
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, - extatica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,
Vivido e agro! - tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebra-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

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Douglas Mondo

Douglas Mondo

Mulher das águas

És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.

Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.

No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.

Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.

Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.

És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.

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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

A Borboleta Azul

Nosso jardim é uma festa
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.

Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.

Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!

Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.

Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.

Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.

3 013 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Agora que sinto amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Deuses

Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
2 953 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Jardim

O jardim está brilhante e florido.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.
7 302 1
Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira

Rosa, e Anarda

Rosa da formosura, Anarda bela
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.

A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:

mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.

3 149 1
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

Soupir

Mon âme vers ton front où rêve, ô calme soeur,
Un automne jonché de taches de rousseur,
Et vers le ciel errant de ton oeil angélique
Monte, comme dans un jardin mélancolique,
Fidèle, un blanc jet d'eau soupire vers l'Azur!
- Vers l'Azur attendri d'Octobre pâle et pur
Qui mire aux grands bassins sa langueur infinie
Et laisse, sur l'eau morte où la fauve agonie
Des feuilles erre au vent et creuse un froid sillon,
Se traîner le soleil jaune d'un long rayon.


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