Poemas neste tema

Flores e Jardins

Giorgos Seferis

Giorgos Seferis

VI

O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.

O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
769
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É boa! Se fossem malmequeres!

É boa! Se fossem malmequeres!
E é uma papoula
Sozinha, com esse ar de «queres?»
Veludo da natureza tola.

Coitada!
Por ela
Saí da marcha pela estrada.
Não a ponho na lapela.

Oscila ao leve vento, muito
Encarnada a arroxear.
Deixei no chão o meu intuito.
Caminharei sem regressar.


31/08/1930
4 330
Karl Adolph Gjellerup

Karl Adolph Gjellerup

El peregrino Kamanita (fragmento)

Mientras el Sublime pronunciaba estas palabras en casa del alfarero de Rajagaha, el peregrino Kamanita despertaba en el paraíso del Oeste.
Envuelto en una túnica roja que, suave y brillante como el pétalo de una flor, caía en pliegues abundantes, se encontró, sentado en sus piernas, sobre una enorme flor de loto del color de su túnica, que flotaba en un gran estanque. Por dondequiera, en la amplia superficie del agua se veían flores de loto rojas, azules y blancas; unas todavía en brote, aunque bastante desarrolladas, pero incontables, abiertas como la suya. Y casi de todas ellas salía una figura humana, cuya vestimenta parecía haber emergido de los pétalos de las flores.
En los márgenes del estanque, en la hierba verde, reían infinitas flores, como si hubieran renacido allí, en figura de flores, todas las piedras preciosas del mundo, conservando su brillo y sus juegos de color transparente, pero cambiando la dura coraza que habían llevado en su existencia terrenal por algo de planta, blanco, flexible y vivo. El aroma que despedían era más fuerte que el de todas las esencias fragantes que pueden encerrarse en un frasco de cristal; pero tenía la frescura del olor de las flores naturales.
De esta atractiva orla de los márgenes, la mirada encantada seguía deslizándose entre árboles altos y de amplias copas con follaje de esmeralda y refulgencias de piedras preciosas, unos aislados, en grupos otros, y otros formando espesos bosques, hasta las graciosas colinas de roca, que unas veces mostraban desnudas sus formas cristalinas, marmóreas y alabastrinas, y otras se cubrían de espesa maleza o aparecían salpicadas de olorosas flores. A lo lejos se veía una cañada en que rocas y bosques se apartaban para dejar paso a un río hermoso, que silenciosamente, como una corriente de luz de estrellas, se vertía en el estanque.
Por sobre todo este paisaje lucía la bóveda de un cielo de un azul intensísimo, y bajo esta cúpula flotaban blancas nubecillas de caprichosas formas, sobre las que se posaban graciosos geniecillos, cuyos instrumentos llenaban el espacio con los sones encantados de deliciosas armonías.
En este cielo no se veía sol alguno; mas tampoco era necesario, pues de las nubecillas y los genios, de rocas y flores, del agua y de las flores de loto, de las vestiduras de los bienaventurados, y más aún de sus rostros, irradiaba una luz maravillosa y dulcísima. Y así como esta luz era de una claridad resplandeciente, sin ser por eso deslumbradora, el tibio calor, saturado de fragancias, era refrescado por la constante brisa que salía del agua, y sólo respirar este aire era un placer al que no hay nada semejante en el mundo.
829
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquilo que a gente lembra

Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia
Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção –
Tudo isso nos dá o agrado,
Flores que flores são
Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber.
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.
4 521
Antônio Augusto de Mendonça

Antônio Augusto de Mendonça

Saudade no sepulcro

Sobre um sepulcro isolado
Roxa saudade vi eu;
Solitária vicejava
No chão frio em que nasceu;
Nunca saudade tão triste
Em sonhos me apareceu ...
Nunca!...
Senti então pelo rosto
Turva lágrima sentida
Deslizar.

Foi à hora do sol-posto.
Hora de muito cismar!
Quando o arcanjo da poesia
Harmoniza o céu com a terra
Na mesma melancolia...
Na mesma doce tristeza,
Que, às vezes, nos faz chorar,
E chorar a natureza
Ao lento morrer do dia!

Cheguei... beijei a saudade,
Que, assim, tão erma encontrei;
Com ela simpatizei;
Porque — da minha orfandade
Neste deserto profundo,
Pobre enjeitado do mundo,
Só com saudades me achei!

Estranha, viva agonia
Ressumbrava-lhe na cor;
Na muda expressão dizia
Tantas penas, tanta dor,
Que só no reino da morte
Duma lágrima podia
Ter nascido aquela flor...
A saudade!...
Emblema de muito amor!...

Poeta às dores afeito,
Tentei debalde arrancá-la,
Para no fundo do peito,
Como um tesouro, plantá-la.
Debalde! ... porque a infeliz
Tinha encravada, segura
No fundo da sepultura
A desgraçada raiz!

Ah! quem soubera o destino
Daquela flor merencória!
Quem a sua ignota história
Porventura escutará?
Quem?... se a flor misteriosa,
No seu recinto funéreo,
Muda, como o cemitério,
Para todos sempre está?

Quem sabe! ... talvez que à triste,
Que no sepulcro descansa,
Dentre as sombras do futuro
Lhe sorria uma esperança
Talvez!...

Quem adivinha se a brisa,
Que docemente a embalança,
Não lhe vai de amor falar?
Se o sol... se o sol ao deixá-la,
Não lhe deixa em despedida
Num raio um germe de vida,
Saudoso de a não levar?

Se ardente, extremoso afeto,
Se estremecida paixão
Que já no peito não cabe,
Por indizível feitiço,
Não lhe dá alento e viço
Com o sangue do coração?
Quem sabe!...

............................................

Sei que a mísera saudade,
Quando no feio horizonte
Feia surge a tempestade;
E da cúpula do céu
Nem sol, nem tímida estrela,
Através do espesso véu,
Despede um raio de luz;
Sei que a mísera saudade,
Porque o vento a não desfolhe,
Nem as pétalas lhe açoite,
Encosta-se — ou dia ou noite —
Nos braços de sua cruz.

853
Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

Todos os Dias

Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...

Todos os dias
nascem risos, canções...

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...
825
William Carlos Williams

William Carlos Williams

FLORES AO PÉ DO MAR

Quando sobre a florida nítida beira
do pasto, o oceano de sal

ergue a sua forma - chicória e margaridas
presas, soltas, mal parecem só flores

mas cor e movimento - ou a forma
talvez - da inquietude, enquanto

o mar é limitado e balouça
calmamente em sua haste como de planta.

1 066
Paul von Heyse

Paul von Heyse

Caminho para casa

Há uma casa no jardim,
fresco por um bosque aberto.
em todas as minhas viagens
Eu tenho saudades da minha casa
onde doce soou
O canto dos pássaros,
como riso floral ao redor!
como nós partimos
subindo-
Agora estou com medo de voltar

Na casa há apenas um,
tão alto e arejado, tão brilhante e puro

qualquer raio de sol
a casa o mata às pressas.
que som engraçado
canção infantil,
não havia canto sem jogos;
lá encontrei meu descanso
para o último dia-
Agora não há nenhuma porta para eu abrir.

Um nome veio para a casa
Longe de todos os lábios e continuou,
tinha uma violência maravilhosa, como uma palavra mística.
em cada boca
um sorriso,
que nome de primavera-
cale-se agora
Ordem fantasmagórica,
e quem disser, pare de rir.
836
Fernando Echevarría

Fernando Echevarría

Vinham Rosas na Bruma Florescidas

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.
804
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

INTERVALO

É o que lhe digo: a medida.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?

A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você

e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:

que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,

as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto

entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
800
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

VINHETA

Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
716
Castro Alves

Castro Alves

Fados Contrários

A José Jorge.
NUM ÁLBUM

DIZ À FLOR a borboleta:
"Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz...
Tuas pétalas são asas...
Das nuvens nas tênues gazas,
Daurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes...
Vamos boiar, entre lumes
Desses páramos azúis".

A linda filha dos ares,
Responde a silvestre flor:
"Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor...
Se és do céu a violeta,
Sigo um destino menor.
Buscas o céu — eu a alfombra,
Queres a luz — quero a sombra,
Pedes glória — eu peço amor.

1 932
Castro Alves

Castro Alves

Queres Flores? Queres Cantos?

QUERES FLORES? Queres cantos?
Como hei de dar-tos se prantos
Só tenho no peito meu?
Queres luzes e harmonias?...
Debalde... só agonias
Meu alaúde gemeu...

Donzela! Fora loucura
Pedir ao tufão doçura,
Ao morto alegre canção,
Buscar a flor dos quiosques
Entre os ciprestes, os bosques
Que ensombram funéreo chão.

Porém escuta um conselho...
Pede a Veneza um espelho...
Mira o teu rosto... e verás
Um desses quadros tão belos
Que — homens não sabem fazê-los,
Que — dous assim Deus não faz.

Na tua boca formosa
Verás uma linda rosa
Meio fechada a sorrir,
E, como gotas nitentes,
As pérolas de teus dentes
No seio da flor luzir.

O perfume do Oriente
— Quando rezas inocente —
Se embala nos lábios teus.
E no teu seio, se treme,
Tens a Poesia, se geme,
Tens a harmonia dos Céus.

Queres ver o Paraíso?
Descerra os lábios... Um riso
Vem-nos o Éden mostrar...
Canta!... E aos hinos sagrados
Verás no Céu debruçados
Os astros pra te escutar.

Tens a noite nas madeixas
Onde a brisa em temas queixas
Geme... morre de languor.
São mais que os astros — brilhantes
Os teus olhos fascinantes,
— Lindas estrofes de amor...

E ainda pedes-me um canto?!...
Quebra a lira o Bardo santo
Ao ver um sorriso teu...
Rasga a tela Rafael...
Fídias estala o cinzel...
Deus treme de amor no Céu.

2 082
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

A magnólia

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria-na metáfora-

necessária,e leve,a cada um

onde se ecoa e resvala.

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

4 024
Arsenii Tarkovskii

Arsenii Tarkovskii

O Verão

partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada…
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto

1 068
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O Lírio Distante

Coréia, tua morada
era um jardim ativo
de novas flores que se construíam.
Era tua paz de seda
um manto verde,
um lírio que elevava
seu rápido relâmpago amarelo.
 
Da Ásia recolhias
a luz desenterrada.
Ias tecendo
com fios anteriores
a nova trama do vestido novo.
Teu traje de boneca ensanguentada
ia-se mudando em calça de usina
e os fios de seda
recolhiam o caudal das cascatas,
carregavam as palavras no vento.
 
Querias com tuas mãos
cortar tua própria estrela e elevá-la
na edificação do firmamento.
 
1 180
Noel Nascimento

Noel Nascimento

RosAmor

Tenho um sentimento concreto,
objeto
que pode ser visto e tocado
como se fora o coração.

Contornos de abraços,
beijos encarnados,
sorrisos e lágrima amalgamados.
Novelo
de graças e rubor.
Aspecto
nem de brilhante nem de cristal,
mas de igual esplendor.

Tocha
de afetos que desabrocha
no meu peito.
Centelha
do belo universal.
Bem espesso, copado,
amorosa flor:

— A rosa, mas só a rosa vermelha
tem as formas do meu amor.

837
Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães

Uma pá

Uma pá, a equipa de alumínio.
Cravelha e picareta.

Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.

A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.

A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.

Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.

Colmeia, taça, maçã.
1 147
Gregório de Matos

Gregório de Matos

No Dia Em Que Fazia Anos

No Dia Em Que Fazia Anos Esta Divina Beleza; Este Portento De Formosura Dona Angela, Por Quem o Poeta Se Considerava Amorosamente Perdido, e Quase Sem Remédio Pela Grande Impossibilidade De Poder Lograr Seus Amores: Celebra Obsequiosa, e Primorosamente Suas Florentes Primaveras Com Esta Lindíssima Canção.

1.Pois os prados, as aves, as flores
ensinam amores,
carinhos, e afetos:
venham correndo
aos anos felizes,
que hoje festejo:
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem atentos
as aves canoras
as flores fragrantes
e os prados amenos.

2. Pois os dias, as horas, os anos
alegres, e ufanos
dilatam as eras;
Venham depressa
aos anos felizes,
que Amor festeja.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem deveras
os anos fecundos,
os dias alegres,
as horas serenas.

3.Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas
com Luzes tão belas
auspiciam as vidas,
venham luzidas
aos anos felizes
que Amor publica.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem um dia
a esfera imóvel,
os astros errantes,
e as estrelas fixas.

4.Pois o fogo, água, terra, e os ventos
são quatro elementos,
que alentam a idade,
venham achar-se
aos anos felizes
que hoje se aplaudem.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem constantes
a terra florida,
o fogo abrasado,
o mar furioso,
e as auras suaves.

2 710
Olegário Mariano

Olegário Mariano

O Enamorado das Rosas

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.

Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.

1 363
Paulo Henrique Góes Souza

Paulo Henrique Góes Souza

Senhorinha

Se ao menos fosse um pequeno
Beija-flor
Voaria ao teu encontro
E, por certo, todos parariam
Para ver a perspicácia de um
Mancebo apaixonado
Que invadiria o teu jardim
Sorrateiramente
E, em teus braços, provaria
O néctar dos lábios teus...

Se ao menos fosse um galho
Caído ao chão,
Jogado ao acaso, sem chamar
Muita atenção,
Comprazer-me-ia em te olhar,
E veria tua doce face,
Que me tiraria do rosto
A expressão da solidão,
Pois tu irias aflorar
Em meu coração...

Não te quero em uma redoma
Não, longe disto!
Quero-a vivaz e graciosa
Para que todos a admirem;
Quero apenas ser o teu humilde
Jardineiro
E se r o único a te tocar,
E te sentir como mulher,
E, assim sendo,
Não mais serás senhorinha,
E te tornarás definitivamente
A senhora de meus sonhos...

952
Pablo Simpson

Pablo Simpson

VII Ainda há pouco era um desenho que te fiz

Ainda há pouco era um desenho que te fiz,
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.

No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.

E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,

Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
461
Oldegar Vieira

Oldegar Vieira

Gravuras no Vento

Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.

Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.

Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.

Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.

Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.

Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.

Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.

À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.

Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.

Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.

Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.

Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.

Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.

Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.

Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.

Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.

Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.

Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.

Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...

Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.

Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...

Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?

Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.

Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.

Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.

Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...

Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!

Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.

Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.

Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?

Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.

Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.

Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?

Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.

Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.

Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.

Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...

Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.

Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.

Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?

Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.

Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?

Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.

Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.

Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.

Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?

Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.

Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.

Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.

É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?

Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.

Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.

Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...

Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.

Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.

Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.

Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.

Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.

Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.

E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.

Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.

Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.

Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.

Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?

Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.

Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.

Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.

Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.

Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.

Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.

Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.

O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.

Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.

Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.

Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.

Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.

Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.

Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.

Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.

Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.

Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.

Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.

Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.

Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.

Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.

Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.

Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?

Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.

Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?

Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 190
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXIII

Quem trabalha mais na terra,
o homem ou o sol ceresino?

Entre o abeto e a papoula
a quem a terra quer mais?

Entre as orquídeas e o trigo
para qual é a preferência?

Para uma flor para que tanto luxo
e um ouro sujo para o trigo?

Entra o outono legalmente
ou é uma estação clandestina?
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