Felicidade e Alegria
Francisco Moniz Barreto
Improviso
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
António Ramos Rosa
78. Rosto Para Dizer o Rosto Rápido
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.
Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.
Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
Lili Gharcia
Tema de Verão
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
António Ramos Rosa
Uma Felicidade Nos Dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
António Ramos Rosa
Meditar a Pausa do Acaso Feliz
Uma ordem dócil, subterrânea, fiel.
As formas ondulam na morada simples.
Uma efusão nasce do emergir de um mundo.
Pedro Kilkerry
Evoé, 1910
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!
Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!
E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?
Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!
E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Angela Santos
Clave de Sol
e era de arpa o som da chuva que nos adormecia
Naqueles
dias, havia sempre sol dentro da gente e nada podia quebrar a beleza dos
momentos de simplesmente estar juntas
Aqueles
dias serão os dias de um amanhã ressurgido, os dias que guardamos no fundo
da memória, os dias tatuados em nossa pele, os dias de saciar nossa sede.
Os nossos dias serão sempre assim:
Plenos, famintos de vida, embebidos da inocente alegria das coisas grandes,
porque simples
Paulo Setúbal
Escândalo
Por entre os homens graves da terreola,
Bisbilhotar-se sobre a vida alheia.
Nas rodas que tratavam tais assuntos,
Aquela história de passearmos juntos
Era o supremo escândalo da aldeia!
E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário,
Teciam o mais negro comentário
Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço!
O próprio padre, um santo e velho cura,
Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura!"
"São os livros de Zola que fazem isso..."
Mas nós, como pastores de Virgílio,
Vivendo então num descuidoso idílio,
Sorríamos dos toscos provincianos:
E em plena aldeia, desdenhando apodos,
Passávamos de braço, entre eles todos,
Na glória dos que se amam aos vinte anos!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920).
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Angela Santos
Amar é
(….amar
com sotaque)
Amar
dá sempre certo
mesmo que o objecto amado
se distancie na luz do nosso olhar…
amar dará certo,
porque certo é o amor
mais certo o amar…
amar dará certo,
sempre ganha o sujeito
mesmo quando o objecto
da sua vista se perde …
amar dá sempre certo...
pela beleza que empresta aos dias,
pela chama que acende nas noites,
pelo tremor de vulcão
que traz às nossas vidas…
Amar…amar é o mais certo
por nos fazer sentir vivas!
Caio Valério Catulo
13
Hás de jantar bem, Fabulo meu, em breve
na minha casa, se os deuses te ajudarem;
se contigo vier boa, farta janta e uma
jovem bonita com vinho e sal no riso.
Como se diz, meu caro amigo, isto provido,
hás de jantar bem, pois teu Catulo traz
a bolsa repleta de teias de aranha.
Em troca terás uma afeição singela
ou o que é mais suave e elegante ainda:
eu te ofertarei o perfume que à minha
jovem deram Vênus e seus Amores:
ao cheirá-lo, haverás de rogar aos deuses
que de ti façam, Fabulo, só nariz.
Jean de La Fontaine
Invocação à volúpia
Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.
Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...
Antonio Machado
ME DIJO UNA TARDE
da Primavera:
Se buscas caminhos
em flor pela terra,
mata tuas palavras,
ouve tua alma velha.
Que o mesmo alvo linho
que te vista seja
teu traje de luto,
teu traje de festa.
Ama tua alegria,
ama tua tristeza,
se buscas caminhos
em flor pela terra.
Respondi à tarde
da Primavera:
Disseste o segredo
que em minha alma reza:
odeio a alegria
por ódio às penas.
Mas antes que pise
tua florida senda,
quisera trazer-te
morta minha alma velha.
Lya Carvalho Jardim
O Homem que Calculava
tinha violinos na voz
E recitava números com ar de poesia
Calculava navios de sonhos
e toneladas de lenços nos portos do tempo.
Calculava uma por uma
as páginas dos livros
o peso de seus autores
calculava beijos e abraços
e o amor
calculava nas noites claras.
O homem que calculava
calculava sonhos no sono
repleto de números.
O homem que calculava
tinha dedos de ouro
olhar de estrelas.
na testa o sol se derramava
em forma de cabelos.
Magro, franzino era o homem
que calculava.
Calculava rebanhos de nuvens
Cardumes de ondas
Calculava a distância amorosa
entre sol e lua
E ria
calculando
um por um
os sorrisos.
Luiz de Aquino
Mudanças
Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.
Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.
Luiz Lopes Sobrinho
O Amor
Sem amor, nosso lar é uma prisão!
Sem amor, não há mãe e nem há filho!
Sem amor, não nos pulsa o coração!
Sem amor, não há paz nem alegria!
Sem amor, tudo, enfim, é solitário!
Sem amor, os tormentos de um só dia
São iguais aos tormentos do Calvário!
Ai! o amor não traz só felicidade!
Também traz, o amor, imensas dores,
Dessas dores que nascem da saudade!
Mas, é muito melhor ser desgraçado,
Sofrer do próprio amor os dissabores,
Que ser feliz e nunca ter amado!
Leão Moysés Zagury
Ver-te
lembra um suave
fluir da primavera.
As flores,
os colibris
vem contigo
cantar.
A primavera desperta
o mundo.
Pássaros, flores, árvores,
purificam o ambiente.
O otimismo espalha-se.
Emfim, tua presença
harmoniza a vida.
Cláudia Marczak
O Sexo é Sagrado
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
Golgona Anghel
Poeta na Praça da Alegria
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.
Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.
Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
Fernando Pessoa
A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
15/09/1933
Tomas Tranströmer
Schubertiana
Longe de Nova York, um lugar alto donde se avistam
as casas em que oito milhões de seres vivos habitam.
A cidade gigante para aqueles lados é uma longa deriva cintilante, uma galáxia
em espiral vista de lado.
Dentro da galáxia, chávenas de café são arrastadas pela secretária,
janelas de armazém suplicam, um turbilhão de sapatos que não deixam
nenhum rasto.
O fogo escapa-se ao alto, portas de elevador fecham-se silenciosamente
por detrás de portas fechadas a sete chaves, um volume cheio de vozes.
Corpos tombados dormitam em carros subterrâneos, catacumbas em
movimento.
Sei também – estatísticas à parte – que neste momento
nalguma sala mais abaixo toca-se Schubert, e que
para essa pessoa as notas são mais reais que tudo o resto.
2
As imensas planícies sem árvores do cérebro humano acabaram
por se dobrar e redobrar até ficarem do tamanho de um punho.
Em Abril a andorinha regressa ao ninho do ano anterior sob o
beiral precisamente no mesmo celeiro precisamente no mesmo
distrito.
Voa do Transval, passa o equador, voa durante seis
semanas por cima de dois continentes, navega com precisão para
este ponto extenuado na massa da terra.
E o homem que reúne os sinais de uma vida inteira
nalguns acordes vulgares para cinco músicos de cordas
aquele que tem um rio para atravessar pelo buraco duma agulha
é um jovem roliço de Viena, os amigos chamam-no
“O Cogumelo”, que dormia de óculos postos
e se punha pelas manhãs pontualmente à escrivaninha.
Quando o fazia centopeias magníficas desatavam a mover-se
sobre a página.
3
Tocam os cinco instrumentos. Volto para casa pelo calor dos bosques
onde a terra se distende sob os meus pés,
enrolo-me como alguém ainda por nascer, adormeço, vagueio imponderável
para o futuro, sinto de súbito que as plantas estão
a pensar.
4
Quanto nos leva cada minuto a acreditar que vivemos
para não nos esvairmos pela terra adentro!
A acreditar em massas de neve agarrando-se à superfície das rochas sobre
a cidade.
A acreditar nas promessas não faladas e no sorriso da
concórdia, a acreditar que o telegrama não é connosco, e
que o súbito golpe do machado não vem por dentro.
A acreditar nos eixos que nos levam pela estrada fora entre abelhas
de aço trezentas vezes ampliadas.
Mas nada disso merece de facto a nossa crença.
Os cinco instrumentos de cordas dizem que podemos ser levados
a acreditar noutra coisa qualquer, e por instantes acompanham-nos na estrada.
Tal qual a lâmpada que se apaga nas escadas, e a mão
seguindo – acreditando – no corrimão cego que faz o seu
caminho pela escuridão adentro.
5
Juntamo-nos ao banco do piano e tocamos a quatro mãos em Fá
menor, dois condutores para o mesmo carro, parece um pouco
ridículo.
As mãos parecem movimentar pesos feitos de sons
para diante e para trás, parecem movimentar pesos pesados
numa tentativa de mudar a grande escala do temível equilíbrio:
felicidade e sofrimento pesam exactamente o mesmo.
Annie disse, “Esta música é tão heróica”, e tem razão.
Mas aqueles que lançam um olhar invejoso ao homem de acção, aqueles que
por dentro se desprezam por não serem assassinos,
não se descobrem nesta música.
E as pessoas que compram e vendem outras pessoas, que acreditam
que não há ninguém que não possa ser comprado, não se descobrem aqui.
Não é a sua música. A longa linha melódica que permanece igual
entre todas as suas variações, por vezes brilhante e delicada,
por vezes áspera e poderosa, rastro de caracol e arame
de aço.
O obstinado sussurro deste instante que está connosco
para cima para
o fundo.
Mauro Mota
O ROMANCE BANAL DE COLOMBINA E PIERRÔ
Entre seda, confeti e serpentina,
desse mundo no imenso carnaval,
tu surjiste, ─ visão de Colombina! ─
para a alma de Pierrô sentimental…
Ante a musica, ante o éter que alucina,
nós tecemos do amor o madrigal…
A essa luz dos teus olhos de menina
Pierrô sonhou um sonho emocional!…
O que foste afinal em minha vida?!
Dize! retira a mascara divina!
─ Quarta-feira de cinzas dolorida!
Mas somente depois que ela passou,
pude ver a chorar que Colombina
era a Felicidade de Pierrô!
Fernando Pessoa
A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo –
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.
04/10/1934
Fernando Pessoa
XVI - We never joy enjoy to that full point
Regret doth wish joy had enjoyed been,
Nor have the strength regret to disappoint
Recalling not past joy's thought, but its mien.
Yet joy was joy when it enjoyed was
And after-enjoyed when as joy recalled,
It must have been joy ere its joy did pass
And, recalled, joy still, since its being-past galled.
Alas! All this is useless, for joy's in
Enjoying, not in thinking of enjoying.
Its mere thougth-mirroring gainst itself doth sin.
By mere reflecting solid life destroying.
Yet the more thought we take to thought to prove
It must not think, doth further from joy move.
Amália de Alarcão Ribeiro Martins
Amanhecer
porque mais amor tenho por você.
Hoje amanheci mais feliz,
porque sei que estarás
constantemente ao meu lado.
Hoje amanheci te querendo
mais do que a própria vida.
Amo e farei tudo
o que tu quiseres
para estar
sempre e eternamente
ao teu lado.