Poemas neste tema

Felicidade e Alegria

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ao Vento Leve do Sol

Ao vento leve do sol
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
1 045
Martha Medeiros

Martha Medeiros

amanhã vou estar mais suave

amanhã vou estar mais suave
e quarta vai ser o meu dia
o fim de semana promete
domingo vai ter que dar sol
segunda vou acontecer
não posso perder o teu show
pro mês vou te visitar
é agora que eu saio de vez
que bom que eu vou te encontrar
amanhã vou estar mais feliz
1 273
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu quero

eu quero
amor piscina
que sobe e desce trampolins
cai e sai nadando
amor em que se afunda e simplesmente
sai se amando
1 106
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Ai Meu Amigo, Meu, Per Bõa Fé,

Ai meu amigo, meu, per bõa fé,
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.

Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.

Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.
555
Lourenço

Lourenço

Amiga, Quero-M'ora Cousecer

Amiga, quero-m'ora cousecer
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
       triste, quando souber que el verrá,
       mais meu coraçom mui ledo seerá.

Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
       triste, quando souber que el verrá,
       mais meu coraçom mui ledo seerá.

Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
       triste, quando souber que el verrá,
       mais meu coraçom mui ledo seerá.
627
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...
858
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Lugar

Alegria na madeira na claridade do ritmo
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Coincidência Nupcial

Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.

Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.

Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.

Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
1 055
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Princípio

Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.

Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.

O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
1 073
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quando bebo além da conta

quando bebo além da conta
minha língua fica esperta e meus olhos
brilham mais
quem me dera todo dia essa alegria de taberna
1 180
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Círculo da Casa

Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
674
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra Iii

Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Terrestre

A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!

Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
988
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 061
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 204
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Dos Dias

Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas

do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.

Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.

No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.

Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
984
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Dia

Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,

nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.

No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.

Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.

Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.

Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.

Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.

O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Vento

Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.

Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.

Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.

Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.
905
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Espaço

Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos

na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.

Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.

Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.

Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!

Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
530
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma.
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.


13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
1 899
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sobre a cama

Disjecta membra diz
o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.
1 026
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sim, é verdade, estou feliz

sim, é verdade, estou feliz
mas isso não significa
que não deva olhar pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora


sim, a princípio, nada me falta
mas não preciso em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar os meus desejos
por outros que não lembro agora
sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras


sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação
a mim a santa paz não devora
1 114
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vejo o Fogo

Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.

Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.

Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
984
Ruy Belo

Ruy Belo

Poema de Carnaval

Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
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