Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fausto no seu laboratório

FAUSTO: (só)
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar, e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto Aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar — tantas! — ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!

Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término[?], embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer cousa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
P'ra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
1 180
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O mistério dos olhos e do olhar

O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!

Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
1 190
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Jovem morreste, porque regressaste,

A. Caeiro

Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
        De após Cronos te esperam
        Ressuscitados deles.

Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
        Deu-te o deus o instinto
        Com que sentir as cousas.

Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
        (...)
        (...)

Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
        Qual luz à extinta estrela
        Póstuma a terra alaga.

Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
        De ser eterna à pátria
        Odisseia cidade

Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
        Ou heptápila Tebas
        Ogígia mãe de Píndaro.
1 394
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero, da vida, só não conhecê-la.

Quero, da vida, só não conhecê-la.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
        As formas sucessórias
        Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
         Os outros pobres nadas
        Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
        A mercê passageira
        De instantes que não duram.
1 267
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada me dizem vossos deuses mortos

Nada me dizem vossos deuses mortos
Que eu haja de aprender. O Crucifixo
        Sem amor e sem ódio
        Do meu (...) afasto.

Que tenho eu com as crenças que o Cristo
Curvado o torso a mim, latino, morra?
        Mais com o sol me entendo
        Que com essas verdades.

Que o sejam... Deus a mim não só foi dado
Que uma visão das cousas que há na terra
        E uma razão incerta,
        E um saber que há deuses...
1 255
Gil Vicente

Gil Vicente

Assi como foi cousa

Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas é a Madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares as insígnias da Paixão. E desta perfiguração trata a obra seguinte.

Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.

Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D.#Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom#Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.


Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S.#Tomás, S.#Jerónimo, Santo#Ambrósio e Santo#Agostinho. E diz Agostinho:

AGOSTINHO Necessário foi, amigos,
que nesta triste carreira
desta vida,
pera os mui p'rigosos p'rigos
dos imigos,
houvesse alguma maneira
de guarida.
Porque a humana transitória
natureza vai cansada
em várias calmas;
nesta carreira da glória
meritória,
foi necessário pousada
pera as almas.

Pousada com mantimentos,
mesa posta em clara luz,
sempre esperando
com dobrados mantimentos
dos tormentos
que o Filho de Deus, na Cruz,
comprou, penando.
Sua morte foi avença,
dando, por dar-nos paraíso,
a sua vida
apreçada, sem detença,
por sentença,
julgada a paga em proviso,
e recebida.

A Sua mortal empresa
foi santa estalajadeira
Igreja Madre:
consolar à sua despesa,
nesta mesa,
qualquer alma caminheira,
com o Padre
e o Anjo Custódio aio.
Alma que lhe é encomendada,
se enfraquece
e lhe vai tomando raio
de desmaio,
se chegando a esta pousada,
se guarece.

Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:

ANJO Alma humana, formada
de nenhüa cousa feita,
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágoa perfeita,
gloriosa!
Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas,
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas!

Planta sois e caminheira,
que ainda que estais, vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdei
da glória que conseguis:
andai prestes.
Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais!
Um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.

ALMA Anjo que sois minha guarda,
olhai por minha fraqueza
terreal!
de toda a parte haja resguarda,
que não arda
a minha preciosa riqueza
principal.
Cercai-me sempre ò redor
porque vou mui temerosa
de contenda.
Ó precioso defensor
meu favor!
Vossa espada lumiosa
me defenda!

Tende sempre mão em mim,
porque hei medo de empeçar,
e de cair
ANJO Pera isso sam e a isso vim;
mas enfim,
cumpre-vos de me ajudar
a resistir
Não vos ocupem vaidades,
riquezas, nem seus debates.
Olhai por vós;
que pompas, honras, herdades
e vaidades,
são embates e combates
pera vós.

Vosso livre alvedrio,
isento, forro, poderoso
vos é dado
polo divinal poderio
e senhorio,
que possais fazer glorioso
vosso estado.
Deu-vos livre entendimento,
e vontade libertada
e a memória,
que tenhais em vosso tento
fundamento,
que sois por Ele criada
pera a glória.

E vendo Deus que o metal
em que vos pôs a estilar,
pera merecer,
que era muito fraco e mortal,
e, por tal,
me manda a vos ajudar
e defender.
Andemos a estrada nossa;
olhai: não torneis atrás,
que o imigo
à vossa vida gloriosa
porá grosa,
Não creiais a Satanás,
vosso perigo!

Continuai ter o cuidado
no fim de vossa jornada,
e a memória,
que o espírito atalaiado
do pecado
caminha sem temer nada
pera a Glória.
E nos laços infernais,
e nas redes de tristura
tenebrosas
da carreira, que passais,
não caiais:
siga vossa fermosura
as gloriosas.

Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:

DIABO Tão depressa, ó delicada,
alva pomba, pera onde isso?
Quem vos engana,
e vos leva tão cansada
por estrada,
que somente não sentis
se sois humana?
Não cureis de vos matar
que ainda estais em idade
de crecer
Tempo há i pera folgar
e caminhar
Vivei à vossa vontade
e havei prazer.

Gozai, gozai dos bens da terra,
Procurai por senhorios
e haveres.
Quem da vida vos desterra
à triste serra?
Quem vos fala em desvarios
por prazeres?
Esta vida é descanso,
doce e manso,
não cureis doutro paraíso.
Quem vos põe em vosso siso
outro remanso?
ALMA Não me detenhais aqui,
leixai-me ir que em al me fundo.

DIABO Oh! Descansai neste mundo
que todos fazem assi:
Não são em#balde os haveres.
não são em balde os deleites,
e fortunas;
não são debalde os prazeres
e comeres:
tudo são puros afeites
das criaturas:

Pera os homens se criaram.
Dai folga à vossa passagem
d'hoje a mais:
descansai, pois descansaram
os que passaram
por esta mesma romagem
que levais.
O que a vontade quiser
quanto o corpo desejar,
tudo se faça.
Zombai de quem vos quiser
reprender
querendo-vos marteirar
tão de graça.

Tornara-me, se a vós fora.
Is tão triste, atribulada,
que é tormenta.
Senhora, vós sois senhora
emperadora,
não deveis a ninguém nada.
Sede isenta.
ANJO Oh! andai; quem vos detém?
Como vindes pera a Glória
devagar!
Ó meu Deus! Ó sumo bem!
Já ninguém
não se preza da vitória
em se salvar!

Já cansais, alma preciosa?
Tão asinha desmaiais?
Sede esforçada!
Oh! Como viríeis trigosa
e desejosa,
se vísseis quanto ganhais
nesta jornada!
Caminhemos, caminhemos.
Esforçai ora, Alma santa,
esclarecida!

Adianta-se o Anjo, e torna Satanás:

DIABO Que vaidades e que extremos
tão supremos!
Pera que é essa pressa tanta?
tende vida.

Is muito desautorizada,
descalça, pobre, perdida,
de remate:
1 633
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Presepe

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,
Jesus pequenito,
De qualquer maneira
(Mães o sabem...), era
Das entranhas dela
O fruto bendito.
José, seu marido,
Ah esse aceitava,
Carpinteiro simples,
O que Deus mandava.
Conhecia o filho
À que vinha neste
Mundo tão bonito,
Tão mal habitado?
Não que ele temesse
O humano flagício:
O fele o vinagre,
Escárnios, açoites,
O lenho nos ombros,
A lança na ilharga,
A morte na cruz.
Mais do que tudo isso
O amedrontaria
A dor de ser homem,
O horror de ser homem,
— Esse bicho estranho
Que desarrazoa
Muito presumido
De sua razão;
— Esse bicho estranho
Que se agita em vão;
Que tudo deseja
Sabendo que tudo
É o mesmo que nada;
— Esse bicho estranho
Que tortura os que ama;
Que até mata, estúpido,
Ao seu semelhante
No ilusivo intento
De fazer o bem!
Os anjos cantavam
Que o menino viera
Para redimir
O homem — essa absurda
Imagem de Deus!
Mas o jumentinho,
Tão manso e calado
Naquele inefável,
Divino momento,
Ele bem sabia
Que inútil seria
Todo o sofrimento
No Sinédrio, no horto,
Nos cravos da cruz;
Que inútil seria
O fele vinagre
Do bestial flagício;
Ele bem sabia
Que seria inútil
O maior milagre;
Que inútil seria
Todo sacrifício...

1949
998
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

36 - LA CHERCHEUSE

LA CHERCHEUSE

Pale with the sense of being mortal,
Now dost thou, passing yearning's glades,
Knock with cold hands at the hushed portal
Of the closed palace of the shades.
Thy hands fall and thy wide eyes grope.
Oh, let me kiss thy feet and hope!

Let us not wish to understand,
Bravely despair even of despair,
Cold unfelt hand in cold dead hand,
Let us set out for mere Somewhere,
With bodies by the cold made none,
By nigh to invisibleness done.

Perhaps, thus losing earthly goal,
Our sense of us numbed to innerness,
Sudden we shall find ourselves all Soul,
Hand in hand spirits, waked to bliss,
Having, through some Gate not in space,
Lo! Lapsed to everlasting grace.
4 116
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Era um moinho sem vento

Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.

(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)

Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.

(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)


Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).

In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 916
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PRAYER

PRAYER

Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.

It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.

My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!

I do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.

My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!

I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer.
My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!
4 640
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Natal

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh'alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh'alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana — pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus...

Clavadel, 1913
1 357
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

50 - SONNET

God made my shivering nerves His human lyre,
A lyre whose curves in angels' faces end.
When God doth sing the song's invisible fire
And half-visible wings over it bend.

Fountain of incorruptible desire!
Gold-misted green isle where my bark doth tend!
My soul, rich with electedness, doth tire
My sense o) me with aches with God to blend.

But lo! to live is to be blent with God
Already. We need nought but life, all life.
Pain, evil, hale, lust, treachery, the rod
Of custom, the bypath of dreams, the knife

Grief hideth till it cut her, the delight
Of death – all these we God's willed spite.
4 610
Josean

Josean

Oda al coño de mi diosa

Oh, Coño de mi Diosa, Coño de mi Deseo,
cofre repleto de los más exóticos y preciados placeres,
ofreciéndome a ti, te rindo culto y adoración.

De ti, mi bien absoluto, padezco
la sed mas ardiente que nunca nadie haya padecido,
ávido de tu abismo, quiero, sumiso, lamer tus labios
y robar tu sagrado jugo en el hueco de mi lengua,
besar, quiero, el apéndice del placer que emerge en tu proa
tras quemar mi incienso en tu alabanza.

Oh, Coño, tantas veces cabalgado hasta la extenuación
digno del Olimpo por ser tu carne de Diosa,
pero también, como los héroes griegos, por tus gestas.
Con tu anillo de voluptuosidad has ceñido, glotón,
las más gordas vergas, que han tenido el privilegio de catarte,
empinadas hacia ti, oh mi Cielo, Paraíso,
buscando tu fondo con la dureza del basalto.

En ti han buscado cimiento las más robustas columnas,
que, luego de gozarte has rendido, mansas y sumisas,
tras descargar en ti el poderoso alud del deseo.

Exhaustos has dejado, tras loca danza ante tus labios,
los más rollizos y hermosos cojones,
que cargados de semilla se habían pavoneado ante tu suculenta raja
enardecidos por el regusto que a los machos ofrendas.

Coño mío, coño aventurero, coño explorador y sabio,
catador de los más intensos y prolongados deleites,
Coño de mi Diosa.
Si todo el placer que has dado a mi Ama
se uniera en un único orgasmo
temblarían los cimientos del Universo.

Las cataratas del Niágara se precipitarían en tu cuenca,
si todas las vergas que te han jodido se juntaran
en una sola embestida, Placer de los Placeres.

He de fundar una orden entregada a tu culto, Coño mío.
Buscaré a los varones que con tu oloroso flujo has ungido
para, unidos por el hilo del mismo deseo, glosar tu poder.
Acordes nuestras viriles voces, cantaremos en tu alabanza
y te adoraremos.

Cuántas veces mi Diosa, ha dejado el paso franco
ofreciéndote al deseo más primitivo
en las sagradas posiciones, que enseñan
las páginas del Kamasutra y los frescos de Pompeya.

Para apropiarte del blanco licor que codicias
has aguantado al violento compás de tu glotonería
las más fieras embestidas.
Sin pudor te has abierto
dilatando tus labios cual fauces de boa,
apoyado por el voluptuoso cimbreo
del culo de mi Reina
hasta reventar la estaca que agitándose en ti paladeas.

Por tus prodigios me postro ante ti y te adoro,
poderoso centro de la vibración del mundo,
epicentro de los seismos que la pasión engendra
pozo en cuya noche se reflejan
las blancas estrellas de semen de los dioses,
agujero negro en el que los placernautas,
ingenuos insectos,
atraídos por el dulce jugo de tu planta carnívora,
irremisiblemente caen.

Para beber el néctar sagrado
que destila la humedad de tus paredes.
llegaré con mi lengua hasta tu bóveda,
tantas veces surcada por cometas vertidos
por aquellos menhires
que uno tras otro, fueron
prisioneros de tus labios.

Déjame ahora, Coño idolatrado
ser tu jinete.
Ciñe mi verga con tu gola de carne.
Déjame que te cabalgue yo también.
Déjame que me derrame y muera en ti.

Que tu Ama, la Diosa de mi corazón,
me recoja, abierta, entre sus brazos.

6 298
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Anunciação

Voam-me pássaros em torno,
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.

Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.

Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.

Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.

O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.

Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?

Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?

Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?


Publicado no livro Por Quê? (1947).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
1 638
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canto de Natal

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
À morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.
1 465
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DEUS

Deus a pedra criou.
Para cortá-la,
A chuva e o vento
Formou.

24/10/2000

815
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Meteorito

O meu cérebro é um meteorito.
Vejo-o a cair do

                            C   éu

como se tivesse sido talhado
pela imaginação      mas não.

A vida é um novelo de resistências
às quais nem a minha mão
nem os meus olhos se adaptam.

O novelo é um nó
o nó é um laço
uma cruz      um traço
terrivelmente
soberano.

Desato-o, desmancho-o,
com ele reato o acto
o mesmo acto-pacto
alado rasgado amado.

E é como se ouvisse o Anjo
e a sua voz inaudível
nas pedras do caminho.

Desenho então,
assim me estendam
os braços,
o círculo      a coroa,
a cintura nua, a lua
e o nome de Helena
ou Karenina, Ana,
Ariana – esse regresso
da morte
entre a mão e o espírito.
854
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TRIFLES

They wear no real greatness who have faith
        In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
        And the pain of perpetual doubt.
1 346
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Canção da Chuva

Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.

Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!

Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.

Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.

Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!


Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 015
Felipe Vianna

Felipe Vianna

SÉCULO XXI, O SÉCULO AS BOA ESPERANÇA

Ainda que não havemos vista
Sabemos que lá está
Pois as gaivotas nos guiam
E,
Da terra firme não vão arredar.

Nas tormentas deste século,
Terra firme o século XXI será.
E quando este nos for dado,
Em festejos, um champanhe derramar-se-á.

As luzes que esta terra levará ao céu
Em fogos de artifícios,
Pólvora bem gasta será.
Pois,
São as Índias que Deus nos passa.

O sal das lágrimas
Que salgou o mar,
Não mais salgará.

E que o bom Deus
Proteja nossos passos
E proveja-nos de água fresca,
Comida e terrenos fartos.

21/12/2000

707
Sousândrade

Sousândrade

Harpa XXXV - Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

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Poema integrante da série Noites.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
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Felipe Vianna

Felipe Vianna

MAR

Mar, ó mar.
És mais que a terra
És mais que o ar,
És mar.

És tudo da vida,
Da vida já ida
Que não volta mais.

Ó mar!

Pudera dera
Um mar de esfera,
Uma esfera,
Amar!

Ame o mar.
Pois quem o ama,
A deus também, é amar.

Ó Mar!

26/01/01

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

35 - THE HOURS

The hours are weary of being hours.
        Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
        Paint lips cold and hairs gray.

They sicken and sadden and deaden beauty.
        When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
        They only weeping fmd.

So, Oh, to be something else! they say,
        For they think they know
That the things and thoughts they take away
        Really fade and go.

But they do not know, blind misers screening
        A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
        Ay, even God Himself
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Toante

...wie ein stilles Nachtgebet.
Lenau

Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
Molha-as. Assim eu as quero levar à boca,
Em espírito de humildade, como um cálice
De penitência em que a minh'alma se faz boa...
Foi assim que Teresa de Jesus amou...
Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
O espasmo é como um êxtase religioso...
E o teu amor tem o sabor das tuas lágrimas...
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