Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Deus que me fez e fizera

Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.

Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.

2 048
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do eterno erro na eterna viagem,

Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.

Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.

Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.

Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.

Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.

Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
901
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Purificação

Senhor, logo que eu vi a natureza
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na contemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.

Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.

A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.

A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma

Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz
E porque só a ti ele exalta e ama.
1 213
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Tarde

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
1 113
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sacrifício

Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.

Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.

Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.

No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte

Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
1 175
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Quanto mistério na semente

Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!

1 730
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Apocalipse

João, iracundo João,
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.

1 666
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

RESOLUTION

Why do I waste in dreams fruitless and vain
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?

Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.

High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;

I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
1 034
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Os Profetas

Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.

1 862
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Bispo de Pádua

Seria frade, é certo.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.

.......................

Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.

.......................

Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.

.......................

Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.

.......................

O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.

.......................

Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.

.......................

Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.

.......................

E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...

.......................

No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.

.......................

Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.

.......................

Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?

.......................

Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.

1 462
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Stabat Mater

Tu, mãe de Deus,
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.

1 408
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Segundo canto para a renovação do Natal

A Noémia de Sousa

Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.

2 272
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Canção do pastor perdido

Ia eu pra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.

Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.

1 855
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Menino só

Assim que o Anjo descer,
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................

2 181
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

A estátua jacente

Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!

Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.

O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.

Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.

Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra

Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.

Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.

Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.

Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.

Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.

Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -

Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.

Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi

De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.

Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!

Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!

Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,

Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!

O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.

Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.

A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa

Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.

Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.

Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!

Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;

Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.

2 065
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Reflexões

o templo do vão da minha porta está
trancado.

só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.

meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.

os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.

os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.

as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.

os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.

a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.

viver bem é uma questão de definição.

Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.

só pessoas entediantes se entediam.

todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.

pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.

pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.

se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.

o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.

se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.

se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.

dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.

a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.

bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.

o Inferno nunca para ele só pausa.

isto é uma pausa.

aproveite enquanto puder.
1 041
Taumaturgo Vaz

Taumaturgo Vaz

Minha Madrinha

Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!

Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!

Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!

Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

1 404
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Nesta Embarcação

Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?

771
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Minhalma

Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite

Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences

Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu

Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito

Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim

Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo

Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais

Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos

Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol

Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol

A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.

948
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O fado cantado à guitarra

O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.

Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.

Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.

Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.

Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.

A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.

Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar

Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.

Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.

Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.

E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!

Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.

Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.

Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.

Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.

Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.

Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.

Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.

É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.

E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.

Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.

Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.

M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.

Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.

Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.

Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.

Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.

Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.

Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.

Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.

Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.

Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.

Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.

Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.

No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.

Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.

Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.

Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.

Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!

Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
1 118
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

She lives on the cover

She lives on the cover
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.

Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.

Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.

A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……

Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.

Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.

Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?

Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.

God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.

This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.

Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
1 388
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Depois do amor — na treva)

Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.

Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...)       e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 309
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Talvez que Deus não seja real e exista

Talvez que Deus não seja real e exista
Talvez não seja Deus e exista, e seja
Como nós o pensamos Deus p'ra nós.
1 347
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita,

Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.

E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.

Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.

E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.

Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...

Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.

Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.

Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
1 399