Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

JULIANO EM ANTIOQUIA [b]

Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)

O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.

Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
980
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Ai Santiago, Padrom Sabido

Ai Santiago, padrom sabido,
vós mi adugades o meu amigo;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.

Ai Santiago, padrom provado,
vós mi adugades o meu amado;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.
628
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Sacrifício do Vinho

Contra o crepúsculo
O vinho assoma, exulta, sobreleva
Muda o cristal da tarde em rubra pompa
Ganha som, ganha sangue, ganha seios
Contra o crepúsculo o vinho
Menstrua a tarde.

Ah, eu quero beber do vinho em grandes haustos
Eu quero os longos dedos líquidos
Sobre meus olhos, eu quero
A úmida língua...

O céu da minha boca
É uma cúpula imensa para a acústica
Do vinho, e seu eco de púrpura...
O cantochão do vinho
Cresce, vermelho, entre muralhas súbitas
Carregado de incenso e paciência.
As sinetas litúrgicas
Erguern a taça ardente contra a tarde
E o vinho, transubstanciado, bate asas
V oa para o poente
O vinho...

Uma coisa é o vinho branco
O primeiro vinho, linfa da aurora impúbere
Sobre a morte dos peixes.
Mas contra a noite ei-lo que se levanta
Varado pelas setas do poente
Transverberado, o vinho...
E o seu sangue se espalha pelas ruas
Inunda as casas, pinta os muros, fere
As serpentes do tédio; dentro
Da noite o vinho
Luta como um Laocoonte
O vinho...

Ah, eu quero beijar a boca moribunda
Fechar os olhos pânicos
Beber a áspera morte
Do vinho...
1 213
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Urânia Maria

Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
1 185
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reportagem Matinal

Subo a Santa Teresa
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)

Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)

— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.

A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.

Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.

Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.

Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.

Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
1 142
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Soneto Inglês Nº 2

Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
1 282
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Meus Olhos, Quer-Vos Deus Fazer

Meus olhos, quer-vos Deus fazer
ora veer tam gram pesar,
onde me nom poss'eu quitar
sem mort'! E nom poss'eu saber
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!

Ca vos farám cedo veer
a por que eu moiro casar;
e nunca me dela quis dar
bem; e nom poss'or'entender
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!

E de quem vos esto mostrar,
nunca vos mostrará prazer,
ca log'eu i cuid'a morrer,
olhos; e nom poss'eu osmar
       porque vos faz agora Deus
       tam muito mal, ai olhos meus!
656
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

A Rem do Mundo Que Melhor Queria

A rem do mundo que melhor queria,
nunca m'en bem quis dar Santa Maria;
mais, quant'end'eu no coraçom temia
       hei! hei! hei!
       Senhor, senhor, agora vi
       de vós quant'eu sempre temi!

A rem do mundo que eu mais amava
e mais servia, nem mais desejava,
Nostro Senhor, quant'end'eu receava
       hei! hei!hei!
       Senhor, senhor, agora vi
       de vós quant'eu sempre temi!

E que farei eu, cativ'e coitado?
Que eu assi fiquei, desamparado
de vós, por que coita grand'e cuidado
       hei! hei! hei!
       Senhor, senhor, agora vi
       de vós quant'eu sempre temi!
959
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Cuidava-M'eu, Quando Nom Entendia

Cuidava-m'eu, quando nom entendia
que mal sem era de vos bem querer,
senhor fremosa, que m'en partiria
atanto que o podess'entender;
mais entend'ora que faç'i mal sem
de vos amar, pero nom me part'en,
ante vos quero melhor todavia.

Eu mi cuidava que nom poderia
de vós viir, mia senhor, senom bem
- ca nom cuidei que me de vós verria
tam muito mal como m'agora vem;
e fazia dereito, ca nom al,
e[m] nom cuidar que me veesse mal,
senhor fremosa, d'u non'[o] havia.

E por mui gram maravilha terria,
senhor, quem ora soubesse de qual
guisa mi vem – e dereito faria,
ca nunca vistes maravilha tal:
ca me vem mal d'u o Deus nom quis dar,
senhor, e coita mui grand'e pesar
de vós, de que mi v[i]ir nom devia.

Por en, senhor, cousimento seria
e mesura grand', assi Deus m'ampar!,
de mi fazerdes vós bem algum dia,
pois tanto mal me fazedes levar;
e se mi bem fezéssedes, senhor,
sabed', a vós x'estaria melhor;
e demais Deus vo-lo gradeceria.
746
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mozart no Céu

No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu, como um artista de circo, fazendo piruetas extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco.

Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.

Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
1 261
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Otávio

Torce a boca, olha as coisas abstrato
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos...

Logo após olha o mundo e o vê morrendo
Sob a opressão tirânica do mal
E como um passarinho, vai correndo...
Escrever um tratado social

É amigo de um "braço" na poesia
E de um outro que é só filosofia
E de um terceiro, romancista: veja

Quanto livro a escrever ainda teria
O ditador Otávio de Faria
Sob o signo cristão da nova Igreja...
755
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Ponte de Van Gogh

O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte
levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da
vila.



Itatiaia, 1937.
1 152
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Poema Feito Para Chegar Aos Ouvidos de Santa Teresa

Não quero ir pro inferno
Santa Teresinha
Quero é ir pro céu
Que é boa terrinha
Mas se eu for pro céu
V ocê me procura?
V ocê me namora,
Santa Teresinha?
V ocê me namora, hein, santa Teresinha?
1 195
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Quand'eu Um Dia Fui Em Compostela

Quand'eu um dia fui em Compostela
em romaria, vi ũa pastor
que, pois fui nado, nunca vi tam bela,
nem vi outra que falasse milhor;
e demandei-lhe logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.

[E] dix'eu logo: - Fremosa poncela,
queredes vós mim por entendedor?
Que vos darei boas toucas d'Estela,
e boas cintas de Rocamador,
e doutras doas a vosso sabor
e fremoso pano pera gonela.

E ela disse: - Eu nom vos queria
por entendedor, ca nunca vos vi
senom agora, nem vos filharia
doas que sei que nom som pera mim;
pero cuid'eu, se as filhass'assi,
que tal há no mundo a que pesaria.

E se veess'outra, que lhi diria,
se me dizesse ca "per vós perdi
meu amig'e doas que me tragia?"
Eu nom sei rem que lhi dissess'ali;
se nom foss'esto, de que me tem'i,
nom vos dig'ora que o nom faria.

Dix'eu: - Pastor, sodes bem razoada;
e pero creede, se vos nom pesar,
que nom est hoj'outra no mundo nada,
se vós nom sodes, que eu sábia amar;
e por aquesto vos venho rogar
que eu seja voss'home esta vegada.

E diss'ela, come bem ensinada:
- Por entendedor vos quero filhar;
e pois for a romaria acabada,
aqui, d'u sõo natural, do Sar,
cuido [eu], se me queredes levar,
ir-m'-ei vosc'e fico vossa pagada.
676
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro…

Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro...
Mas porque nas bocas de hoje os nomes sobrevivem
Mortos apenas, como nomes em pedras sepulcrais.
        Por isso, Lídia, lamento
Que Vénus em bocas cristãs seja uma palavra dita,
Que Apolo seja um nome que usam quantos
Sequentes de Cristo — e a crença lúcida
        Nos deuses puramente deuses,
Tenha passado e ficado, cinza do que era fogo,
Lama do que era água reflectindo as árvores,
Tronco morto do que dava fruto e florescia.
        Mas se choro, não creio
Menos que ainda existo, como existem os deuses.
1 225
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Meu Senhor Deus, Pois Me Tam Muit'amar

Meu Senhor Deus, pois me tam muit'amar
fezestes, quam muit'amo, ũa molher,
rogue-vos outrem quanto xi quiser,
ca vos nom quer'eu mais desto rogar:
       meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
       que mi a façades haver por senhor.

Esta dona, que mi faz muito mal,
porque nom quis nem quer que seja seu,
nom m'é senhor, mais gram coita mi deu;
e por esto vos rog'e nom por al:
       meu Senhor Deus, se vos em prazer for,
       que mi a façades haver por senhor.

Tal bem lhi quero no meu coraçom
que vos nom rogarei por outro bem
que mi façades, nem por outra rem;
mais por tanto vos rog'e por al nom:
       meu Senhor Deus, se vos em prazer for
       que mi a façades haver por senhor.

Ca sei que nom é tam forços'Amor
que me mate, se m'achar com senhor.
372
Ruy Belo

Ruy Belo

Imóvel viagem

Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recusa roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem
mais do que a tua cruz simplificada



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 27 | Editorial Presença Lda., 1984
913
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não como ante donzela ou mulher viva

Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
        Devemos dar os olhos
        À beleza imortal.

Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
        Não de outro modo é ela
        Imortal como os deuses.

Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
        Devemos olhar de néscios
        Olhos para a beleza.

Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
        Diante da beleza
        Façamo-nos sóbrios.

Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
        Por isso a contemplemos
        Num claro esquecimento.

E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
        E o longínquo sorriso
        De quem assiste à vida.
1 339
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Soneto em Louvor de Augusto Frederico Schmidt

Nos teus poemas de cadências bíblicas
Recolheste o som das coisas mais efêmeras:
O vento que enternece as praias desertas,
O desfolhar das rosas cansadas de viver,

As vozes mais longínquas da infância,
Os risos emudecidos das amadas mortas:
Matilde, Esmeralda, a misteriosa Luciana,
E Josefina, complicado ser que é mulher e é também o Brasil.

A tudo que é transitório soubeste
Dar, com a tua grave melancolia,
A densidade do eterno.

Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis.
Mas tua glória maior é ser aquele
Que soube falar a Deus nos ritmos de sua palavra.

10 de setembro de 1940
SONETO PLAGIADO
DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
E de súbito n'alma incompreendida
Esta mágoa, esta pena, esta agonia;
Nos olhos ressequidos a sombria
Fonte de pranto, quente e irreprimida.

No espírito deserto a impressentida
Misteriosa presença que não via;
A consciência do mal que não sabia,
Aparecida, desaparecida...

Até bem pouco, era uma imagem baça.
Agora, neste instante de certeza,
Surgindo claro, como nunca o vi!

E nesse olhar tocado pela graça
Do céu, não sei que angélica pureza,
— Pureza que não tenho, que perdi.
1 194
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

São Francisco de Assis

Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
1 179
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
1 450
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
        Da meta inesperada
        (...)

Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
        Nem justos nem injustos
        São os Deuses, senão outros.

O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
        Dados, ora são desejos
        Ora ao (...)

(...)
(...) esperanças breves;
        Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.

Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
        Salvo se a morte é cega
        Do pó do (...)
1 042
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Louvado do Centenário de Iracema

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Idem louvo, exalto e canto
O prosador, grande filho
Do Norte, e que no deserto
Do romance nacional,
Ergueu, escorreito e diserto,
Seu mundo, — um mundo imortal.

Além, muito além da serra
Que lá azula no horizonte,
Inventou a donzela insonte,
Símbolo da nossa terra,
E escreveu o que é mais poema
Que romance, e poema menos
Que um mito, melhor que Vênus:
A doce, a meiga Iracema.

E o mito inda está tão jovem
Qual quando o criou Alencar.
Debalde sobre ele chovem
Os anos, sem o alterar.
Nem uma ruga no canto
Dos olhos de moço brilho!
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.

Agosto, 1965
1 075
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Louvado para Daniel

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.

Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
952