Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 696
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Poema Tirado de Um Livro de Ciências

Lineu,
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
1 056
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rezas a Deus ao deitar-te

Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
1 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Out of a great nebula of Night and Storm

Out of a great nebula of Night and Storm
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.

The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
1 294
Antero de Quental

Antero de Quental

Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

2 928
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes uma cruz no peito.

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesse o jeito
De ter lá um coração.
947
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

35 - THE HOURS

The hours are weary of being hours.
        Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
        Paint lips cold and hairs gray.

They sicken and sadden and deaden beauty.
        When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
        They only weeping fmd.

So, Oh, to be something else! they say,
        For they think they know
That the things and thoughts they take away
        Really fade and go.

But they do not know, blind misers screening
        A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
        Ay, even God Himself
1 475
Afonso X

Afonso X

Fui Eu Poer a Mão Noutro Di

Fui eu poer a mão noutro di-
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.

U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!

Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.

Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.

E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!
744
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Se Eu Podesse Desamar

Se eu podesse desamar
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
       se eu pudesse coita dar
       a quem me sempre coita deu.

Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
       porque nom poss'eu coita dar
       a quem me sempre coita deu.

Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
       se eu podesse coita dar
       a quem me sempre coita deu.

Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
       porque nom posso coita dar
       a quem me sempre coita deu.
1 304
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

44 - THE KING OF GAPS

There lived, I know not when, never perhaps­ -
        But the fact is he lived - an unknown king
Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps.
        He was lord of what is twixt thing and thing,
Of interbeings, of that part of us
        That lies between our waking and our sleep,
                Between our silence and our speech, between
Us and the consciousness of us; and thus
        A strange mute kingdom did that weird king keep
                Sequestered from our thought of time and scene.

Those supreme purposes that never reach
        The deed - between them and the deed undone
He rules uncrowned. He is the mystery which
                Is between eyes and sight, nor blind nor seeing.
        Himself is never ended nor begun,
Above his own void presence empty shelf.
                All He is but a chasm in his own being,
The lidless box holding not‑being's no‑pelf.

All think that he is God, except himself.
1 450
Bento Teixeira

Bento Teixeira

Cantem Poetas o poder Romano

Cantem Poetas o poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.

As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.

(...)


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)

NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
6 287
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Agora Me Part'eu Mui Sem Meu Grado

Agora me part'eu mui sem meu grado
de quanto bem hoj'eu no mund'havia,
ca 'ssi quer Deus e mao meu pecado,
       ai eu!
De mais, se mi nom val Santa Maria,
d'haver coita muito tenh'eu guisado;
mais rog'a Deus que mais d'hoj'este dia
nom viva eu, se m'El nom dá conselho.

Nom viva eu, se m'El nom dá conselho,
nem viverei, nem é cousa guisada,
ca pois nom vir meu lum'e meu espelho,
       ai eu!
já por mia vida nom daria nada,
mia senhor; e digo-vos em concelho
que, se eu morr'assi desta vegada,
que a vó'lo demande meu linhage!

Que a vó'lo demande meu linhage,
senhor fremosa, ca vós me matades,
pois voss'amor em tal coita me trage,
       ai eu!
e sol nom quer Deus que mi o vós creades
e nom me val i preito nem menage.
E ides-vos e me desamparades;
desampare-vos Deus, a que o eu digo!

Desampare-vos Deus, a que o eu digo,
ca mal per fic'hoj'eu desamparado!
De mais nom hei parente nem amigo,
       ai eu!
que m'aconselh'! E desaconselhado
fic'eu sem vós e nom ar fica migo,
senhor, senom gram coita e cuidado.
Ai Deus! Valed'a homem que d'amor morre!
624
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

43 - THE BRIDGE

Kisses on me like dew
        Pour, and it shall be morn
My waked spirit through.
        My bowed, greyed head adorn
With bays, that I may view
        My shadow crowned and smile even as I rnourn

Although my head is bent,
        Thy feet, sandalled with hope,
Pass and are eloquent
         I' th' way they do not stop.
Somewhere i'th' grass they are blent
        With that of me that does for meanings grope

Let us be lovers aye,
        Out of all flesh agreeing,
Lovers in some new way
        That needs not words nor seeing.
Thus abstract, our love may
        Not ours, be but a vague breath of Pure Being
1 526
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Anjo da guarda

O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 131
Pero da Ponte

Pero da Ponte

O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira

O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.

A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.

Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!

Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!

E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia

de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
544
Afonso X

Afonso X

Quero-Vos Ora Mui Bem Conselhar

Quero-vos ora mui bem conselhar,
meestre Joam, segundo meu sem:
que, macar preit'hajades com alguém,
nom queirades com el em voz entrar,
mais dad'a outrem que tenha por vós,
ca vossa honra é [de] todos nós,
a quantos nós havemos per amar.

E pero se a quiserdes tẽer,
nõn'a tenhades per rem ant'el-rei;
e direi-vos ora porque o hei:
porque nunca vo-lo vejo fazer
que vo-lo nom veja teer assi
que, pero vos el-rei queira des i
bem juïgar, nom há end'o poder.

E ainda vos conselharei al,
porque vos amo [mui] de coraçom:
que nunca voz em dia d'Acençom
tenhades, nem em dia de Natal,
nem doutras festas de Nostro Senhor,
nem de seus santos, ca hei gram pavor
de vos viir mui toste deles mal.

Nem na eigreja nom vos conselh'eu
de teer voz, ca vos nom há mester;
ca, se peleja sobr'ela houver,
o arcebispo, voss'amig'e meu,
a quen'o feito do sagrado jaz,
e a quem pesa do mal, se s'i faz,
querrá que seja quanto havedes seu.

E pol'amor de Deus, estad'em paz
e leixade maa voz, ca rapaz
sol nõn'a dev'a teer, nem judeu.
676
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Que Bem Se Soub'acompanhar

Que bem se soub'acompanhar
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!

Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!

E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!

Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!

E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.

Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.

Amen! Aleluia!
331
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Que Mal S'este Mundo Guisou

Que mal s'este mundo guisou
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou

des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.

Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.

E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.

E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
356
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto IV [Se o sacro ardor, que ferve no meu peito

XXXIV

Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.

XXXV

Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?

(...)

XXXIX

Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
2 666
Afonso X

Afonso X

Com'eu Em Dia de Páscoa Querria Bem Comer

Com'eu em dia de Páscoa querria bem comer,
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
       pera meestre Joam.

Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
       pera meestre Joam.

Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
       pera meestre Joam.

Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
       pera meestre Joam.
612
Natália Correia

Natália Correia

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

5 717
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Ora Já Nom Poss'eu Creer

Ora já nom poss'eu creer
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!

E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!

E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?

E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!

Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
628
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora

Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!

Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!

Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
676
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Isto & História,1968

Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
1 026