Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)
Poemas neste tema
Maria Alberta Menéres
Água-Memória
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
Paulo Leminski
duas folhas na sandália
também quer andar
Albano Dias Martins
Nem sempre
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.
Natália Correia
O Espírito
Antônio Barreto
Para Enxergar Duendes no Jardim
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
Léopold Sédar Senghor
eu imagino ou sonho de menina
Lucas Tenório
Meu Pensamento, minha Cotovia
És meu melhor amigo,
Mensageiro ambulante
em gaivota fugaz.
Turbilhão de desejos
em carrossel de sentidos,
Que em minh`alma se faz,
se desfaz, se refaz...
Cotovia, alegria,
és meu tinido mudo!
Como a brisa passante
dessas primaveras...
Pensamento, espera!
... me emudeça com ela...
......................
(- Será este pr`a ti
um cortejo absurdo?)
Mas por quê? Afinal,
não és tu a que voa?
Pois que tal, da janela,
joga aos ares tuas velas!
Que os meus sonhos, menina,
já vão de vento em proa...
Cotovia, psiu! Ô Cotovia,
sê`nessa caravela,
nosso pouso distante,
e que nos deixem à toa...
Tempestades, Tufões...?
Só nos querem as garoas...
(Inspirado em Manuel Bandeira
e Chico Buarque, e em homenagem
a uma pernambucaninha da garoa,
não menos leve e talentosa.)
Castro Alves
Noite de Maio
Música da "Santa Lucia"
I
NO CÉU dos trópicos
Pra sempre brilha,
O noite esplêndida,
Que as ondas trilha.
Do amor nas pálpebras
Acende o raio.
O noite cúmplice!
Noite de maior
II
Vê... que astros lúcidos
Na azul clareira:
São flores níveas
Da laranjeira.
De noiva chamam-te
Em cada raio.
Noiva puríssima
Do mês de maio.
III
Do vento os hálitos
Erguem-te as tranças,
Nos seios rolam-te
Em loucas danças.
São meus anélitos,
É meu desmaio.
Ó noite cúmplice!
Noite de maio!
IV
Estrela pálida,
Moça divina!
Donzela tímida
Sob a neblina!
Teu véu empresta-me,
Teu longo saio,
Para as espáduas
Da flor de maio.
V
Nas praias nítidas
Têm voz as vagas...
São bocas trêmulas
Lambendo as plagas.
O oceano lúbrico
Beija-te o seio...
Meus versos canta-lhe,
Vaga de maio.
VI
O espelho etéreo
Das nuvens nasce,
Reflete em júbilos
A tua face.
Seu riso angélico
No céu guardai-o.
Espelho límpido
Da flor de maio.
VII
Há risos tépidos
Entre as palmeiras;
Beijam-se lânguidas
Fadas trigueiras.
Da selva o cântico
Além cantai-o,
Ó gênios cúmplices
Do céu de maio.
VIII
A lua imerge-se
Na etérea zona
A fronte inveja-te,
Dela Amazona.
Fronte de mármore
Que empresta um raio
À croa fúlgida
Do mês de maio.
IX
No azul dos trópicos
Suspende o passo,
As horas céleres
Prende ao regaço...
Os astros ligam-me
Num louro raio!
Sê nossa cúmplice...
Noite de maio! ...
Emiliano Perneta
Borboleta
Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...
1903
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Rubens Rodrigues Torres Filho
Trovas Populares
Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete
II
Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis
III
Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais
IV
Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?
V
Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca
VI
Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr
VII
Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar
(...)
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.
NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
Tomas Tranströmer
Dó Maior
o ar rodopiava de neve.
O inverno chegara
enquanto estiveram juntos.
A noite brilhava branca.
Caminhou leve de alegria.
A cidade inteira em declive.
Os sorrisos que passavam –
sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Era de graça!
E todos os pontos de interrogação começavam a cantar o ser de Deus.
Foi isso que pensou.
Uma música surgiu
e a passos largos
caminhava num turbilhão de neve.
Tudo a caminho da nota dó.
Um trémulo compasso em direcção a dó.
Uma hora acima dos tormentos.
Era fácil!
Sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Alice Ruiz
Renga da noite
de luz a luz
nenhuma dívida
ontem hoje amanhã
trabalho pra madrugada
noites tardes manhãs
noite no mato
o cheiro de açucena
é nosso lume
noite de verão
escrevendo vento
eu e o vento
noite de verão
vem com a brisa
um cheiro de primavera
noite no escuro
pensando que era barata
matei o vagalume
noite cheia
lua minguante
meu quarto crescente
Lídia Jorge
Fado do retorno
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete
Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças
Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro
Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta
Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.
Ronald de Carvalho
Vento Noturno
do vento que vem das montanhas e das ondas,
do vento que espalha no espaço o cheiro das resinas,
a exalação da maresia e do mato virgem,
das mangas maduras, das magnólias e das laranjas,
dos lírios do brejo e das praias úmidas.
Volúpia do vento noturno nas noites tropicais,
quando o brilho das estrelas é fixo, duro,
quando sobe da terra um hálito quente, abafado,
e a folhagem lustrosa lembra o aço polido.
Volúpia do vento morno do verão,
carregado de odores excitantes,
como um corpo de mulher adolescente,
de mulher que espera o momento do amor...
Volúpia do vento noturno em minha terra natal!
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.173. (Manancial, 44
Olga Savary
Caiçuçáua
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
Ronald de Carvalho
Interior
é simples e modesta como um tranquilo pomar;
no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;
entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,
uma poeira de luz que aumenta a solidão.
Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.
Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.34.
Herberto Helder
As Musas Cegas - Vi
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
E preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.
Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
É uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura —
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.
Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas
das noites eternas.
Sinto os ossos ascenderem às cobras na cabeça —
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.
Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.
Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne,
evocar tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.
Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.
Álvaro Moreyra
Do Outono e do Silêncio
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
Nuno Júdice
A vindima de Eros
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 18 e 19 - Lisboa, Outubro 2015
Paul Verlaine
Canção de outono
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.
E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.
E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.
(Paul Verlaine, 1866, trad. Guilherme de Almeida)
Louise Glück
O lírio prateado
de começo de primavera, e quietas de novo. Será
que a conversa te incomoda? Estamos
sozinhos agora; não temos razão para silêncio.
Vês, sobre o jardim — a lua cheia nasce.
Não verei a próxima lua cheia.
Na primavera, quando a lua nascia, significava
que o tempo era infinito. Anêmonas
abriam e fechavam, as sementes
em cachos caíam dos bordos em pálidas lufadas.
Branco sobre branco, a lua nascia sobre o vidoeiro.
E no arco em que a árvore se divide,
folhas dos primeiros narcisos, ao luar
prata-verde-claras.
Juntos, chegamos perto demais do fim para agora
temermos o fim. Nessas noites, não estou nem mesmo certa
de que sei o que significa o fim. E tu, que estiveste
com um homem —
depois dos primeiros gritos,
não faz a alegria, como o medo, barulho algum?
Nuno Júdice
Quotidiano
Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.
Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.
Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.
Lobo da Costa
Adeus
(Fragmentos)
Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.
Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás dalmo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.
Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.
Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.
Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!
De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.
Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar
O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.
Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?
Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!
Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.
Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.
E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.
Nuno Júdice
A voz que nos rasgou por dentro
De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?
Esteve aqui - aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
estivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.
E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.
Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."
Como se a ouvíssemos.